A Maldição de Lucélia
2 Vozes dos Deuses
Notas iniciais
Seis anos depois, o som do riacho ecoava pelo caminho de pedras, era uma música tranquila e harmoniosa que Joseph amava ouvir todos os dias. Se lembrava de quando seu pai ainda vivo, dizer que a canção mais bonita de todo o universo, eram os sons que a natureza produzia. Dizia também que a magia e energia estavam por todo o canto, tudo ao seu redor poderia lhe dar aquilo que desejasse caso pedisse com fé aos deuses da floresta e ao seu coração. O menino que agora se tornara um jovem maduro e forte, prometeu a si mesmo que sempre levaria aquelas palavras na cabeça enquanto vivesse.
Sentado abaixo do enorme carvalho ele tocava seu velho e pequeno violão, acompanhado da brisa que batia contra sua pele, jogando os fios de seu cabelo amarrados em um rabo de cavalo para os lados, o clima lhe era perfeito. Ele estava quieto e com os olhos amendoados fechados, um sorriso singelo nos lábios finos e os dedos acariciando as cordas do instrumento como uma amante.
De repente Joseph entreabre os olhos e respira profundamente sentindo o cheiro do perfume doce de uma flor amarela que havia aberto seu botão a pouco tempo, ela se encontrava aconchegada bem à frente dos pés do moço, ele cessa sua música e se aproxima com o corpo para aquela flor. Retirando-a de seu canto arrancando com delicadeza o caule do chão, observando atentamente as pétalas amareladas com gotas de orvalho, o verde do caule era vivo e cheio de energia assim como o pólen. Joseph coloca a flor na palma da mão deixando seu cabinho para fora e fecha os dedos somente para segurá-la no lugar. Ele mantém os olhos comprimidos e sente dentro do coração uma quentura se formar, com uma lembrança de quando criança, da última vez que vira Lucélia.
O som de galhos se quebrando abaixo dos pés silenciosos da menina fantasma se aproximaram dele, o garoto escondido entre os troncos estava esperando ver algum tipo de magia sair das mãos da garota, mas ao contrário disto, a surpresa se forma ainda maior. Lucélia se abaixa quando vê uma flor pequena amarela no chão, havia sido arrancada por algum animal provavelmente, ela olha para os lados tendo certeza de estar sozinha, enquanto Joseph mantinha o máximo de silêncio possível, não queria assustá-la.
A menina que já estava há mais ou menos dois anos sumida desde a aparição na casa de Joseph, ainda não havia mudado seu olhar triste do rosto. Lucélia pega com os dedos o mais delicadamente possível no caule da flor e assim que está em suas mãos, o amarelo brilhante das pétalas se transformam em roxo escuro fosco sem vida. Ela solta com rapidez a flor no chão e cambaleia para trás, havia se esquecido que carregava aquela maldição consigo, as lágrimas ameaçavam encher seus olhos, mas ela se abstém quando escuta passos por perto. Se encolhendo no canto ela avista o garoto de anos atrás que teria achado seu broche. Até hoje ela não sabia o motivo de ter deixado seu bem mais precioso com um estranho, porém, preferia não entender o que se passava com sua cabeça confusa.
Joseph se aproxima a passos lentos e cautelosos, mandando mensagens coma forma com que seu corpo agia de que não faria nenhum mal a ela. A mensagem parece ter sido captada, Lucélia se mostrou mais tranquila em sua presença, mesmo que ainda parece arisca.
Ele se aproximou da flor depois que a garota de afastou do mesmo, nenhuma palavra foi dita entre eles, não era necessário, a brisa que os atingia parecia lhes dizer o que os dois queriam conversar. Joseph pega a flor com suavidade e fecha em mãos forte o suficiente para segurá-la entre os dedos, fecha os olhos com a segurança de que a menina não fugiria novamente, e quando os abre a flor que se tornara purpúreo pelo toque dela, havia mudado para um azul brilhante e claro como o céu.
Lucélia se aconchega próxima ao garoto inconscientemente, ela fita as pétalas recém coloridas nas mãos dele, o mesmo ergue a flor e leva na direção dela, como uma forma de apaziguar o clima um pouco tenso entre eles, o desejo de Joseph era transformar a expressão triste e curiosa da pobre menina, em alegria e brilhante assim como eram os brilhos tênues no fundo do seu olhar, mesmo que não fosse fácil qualquer um ver. Ele não podia dizer se ela poderia pegar a flor sem que o acidente do roxo retornasse, mas sentia estar fazendo a coisa certa.
Porém, Lucélia vira seu olhar para a direita magoada e dá as costas a Joseph, sumindo pela floresta a dentro.
Enquanto a lembrança do encontro entre eles, Joseph abre seus olhos e sua mão encontrando a flor amarela ainda da mesma cor, exceto por pequenos e acentuados pontos azulados nas em cada pétala.
***
Lucélia abaixou a cabeça enquanto sentia a água fria gelar seu rosto lavado, ela estava à beira de um rio perto de sua casa, a mulher encarava seu reflexo no riacho e mantinha a mente em um estado de mais pura concentração, a força que precisava fazer para não contaminar as águas lhe eram imensas, e ela sentia necessidade de hidratar seu corpo. O capuz vermelho estava abaixado e sua capa cobria seu corpo por completo, ao longe poderia se ver um ponto rubro muito vivido abaixo de um amontoado de algodões macios. A moça respirou profundamente permitindo que aquele liquido gélido pudesse manter seu corpo refrescado naquele dia de calor extremo.
Ela se levanta e recoloca seu capuz na cabeça, se afasta do riacho, deixando para trás um pouco de sua energia ruim. Ela amava morar no bosque, não encontrava muitas pessoas, e quando acontecia, sempre poderia sumir da visão deles, ela conhecia o lugar muito bem, seu desejo de sair e conhecer um pouco do mundo a fora, lhe foi tomado quando ainda criança. Lucélia balança sua cabeça forçando os sentimentos dolorosos esvaziarem sua mente conturbada.
O som sutil e sereno é ouvido por perto, Lucélia para seu andar e fita ao redor procurando saber de onde vinha aquela música tão bonita e gostosa de ouvir. Sentiu paz no coração em muito tempo, aquilo era fantástico. Decidida a encontrar o que escutava, ela se enfia pelo meio do bosque seguindo pelo lado oposto do rio onde uma pequena represa subia a montanha. Sentindo a respiração ofegante por caminhar tão rapidamente, já estava acostumada a andar sem encostar nas plantas, entretanto ainda era cansativo. Por um breve momento o som cessou, e a mulher interrompe a procura, tenta ficar no mais silêncio possível para ver se a canção estava mais longe, mas não, a melodia retorna e com isso ela continua a procurar. Até que enfim o susto toma conta do seu corpo, o coração acelera de maneira desvairada e tudo o que poderia passar em sua cabeça era de voltar por onde veio, e fugir de lá o mais rápido possível.
Ali a baixo do grande carvalho na montanha estava um homem, os cabelos cumpridos presos a cima da cabeça dançavam com a brisa, enquanto seus dedos criavam notas musicais de algo que ela poderia chamar de vozes dos deuses. Lucélia sabia que precisava se afastar de lá, mas em seu peito, ela desejava ficar e ouvir mais um pouco daquilo. Decidiu permanecer em seu lugar, sentou-se no chão a cima de uma raiz grande de árvore em meio aos arbustos, longe o suficiente para que pudesse ver e ouvir a tudo sem que fosse localizada.
A melodia era agradável e graciosa. Podia jurar que os pássaros da floresta acompanhavam sua música. Ela estava encantada demais, com a cabeça ela conduzia junto as notas e era colocada dentro do instrumento de cordas. A magia para ela finalmente tinha um significado, e vinha daquele homem sentado, as pernas aconchegadas confortavelmente a cima das pedras na beira da represa onde o rio descia levemente, como se também desacelerasse sua natureza para escutar ao moço.
Lucélia não podia deixar de lado o fato que a beleza dele combinava perfeitamente com o ambiente. A pele morena era lisa, seus cabelos castanhos de um intenso claro quase loiro, a blusa branca de algodão continha mangas finas e os dois únicos botões da caminha estavam abertos, a calça também de algodão estava por dentro das botas do mesmo material.
Tão abruptamente então ele cessa sua música. Lucélia que agora somente estava atenta aos dedos do jovem rapaz não viu quando ele estava com sua atenção totalmente para ela. E isso só se foi confirmado quando a moça escutou as palavras do musico.
—Fico feliz que tenha gostado, Lucélia.
O susto se completa e ela se levanta desajeitada quase caindo para trás das imensas raízes ao chão.
—Espere, por favor me desculpe, não queria te assustar.
—Sua voz...- Murmura ela, se apoiando com as mãos no joelho ao invés de se segurar no tronco da árvore ao lado, ela o conhecia de algum lugar, não é? Aquela voz lhe era tão familiar. – Como sabe meu nome?
A pergunta era mais retórica, Lucélia estava quase certa de saber quem era o rapaz, mas preferia estar errada. O homem não responde, na verdade ele argumenta outra coisa.
—Fico triste em saber que não se lembra de mim. – Sua feição dizia que ele realmente estava magoado, mas aquilo mudou quando o sorriso torto apareceu em seus lábios finos. – Sou Joseph.
A familiaridade era incrível de esquecer, entretanto, no fundo de sua memória havia uma garotinha que temia lembranças mais do que qualquer coisa, por mais horripilante que eram, a imagem de um garotinho com o mesmo violão em mãos, e um olhar de pura admiração em seu rosto era difícil esquecer afinal de contas. Lucélia cerrou os olhos procurando o menininho lá no fundo, e encontrou, em seu rosto estava estampado uma expressão de diversão, e um sorriso involuntário brotou nos lábios pálidos da mulher. O jovem não pode evitar de rir com ela, os dentes incrivelmente brancos e perfeitos contrastavam muito com a pele clara e os cabelos platinados. Ele se viu levantando do chão. Lucília recuou com a aproximação repentina, e ele parou em seu lugar, a mão direita segurando o violão com timidez.
—Não vou te fazer mal. Eu só queria conversar. Pedir desculpas...
Ela estranhou, uma pequena confusão se fez em sua cabeça e ela não precisou perguntar para que ele entendesse sua dúvida.
—Você não confia mesmo em ninguém, não é? – Ela deu de ombros, ele concluiu. – Peço desculpas se eu te disse algo no passado ou fiz algo que te magoou. Não era minha intenção.
O nariz aquilino e o queixo triangular davam um aspecto confiante nele, contudo, somente o próprio Joseph sabia o quão tímido e modesto ele era. A respiração descompassada da moça se acalmou, levando com ela o medo de se aproximar do homem. Ela engole seco quando ele dá mais passos para frente, tomando cuidado excessivo para não tropeçar em alguma raiz de árvore ou pedra.
Estranhamente Lucélia sentia-se em paz perto daquele rapaz, não podia entender, sentiu o rubor preencher suas bochechas com a forma adorável que ele a olhava, olhos nos olhos e sorriso meigo, aquilo estava estranho para ela, estranho demais.
—Me lembro de você, pegou meu broche aquele dia...
Ele hesitou, se encolheu no lugar e permaneceu parado apoiando sua perna em um tronco cortado com o violão descansando pesadamente a cima. Inclinou sua cabeça, a acusação estava lá novamente, assim como anos atrás, achou divertido de certa forma.
—Já lhe disse que não roubei nada. Depois que vi a garota fantasma na floresta que eu encontrei o broche no chão perto do poço. Foi você que foi descuidada.
—Garota fantasma? – Indaga ela confusa, outro sorriso, desta vez foi mais aberto que o anterior, e aquilo preencheu um sentimento quente e aconchegante no peito de Joseph.
—De qualquer maneira, você deixou lá depois de fugir.
Ah sim, ela se recordara plenamente da cena. A respiração dela ainda era serena, e a ventania dos galhos altos acima de suas cabeças começou a provocar um som arrepiante. Porém passou despercebido por ambos.
Havia a distância de duas pessoas entre eles, Joseph entendeu que aquele seria um espaço seguro, imaginou que ela não estava acostumada a este tipo de proximidade, talvez nem gostasse. E estava certo.
A barriga dela roncou, sentiu-se envergonhada naquele momento, mas tentou mudar de assunto torcendo para que ele não houvesse percebido.
—Como sabia que eu estava escutando você agora pouco?
Ele pareceu pensar um pouco antes de dizer, ela não deveria ter notado que lhe dera uma pista anos atrás. Não conscientemente pelo menos.
—Antes de fugir, você me disse que o broche esquentava quando estava por perto... – Vacila antes de prosseguir. – E eu nunca o tiro do bolso desde então.
Os pássaros cantavam, um som harmônico como um assobio junto ao vento, seus cantos estavam se afastando, pois, a noite estava chegando distante, e com ela trazia uma tempestade.
—Não sei o motivo, poderia ter vendido para alguém em troca de dinheiro ou comida. É um cristal muito raro, sabia disso? – Retruca em tom de escarnio.
Porque ela estava sendo rude e tão pessimista? Não, ela não pretendida pensar que alguém seria capaz de querer estar perto dela, estar em sua companhia, a própria Lucélia gostaria de ficar longe de si mesma muitas vezes.
Joseph nega com a cabeça repetidas vezes até estar sério o suficiente para que suas próximas palavras fossem convincentes e ela pudesse ser menos cabeça dura.
—Eu sei disso. Mas queria te encontrar de novo.
O silêncio se fez presente nos segundos seguintes. E o clima se tornou estranho, talvez um pouco gentil. Ainda mais para ela, não estava acostumada a ouvir tais palavras, e sentia que ele estava sendo sincero. Não pode evitar o sorriso. Havia quanto tempo que não sorria daquele jeito mesmo? Meses? Anos? Não se lembrava. Tudo em sua vida era cruel, as coisas boas não aconteciam com ela, Lucélia não acreditava que poderia existir pessoas bondosas no mundo. Ela recua quase caindo sobre os próprios pés, mas consegue se manter de pé sem que o ele percebesse seu lado desajeitado.
—Está mentindo. O que quer comigo? – Acusa quase gritando.
Desdenhosa e sombria era sua expressão, o sorriso sumira e no lugar dele havia a desconfiança de alguém que já não sabia mais o que estava fazendo ali.
Joseph assente não respondendo por um tempo. O cheiro que invade suas narinas lhe deu atenção ao ambiente. Chuva. Pensou ele. Olha os lados e pode enxergar pelos galhos e folhas das árvores a cor enegrecida do céu. Havia se esquecido da hora, precisava voltar, ali não era um bom lugar para se ficar com a tempestade que chegava. Mas ele sente a paciência envolve-lo, e queria ter a confiança de Lucélia, por isso ele continua impassível esquecendo-se momentaneamente da chuva que se aproximava.
—Nunca houve ninguém durante sua existência que cuidou ou foi gentil com você?
Sua pergunta a pegou de surpresa. Os olhos arregalados e as lágrimas nos cantos indicavam a resposta. Já havia se passado tanto tempo que esqueceu o que era ter alguém que se preocupasse com ela. Sua guarda baixou, sempre soube que aquele homem não era maldoso, podia confiar nele, só um pouco. Mas ela se lembrou, ele podia não ser perigoso, mas ela era. Para qualquer um.
—É bonito que esteja agindo assim comigo e sim, existiu uma pessoa no passado que era boa pra mim. Mas agora mudou. E não acontecerá nada de bom se eu estiver por perto.
Ela se vira para ir embora sem se despedir ou esperar pela resposta de Joseph. O rosto dele estava em admiração misturada a compaixão, queria ajuda-la de alguma maneira, e esperava muito estar com ela.
O choque seguinte os tirou de seus devaneios. Um raio atingiu a árvore ao lado de Lucélia que se jogou com o estrondo fervoroso vindo dos céus. Sentiu uma dor aguda no joelho quando viu que batera em uma pedra pontuda, sabia que estava sangrando, a saia negra que vestida ficou molhada naquele lugar, mas ela não queria levantá-la para ver. Joseph correu na direção da moça, deixando seu violão ao chão para que pudesse se locomover melhor, mas antes que encostasse nela para ajudá-la a se levantar, ele escuta um grito. Parecia que implorava com desespero.
—NÂO ME TOQUE!
Ela se encolhe no canto com a dor irritante na perna. O rapaz para com o corpo curvado quase encostando suas mãos nos ombros dela.
—Preciso te levar daqui. Deve saber que não é bom estar quase no topo de uma montanha durante uma tempestade. Minha casa é aqui do lado, podemos ir pra lá.
Ela não se opõe, estava incapacitada e machucada demais para pensar, tanto psicologicamente quanto física. Apenas assente, mas antes avisa.
—Tudo bem, mas eu vou andando sozinha.
E com sua teimosia notória, mas que continha muita razão de se manter afastada, ela se levanta com a dificuldade de uma senhora com dor nas pernas, não se apoiando em nada. Ela limpa calmamente restos de gramas que poderiam conter em sua roupa, e Joseph pode ver a poeira purpura caindo enquanto ela passava suas mãos pelos resquícios de mato. Ele revirou os olhos com tamanha impaciência da garota, porém não disse mais nada. Pegou seu violão e escolheu o melhor caminho para descer a montanha sem que eles caíssem no primeiro deslize e rápido o bastante para que a tempestade não os alcançasse.
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