Joanna

Abri os olhos lentamente depois de sentir cutuques nos meus ombros. Minha visão ainda estava pesada de sono. Mesmo assim, consegui ver a nossa criada, Alfina, em pé ao lado da cama.

–Senhorita Joanna, seu pai me mandou vir até aqui...

Soltei um suspiro e assenti com a cabeça, enquanto ela andava apressadamente até a minha irmã, que dormia em outra cama.

–Senhorita Amelie...

Enquanto minha irmã soltava gemidos de protesto, eu me sentei na cama tentando despertar mais rápido. Cocei os olhos e me espreguicei.

Hoje era um dia muito importante.

Aposto que nossos pais já estavam cheios de energia e ansiosos para a chegada em Sherwille.

Era um país muito falado entre os nobres de todo o mundo. Diziam que tinha bailes extraordinários e paisagens exuberantes. Como Amelie e eu nunca havíamos visitado Sherwille, nossos pais decidiram que havia chegado a hora de nós conhecermos aquele lugar magnífico.

Mas, depois de uma noite péssima com mar agitado e tempestades, pagaríamos uma fortuna para não ter que acordar cedo. Havíamos passado dois longos meses viajando de navio e nunca tínhamos presenciado uma noite como aquela.

Eu estava caída no chão enquanto Amelie vomitava num pote aleatório. Alfina segurava nossos braços e tentava nos levantar. Eu só me perguntava como ela conseguia ficar em pé com o navio se movimentando daquele jeito.

A noite prosseguiu assim até que conseguimos pegar no sono. Fomos dormir tarde da madrugada.

–Eu daria minha alma para um feiticeiro do mal só para poder dormir mais. –Amelie estava jogada na cama.

–Então, ele teria duas almas. –Falei rindo.

–Eu vou buscar os vestidos das senhoritas. –Alfina se retirou do quarto apressadamente.

Amelie também se sentou na cama. Os cabelos pretos e longos estavam bagunçados. Ela arregalou os olhos, mas voltou a fechá-los novamente.

–Jo, eles não querem ficar abertos.

–Os meus também não. –Deixei minha cabeça tombar de lado. –Este é o pior dia para alguém ter que acordar cedo.

–Concordo. –Amelie bocejou.

Alfina entrou nos nossos aposentos de novo, carregando dois vestidos grandes. Outras criadas entraram com outros acessórios em mãos, como crinolinas e espartilhos.

Elas prepararam duas grandes banheiras e nós nos despimos.

Depois do banho, nos arrumamos. Era uma tarefa torturante às vezes. Algumas criadas penteavam nosso cabelo sem o mínimo de cuidado e apertavam os espartilhos com forças. Já Alfina era cuidadosa, e por isso nós gostávamos muito dela. Ela fazia parte da família praticamente.

Ela penteou o meu cabelo e o de Amelie. Nós gostávamos dos cabelos soltos. Os meus eram mais curtos que os da minha irmã. Caíam sobre os ombros com uma cascata preta. Os de Amelie eram grandes e sedosos.

Depois de muita luta para desembaraçar os nossos cabelos, seguimos para as vestimentas. O espartilho foi amarrado e a crinolina colocada. Calçamos as meias brancas e longas e os sapatos com salto baixo. Por fim, os vestidos.

O meu era longo e tinha mangas compridas. Era branco na lateral e no fundo, e vermelho na frente. A parte branca tinha vários detalhes desenhados em vermelho e parecia um grande casaco sobre a parte avermelhada. As pontas das mangas eram largas e tinham dois laços também vermelhos.

Para acompanhar todo o estilo, um acessório de pescoço que tinha o mesmo detalhe que o vestido. Um tecido branco com desenhos, que formavam babados na parte de cima e de baixo com uma fita vermelha no meio.

O vestido de Amelie era bonito e delicado. Também era longo e tinha mangas compridas. Era bege e tinha flores vermelhas e amarelas que praticamente cobriam todo o vestido, menos uma parte da barriga e outra na parte da saia. As pontas das mangas também eram largas e meio volumosas. Abaixo do decote, que era um pouco quadrado, tinha um laço de decido florido.

Depois de estarmos vestidas e prontas, saímos para tomar café, junto com nossos pais e amigos. No caminho até o refeitório, encontramos Amyr, um grande amigo de longas datas que estava nos acompanhando na viagem.

Ele sorriu quando nos viu e veio até nós.

–Aí estão vocês duas. –Ele usava uma roupa muito elegante. –Eu já estava a caminho do refeitório. Estão ansiosas para a chegada em Sherwille?

–Muito. –Falei ironicamente.

–Eu estou saltando de alegria. –Amelie ainda soltava bocejos. –Como você está tão sorridente?

–Eu me pergunto o mesmo.

–Hoje é um dia especial. –Ele ainda estava sorrindo. –Passamos tanto tempo nesse navio e finalmente vamos tocar os pés em terra firme. Mal dormi de tão ansioso.

–Eu mal dormi de tanto vomitar. –Amelie comentou.

–Sério, eu achei que ia morrer ontem. –Falei.

–Eu também. –Minha irmã falou como aquelas crianças animadas que encontram um amigo parecido.

Continuamos andando pelos corredores até o refeitório. Havia várias famílias nobres naquele navio além da nossa. O baile havia sido avisado com meses de antecedência para todos os convidados poderem ir.

–Vocês exageram. –Amyr sorriu passando a mão nos seus cabelos ruivos.

–Você fala isso, porque não me viu quase vomitando meus órgãos ontem. –Amelie revirou os olhos.

Um casal passou por nós e franziu o cenho por ouvir a nossa conversa agradável.

–Ainda precisam aprender a serem mais discretas.

–Vou anotar na minha lista de coisas que ignoro. –Revirei os olhos e caminhei mais rápido.

Cruzamos as portas do refeitório. Havia várias mesas cheias de gente. O local era grande e tinha algumas janelas de vidro, que recebiam a luz do sol. O silencio era preenchido pelo tilintar dos garfos nas louças e os murmúrios de várias pessoas falando ao mesmo tempo.

Sentamos numa mesa afastada do resto das pessoas. Ficava num canto um pouco escuro, longe das janelas. Uma grande toalha branca cobria a mesa redonda.

Amelie, Amyr e eu nos sentamos. Poucos minutos depois, um garçom trouxe uma bandeja com pães, umas geléias artesanais e algumas frutas. O estoque estava cheio disso, graças à última parada que fizemos há algumas semanas atrás.

Passei a geléia no pão e os meus companheiros fizeram o mesmo.

–Querem algo para beber? –O garçom, que eu já estava familiarizada, perguntou.

–Talvez suco. –Amyr olhou para nós.

–Sim. Suco de uva com álcool. –Respondi. –Conhecido como vinho.

Ouvi a risada de Amelie do meu lado, que quase se engasgava com o pão.

–Mais alguma coisa? –O garçom também sorria.

–Não! Você não vai beber vinho uma hora dessas. –Ele olhou para mim. –Dê uma trégua ao seu corpo. Ele vai sofrer muito a noite. –Amyr voltou a olhar para o rapaz em pé ao nosso lado. –Tem café?

–Creio que sim.

–Traga três, por favor.

–Sim, senhor. –O garçom se retirou.

Soltei um suspiro de cansaço e continuei passando geléia no pão. Olhei de rapidamente para Amelie, que enfiava o seu pão cheio de geléia na boca. Amyr comia uma fruta.

O garçom voltou com três xícaras de café quente e um potinho de açúcar.

Coloquei três grandes colheres na minha xícara e mexi vagarosamente. Amelie já bebia o seu café, já que gostava bastante.

–Estamos chegando a Sherwille! Faltam poucos minutos! –Um homem gritou na porta do refeitório e saiu correndo logo em seguida.

As pessoas que estavam no refeitório se agitaram e levantaram de suas mesas.

–Podemos terminar? –Apontei para o meu café.

–Claro. –Amelie comia outro pão. Ela estava mesmo com fome.

–Eu vou lá pra cima. –Amyr se levantou, jogou o guardanapo de pano sobre a mesa e saiu apressado.

Ele esbarrou nos nossos pais, que vinham em direção a nossa mesa.

–Nem vimos vocês ai. –Papai deu um beijo na cabeça da minha irmã e fez o mesmo comigo.

–Estão ansiosas? –Mamãe deu um abraço em cada uma de nós. –Vocês estão lindas.

Sorri. Amelie fez o mesmo, mas com a boca fechada, já que estava com comida.

–Estão mesmo. –Nosso pai concordou. –Estaremos lá no convés. Sugiro a ambas que não demorem muito. Sherwille é maravilhosa até de longe.

Nossos pais caminharam para fora do refeitório enquanto eu tentava beber o café quente. Amelie olhou para mim, depois de terminar o seu.

–Está preparada?

Bebi o resto do café e coloquei a xícara sobre a mesa.

–Estou. –Levantei da mesa. –Vamos?

–Vamos. –Amelie levantou e ficou do meu lado.

–O dia vai ser ótimo. –Agarrei o braço da minha irmã. –Bem, pelo menos eu espero.

E fomos em direção ao convés.

Amelie

Saímos do navio e fomos direto ao porto, onde mais a frente, carruagens enviadas pela Rainha nos aguardavam. A cidade onde desembarcamos era a cidade em que o Castelo de Sherwille ficava.

Joanna e eu observávamos tudo que o local tinha para nos oferecer. O céu estava cinzento, devido a tempestade, a água azul escura parecia estar incrivelmente gelada, e tornava a praia um local um tanto quanto sombrio. A grama estava meio morta, e as montanhas cobertas de névoa me davam um aspecto claustrofóbico do lugar. Casas e lojas faziam uma vila desbotada, sombria e triste, e uma floresta escura a envolvia. Ao fundo da vila, podíamos ver o quase glorioso-velho castelo.

Minha família entrou em uma das carruagens, enquanto as outras faziam o mesmo. Haviam apenas nobres entre nós, e todos eram convidados da Realeza a se hospedarem no castelo e participarem do grande Baile, dado pela Rainha, em busca de noras e genros.

Com a ajuda de alguns criados, subi na carruagem e sentei-me ao lado de minha irmã.

— Quantos filhos tem a Rainha? — Joanna perguntou, quebrando o silêncio.

— Três filhos e quatro filhas. — Nosso pai respondeu — E espero que, consigam ficar noivas deles. Não há muitas damas convidadas, então torna ainda mais fácil para vocês.

Olhei a expressão de Joanna. Ela estava descontente com a ideia, mas nunca ousaria dizer isso para nossos pais. Ela esperaria quando estivéssemos a sós para reclamar.

— Mantenham a classe, dignidade e educação. — Acrescentou papai. — Não exagerem no vinho, e o mais importante; Permaneçam castas, casem-se virgens.

E se, eu não estava descontente, havia acabado de ficar.

— Claro. — Murmurei, irritada.

Nossa mãe sorriu ao pararmos a carruagem adentro dos grandes portões do castelo, e logo, todos descemos, sendo ajudados por mordomos reais.

O jardim real era gigantesco, e possuía, eu imaginava, dezenas de espécies internacionais de flores. As árvores e moitas eram podadas em formas animais, e atravessando o jardim, um caminho de pedras-bege, onde em frente a entrada do Castelo, uma fonte enorme com uma grande estátua de cavalo com um chifre jorrava água.

— Não quero mais saber de água por um tempo. — Murmurei, baixo o bastante para apenas minha irmã ouvir. Ela sorriu.

— A Rainha agradece a presença de todos aqui, e nesta noite, haverá o esperado Baile. — Um homem com uma enorme folha amarelada lia as palavras escritas para nós — É pedido ás damas, que façam as vontades dos príncipes, independente do que sejam. — Ele acrescentou, me deixando mais irritada. — Agora, peço gentilmente que entrem, pois nossos mordomos irão lhes acompanhar até seus quartos.

A multidão foi guiada para dentro do castelo, e enquanto Joanna e eu entrávamos, sentimos mãos em nossos ombros. Nos viramos repentinamente, e vimos Amyr.

— Amyr, finalmente. — Joanna sorriu ao vê-lo. — Você ouviu esta merda toda? — Ela acrescentou.

Ele não era surpreso com as palavras proibidas saídas de nossas bocas.

— Ouvi. E eu acho que estes príncipes são todos uns babacas. — Ele respondeu, indiferente.

— Vejo que não mencionou as princesas. — Falei, e ele ergueu a sobrancelha em resposta.

— Não costumo criticar minhas pretendentes. — Ele disse, tirando um riso disfarçado de minha boca.

— Seus pais também estão te pressionando? — Joanna questionou.

— Imagino que não tanto quanto os seus. — Uma senhora passou, e pareceu totalmente descontente com a falta de cortesia de Amyr. — Senhoritas. — Ele acrescentou, deixando a senhora satisfeita.

Eu a observei se distanciando de nós.

— Odeio formalidades. — Disse.

As mulheres não podiam conversar com homens se não houvesse mais ninguém por perto, por isso, me sentia vigiada, mesmo em relação de amizade.

— Eu também, mas perto dos outros devemos ao menos fingir. — Amyr passou a mão nos cabelos.

— Pobre garoto incompreendido. — Joanna fingiu que se comoveu.

Nos despedimos e fomos de encontro com nossas famílias dentro do castelo, que nos aguardavam para seguirmos ao quarto.

O castelo, obviamente, era um local bem grande, com um grande hall de entrada, com tapeçarias enormes, escadas gigantescas e um belo lustre no meio da sala. No andar de baixo, observei várias portas duplas, onde provavelmente ficavam os salões, salas de jantar e a cozinha. Nos de cima, deveriam ser quartos e banheiros.

— Senhores e Senhoritas, — Nosso mordomo disse, enquanto andava e nos instruía — de acordo com ordens de nossa Rainha, os jovens devem permanecer em quartos separados dos pais. Além disto, haverá tratamentos de beleza realizados por suas criadas, depois do almoço.

Ele acompanhou nossos pais até o quarto deles, e logo, nos acompanhou. Criei minha maior voz de dama respeitável para respondê-lo.

— Muito obrigada. — Disse, com a coluna ereta e voz calma.

Ele sorriu e saiu ao abrir nossa porta.

Era um quarto onde duas camas com lençóis de seda permaneciam no meio, com criados mudos. Entre as camas, com as cabeceiras encostadas na parede, uma grande janela nos dava a vista de jardim. O papel de parede era bege, e o carpete parecia empoeirado. Uma porta esbranquiçada nos levava ao banheiro, onde uma simples banheira nos esperava.

— Simples para um castelo. — Joanna bocejou. Eu ri.

— Pelo menos estamos sozinhas. — Me joguei de costas em uma das camas. Era macia.

— Eu vou beber hoje a noite. — Ela riu e fez o mesmo. — E espero que nenhum príncipe venha me cortejar ou algo do tipo.

— Ouvi dizer que eles têm 40 anos. — Sussurrei.

— Vê? Temos 17 e 16, a diferença é horrível.

— Vi homens... Interessantes no navio, mais cedo.

— Me surpreende, você estava semimorta. — Ela cerrou os olhos e sorriu. — Nisso você presta atenção.

Corei.

— Não, eu só vi de relance e... Enfim.

— Quer casar com algum deles? — Ela perguntou, meio desconfiada.

— Claro que não. Estou dizendo que há coisas muito mais interessantes para fazer do que casar, e homens muito mais interessantes do que príncipes velhos.

— Entendi. — Ela riu.

— Eu irei tirar esse sugador de almas do meu corpo. — Levantei e desamarrei com dificuldade o corselete. Relaxei quando ele afrouxou.

Mas no mesmo instante, ouvimos batidas na porta.

— Merda. — Sussurrei. — Vou entrar no banheiro. — Me escondi, com o intuito de quem quer que fosse, não se ofendesse comigo quebrando uma regra de moda.

Joanna assentiu e abriu a porta. Coloquei meu ouvido na parede fria, tentando ouvir quem era. Consegui ouvir a voz de Amyr.

— Amyr! Você pode ser visto. — Joanna disse. Ouvi a porta sendo fechada.

— Sabe, Srta. Montgomery, eu realmente quero que se foda quem me viu. — Ele havia entrado no quarto.

Joanna riu.

— Onde está Amelie? — Perguntou ele.

— ...Ah, você sabe... Ela teve uma noite difícil no barco, então está no banheiro. — Inventou Joanna, um pouco nervosa.

— É MENTIRA. — Gritei do banheiro. — Tive problemas com o corselete.

Senti Joanna revirar os olhos, mesmo não a vendo. Amarrei rapidamente, também com dificuldade, perdendo todo alívio. Abri a porta e os vi, sentados com os sapatos na cama. Me juntei a eles.

— Uma garota me convidou para ver a boceta dela, hoje no baile.

Joanna e eu arregalamos os olhos e nos entreolhamos.

— Uma bolsa para guardar relógios, óbvio. — Ele explicou.

Eu ri um pouco alto demais.

— Nós sabemos, mas duvido que seja isso. — Joanna disse.

— Eu também, mas ela me disse isso. — Amyr ergueu a sobrancelha ruiva.

— Qual o nome dela? — Perguntei.

— Na verdade, eu não perguntei... — Ele corou.

— Mas é uma grande anta. — Revirei os olhos.

— Ela era loura, e tinha olhos castanhos. Era bem bonita. — Ele olhou para o grande relógio de piso. — É melhor eu ir agora. Vejo vocês depois.

Ele abriu a porta, e saiu correndo, sem fecha-la. Me levantei para fazê-lo, mas vi que uma garota loura de cabelos presos e olhos brilhantes castanhos observava o interior do quarto, de um jeito assustador.

Relevei e fechei a porta.