A Maldição do Aprendiz
2 Amaldiçoado
Notas iniciais
Era noite, tudo estava embaçado e enevoado, a névoa cobria meus olhos enquanto o gralhar dos corvos enchia meus ouvidos. Sentia suas garras no meu corpo imóvel, do alto eu não distinguia as formas. Não sabia onde estava, algo reluzia a minha volta, um círculo luminoso. De quem era aquela silhueta escura? Parecia-me familiar, enquanto vinha em minha direção, farfalhava as folhas abaixo de seus pés...A sombra se aproximava, cada vez mais perto...Mais perto...
O que Sória fez comigo? Por que eu me sentia diferente? Meu corpo parecia mais leve, como fumaça. Foi quando ouvi sua voz:
– Eu não queria, algo deu errado, não era pra ser assim, o poder me consumiu e eu cedi a suas ordens.
Eu não entendia o que estava acontecendo, então disse:
– O que aconteceu comigo? O que você fez?
– A magia virou maldição. Me perdoe. Você virou um...um...
Sua voz se perdeu e eu olhei para seu rosto desesperado. Olhei para meus braços e vi que não eram mais de carne e osso, eram de trapos e palhas.
– O que eu virei? — Perguntei, exasperado.
– Me desculpe, mas você se transformou num SERVO.
– Servo? Como assim?
Ela suspirou e chegou mais perto de mim, olhou para os próprios pés e começou a chorar, disse em meio as lágrimas:
– Servos são seres feitos de pano para cumprir tarefas aos seus mestres de magia. Geralmente possuem a forma de espantalhos, é isso que você se transformou agora.
Perguntei desesperado:
– E COMO DESFAZEMOS ISSO?
– Precisamos estudar o Obscurus e encontrar uma solução, por enquanto você só terá essa forma em períodos de lua cheia, dia e noite, mas os COMUNS verão sua forma humana.
Ela me olhou de forma arrependida, e perguntou:
– Você, por acaso, tem tido... Sonhos estranhos, lúcidos?
Respondi, cauteloso:
– Bem, nas últimas semanas eu tenho sonhado com corvos, fogo, névoa e uma pessoa sem rosto. Mas eu não conseguia me mexer. Estava pendurado, no alto como um...ESPANTALHO!
Sória suspirou, confirmando suas suspeitas:
– Um dia eu li, que para quebrar uma maldição, é preciso um ato de sacrifício. Ajudar alguém, renunciar alguma coisa, enfrentando seus medos...Acho que, você terá que, de alguma forma, entrar no sonho. Temos que encontrar um feitiço que nos ajude a fazer isso.
Essa história estava cada vez pior: Minha irmã é uma bruxa, me prendeu num círculo de fogo, me amaldiçoou e pra piorar me transformou num "Espantalho", um tipo de servo estranho.
– Sória, não posso ficar assim! Você tem alguma ideia do que fazer? — Indaguei, já perdendo as esperanças.
Ela não respondeu, pegou Obscurus e começou a folheá-lo rapidamente a procura de algo. Quando finalmente parou, olhou para mim com pena.
– Como eu disse: Existe uma maneira de quebrar a maldição, é arriscado! É o Feitiço do Sonho de Morfeus. Ele te transportará para o seu pesadelo e você terá que libertar o Servo Primordial. O risco é que você poderá ficar preso lá para sempre.
– E como será feito isso? — Perguntei.
– Feche os olhos.
Obedeci, relutante. Quando ouvi sua voz suave, distante:
PELA AREIA DE MORFEUS
SONHO E PESADELO
LEVAM-ME OS MEUS
ATENDAM MEU APELO
Sua voz se perdeu na escuridão. Já não distinguia nada. Era noite, tudo estava embaçado e enevoado, a névoa cobria meus olhos enquanto o gralhar dos corvos enchia meus ouvidos...
FIM DO SEGUNDO CAPÍTULO
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