A Magia Além das Palavras
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Não iria dar tempo de sair dali, então me escondo atrás de uma das prateleiras. Olho entre os livros e vejo o dono dos passos, é Marvin. Ele adentra a sala e seus olhos percorrem todo o cômodo.
—Tem alguém aqui ?-escuto sua voz grave, que ecoa em meus ouvidos.
Prendo a respiração e me encolho. Ele se vira para ir embora, eu fecho meus olhos na esperança de estar mais escondida.
Ouço o barulho da porta se fechando e suspiro aliviada. Abro meus olhos e me deparo com Marvin me olhando.
—O que você está fazendo aqui? -ele pergunta me encarando com seus olhos verdes.
—E..eu, não sei -respondo nervosa.
Ele caminha para mais perto de mim, a cada passo de Marvin eu me encolho cada vez mais. Um sorriso brota em seus lábios, ele retira uma mecha de cabelo solta em meu rosto, a colocado atrás da minha orelha.
—Não precisa ter medo -ele diz com a voz calma- eu também tenho meus segredos.
—Você vai me denunciar ?-pergunto com a voz trêmula.
—Não, eu estaria sendo hipócrita.
De repente a passagem se abre novamente; Marvin muda de expressão, ele parecia estar com medo. Ele se abaixa e me puxa junto, seu dedo indica para fazer silêncio.
Olho entre os livros e vejo um dos ministros procurar algo.
Se passa algum tempo e a passagem se fecha novamente. Nos levantamos e Marvin começa a andar de um lado para o outro.
—Droga, eu me esqueci meu pai retornará hoje.
—Por que você se assustou ?-pergunto curiosa.
—Em outra oportunidade, talvez eu te conte -ele diz passando a mão por seus cabelos claros- agora temos que sair daqui.
Ele caminha até um armário, que ficava no canto mais escondido do cômodo e o empurra. Atrás do armário, havia uma porta.
—Esse palácio é cheio de passagens -digo encarando a porta.
—Neurose dos Marchalas -ele diz com um tom de voz irônico- então vai ficar plantada aí, ou quer sair logo daqui?
Passo pela porta e me deparo com um pavilhão de túneis. Marvin me puxa pela mão e começa a guiar o caminho. Ele parecia conhecer bem aqueles túneis.
—Onde esses túneis vão dar? -pergunto quebrando o silêncio.
—Cada um, para um lugar diferente.
O silêncio retorna, só que dessa vez mais intenso. O túnel estava escuro, a não ser por feixes fracos de luz.
Marvin abre uma porta e indica com a mão, pra mim entrar. A porta dava em um quarto, lindo posso dizer. As paredes eram claras, com desenhos suaves de flores, havia uma mesa, uma cama impecavelmente arrumada. Também haviam vasos, com flores brancas recém postas, e uma grande sacada.
Os olhos de Marvin, parecem estarem cheios de lágrimas ao adentrar o ambiente. Ele respira e se recompõem.
—Vamos? -ele pergunta para mim.
—Sim.
Saímos do quarto e cada um segue seu caminho, sem ao menos um adeus. Caminho pelos corredores, que estão cheios de prestadores correndo para todos os lados. Hoje o marechal Gamaliel, retornaria de Amarilis, um dos blocos de Campelle.
Ao chegar na biblioteca, vejo meu pai conversando com o próprio marechal. Passo por eles, fazendo antes uma reverência e me escondo entre as estantes.
Marvin vem a minha mente, porque ele não havia me denunciado mais cedo? Porque ele ficou com medo quando um dos ministros entrou na sala secreta?
Minha mente estás cheia de perguntas, mas eu deveria focar no meu trabalho. Pego alguns livros que estavam desorganizados e os coloco em seus devidos lugares.
—Liatris onde você estava ?-pergunta meu pai vindo em minha direção.
—Eu passei para ver Caliandra -minto.
—A sim.
Saio de perto do meu pai rapidamente, eu não era boa em mentir. Volto a organizar os livros tentando manter o foco no trabalho, mas um certo par de olhos verdes não saia de minha mente.
***
A noite cai, deixando o céu em um azul profundamente escuro. Meu pai havia saído para visitar um amigo que estava doente, me deixando sozinha.
Me distraio novamente com um livro, que falava de uma princesa e uma maçã envenenada. Eu amava livros de fantasia, eles sempre me levavam para conhecer novos mundos.
Guardo o livro de volta na estante e fecho a biblioteca. Já era tarde, então a saída dos fundos deveria estar fechada. Me dirijo até a saída principal, que era a única aberta a noite.
Os corredores do palácio, estavam escuros e imersos no silêncio, como o de costume. Chego até a saída, hoje Kai está na vigia com outro guarda.
—Boa noite -cumprimento ambos.
—Boa noite -eles respondem.
—Kai você está bem ?-pergunto parando em sua frente.
—Pequena, você sabe que eu não posso ficar conversando durante o expediente -diz ele baixinho.
—Então depois a gente conversa -digo me despedindo e volto a andar.
O jardim estava iluminado somente com alguns postes de luz fraca. Passo por ele e noto uma silhueta sentada em um dos bancos. Era Marvin.
Um impulso desconhecido por mim, toma meu corpo e me guia em sua direção.
—Oi -digo me aproximando.
—Oi.
Me sento ao seu lado e o silêncio paira no ar. As vezes eu acho Marvin meio solitário. Ele tinha uma irmã mais velha Margot, porém ela se casará com um dos ministros e se mudará para Amarilis.
—Por que você não me denunciou mais cedo? -pergunto olhando pra ele.
—Porque meu pai ficaria louco se soubesse que eu sei daquela biblioteca.
Eu o encaro confusa, ele era o sucessor, por que o pai dele se preocuparia ?
—Você também não pode ler?
—Apesar de eu ser o "sucessor", tem certos livros que eu também não posso ler.
Olho para o céu, ele está escuro e com poucas estrelas. A lua rouba todo o brilho, se destacando no céu negro. Meu olhar desce para Marvin, ele está me encarando com um sorriso nos lábios.
—Eu ainda não sei seu nome -diz ele arqueando a sobrancelha.
—Liatris.
—Então senhorita Liatris, perdoe-me, mas terei que ir pra casa agora -diz ele dando um sorriso.
—Tudo bem, eu tenho que ir para minha casa agora também- digo me levantando.
Me levanto e uma rajada de vento frito bate em meu corpo, me fazendo arrepiar. Eu havia esquecido meu casaco na biblioteca, então abraço meu corpo e começo a andar em direção ao portão.
Sinto algo quente e macio pousar em meus ombros, Marvin havia tirado seu casaco e colocado sobre meus braços.
—Não precisa -digo.
—Eu não posso deixar uma bela dama passar frio -ele fala e eu sinto minhas bochechas esquentarem- até breve.
Ele sai do jardim e ruma até a porta principal. Seu casaco tinha um cheiro bom, o cheiro de Marvin, me abraço ao mesmo e volto a seguir meu caminho.
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