A Magia do Submundo

18 O Emissário das Trevas II


Notas iniciais
Hello! Estou aqui com o último capítulo deste Arco! Espero que gostem Boa leitura ^^

Se Jason precisasse descrever a sensação que sentira após aquela dor, seria simplesmente prazer. Alívio. Depois de sentir uma dor como jamais sentira em vida, ele viu-se em um local escuro e sem ninguém. Não havia nada, e, o mais importante: não havia aquela sensação de sua pele corroendo.
De início, Jason ficou assustado. Onde estavam Luna, Alice e Selena? Onde estava Lily, que ele não vira com Mamon? Aquilo realmente importava? Jason sentia que não. Naquele espaço preto em que estava, nada daquilo importava. Elas eram passado. Não possuíam relevância naquele lugar.
Não. Aquilo não estava certo. Como podia pensar em algo assim?! Precisava dar um jeito de voltar. Precisava voltar. Sua mãe estava em perigo!
Logo, o local em que Jason estava, anteriormente sem som, começou a emiti-lo. Som de um líquido sendo pisado. Quando Jason olhou para baixo, descobriu do que se tratava: sangue.
Jason começou a afundar naquele sangue. Mas o que estava acontecendo?! O bruxo tentou desesperadamente sair, mas fracassou, e foi engolido pelo sangue.
O garoto viu-se caindo em um tornado de sangue que dançava ao seu redor. Vez ou outra, imagens surgiam naquele sangue. Um homem de armadura branca, cabelos prateados e olhos alaranjados em fenda lutava com outro homem, de sobretudo negro e longos cabelos vermelhos, e o confronto entre os dois demonstrava poder inigualável. Outra hora, este mesmo homem de cabelos brancos (embora agora eles estivessem pretos) conversava com uma jovem mulher com uma túnica. Era uma Pacificadora, e Jason reconheceu como a sua mãe, Selena.

— Mãe? Quem é esse?

Obviamente, a imagem não respondeu.
O tornado explodiu. Jason sentiu-se cair em um chão duro, e parecia estar novamente naquele espaço preto. Desta vez, porém, ele não estava vazio. Havia uma forma retangular em pé, coberta por uma lona branca. Quando o bruxo retirou a lona, viu que tratava-se de um espelho.
O que um espelho fazia ali? Ou onde diabos era “ali”? Não importava. O que importava era que não estava mais sozinho. Com aquele espelho, sentia que tinha companhia.
Havia algo no espelho. Jason viu seu próprio reflexo. Nu, com as pernas e braços em carne viva, e as costelas aparecendo. Seu coração acelerou. O que aquilo significava?! Realmente aconteceu?! Estaria Jason morto?
A imagem no espelho começou a mudar. As feridas começaram a ser envolvidas por uma mancha obscura e, quando esta sumia, a ferida não estava mais lá. Logo, Jason via no espelho seu corpo perfeito, sem nenhum dano. Mas não acabou. Os cabelos do garoto começaram a adquirir um tom prateado, e seus olhos começaram a brilhar em alaranjado, e aos poucos Jason ficava parecido com uma imagem mais jovem do homem que viu no tornado de sangue, momentos antes.
O seu reflexo sorriu para ele.

— Você é patético, não é? Do que adianta ter poder se não souber usar?

— O que quer dizer? Quem é você?

— Eu sou você, mas você não sou eu. Você ainda não é como eu, mas será. A alma negra é dominante, assim que sempre foi. Usarei ela para destruir todos do modo que eu quiser.

— Não entendo.

— Não precisa. Me deixe comandar. Guiar você. Tenho experiência. A dor e a tristeza vão desaparecer, e, em seu lugar, haverá apenas alívio e prazer.

— Nada é de graça — comentou Jason, desconfiado.

— Quer saber qual o preço para o topo? Seus amigos e familiares deverão morrer. Tudo porque esses seres deploráveis estão tentando me tirar de você.

— Não quero isso!

— Nem mesmo se você se tornasse invencível?

— Não quero isso!

— Nem mesmo se você nunca mais sentisse dor?

— Não quero isso!

— Nem mesmo se pudesse proteger aqueles que te amam?

Jason hesitou. Sua imagem no espelho, alterada para assemelhar-se ao homem que viu antes, sorriu sarcástica.

— Já tem sua resposta, Jason. Você é a estrela que deve iluminar a manhã daqueles que te querem bem. Para que conter sua vontade em esmagar um traidor?

— Esmagar um traidor?

— Mamon deve morrer. Junto dele, outra pessoa presente na ilha. Só assim o mundo irá poder avançar.

— Não posso! Me recuso!

— Não é escolha sua.

Jason socou o espelho, e o vidro estilhaçou-se, desfazendo-se em uma névoa branca. O garoto sentia seu coração bater mais rápido.
Ouviu passos atrás de si, seguido de aplausos acompanhados de uma gargalhada. Quando olhou para trás, o seu eu que estava no espelho agora estava diante dele. Levantou o braço e acariciou o rosto de Jason.

— Pobre criança. Ainda é muito inocente. Tão iludido, tão ingênuo. É uma pena. Eu gostaria que pudesse ser menos intenso, mas a mamãe vai morrer se eu não fizer isso rápido — justificava-se o Jason do espelho. — Eu não deixarei a nossa mãe morrer.

O reflexo de Jason levou a mão lentamente ao peito do Jason verdadeiro. Uma energia sombria revestiu a mão do Jason de cabelos platinados.

— Exitium donum non datur nisi in Tenebris Dominus. — Após recitar isso, perfurou o peito de Jason, destruindo seu coração. — Hodie moritur Jason, et Prince ipso natus est.

Então, o reflexo de Jason tirou a mão do peito do seu eu original, e o corpo do bruxo caiu no chão. Entretanto, em vez de cair no chão, o corpo de Jason passou pelo chão e mergulho naquela escuridão.
O garoto já não sentia nada além de angústia. Não tinha nenhuma esperança. Havia acabado. Ele conseguia sentir o doce e gelado toque da morte, esta que sussurrava em seu ouvido, sedutoramente chamando-o para seu abraço eterno.
Uma silhueta surgiu atrás de Jason, e espantou a morte. Era mais escura que a própria escuridão ao redor. A silhueta moveu seus braços, em um formato semelhante a um grande abraço.
Envolveu Jason, e ele sentiu mais do que apenas alívio ou prazer. Ele sentiu paz.

*

Um grande pilar de energia negativa subiu aos céus. As folhas de todas as árvores da Ilha de Yuvik desintegraram-se. O mar ao redor enfureceu-se e ondas enormes foram criadas. Uma enorme pressão roubou o ar de todos os presentes, e todos foram levados contra o chão, com exceção de Mamon.
Assim que o pilar de escuridão dissipou-se, quem estava lá já não era mais Jason Godren.
Possuía uma forma magra como um cadáver em decomposição, e era extremamente alto (embora não tanto quanto Mamon), com a coluna evidente um pouco inclinada. Seus longos braços (o esquerdo levementr mais alto que o direito) terminavam em cinco garras longas e pontiagudas. As costelas da criatura eram aparentes. Possuía uma face que assemelhava-se a um crânio humano, com dentes pontiagudos como navalhas e um par de chifres que saíam de suas têmporas e projetavam-se para frente.
Sua pele era negra como o mais profundo abismo, e apenas três partes da criatura humanoide possuíam tonalidades diferentes: seus olhos, que eram alaranjado como se feitos de lava derretida, sem distinção entre íris, pupila e esclera; o interior de sua boca, que tinha a mesma tonalidade cor de lava; e seus fios de cabelos platinados que saíam de sua cabeça. Eram raros, e cada um devia ter uns vinte centímetros de comprimento.
Da criatura, emanava um miasma tão intenso que o solo ao redor começou a apodrecer. Selena e Alice olharam com terror para onde antes estava Jason, e que agora estava aquele demônio (se é que fosse mesmo um demônio).
Luna sentia algo diferente. Sentia um terror duas vezes maior do que aquele que as bruxas sentiam, e tinha a vontade de fugir, esconder-se ou simplesmente dar um fim à própria vida. Aquilo que estava na sua frente era diferente de tudo o que já viu, e sua presença era pior ainda. Luna já viu inimigos com uma aura capaz de intimidar e até afetar o mundo material.
Entretanto, aquilo na sua frente era diferente. Ele não emanava apenas miasma, apenas intenção assassina. Aquilo que ele emanava não podia ser apenas sede de sangue. Aquilo que aquela criatura emanava era a própria morte.
Mas não era tudo. Luna também sentia sua parte demoníaca se ajoelhar. Estava em completa submissão. Amaldiçoava-se, tentava lutar contra, mas era impossível. Luna percebeu que, se aquele ser que estava no lugar de Jason viesse até ela, ela não resistiria nem revidaria qualquer coisa que ele fizesse. Era uma sensação assombrosa, não apenas de não poder fazer nada, mas de realmente não desejar fazer nada.
Mamon também estava diferente. Sorria animado, mostrando seus dentes afiados, mas por dentro sentia calafrios. “A presença deste garoto… É-é infinitamente mais poderosa que a minha. É como se Lúcifer tivesse reencarnado na minha frente…”
A criatura olhou para Luna, movendo-se de maneira robótica.

— J-Jason — chamou Luna, baixinho.

A criatura não respondeu. Olhou, também de maneira lenta e travada, para Alice, depois para Selena, e depois para o cilindro negro caído próximo ao seu corpo.
Ignorando o bastão, a mestiça e as bruxas, a criatura olhou para Mamon. O Príncipe Demoníaco forçou um sorriso arrogante.

— Ha! Incrível! E pensar que um mestiço maculado como você conseguiria assumir uma forma tão perfeita de um demônio, quase como se tivesse nascido como um! — elogiou Mamon. — Mesmo assim, não muda em nada o fato de você se transformar. Recomendo ajoelhar-se para mim, e talvez eu poupe suas amigas e sua mãe.

A criatura inclinou a cabeça como um cachorro, não dando sinal de entender o que Mamon quis dizer. O Pecado da Ganância irritou-se, e entrou em posição de ataque.

— Não me ignore, maldito!

A criatura voltou a cabeça para o ângulo comum, inclinou o corpo para frente e começou a abrir a boca em um ângulo que não deveria ser possível. Quando sua boca estava aberta a quase 130°, uma energia sombria começou a condensar-se entre a mandíbula superior e inferior do ser abissal.
Quando o Emissário das Trevas terminou, uma esfera negra com estrias roxas estava flutuando à frente de sua boca.
Mamon olhava aquela cena com terror.

— I-isso é… uma Orbe do Apocalipse. M-mas você não deveria ser capaz de…

A criatura disparou a orbe em Mamon. O Príncipe Demoníaco, abandonando qualquer ideia de interceptar o ataque ou tentar igualar-se a ele, simplesmente pulou para o lado com toda a velocidade possível. Teve que usar sua velocidade máxima, pois a orbe viajava na velocidade do som.
A esfera negra passou por Mamon, viajou por mais dez metros de distância sem obstáculos e finalmente atingiu uma árvore. Assim que entrou em contato com o tronco, a esfera sumiu, deixando apenas uma pequena marca na árvore.
Uma explosão catastrófica de energia negativa iniciou-se daquele ponto e começou a desintegrar tudo à frente. Selena sentia que a quantidade de energia daquela explosão poderia até mesmo eliminar a Grande Anciã. Quando a explosão sumiu, havia um grande buraco por onde, após alguns segundos, começou a entrar água.
Metade da Ilha de Yuvik havia sido desintegrada com aquela orbe.
Mamon olhou espantado para a criatura macabra, logo em seguida sorrindo arrogante.

— Por sorte, o Lúcifer me deixou relativamente acostumado com essas esferas, garoto Godren. Não pode me pegar com este ataqu…

Foi interrompido quando o Emissário das Trevas surgiu à sua frente e atingiu Mamon com as costas da mão. O Lorde Demônio foi disparado para longe, percorrendo dezenas de metros antes de parar no mar que cercava a Ilha de Yuvik.
“Ele ignorou minha presença e se moveu sem que eu pudesse sequer perceber. Quem diabos é esse garoto?! Ele não deveria estar em um nível tão alto tão cedo!”
Mamon flutuava alguns centímetros acima da água. A vários metros dele, ele viu a criatura negra se virar para ele. Em segundos, a criatura não estava mais lá.
“Por onde?”, questionou-se Mamon. Começou a olhar por todos os lados. Para a direita, esquerda, para trás, para cima.
Sentiu algo agarrar seus pés. Quando olhou para baixo, um par de mãos horrendas imobilizavam-no enquanto uma cabeça cadavérica saía da água, concentrando outra Orbe do Apocalipse.
Mamon começou a se sacudir, desesperado. A última coisa que queria era ser atingido a queima roupa por um feitiço demoníaco tão potente.
Não conseguiu se soltar. Apenas cruzou os braços quando a esfera negra explodiu nele. A explosão novamente tinha o poder de desintegrar metade de uma grande ilha, mas, como estavam no meio do mar, Mamon foi o único acertado.
Quando as sombras dissiparam-se, revelou-se Mamon, repleto de feridas por todo o corpo, com um dos olhos parcialmente destruídos, asas danificadas e um dos braços desintegrado.

— O-o que é você?

“É como Lúcifer, mas ele possuía controle completo. Conseguia ser até gracioso. Essa coisa na minha frente é um animal.” Com este pensamento, Mamon olhou para Fairyshall.

— Ele não pode me seguir até a cidade — raciocinou o Pecado da Ganância. — De lá, posso fugir e iniciar minha ascensão.

O demônio abriu as asas e preparou-se para voar até Fairyshall. Neste momento, viu o Emissário das Trevas sair da água. Começou a se contorcer bizarramente, e bolhas negras começaram a emergir de suas costas. Quando explodiram, a criatura ostentava um par de asas. Mas não eram como as asas que a maioria dos demônios revelava. Eram belíssimas asas semelhantes às dos Arcanjos, porém com plumas completamente negras.
Mamon observou, trêmulo, a criatura receber asas de anjos caídos, então, rapidamente, voou a toda velocidade na direção de Fairyshall.
A criatura surgiu ao lado de Mamon e escancarou a bocarra. Desta, dezenas, centenas, talvez milhares de tentáculos feitos da mais pura escuridão do Inferno saíram da boca da criatura e começaram a atacar Mamon. Era uma visão tão horrenda que até o Príncipe Demoníaco ficou assustado, e começou a liberar chamas douradas mais intensas que qualquer outra que já havia liberado durante a luta.
Mas suas esperanças não eram grandes. No combate contra Lúcifer, estava ao lado de Asmodeus, Belzebu e Leviatã, e mesmo assim tiveram enorme dificuldade (incluindo a morte de Belzebu e ferimentos incuráveis em Mamon e Leviatã). Agora, estava sozinho contra um ser bestial que parecia ter, mesmo que talvez em uma versão menor, as mesmas capacidades da Estrela da Manhã.
“E, para piorar, acabei de lutar contra aquelas bruxas”, lamentou Mamon, afastando os tentáculos de trevas e fugindo. Por um momento, pensou qual seria a visão que o véu mágico faria para os humanos, pois seria difícil ocultar o Emissário das Trevas que o perseguia.
Mamon fugia a toda velocidade. A criatura alcançou-o e começaram a trocar golpes em uma velocidade que nenhum mortal conseguiria acompanhar, até que Mamon atingiu-o com a cauda e tornou a fugir. Queria chegar ao centro da cidade. Os prédios altos facilitariam a fuga.
Chegou ao centro. O Emissário das Trevas estava logo atrás dele, com aquelas asas derrubando penas a cada batida.
Mamon aumentou a velocidade.
Começou a voar por todos os prédios, ziguezagueando de modo a despistar o monstro que o seguia. Surpreendeu-se quando a criatura surgiu ao seu lado, chutando seu peito.
Mamon foi disparado em alta velocidade contra um arranha-céu, destruindo muitos escritórios e causando terror em muitas pessoas que trabalhavam ali. Mamon então atingiu o vidro e saiu pelo lado oposto do prédio, onde a criatura surgiu ao seu lado e deu um golpe com suas asas.
O Príncipe Demoníaco foi novamente arremessado para o lado, conseguindo proteger-se por pouco de um novo ataque da criatura. Ela então começou a atacar de diversas direções e, quando finalmente Mamon não conseguiu bloquear, a criatura abriu a boca próximo ao seu rosto.
Um raio contínuo de energia alaranjada foi disparado em Mamon, passando por sua cabeça e cortando toda Fairyshall, desaparecendo no horizonte. Segundos depois, uma explosão alaranjada foi vista minimamente no horizonte.
Mamon sentia todo o seu poder se esvair. Não possuía poder para vencer aquela criatura. Só tinha uma saída: a Ilha de Yuvik. O portal que o trouxe ao mundo humano havia danificado a Muralha. Talvez conseguisse voltar ao Inferno por ele.
O que importava dominar o mundo humano?! Havia algo mais importante: a sua própria vida.

— Eu vou sobreviver!

Mamon saiu voando. A encarnação da morte apenas observou enquanto o Lorde Demônio fugia.
Após alguns segundos, talvez minutos, Mamon foi novamente visto na ilha. Alice olhou com terror.

— O Jay perdeu?

— Aquele não era o Jason — murmurou Selena. — Aquela coisa não era meu filho.

— O que importa? Estava vencendo o Mamon! Estava nos salvando!

— Errado — interrompeu Luna. As bruxas olharam para ela. — Ele não estava nos protegendo. Aquilo não era o Jason. Era um predador que ansiava por caçar. Ele só foi atrás da presa mais interessante primeiro. Depois, talvez venha atrás das presas menos importantes: nós.

Alice e Selena entreolharam-se, mais assustadas do que Mamon jamais pôde deixá-las. Afinal, não haviam visto Mamon desintegrar metade de uma ilha sem sair do lugar.
Luna ouviu uma movimentação, e Lily surgiu da floresta, segurando a cabeça, que doía. Ao notar metade da ilha desintegrada, olhou espantada para as amigas.

— O-o que aconteceu aqui?

— Tsc — começou Luna. — O nosso aprendiz resolveu começar a apodrecer, e então quem surgiu no lugar dele foi um demônio.

— Um demônio? O que quer dizer?

Neste momento, Mamon já estava próximo, e começou a direcionar-se rapidamente para o portal outrora visível. Quando estava a menos de vinte metros dele, a criatura sombria surgiu à sua frente e deu-lhe um tapa que arremessou-o para perto das bruxas.
Mamon levantou-se, cambaleando, e olhou para Selena sarcástico.

— Veja só o que o fruto de sua relação macabra fez, Selena Godren, Torre da Irmandade. Vamos todos morrer, e é tudo graças a você.

Selena não encontrou palavras para responder. Olhava para a criatura que antes era seu filho.
O Emissário das Trevas sumiu e reapareceu na frente de Mamon, alguns metros de distância. Então, olhou para o cilindro negro no chão e estendeu a mão para ele. O bastão saiu voando para sua mão.
A criatura ergueu a lança, apontando-o para o céu. Subitamente, uma poderosíssima descarga elétrica atingiu a lança, revestindo-a com magia elemental do relâmpago.
Lily suspirou.

— Essa coisa possui um domínio perfeito do poder elemental. Mas demônios não podem dominar esta magia! E-esse é o…?

Luna não respondeu. Apenas encarou o que desenrolava-se à sua frente.
O Emissário das Trevas avançou contra Mamon — que tinha as escamas do crânio derretidas —, mirando a lança energizada no Príncipe Demoníaco. Mamon cruzou os braços restantes à frente da área mirada pela lança.
Quando a Arma Amaldiçoada atingiu-o, perfurou seus braços, seu peito e saiu do outro lado de seu corpo. Houve alguns momentos de silêncio, então aquilo aconteceu. Um grande raio azulado foi disparado da lança, e o poder foi tão grande que o corpo de Mamon foi completamente desintegrado, junto de mais uma parte da ilha.
Normalmente, apenas Príncipes Demoníacos podem eliminar outro Príncipe. Senão, estes se regeneram novamente.
Mamon não iria se regenerar.
A criatura macabra então olhou para Selena, Alice, Luna e Lily, e as três bruxas recuaram. Luna não conseguia se mexer. Não possuía o direito de negar a aproximação daquela criatura.
O demônio abissal começou a caminhar lentamente na direção delas. Selena e Alice já haviam recuado, mas Lily ainda estava chocada olhando para a criatura, e notando que Luna não conseguia se mexer.
Tentou correr até a meio-demônio. Foi um erro.
O Emissário das Trevas surgiu à frente de Liliane e perfurou seu peito com suas garras, enquanto encarava a bruxa. Então, a pele do demônio começou a descascar e a sumir em névoa, e o rosto de Jason começou a surgir em seu lugar. Aos poucos, o corpo da criatura ia sumindo completamente, até que apenas o braço direito, que perfurava Lily, ainda era o de um demônio.
Jason não tinha palavras, sentia dor de cabeça.

— Mas que merda que tá acontec…

Percebera o que acontecia quando viu seu braço, ou o braço daquela criatura, perfurando Lily. Ele olhou estático para sua professora, que tossiu sangue e sorriu.

— V-você está bem — comentou Lily, sorrindo. — Q-que bom…

— M-mestra Lily…

O braço demoníaco também sumiu, dando a Jason seu corpo comum novamente. Lily ergueu a mão e acariciou o rosto do garoto, ainda sorrindo.

— N-não é… culpa… sua…

Lily deu seu último suspiro, e caiu no chão, sem vida. Jason olhava aterrorizado para o corpo da mulher, que começou a apodrecer, começando do local tocado pelo Emissário das Trevas. Então Jason sentiu todo o peso e cansaço, sentiu sua magia oscilar e, finalmente, caiu no chão, desmaiando.
Selena, Alice e Luna não conseguiam se mexer diante do que havia acabado de acontecer. Não sabiam o que pensar. Não sabiam como agir.
Ficaram paradas, estáticas, enquanto o corpo de Lily apodrecia e transformava-se em pó.

*

As sombras se contorceram e, então, estavam novamente na rua deserta que haviam utilizado para chegar à Ilha de Yuvik. Luna carregava Jason, desacordado, nas costas. Selena e Alice caminhavam com dificuldade, em completo silêncio. Não havia o que pudessem dizer.
As duas bruxas começaram a deixar que suas lágrimas caíssem enquanto caminhavam. Após vários minutos, estavam novamente no condomínio verde.
Entraram no apartamento 04, de Olive e Emma. Após deixar sentar-se no sofá, Luna deixou a cabeça de Jason apoiada nela. O garoto estava deitado no sofá, agora.
Selena e Alice sentaram-se à mesa e ficaram paradas, em silêncio, deixando as lágrimas rolarem.
Após alguns minutos de completo silêncio, Selena olhou para Alice.

— Precisamos avisar a Irmandade que Mamon e seu culto desapareceram. Literalmente. E… e precisamos avisá-los sobre… s-sobre Lily.

Alice assentiu, e apoiou o rosto nas palmas das mãos. Tornou a chorar. Selena deitou-se em um colchão. Não conseguiria pensar direito naquele dia. Virou-se para observar Luna, que acariciava os cabelos de Jason. A mestiça estava de olhos fechados, apoiando a cabeça nas costas do sofá.
A garota então abriu os olhos e levantou a camisa de Jason — que havia sido recriada a partir de sombras presentes na ilha, de modo misterioso —, passando a mão no abdômen do garoto. Selena arqueou levemente a sobrancelha, mas então também percebeu. O Selo de Kurokuma havia se despedaçado.
Selena ficou observando os dois jovens por mais alguns segundos. Então, devido a todo o cansaço que sentiu naquela noite, adormeceu.

*

No dia seguinte, Jason ainda não havia acordado. Luna, Selena e Alice despediram-se de Olive e Emma e saíram do apartamento. Selena foi até seu carro e sentou no banco do motorista. Alice foi atrás, junto do aprendiz que ainda estava desmaiado.
Luna foi sozinha na van de seu pai. Não se incomodava. Precisava pensar. Preferia fazê-lo estando sozinha.
No momento em que chegaram à casa de Selena, já era noite. Luna parou a van próxima da esquina, enquanto Selena estacionou o carro em frente à sua casa. Luna desceu e caminhou em direção à bruxa. Alice e Selena tiravam Jason do carro.

— Deixem que eu levo ele — pediu Luna. Selena encarou-a por um momento e depois assentiu.

Selena foi à frente e abriu a porta com a chave. Alice estava logo atrás.
Quando entraram, ouviram um barulho vindo da cozinha. Instantaneamente, ficaram alarmados. Perceberam que havia alguém na casa. Já haviam recuperado parte das energias gastas no dia anterior, mas Selena não queria ter que entrar em conflito em sua própria casa. Agora, pensando bem, percebera que Alice e Lily viviam entrando em sua casa sem a chave. Precisaria melhorar a proteção.
Quando Selena, Alice e Luna foram até a cozinha, depararam-se com uma mulher loira de olhos esverdeados que olhou para elas com um sorriso. Estava sentada em uma cadeira, com um buraco na barriga que estava sendo tratado por uma erva de amadina, provavelmente tirada do porão de Selena.

— Amanda?! — exclamou Alice. — O que está fazendo aqui?! O que aconteceu?!

— Perdoem-me. Eu não queria chegar assim, m-mas eu não sabia mais a quem recorrer.

A jovem bruxa que trabalhava em outra cidade começou a chorar, e Selena rapidamente abraçou-a.

— Amanda, acalme-se. O que aconteceu? Você não estava na reunião da Irmandade? Nós precisamos contactá-la imediatamente.

Amanda riu seca. Então, olhou sorrindo para as outras mulheres na sala.

— É uma pena, Selena, mas não poderei ajudá-la com isso. Ninguém pode.

— Do que está falando?

— Não entende, Selena? Por que eu, uma bruxa que trabalho a vários quilômetros de Fairyshall, viria para sua casa? É porque você é uma Torre, e você e Alice são as únicas em quem confio de verdade.

— Fale coisa com coisa — pediu Selena.

— Fomos invadidas. O Santuário deixou de ser nosso lar. A Irmandade da Bruxaria não existe mais.

Notas finais
Jason encapetado matando o Mamon (e a Lily ;-;), Irmandade não existe mais. Só coisas boas acontecendo '-' Provavelmente o início do próximo arco demore um pouco, então sorry!