A Maldição do Meio Sangue
4 Mudanças e Complicações
Notas iniciais
A Maldição do Meio Sangue
Capítulo 4 -> Mudanças e Complicações
[9:20 Itabashi, Tóquio]
Sentado em um banco de um shopping em frente à uma loja de roupas, Yuki olhava as horas em seu celular de maneira impaciente enquanto aguardava. "Por que ela tá demorando tanto?", ele pensou.
Depois da cafeteria, os dois foram comprar roupas novas. Yuki havia comprado apenas uma camisa preta de manga longa e calças jeans comuns, ao contrário de Rika, que já estava a bastante tempo escolhendo.
Ele olhava para os lados e observava as pessoas, algo nelas estava diferente. Ele enxergava pequenos borrões e fumaças escuras ao redor de certas pessoas, eles tinham tamanhos, intensidades e até formatos diferentes. Esses borrões... Yuki não sabia direito o por que mas… ele sentia algo familiar vindo deles… por que ele estava vendo aquilo?
— Ei! — Disse Rika, estalando os dedos para chamar sua atenção.
— Hã… O quê? — Disse Yuki.
— Você tava com uma cara assustadora, o que aconteceu?
— Hã... Nada não...
— Tem certeza?
— Sim, sim... Nada demais.
— Tá bom então. E aí? Gostou das minhas roupas?
Erika estava vestindo uma jaqueta preta junto com uma saia vermelha e uma meia-calça preta por baixo. Em geral, se parecia muito com seu próprio uniforme escolar.
— Err… Não é a mesma roupa de antes? -— Perguntou Yuki.
— O quê!? Você não reparou no tecido e cor diferente? — Ela disse enquanto apontava para suas roupas. — Heh, realmente não é algo que alguém que se veste tão casualmente repararia.
— Certo... — Disse Yuki revirando os olhos. — Você não queria me mostrar como se entrava na sede dos anjos em primeiro lugar?
— É mesmo! Então levante-se, temos que encontrar um elevador.
— Um elevador?
Rika foi andando na frente mostrando o caminho até um elevador que ficava em um corredor próximo à uma livraria. Ela pressionou o botão e os dois entraram.
— Muito bem, agora preste atenção. — Disse Rika. — Você deveria botar sua auréola agora, não se preocupe, vai funcionar mesmo só com a minha.
Rika puxou a auréola de seu bolso e a colocou em seu braço como uma pulseira.
— Depois disso você tem que apertar a tecla com o número 7 do elevador. — Disse Rika.
— Número 7? Mas esse shopping só tem 3 andares. — Disse Yuki.
Rika apontou para o painel, havia uma tecla número 7 emanando um brilho azul.
— Mas o quê? — Disse Yuki surpreso.
— Sempre que alguém está usando uma auréola a opção 7 vai aparecer. — Rika apertou a tecla. — Legal não é?
O elevador começou a subir, após chegar no terceiro andar, o painel exibiu o número 7 e o elevador alavancou com uma velocidade incrível. Yuki tombou um pouco para trás e se apoiou firmemente no corrimão do elevador. Pelas frestas da porta dava para perceber um pequeno feixe de luz vindo de fora. Depois de alguns segundos, as portas se abriram, revelando o interior da sede dos anjos.
— Whoa… o que foi isso? — Indagou Yuki.
— Foi mal, eu esqueci de avisar que era uma subida intensa. — Disse Rika.
Os dois saíram do elevador e as portas do mesmo se fecharam.
— Aqui estamos nós, a sede dos anjos. — Disse Rika.
O local era realmente imenso, o teto era alto e decorado com pinturas, onde uma enorme cúpula de vitrais se destacava no centro. Haviam diversas esculturas góticas espalhadas pelos cantos e pelas paredes, onde ornamentos de ouro cintilavam com um brilho celestial. Haviam diversas pessoas transitando e conversando por todos os lados, o que levava a crer que aquele devia ser algum tipo de hall.
— Esse lugar é enorme! — Disse Yuki admirado.
— É mesmo, também é muito fácil se perder por aqui, então fique perto de mim.
Yuki avistou um homem alto e loiro vestindo uma jaqueta e calças jeans se aproximando dos dois.
— Rika! Yuki! Que bom que estão bem. — Disse o homem em um tom aliviado.
— O que, aquele cara na escola? Ele não foi nada demais. — Disse Rika. — Ah! Caso você não tenha recordado, esse aqui é o Alex.
— É um prazer te conhecer Yuki… de novo. — Disse Alex enquanto estendia sua mão.
— Ah, na verdade eu já estou começando a me lembrar. — Disse Yuki apertando a mão de Alex.
— Isso é ótimo! Venham, Luther está querendo falar com vocês.
Alex foi guiando o caminho até o escritório de Luther. Durante o percurso, ele percebia que alguns dos anjos que estavam ali desviavam o olhar ou o olhavam torto, uma sensação desconfortante.
— Ei… eles estão assim por causa do meu braço? — Perguntou Yuki.
— Bem, como eu posso dizer… Seu braço emite uma aura demoníaca e isso deve causar algum… estranhamento entre eles. — Disse Alex.
— Não se preocupa com isso, eu creio que depois que você se tornar um anjo essa aura desaparecerá. — Disse Rika.
— É… Tomara… — Disse Yuki.
Eles chegaram no elevador e subiram para o escritório. Luther estava sentado em sua cadeira atrás da escrivaninha, olhando para o imenso vitral no fundo da sala. Assim que eles pisaram fora do elevador, ele se virou.
— Olá Yuki, creio que neste ponto você já saiba quem eu sou. — Disse Luther.
— Sim, você é o presidente dessa sede dos anjos. — Disse Yuki.
— Peço desculpas pelo o que aconteceu a você hoje na sua escola... — Ele disse com pesar em sua voz. — Nós não conseguimos prever esse evento e a situação acabou saindo do controle.
— .... Eu também sou culpado... Se ao menos eu tivesse dado ouvido a vocês desde o início...
— Já que é assim, eu volto a sugerir… Yuki, você deseja se tornar um anjo?
— Se isso vai me ajudar a ter a minha vida normal de volta, então aceito.
— Muito bem. Eu pedi para que Rika lhe entregasse sua arma abençoada, você já está com ela?
Rika se recolheu um pouco.
— Sim… ela entregou… Mas o que elas têm de especial? — Perguntou Yuki.
— Quando um demônio age sobre um humano, ele não está mais no plano demoníaco e nem no plano físico, mas sim no meio dos dois. Nesse estágio, apenas os anjos usando suas auréolas conseguem vê-los e, consequentemente, somente as armas abençoadas podem ferí-los.
— Mas aquele cara que me atacou, eu consegui ver ele. — Disse Yuki.
— Esse parece ser um caso um pouco peculiar, eu consigo sentir a presença demoníaca de tudo o que entra em seu mundo, mas eu não senti nada vindo dele.
— Eu estava prestes à dizer isso, se eu tivesse sentido, eu acabava com tudo antes mesmo dele conseguir te alcançar. — Disse Rika.
— Hm… Se os demônios estão conseguindo de alguma maneira esconder a sua aura... — Disse Alex.
— Coisas ruins acontecerão… — Completou Luther.
— Espera, então quer dizer que vocês não conseguem prever quando todos os demônios vão agir? — Perguntou Yuki.
Luther se virou em sua cadeira e estalou seus dedos, as gravuras no vitral começaram a se modificar e desaparecer dali. Cada seção do vitral passou a mostrar imagens de pessoas realizando as suas ações do dia a dia, como se fossem câmeras de vigilância.
— É assim que eu consigo identificar uma presença demoníaca. — Disse Luther apontando para o vitral. — As cores do vitral mudam sua intensidade quando há uma presença demoníaca, creio que você perceba como a cor vermelha.
Yuki observava o vitral, várias manchas e até criaturas vermelhas apareciam ao lado das pessoas, era exatamente como as manchas negras que ele viu no shopping.
— Então todas essas pessoas estão sendo acompanhadas por presença demomiacas... Mas por que umas parecem ser mais intensas que as outras? — Perguntou Yuki.
— Uma presença demoníaca nem sempre significa um mal para a pessoa ela acompanha. Muitas vezes, um demônio só se revela um risco para um humano quando deseja se livrar de seu corpo, ou quando deseja lhe causar mal diretamente. Somente durante esses momentos que nós somos capazes agir efetivamente. — Disse Luther.
— Mas eles sempre estão ao lado deles! Quer dizer, com as maldições e tal.
— É pra isso que serve esse vitral, eu posso monitorar a intensidade das presenças demoníacas e então, enviar um anjo para conter a situação.
— Entendo, quando a ameaça é muito grande, vocês poem suas auréolas e tentam impedir que o demônio aja.
— Exatamente.
— Eu tenho mais uma pergunta.
— Diga.
— Rika me disse que essas armas abençoadas dão aos anjos habilidades especiais. Como isso funciona?
— Ah, se refere aos trunfos, eles são uma espécie de manifestacao da sua alma.
— Manifestação da alma?
— Creio que Rika também disse que você não pode trocar e nem se livrar dessa arma.
— É… ela me disse... — Yuki olhou para Rika com um olhar sério.
— Essas armas são confeccionadas a partir das almas de demônios banidos deste mundo. — Explicou Luther. — Os demônios surgem da impureza, quando um anjo utiliza sua arma, sua alma se sintoniza à impureza demoníaca de uma maneira segura, despertando o poder latente dentro de si.
— Rika também me disse que ela precisa de sangue de demônio para funcionar.
— Exato, para despertar o seu trunfo, a arma tem quer banhada no sangue de um demônio. O seu trunfo pode ser algo totalmente novo ou, como no caso de alguns anjos, pode ser hereditária. Isso, é claro, se você for filho de um anjo.
— Entendo. — Ele disse olhando para sua arma. Sua aparência certamente não transmitia um ar de "sagrado".
— Agora mudando de assunto. — Disse Luther levantando de sua cadeira. — Deixe-me ver seu braço.
Yuki estendeu seu braço na direção de Luther, que o desenfaixou gentilmente. Ele não estava mais com a aparência demoníaca de algumas horas atrás.
— Ele... Voltou ao normal. — Disse Yuki.
— Então você viu ele mudando de forma. — Disse Luther enquanto segurava o braço do rapaz. — Creio que notou algo estranho debaixo de sua pele também.
— S-Sim, tinha uma corrente em volta dele, como se ela estivesse prendendo alguma coisa...
— Precisamente, essa corrente que impede o sangue demoníaco corra por suas veias, também servindo como um selo para manter a aparência normal do seu braço. No entanto, ela pode ser um pouco... instável...
— Como assim?
— Há algo poderoso causando com que seu braço reaja desta maneira ao sangue demoníaco, algo poderoso demais até para esta corrente.
— Mas vocês não sabem o que é?
— Ainda estamos tentando descobrir, mas presumo que seja este o motivo do seu braço emanar uma aura distinta, uma que pode até atrair outros demônios.
— Mas o braço dele não emana essa aura enquanto está em sua aparência normal não é? — Indagou Rika.
— Sim, nós conseguimos estimar que a corrente é capaz de manter essa forma por quatro horas... Depois disso, são mais quatro horas até que ele retorne ao normal novamente...
— Isso significa que você não deve se aproximar de nenhuma pessoa inocente durante as quatro horas em que seu braço assumir a forma demoníaca. — Disse Alex.
— Então eu não posso ir para a escola e nem para minha casa! — Disse Yuki assustado.
— Infelizmente essa é a maneira que as coisas são… — Disse Luther.
— Então onde eu posso ficar?
— Eu também não aconselho que fique aqui na sede dos anjos…
Yuki e Rika se espantaram.
— Pera aí Luther… você tá dizendo que ele não estará seguro nem aqui? — Perguntou Rika.
— O comportamento dos demônios está mudando... Eu recebi relatórios de ataques recentes e muitos deles demonstram padrões semelhantes. — Explicou Luther.
— Como assim?
— Nos casos onde os anjos retornaram, eles observaram um comportamento incomum… Os demônios estavam possuindo membros de famílias e atacando seus entes queridos.
Nesse momento, Yuki se lembrou das palavras do atendente da loja de conveniência: "… Já é o quinto consecutivo que eu vejo notificarem, todos com o mesmo padrão, onde a vítima foi morta por alguém próximo...". Aquele demônio que o atacou! Ele se encaixa no padrão!
— Eles não apenas matam seus entes queridos como sequestram eles. E esses alvos são, na sua maioria, crianças... — Disse Luther.
— Você disse "no caso onde os anos retornaram", então... O que acontece nos outros casos? — Perguntou Yuki.
— Eles são mortos ou também... capturados. — Luther assumiu um tom pesaroso.
— Capturados? Como você tem certeza disso? — Perguntou Rika.
— Eu consigo sentir a aura de um anjo e também sinto quando eles morrem… Nesses casos, a aura deles ainda está lá, mas seu corpo não retornou…
— ..... — Alex desviou seu olhar aflito.
— Eu também não entendo, mas eu tenho certeza que tem algo haver com o fato deles conseguirem esconder sua aura demoníaca. — Disse Luther.
— Você está insinuando que… — Disse Rika.
— Quem atacou vocês talvez possa não ser um demônio, mas sim um anjo ou um humano… — Luther completou. — O caminho para esse lugar é desconhecido para os demônios, mas se eles tivessem um ponto de referência poderiam nos atacar sem serem percebidos…
Yuki estremeceu com aquelas palavras, sua presença era um perigo até para o lar dos anjos… Um sentimento inexplicável surgiu… Era o de desolação... Ele não sentia isso desde muito tempo…
— Me desculpe Yuki, mas é assim que as coisas são... — Disse Luther. — Nós providenciaremos um lugar para você ficar o mais rápido possível. Até lá, nós garantiremos que haverá anjos o protegendo por onde for.
— Eu… Eu não sei o que eu vou fazer... — Disse Yuki.
Ver Yuki naquele estado despertava algo em Rika, como se a lembrasse de algo que ela já viverá... Aquele era um sentimento que ela não sabia descrever, mas que a fazia querer ajudá-lo da maneira que pudesse.
— Ei… — Disse Rika constrangida. — Ele pode ficar… na minha… casa…
— !! — Yuki a olhou surpreso. — N-Na sua casa? — Ele perguntou envergonhado.
— B-Bem, eu moro sozinha então... Não vai ter ninguém pra se machucar lá, além de mim e você...
As palavras de Rika confortaram seu coração, seu rosto estava ficando vermelho e ele não conseguia falar direito. Aquela sensação sumiu de dentro dele, como se a luz penetrasse uma sala escura… Yuki não se sentia mais sozinho.
— Heh, uma garota está te convidando para visitar sua casa, eu não recusaria. — Alex sussurrou para Yuki.
— Isso seria ótimo. — Disse Luther. — Eu posso coordenar rondas ao redor da casa de Rika para assegurar que nada aconteça enquanto tentamos descobrir como curar o seu braço. — Disse Luther.
— O-Obrigado… Rika! — Disse Yuki se curvando em um gesto de agradecimento.
— N-Não precisa agradecer! — Disse Rika.
— Muito bem Yuki… — Luther abriu uma gaveta de sua escrivaninha e tirou uma caixa pequena enrolada com um pano vermelho, abrindo-a para revelar uma pequena auréola dentro. — Tome, assim que você a aceitar, se tornará um anjo.
Yuki pegou a auréola, esse era o momento decisivo de sua vida, não haveria mais como voltar atrás. Pôr aquela auréola significaria abandonar sua vida calma e monótona para se oferecer ao serviço sagrado dos anjos. Prezar pela segurança dos outros era um desejo que Yuki tinha dentro de si naquele momento, mesmo contrariando sua natureza evasiva. Ele segurou a auréola em suas mãos, ela era ajustável com o toque. Yuki a apertou e reduziu para o tamanho de um anel e então a colocou em seu polegar.
— Bem vindo Yuki, agora você é oficialmente um anjo! — Disse Luther.
Seus olhos brilharam naquele momento. Yuki sentia medo, mas, ao mesmo tempo, alegria… Pela primeira vez em sua vida ele se sentia… importante…
— Nós vamos notificar quando será sua primeira missão como um anjo, durante esse tempo eu investigarei o caso de "17" mais à fundo. — Disse Luther. — Até lá, descansem e se preparem para o que está por vir.
— Tudo bem! Vamos, Yuki. — Disse Rika indo para o elevador.
— Mais uma coisa, Yuki. — Alertou Luther. — Como eu disse antes, a corrente em seu braço é instável, então tente ao máximo não causar ferimentos em seu braço esquerdo.
— Entendi. — Disse Yuki.
Rika e Yuki pegaram o elevador e voltaram para o shopping. Ambos estavam um pouco envergonhados com a ideia de ficar na mesma casa, mas sentiam que essa era a melhor maneira.
— Err… Então... O que você quer fazer? -—Perguntou Rika.
— Ah, eu não sei... Tem um fliperama aqui perto e… — Disse Yuki.
— Eu quis dizer em relação à essa situação… sabe… de você ficar lá em casa…
— Ah, isso, sim… eu… não sei. Eu acho que vou avisar pro meu pai e pro meu professor de reforço que eu vou me ausentar.
— Então você vai passar na sua casa antes?
— Sim, depois a gente se encontra.
— Tudo bem… Eu vou te dar o número do meu telefone, eu te envio o endereço por mensagem.
— Ok.
— Olha, Yuki… Isso não é nada demais ok? Não fique pensando em besteiras só porque você vai ficar na minha casa combinado?
— C-Certo, pode deixar...
— R-Realmente não é nada demais se você parar pra pensar, é uma situação completamente normal, não tem como pensar errado sobre isso. — Rika estava ficando nervosa.
— T-tudo bem… eu já entendi…
— O-Ok então... Eu te vejo depois.
Rika acenou para Yuki e foi andando depressa para longe dali...
— Isso foi estranho... — Ele disse para si mesmo.
[16:40 Itabashi, Tóquio]
Já era quase fim da tarde, Yuki havia feito compras e estava em casa arrumando suas coisas e, principalmente, se esclarecendo para seu professor:
— E-Eu sei que isso é muito espontâneo Yashiro-sensei, mas surgiu uma complicação enorme aqui.
— Eu não estou o repreendendo, só estou apontando que você vai perder muito conteúdo. — Seu professor, Yashiro, falava pelo telefone.
— Eu sei, mas eu não posso fazer nada… Me desculpe…
— Ei! Não precisa se desculpar, eu compreendo a sua situação, só estou te avisando que não poderei repor esse conteúdo, tem outros alunos além de você que assistem às minhas aulas.
— Tudo bem, eu aviso assim que tudo estiver resolvido.
— Ok, tomara que você consiga resolver o seu problema.
— Muito obrigado Yashiro-sensei, adeus.
— Adeus.
Yuki desligou o telefone e suspirou aliviado, agora ele só tinha que avisar ao seu pai… no entanto, havia um problema. Seu pai, Atsushi, quase nunca está em casa. Ele é oficial de polícia e praticamente vive trabalhando. Depois da morte de sua esposa, ele decidiu dedicar sua vida ao máximo para garantir uma boa qualidade de vida para Yuki e Akane. Ele resolveu alcançar isso se matando de trabalhar, mas em contrapartida quase nunca tem tempo para seus filhos. Yuki não o odiava ou desprezava por isso, ele apenas queria que as coisas fossem diferentes… mesmo sabendo que elas não poderiam ser…
Ele então decidiu deixar um bilhete para seu pai, não um bilhete sincero, mas que esclarecesse a situação. Ele apenas precisava escrever que daria um tempo para pensar em sua vida, e que ele não precisava se preocupar demais. As palavras curtas e mentirosas, mas Yuki não sabia como botar aquilo tudo de uma maneira convincente. De qualquer maneira… seu pai o entenderia…
Yuki deixou o bilhete preso debaixo de um ímã de geladeira e partiu, levando uma mochila com suas coisas e uma sacola com as compras que ele havia feito. Rika havia o mandado o endereço pelo seu telefone, ela morava em um apartamento, não ficava longe dali.
Seus pensamentos estavam embaralhados, muitas coisas estavam mudando em sua vida tão repentinamente... Era tanta mudança em tão pouco tempo para se acostumar. Ele decidiu se livrar desses pensamentos conflituosos por hora e se focar no que estava presente, mesmo sendo difícil de ignorar todos os problemas que o rodeavam.
[Local Desconhecido]
Um homem alto de terno vermelho andava pelos corredores cinzas de um estabelecimento. O som metálico do chão se misturava com zunido vindo dos grandes tubos de ventilação que atravessavam aquele corredor.
Ele continuou em frente até atravessar uma grande porta metálica que se abriu automaticamente. A porta dava para um outro corredor que se estendia até um imenso pátio circular de dois andares, nos quais eram repletos de celas trancadas e numeradas. Haviam várias cápsulas enormes enfileiradas pelo corredor, todas elas continham pessoas flutuando em uma espécie de líquido vermelho dentro.
O homem continuou andando e passando pelas cápsulas, até que parou em uma específica. Pintado na parede ao lado da cápsula havia um número: 17. Ele olhou fixamente para a cápsula, dentro havia um homem com ferimentos visíveis no rosto e debaixo de um dos braços. Seu rosto era como o de um humano normal, só que a área em torno de seus lábios e de seu nariz era ressecada e enrugada.
Um outro homem de menor estatura entrava pelo mesmo corredor, sua pele era vermelha e seus olhos eram negros e a íris vermelha. No topo de sua cabeça e entre seus cabelos, dava para observar pequenos chifres. Ele se aproximou do homem de terno.
— O que aconteceu com ele? — Perguntou o homem de terno, sua voz era grossa e estridente.
— O seu tubo de AM-NII foi danificado durante o confronto, isso o impossibilitou de continuar. — Respondeu o homem de jaleco.
— Isso já era de se esperar… 17 ainda era como um bebê, sem experiência e, principalmente, sem ódio o suficiente. Da próxima vez envie os da série 20.
— Entendido. — Ele respondeu enquanto fazia anotações em uma prancheta. — E o que fazemos com ele?
— O corpo dele pode ser útil, mas a consciência... Leve ele, faça as modificações necessárias.
— Certo.
O homem de jaleco pressionou alguns botões da cápsula e então desconectou um dos tubos que estavam conectados ao painel. O líquido dentro da cápsula começou a borbulhar e escurecer, enquanto o corpo dentro se contorcia e tentava respirar, até que houve um estalo e todo o líquido se escureceu... O corpo parou de se mover…
— Eu chamarei uma equipe para transportar o corpo dele. Você disse os de série 20 não é? — Perguntou o homem de jaleco.
— Sim, dessa vez eu quero me certificar de que o meio sangue sofra... Só assim o ódio dentro dele crescerá. — Disse o homem de terno vermelho.
— Como quiser… Mestre Azazel.
O homem de jaleco se virou e andou em direção ao pátio. O homem de terno vermelho não era ninguém mais, ninguém menos que Azazel… um dos membros dos sete pecados capitais… governantes do mundo dos demônios… Ele deixou aquele corredor e foi em direção ao pátio.
Aquelas cápsulas... Todas elas haviam pessoas dentro… pessoas como o 17… E todos a mando de um dos sete pecados capitais…
Mais complicações estão para surgir…
Continua…
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