A Maldição do Tigre
25 XXIV
Notas iniciais
Ren
Na manhã seguinte acordei revigorado e determinado. Me levantei, tomei banho e sai bem cedo para comprar algumas roupas novas. Pois agora como humano, era esse tipo de roupa que eu usaria daqui para frente.
Quando sai do quarto com minhas coisas prontas, Kells e Kadam já estavam na frente do elevador. Fui em direção a eles e parei ao lado de Kelsey. Ela me olhava com admiração. O que me deixou satisfeito. Foi pra isso mesmo que escolhi calça jeans escuras e blusa branca com listras azuis, perfeitamente bem para essas ocasiões.
Kells murmurou bem baixinho alguma coisa sobre eu ser sofisticado e com sentidos de moda apurado, eu apenas sorri satisfeito pela reação dela. Kadam lhe perguntou o que tinha dito, mas ela desconversou. Eu somente lhe dei um sorriso convencido, pois, tenho minha audição de tigre.
Ela estava envolvida por mim, eu sabia. Talvez ela não quisesse admitir, mais eu tenho todo o tempo do mundo para esperar. Ainda no elevador me aproximei mais dela, e a olhei de cima em baixo, com um sorriso de satisfação no rosto. Como eu amo essa mulher.
Assim que as portas se abriram, peguei sua mochila a joguei sobre meu ombro, deixando ela sem nada pra carregar. Durante toda a viagem, Kelsey ficou perdida em pensamentos, eu sentia que ela estava preocupada com alguma coisa, mas não ousei em perguntar o que era. Afinal, eu tinha uma surpresa pra ela, que eu tinha pedido ao Sr. Kadam que cuidasse hoje mais cedo.
Assim que chegamos em casa, ela subiu rapidamente ao quarto e lá permaneceu e, pouco tempo depois percebi que estava dormindo. Guardei minhas coisas no quarto, acabei de resolver algumas coisas da surpresa de Kells com o Sr. Kadam e descansei um pouco na varanda. Perdido em pensamentos, resolvi que já era hora de contar a Kelsey que eu estava perdidamente apaixonado por ela. Já era hora, alguém teria que dar o primeiro passo. Vou arriscar.
Depois de muito tempo, voltei à sala e ouvi ruídos do quarto dela. Ela deve ter acordado. Rapidamente pensei em fazer um lanche pra ela. Agora com seis horas humano, posso fazer coisas de humano. Correndo até a cozinha, amarrei um avental na cintura e peguei um livro de receitas. Achei um sanduíche de peru. Achei todos os ingredientes na dispensa e comecei a trabalhar nele. E por Durga, que coisa complicada. Preciso aprender muito ainda agir como humano. Faz muito tempo que estou como tigre.
Quando os ingredientes já estava espalhados pela cozinha e eu indeciso sobre que molho usar, ouvi Kells descer e entrar na cozinha. Ela não se conteve e pude ouvir seu sorriso, com certeza da bagunça que deixei no cômodo. Expliquei que eu estava tentando lhe fazer um sanduíche para não ficar com fome, e ela recusou, e escolheu um de manteiga de amendoim.
Mas claro, eu não sabia qual era o de manteiga de amendoim. Peguei dois frascos e os pousei na bancada. Ela apontou qual era o frasco certo, me aproximei dela e lhe dei um beijo na boca. Estava na hora dela ver o que eu sentia por ela.
E para provocar ainda mas, completei dizendo:
—Está vendo? É por isso que você deve estar por perto. Preciso de uma namorada inteligente.
— Ren! Eu não sou sua namorada! — disse.
Não sou de desistir tão fácil assim. Apenas sorri e preparei seu lanche de manteiga de amendoim. Assim que ela mordeu, não conseguia abrir a boca. Acho que exagerei no creme.
—Uen, quetaumumcopodeueite? — disse.
Não consegui entender, ela estava de boca cheia. Eu ri.
— O que?
— Ueite, ueite!
Ela imitou alguém bebendo algo, e percebi que era leite. Ela continuou comendo seu sanduiche, e preparei um para mim. Quando sentei ela olhou meu sanduiche e arregalou os olhos, pois ele era enorme. Apenas sorri e dei a primeira mordida. Eu estava faminto.
—Ren? Tem uma coisa importante que precisamos discutir. Dê uma passada hoje na varanda ao pôr do sol, está bem? — pediu.
Paralisei. E sorri mentalmente.
— Um encontro secreto? Na varanda? Ao pôr do sol? — Arqueei uma sobrancelha — Kelsey, você está tentando me seduzir?
— Dificilmente. — disse seca.
— Bom, sou todo seu. Mas seja gentil comigo esta noite, minha amada. Sou novo nessas histórias de seres humanos.
— Eu não sou sua amada.
Ignorei seu comentário. Uma hora ela irá admitir. Assim que acabamos de comer, nos juntamos e limpamos a louça. Depois de um tempo a deixei ali e subi para meu quarto. Ela queria conversar comigo essa noite. E por algum motivo eu não estava confortável com isso. Havia alguma coisa nela, apesar de eu saber que ela sente algo forte por mim, também havia um passo atrás, ou algo assim. Eu nunca amei alguém assim. Nem a Yesubai. Rapidamente desviei de pensamento, não quero pensar naquele tempo. É outro tempo, outras pessoas, outra mulher, outro tipo de sentimento. Um verdadeiro. Me transformei em tigre e fiquei ali cochilando esperando a hora de encarar a Kells.
Quando deu a hora de encontra-la, subi até sua varanda e ela já estava lá, sentada na cadeira de balanço. Fui em silêncio e me sentei na mesma cadeira e fiquei nos balançado por um tempo. Fiquei brincando e mexendo em sua mão durante um tempo, eu amava sentir sua pele, ficar perto dela.
— Sobre o que você queria falar esta noite, Kelsey?
— É... — começou.
Ela parecia nervosa. E admito, eu também estava. Ela me pediu para sentar à sua frente, pois assim podia olhar para mim melhor. Peguei uma cadeira e a pus de frente a ela e, quando me sentei, peguei seu pé e comecei a massageá-lo. Ela tentou protestar, mas desistiu quando lhe lancei um olhar de ''nem adianta discutir''.
Depois de muito tempo, ela começou a falar.
— Ren, tem mesmo uma coisa que precisamos discutir.
— Muito bem, vá em frente.
Ela suspirou profundamente.
— Sabe, eu não posso... corresponder aos seus sentimentos. Ou ao seu... afeto.
Eu tive que rir. Mas não sei se foi de nervoso ou por diversão mesmo.
— Kelsey, eu sei que você corresponde aos meus sentimentos. Não finja mais.
— Está bem! Admito que me sinto atraída por você. — ela fez uma pausa. — Mas não vai dar certo. — concluiu.
O que? Recuei na mesma hora.
— Por que não?
Quando ela disse que não daria certo pelo motivo de estar atraída demais por mim, eu fiquei mais confuso ainda. Eu lhe questionei de que isso era uma coisa boa. E não era?
— Para pessoas normais... sim. — falou.
— Então eu não sou normal?
— Não. Deixe-me explicar dessa forma: assim... um homem faminto comeria feliz um banquete, certo? Na verdade, um rabanete seria um banquete se fosse tudo que ele tivesse. Mas, se houvesse um banquete de verdade diante dele, o rabanete jamais seria escolhido.
Não entendi. Ela está afirmando que eu estou magro?
— O que está querendo dizer?
— Estou dizendo... que eu sou o rabanete.
Hã?
— E eu sou o que? O banquete?
— Não... você é o homem. Só que... eu não quero ser o rabanete. Quem quer? Mas sou realista o bastante para saber o que sou e eu não sou um banquete. Quero dizer, você precisa estar comendo bombas de chocolate, pelo amor de Deus.
— Mas não rabanete. — confirmei.
Parece que estou entendo, eu acho. Ela é um rabanete e eu o homem... que come o rabanete... Talvez.
— Não. — concordou, Kells.
— Mas e se... — fiz uma pausa, pensativo. — ... eu gostar de rabanete?
— Você não gosta. Só não tem nada melhor. Eu lamento ter sido tão rude com você. Normalmente não sou assim. Não sei de onde vem todo esse sarcasmo.
Só pude arquear as sobrancelhas, também não faço a mínima ideia. Mas resolvi ficar quieto, não queria brigas naquela hora. Ela continuou.
— Muito bem. Tenho um lado cínico e mal que costuma ficar escondido. Mas que aflora quando estou sob grande estresse ou extremamente desesperada.
Não pude dizer nada, estava pensando no que ela disse, ainda estava confuso com o rabanete. Então peguei seu outro pé e comecei a massageá-lo também. Ela continuou dizendo que tentou me afastar antes por causa disso, para não se envolver demais.
— Então você admite que estava tentando me afastar.
— Sim. É claro.
— E isso porque você é um rabanete.
Ela concordou e disse que eu podia ser um homem agora, que poderia encontrar uma pessoa melhor e ainda que eu não sei como o mundo funciona.
Eu não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando. Eu estava com uma sensação ruim.
— Certo. E como o mundo funciona, Kelsey?
— Bem, para falar sem rodeios, você poderia estar namorando alguma top model ou uma atriz. Não está prestando atenção à sua volta?
Agora já chega. Minha paciência foi ao limite.
— Ah, sim, de fato venho prestando atenção! — gritei, totalmente furioso. — O que você está dizendo é que eu devia ser um libertino rico, superficial e convencido, que só se importa com dinheiro, poder e em melhorar seu status. Que eu deveria namorar mulheres superficiais, volúveis, ambiciosas e sem cérebro, que se importem mais com minhas conexões do que comigo. E que eu não sou inteligente o bastante, ou atualizado o bastante, para saber quem eu quero ou o que eu quero na vida! Será que isso resume o seu ponto de vista?
— Sim. — respondeu baixinho.
Aquilo me magoou. Ela pensa isso mesmo de mim? Que trocaria ela por essas mulheres com cabeça oca? Me inclinei em sua direção e disse:
— Você acha mesmo isso? — ela concordou, o que me deu uma onda de adrenalina: — Você está errada, Kelsey. Errada em relação a si mesma e errada em relação a mim!
Eu estava furioso e usando todo meu auto controle para não me descontrolar com ela aqui mesmo. E para completar disse as palavras que estava grudadas em meu coração a muito tempo:
— Eu sei oque eu quero. Não estou sob efeito de nenhuma ilusão. Durante séculos estudei as pessoas de dentro de uma jaula e isso me deu bastante tempo para estabelecer minhas prioridades. No primeiro instante em que a vi, na primeira vez em que ouvi sua voz, eu soube que você era diferente. Você era especial. Quando colocou a mão na jaula e me tocou, fez com que eu me sentisse vivo de uma maneira que nunca sentira antes.
— Talvez isso faça parte da maldição. Nunca pensou nisso? Você pode ter confundido os sentimentos.
— Duvido muito. Nunca senti isso por ninguém, nem mesmo antes da maldição. — completei.
Ela ficou pensativa por um momento, e meu coração se apertou.
— Estou indo embora. — disse.
— Você o quê?
Minha gargante ficou seca. Kelsey não poderia estar falando seriamente. Depois de tudo? Ela disse que estava voltando para o Oregon, e inventou que parecia mais seguro, pois Lokesh poderia acha-la. Falou de forma tão clara, que parecia que ela já tinha pensado em tudo.
— Se você vai, então vou com você!
— Isso anula o proposito da minha ida. Você não acha?
Passei as mãos pelo cabelo, para me acalmar. Quando voltei para ela, peguei suas mãos e olhei dentro de seus olhos.
— Kells, quando você vai aceitar o fato de que devemos ficar juntos?
Ela somente baixou o olhar para a piscina, pensativa. Não poderia deixar isso acontecer. Kelsey confessou que tinha sentimentos por mim, finalmente confessou. E quando tudo poderia se acertar, ela vai embora. Eu a amo, demais. Eu vou lutar por isso com todas minhas forças.
— Eu não vou deixar você ir.
Ela olhou para mim e, por um momento, eu tive a esperança que tudo ia ficar bem. Mas ela deixou as mãos caírem.
— Ren, por favor. Você tem que me deixar ir. Eu preciso... eu tenho medo... Olhe, eu não posso estar aqui, perto de você, quando você mudar de ideia.
Que droga! O que há com ela?
— Isso não vai acontecer.
— Pode acontecer. Há uma grande chance.
Disse quase gritando, furioso outra vez.
— Não há nenhuma chance!
Ela disse que seu coração não ia aguentar se isso acontecesse, que não queria correr esse risco. Mas que droga, por que ela não acredita me mim? Nos meus sentimentos? Não consigo olhar para mas ninguém além dela. Não existe ninguém além dela.
Quando ela disse que tinha medo de eu ficar com ela por piedade, novamente fiquei furioso.
— Ficar com você por piedade? Kelsey, você não pode estar falando sério!
— Estou. Muito, muito sério. Vou pedir para o Sr. Kadam que providencie a minha volta nos próximos dias.
Não sei mais o que falar. Pensando em mais alguma coisa a fazer, mas nada vinha. Minha mente não funcionou nesse momento. Tudo que eu podia e devia falar, já foi dito. Eu não estava conseguindo acreditar que Kelsey estava realmente indo embora logo depois de admitir. Eu estava furioso e minhas tentativas de esconder ou minimizar isso foram em vão.
Ela se despediu e foi para o quarto. Fiquei ali olhando em direção as portas de vidro de seu quarto, quando de repente senti algo escorrer pelo meu rosto. Lágrimas. Mas é claro, fui rejeito pela única mulher que amei na vida e que vou amar para sempre, como poderia resistir?
A ultima vez que chorei foi na morte dos meus pais, que também eram as pessoas que eu amei verdadeiramente. Porque a Kelsey fez isso comigo? Com ela? Ela me ama, eu sei, mas não quer arriscar ficar comigo.
Sequei minhas lágrimas com as costas das mãos, um pouco furioso e me levantei. Fui em direção ao meu quarto e me joguei na cama. Na minha mente não havia nada, e meu coração... à meu coração. Nunca senti uma dor assim. Argh! Nesse momento senti ainda mais raiva de mim, por não consegui fazer nada a respeito. Eu não podia tranca-la aqui contra a vontade, e também não podia ir com ela. Como não sabia o que fazer, me transformei em tigre e fiquei ali pensando, ou tentando.
Passei a noite toda acordado, tentando formular algo em minha cabeça, que foi quando tive uma pequena ideia. Então desci, e fui em procura de Kadam.
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