A Máscara
24 Capítulo 24 - A invasão.
Notas iniciais
Eu sabia que não poderia esconder minha reação dele. Meu coração disparou, o vampiro era capaz de ouvi-lo de onde estava. Minhas mãos transpiraram e senti o rosto enrubescer. Minha resposta tinha que condizer com essas reações.
— Onde encontrou isso? — minha indignação era legitima. — Não devia mexer nas minhas coisas — talvez ganhasse tempo para pensar, acusando-o.
— Você me perrtence agorra, nóm deve esconder nada de mim, ma petit — apesar das palavras gentis, eu conhecia aquele olhar e aquele tom modulado. Meu estômago deu uma volta inteira de ansiedade.
— Eu roubei — as palavras saíram sem que eu processasse. Era algo muito caro e antigo para ter sido um presente, a menos que eu admitisse que Conner havia me dado, contudo isso seria uma pista muito perigosa. Ele poderia ligar os pontos e não haveria nada que eu pudesse fazer para impedi-lo de destruir a não-vida de Conn.
— Como? — ele parecia confuso.
— Foi no porão. Tem muitas coisas antigas acumulando poeira naquelas estantes. Estive lá para salvar Conner e achei que uma peça tão linda não deveria enferrujar ali.
Me assustei com a gargalhada estridente que ele soltou de uma hora para outra. Deve ter acreditado no que eu disse.
— Eu nunca poderria imaginar que gostava de joias. Você nóm me parrece o tipo de garrota que se imprressiona com isso.
Dei de ombros, ainda mantendo meus olhos longe dos dele, temerosa de que pudesse ler minha alma se me olhasse com atenção.
— Sou como qualquer garota — menti outra vez.
— Sabemos que nóm é verrdade.
Ele se virou para o espelho mais uma vez e passou os dedos pelo cabelo. Piscou em minha direção, depositou o camafeu sobre a cômoda e saiu.
Só consegui respirar depois de sua partida.
Tomei um banho rápido e vesti uma das camisas do príncipe outra vez, coloquei o camafeu num dos bolsos. Estava distraída pensando na noite perfeita que eu tinha passado com Belphegor, quando Suzanne entrou abruptamente no quarto. Fiquei tão fora de mim pensando em como contaria a ela o que havia feito, que nem percebi que a carniçal estava pálida e tremula, provavelmente tinha corrido até o quarto.
— Onde está o príncipe? — perguntou sem fôlego.
Foi então que notei sua expressão de desespero.
— Oh, Cristo! Suzi, o que houve? — caminhei apressada até ela e segurei em seus ombros, procurando por seus olhos.
— Ele tem que te tirar daqui, Clarice, agora.
— Bel se foi há alguns minutos, não sei para que lugar.
— Essa não! — ela limpou a testa que estava molhada de suor.
— O que houve? — insisti.
— Venha comigo, vou tentar te tirar daqui.
A ruiva me agarrou pelo braço e me conduzia apressadamente pelas escadas, eu tropeçava nos próprios pés, mas a carniçal não dava tempo para que eu recuperasse o equilíbrio, me fez segui-la aos tropeços.
— Me diga o que está acontecendo, droga! — elevei a voz.
— A mansão foi invadida por Maxwell e seu exército. Tenho que te tirar daqui.
— Co-como é? — não conseguia coordenar os passos.
— Não temos tempo, Clarice — Suzanne me empurrava escada a baixo.
— Não entendo — disse tentando acompanhá-la. — A casa está cercada pelos súditos de Belphegor e Raleph. Vou ficar bem, Maxwell não terá qualquer chance — estava convicta.
— Não seja tola — Suzanne ainda me arrastava pelas escadas.
Já era possível ouvir móveis se partindo, paredes sendo quebradas. Os vampiros não estavam muito distantes de nós.
— Max fez um acordo com Raleph para que facilitasse sua entrada na casa.
— Isso não é possível. Raleph deve um favor a Belphegor, não o trairia dessa maneira.
— E acha que vampiros honram acordos ou favores? Sua inocência chega ser cômica. Essas criaturas não respeitam nada – Suzanne me levou até um quarto escuro no subsolo da casa. Havia um tampão de madeira que se confundia com o piso, ela o abriu com minha ajuda, estava emperrada. Só o que eu via dentro do alçapão era uma escada de ferro.
— Desça e siga os corredores. Vai encontrar a tubulação do esgoto que te levará ao bueiro da rua. Não fale com ninguém. Acredito que a Aliança esteja rondando a mansão. Se eu conseguir encontrar Bel, talvez você tenha uma chance de sobreviver — Suzi parecia desesperada.
— Por que Raleph faria isso com Belphegor? — parei depois de descer os primeiros degraus.
— Sua curiosidade ainda vai te matar — ela revirou os olhos quando percebeu que eu não desceria sem a explicação. — Raleph é obcecado por Belphegor, assim como todo mundo. Ele sabe que nunca terá chance alguma com o príncipe, mesmo sendo dono de uma beleza angelical é rejeitado por Bel. Isso deve ter abalado seu ego. Raleph não é do tipo que leva uma rejeição numa boa. Se você for mesmo tótem do príncipe, sua morte deixaria o vampiro vulnerável e Raleph poderia tê-lo com facilidade. Max deve ter prometido dar Belphegor para ele, se tivesse ajuda em te capturar — Suzanne explicou apressadamente, olhando a todo instante para a porta do quarto, aflita. — Agora some daqui, vou tentar achar Bel.
Mesmo refletindo na explicação de Suzi, segui seu conselho e desci os degraus. Pude ouvir o barulho que a tampa de madeira fez quando ela voltou a trancá-la.
Estava só, num lugar completamente escuro e úmido. Meus pés estavam submersos em um líquido mal cheiroso. O plano de fuga parecia razoável, contudo, nesse momento comecei a duvidar de sua eficácia. Não conseguia enxergar um palmo diante do nariz.
Meu cheiro atrairia os vampiros, talvez fossem capazes até mesmo de ouvir meus passos, que agitavam a água que encobria o chão.
Dei alguns passos inseguros, com as mãos estendidas diante do corpo. Estava amedrontada, vampiros furiosos reviravam a mansão de Raleph para me matar. Como Belphegor me encontraria aqui sem atrair um exército de vampiros furiosos atrás dele? Era provável que o seguiriam, sabendo que ele os levaria ao Santo Graal.
Logo meus passos tímidos se tornaram apressados. Em determinado momento tropecei em alguma coisa, caindo assim de joelhos no chão. Fiquei encharcada depois da queda, mas isso não me impediu de levantar e continuar andando apressada no escuro.
Já havia percorrido um bom trecho quando senti que não estava sozinha. Nada justificava essa minha sensação, não podia ver nada, nem ouvir o menor dos ruídos, no entanto eu sabia que estava sendo observada e por essa razão parei de caminhar. O único barulho audível nesse momento era o de minha respiração apressada e de meu coração batendo agitado. Olhei para todas as direções, no entanto meus olhos só registravam uma escuridão absoluta.
— Quem está aí? — perguntei sibilante.
A única resposta foi o eco de minha própria voz. Fiquei arrepiada de repente, me abracei, como se isso pudesse me proteger. Não posso dizer quanto tempo fiquei ali parada, me pareceu uma eternidade.
Foi então que ouvi um riscar de fósforo. A criatura aproximou a chama de seu rosto para que eu pudesse vê-la. Não pude impedir que um grito escapasse da minha garanta. Vislumbrei um legítimo vampiro.
Pude perceber o que era a "máscara" nesse momento. A criatura que estava diante de mim era simplesmente assustadora. Seus olhos possuíam uma cor esbranquiçada, totalmente antinatural, sua pele pálida tinha um tom esverdeado, sua pálpebra era arroxeada, assim como seus lábios. Era possível ver as presas afiadas no canto de seus lábios. Não parecia em nada com um ser humano. Não tinha a beleza atrativa de Belphegor, Conner ou Raleph.
Logo a frágil chama do fósforo se apagou. Estava novamente no escuro e sabendo da presença de um vampiro assustador.
A criatura me abraçou por traz. Pude sentir apenas o frio mórbido que passava do seu corpo para o meu. Ele acariciou meu rosto e senti suas unhas cumpridas arranhar minha face. O sangue escorria dos cortes provocados pelos arranhões. O vampiro passou a lamber meu rosto, de um jeito desconcertante, sensual e assustador.
— O que uma menininha faz sozinha no esgoto? — perguntou com sua voz fúnebre em meu ouvido. Mesmo paralisada pelo medo, obriguei-me a respondê-lo.
— Maxwell venceu. Acabe logo com isso — minha voz estava fraca, demonstrando que eu estava apavorada. Não compreendi o motivo, no entanto o vampiro se afastou.
— Maxwell? — perguntou ele. — Quem e você, menina?
Senti um nó se formar em minha garganta. Se ele soubesse que eu era o tótem de um príncipe, provavelmente minha morte seria mais lenta e agonizante, por esse motivo não respondi a sua pergunta. Ficamos em silêncio durante algum tempo, e então uma lanterna foi acesa por outro vampiro. A luz em minha face me cegou, fechei os olhos e os protegi com minha mão. Assim que me habituei à luz, percebi que havia um número considerável de vampiros me cercando. Todos tinham aparência de cadáveres e estavam nus.
— A mansão do príncipe Raleph fica aqui em cima — um deles comentou. Havia desdém e seu tom de voz.
— Não é possível que essa menina seja Clarice — o vampiro que me arranhou observava-me minuciosamente. — Belphegor não a deixaria só — acrescentou.
— Deve estar havendo um ataque na mansão. Belphegor deve tê-la escondido aqui — disse outro, com um sorriso malicioso.
O vampiro que me arranhou voltou a me abraçar por trás. Sua mão agarrou meu rosto com violência.
— Se essa menininha for Clarice, hoje é sem duvida meu dia de sorte — ele fez uma pausa, enquanto me farejava como um cão.
— Nada me daria mais prazer do que fazer de Belphegor um Nosferatu como nós.
O vampiro me soltou. Desabei no chão.
— Vai morrer de qualquer forma, menina — acrescentou. — Porém, se for mesmo à famosa Clarice, faremos dessa ocasião um grande evento.
Num gesto involuntário, me arrastei para longe do vampiro que me sentenciava a morte. Fui travada pelas pernas de outro vampiro que estava atrás de mim.
— Quem cala, consente — foi o que ele disse ao se abaixar, me mostrando suas presas ameaçadoras.
O monstro me agarrou pela gola de camisa e me suspendeu até que meu pescoço estivesse ao alcance de suas presas. Tentei me debater, inutilmente, era muito inofensiva em suas mãos. Podia sentir seu hálito gélido em meu pescoço quando disse aos companheiros:
— Cada um terá sua vez, eu começo.
Após essas palavras a criatura cravou suas presas animalescas em meu pescoço. Diferente da sensação de quando fui mordida por Conner, dessa vez senti uma dor excruciante. Era como se minha vida estivesse sendo arrancada abruptamente de mim. A ferocidade com que me sugava era tamanha que imaginei por um momento que não sobraria muito de mim para os outros. Talvez isso fosse bom. Talvez fosse mais rápido do que eu imaginava.
Não posso dizer o que aconteceu precisamente após isso. Alguma coisa arremessou o Nosferatu que me sugava para longe. Cai no chão, sem forças para me mover. Estava fraca e zonza, quase completamente submersa pela água que forrava o chão. Estava semiconsciente, e a escuridão também dificultava que visse com clareza o que acontecia.
Podia ouvir gritos, passos, pancadas, grunhidos. Alguém me tirou do chão. Era alto, forte, com tatuagens espalhadas pelo braço. Durante a confusão, a lanterna que ele segurava caiu. Pude ver pela luz turva alguns Nosferatus paralisados pelo chão, com estacas atravessadas no peito.
O homem disse em alta voz:
— Recolham esses vermes, vamos coloca-los ao sol. Hoje vai ter churrasco lá no Complexo — gargalhou.
Homens e mulheres segurando lança-estacas obedeceram a seu líder.
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