A Máscara
17 Capítulo 17 - O Abraço.
Notas iniciais
Já era de se esperar que o vampiro não me obedeceria. Pelo contrário, puxou um caixote e sentou-se próximo a mim.
— Tenho que te contar o motivo de querer desesperadamente minha liberdade. Isso remonta a tempos antigos. – Conn fitava lugar algum, parecia perdido em recordações tristes. Quando voltou a falar, havia amargura em seu tom:
— Aconteceu em 1810, no Canadá. A lua prateada adornava o céu aveludado de uma noite fria. Eu era um rapaz de 24 anos, completamente apaixonado por uma jovem que morava num povoado distante. Era possivelmente a noite mais feliz da minha vida. Voltava a cavalo da casa de Sophie, ela e seus pais haviam permitido que eu lhe fizesse a corte.
Meu pai era dono de um armazém, eu passava o dia atarefado na loja, o único tempo que me sobrava para visitar Sophie era à noite. Nunca havia voltado tão tarde, mas foi durante essa visita que nos beijamos pela primeira vez, por essa razão não estava preocupado com o horário.
Já perto de meu vilarejo avistei um homem andando a beira da estrada. Mesmo a certa distância pude notar que sua figura era singular. Ele vestia trajes esfarrapados, mas sua altivez era propícia da realeza, sua pela clara cintilava e seu nariz proeminente lhe conferia um ar importante.
Ele ouviu o barulho do galopar de meu cavalo e posicionou-se no centro na estrada estreita.
O animal assustou-se com a figura do homem em nossa frente, e num impulso jogou-me ao chão.
A violência do arremesso provocou uma contusão em meu tornozelo direito, além de escoriações no cotovelo.
O homem andou até mim, com passos ansiosos. Foi a primeira vez que vi um vampiro.
Seus cabelos ondulados, num castanho avermelhado, atingiam a altura dos ombros, seu olhar era similar ao de uma serpente que hipnotiza a preza antes de dar o bote.
Um líquido preto escorria por seu pescoço, não pude identificar o que era aquilo.
Tentei recuar, arrastando-me pelo chão, consciente de que eu corria perigo. É óbvio que não havia escapatória. Num piscar de olhos o homem estava em cima de mim, imobilizando-me com uma força animalesca. Assim que me fez rendido, alcançou meu pescoço com seus caninos afiados, enterrando seus dentes ali.
Gritei, me debati, mas isso não foi o suficiente para detê-lo.
Em algum momento, em meio ao desespero, percebi que sua orelha estava ferida, era dali que o líquido negro escorria. Numa tentativa de me livrar dele, agarrei sua orelha com meus dentes, mordendo-o com toda força que restava em mim.
Senti um gosto doce quando o líquido escorreu por minha garganta e suguei aquele ferimento com ânsia para sentir mais e mais aquele sabor. Não muito tempo depois disso perdi os sentidos.
Quando despertei, o sol agredia minha pele de uma forma inédita. Era insuportável estar embaixo daquela luz, não era como simplesmente ser queimado, eu sabia que ele era capaz de me pulverizar. Arrastei-me até estar em segurança sobre a sombra. Em pouco tempo minha pele estava restaurada, aqueles ferimentos do sol não mais incomodavam. Me sentia incrivelmente poderoso, como se nada fosse capaz de me vencer.
Sentia-me mais alto, mais forte e mais inteligente.
Fui lavar meu rosto em uma mina de água que escorria entre pedras e vi meu reflexo na poça d’água, estava tão belo que nem me reconheci. Entretanto, havia uma angustia que me apertava o peito. A falta de algo vital, algo que eu não sabia explicar o que era.
Com o passar das horas, essa angustia me inquietava ainda mais, eu sabia que precisava fazer alguma coisa para controlar essa dor, mas não podia saber como.
Com o cair da tarde e com o sumiço do sol, caminhei com o objetivo de ir até o armazém de meu pai, procurar explicação para o que me acontecia. No caminho, porém, deparei-me com um menino que soltava pipa.
Distraído com o brinquedo no céu, o garoto tropeçou em uma pedra e caiu de joelhos. Se isso tivesse ocorrido em uma outra ocasião, eu teria corrido até menininho para verificar se estava bem. Mas dessa vez não tive compaixão. Era como se nada existisse ou importasse além de mim mesmo.
Quando o garoto colocou-se em pé, vi o sangue escorrer por sua perna e manchar sua calça curta. Mesmo distante, era possível sentir o cheiro apelativo dele. A angustia em meu peito gritou tão alto que me ensurdeceu. Antes que eu pudesse refletir estava grudado no pescoço do menino. Seu sangue preenchia o vazio em mim.
A angustia não incomodava mais, me sentia autossuficiente, completo.
O garotinho caiu sem vida no chão, com a marca dos meus dentes em seu pescoço e mais uma vez algo dentro de mim me incomodava, foi então que me dei conta de que enquanto estivesse sugando sangue e matando pessoas isso passaria. Foi o que passei a fazer, displicentemente.
Matava todas as pessoas que cruzavam meu caminho.
Durante uma manhã, enquanto estava sonolento, recostado à sombra de uma grande árvore, senti algo atravessar meu peito, não foi doloroso, no entanto eu era incapaz de me mover.
Fui arrastado por um grupo de homens que usavam túnicas pretas com um emblema na altura do peito, a letra “V”.
Levaram-me para um galpão como esse, lá encontrava-se um trono suntuoso, provavelmente esculpido em ouro e cravejado de pedras preciosas. Havia um rapaz sentado sobre ele, soberbo, majestoso, arrogante, orgulhoso, vaidoso. Seus olhos reluziam mais do que qualquer pedra rara de seu trono, sua beleza reduzia todos ao seu redor a mediocridade.
Colocaram-me ajoelhado diante dele, ao lado de outro vampiro, que também tinha uma estaca lhe atravessando o peito.
Os homens encapuzados formaram uma fila indiana diante do trono. Um por um ajoelhavam-se e beijavam a mão direita do jovem sentado no trono, devotadamente. O príncipe usava um anel prateado, num de seus dedos longilíneos e brancos, mais iluminado do que o próprio céu noturno, com a mesma letra V da túnica de seus servos gravada no acessório.
Depois dos cumprimentos, o rapaz aloirado, que usava uma capa carmim, pôs-se em pé e caminhou graciosamente até nós.
Disse com um tom autoritário, num inglês perfeito:
“Informo-lhes que pus fim aos dias de festança. Agiram com desatenção, desrespeitando seus superiores e arriscando a máscara. Foram julgados e sentenciados. Que a morte eterna vos acolham. Um de vocês “abraçou” um humano sem minha autorização, abandonou-o sem orientação, cometendo uma dano irreparável e imperdoável. O outro agiu de forma irresponsável, vitimando pessoas da mesma região, sem encobrir os rastros e fazendo com que autoridades humanas investigassem o motivo das mortes. Em nome da máscara os punirei por seus erros. Foram considerados por mim, príncipe Belphegor, culpados. Não terão mais o beneficio de fazer parte de nossa irmandade e serão decepados do privilégio da vida eterna”.
O príncipe aproximou-se do vampiro que me transformou em um deles, retirando a estaca de seu peito.
“Por favor, Alteza...” falou o vampiro, atropeladamente. “Suplico-lhe misericórdia, meu Senhor. Está havendo um mal entendido. Sei do decreto da proibição de se fazer afilhados no Canadá e não descumpri essa ordem voluntariamente. Envolvi-me numa briga com o clã dos Giovanni´s, esses desgraçados me feriram a orelha. Estava sangrando quando ataquei esse rapaz, não tive culpa por ele sugar meu ferimento. Não dei meu sangue a ele, Príncipe, nunca tive a intenção de lhe desobedecer. Rogo-lhe que tenha clemência, sou seu escravo, cumpridor da lei. Dignifico a máscara e honro meu Senhor”, implorou o homem, evidentemente transtornado.
“Não há trato com culpados” esbravejou o príncipe. “Nada justifica tamanho desleixo com um assunto tão sério” revirou os olhos com desdém ao ordenar que o matassem.
Um dos soldados encapuzados decapitou o vampiro ao meu lado com um único golpe de machado. A cabeça do meu criador rolou até ser bloqueada pelo meu joelho. Fiquei apavorado.
Belphegor caminhou até mim e retirou a estaca do meu peito. Sentia-me fraco, no entanto eu sabia que precisava salvar minha vida a qualquer custo.
“Majestade”... minha voz era fraca e desesperada. “Compreendo vossa fúria, vi que és um príncipe cumpridor das leis, no entanto seria injusto matar-me pelos erros de outro alguém. Que culpa incorro eu no descuido do meu criador? Posso ser responsabilizado por não cumprir normas que nem sequer sabia da existência? Como poderia seguir leis que não conhecia? Peço uma chance, não mais que isso, Alteza, para provar que não há outro que cumpra a lei mais devotadamente que eu próprio. Mostrarei-me digno do Senhor e da máscara, empenharei cada segundo de minha existência nesse compromisso. Serei leal a ti, meu Senhor, como se fosse meu criador e tudo o que me pedirdes será feito como que para mim mesmo”.
Belphegor olhou-me de uma forma indecifrável, considerou minhas palavras por longos segundos. Disse por fim:
“Pois bem, meu servo, sua petição foi ouvida. Pareceu favorável aos meus ouvidos seus argumentos. Será nomeado Ventrue, como nós. Deve-me sua segunda vida, como se eu fosse seu criador. Será leal a mim e estarei a cima de tudo para ti, até acima de si próprio. Felizmente, para você, vivemos num tempo em que dispensar servidão eterna não é inteligente. Concedo-lhe o privilégio de ser meu servo e deve a mim lealdade incondicional”.
Foi assim que me transformei num Ventrue, não demorou até que meus serviços fossem reconhecidos e logo tornei-me o braço direito de Belphegor.
—Uau! – disse, assim que ele finalizou a história. — Devia se envergonhar por traí-lo dessa forma, ele foi muito misericordioso com você. – reprimi um riso ao ver a careta inconformada de Conn.
— Ficou louca? Sempre vivi uma vida de negação. Fui humilhado e tratado como um carniçal, sem ter a dignidade que um vampiro merece. Cheguei a me questionar, por décadas, se sobreviver foi a melhor opção. Mesmo infeliz cumpri minha promessa, fui leal a Belphegor. Nem ao menos o desobedeci ao me casar com você, afinal ele não ordenou que eu não fizesse isso. Mas admito que depois que a conheci as coisas mudaram de figura. Eu tinha em mãos tudo o que precisava para me vingar dele, para vê-lo humilhado. Bel não tinha uma fraqueza antes de você aparecer. Você me trouxe esperança.
A chuva parecia ter enfraquecido. Apesar de eu desejar estar em outro lugar, com outra pessoa, achei que minha conversa com Conner tinha sido esclarecedora. Agora eu o entendia melhor. Ele não estava apaixonado, fascinado, encantado por mim, nem nada parecido. Conn me encarava como a oportunidade de vingar séculos de maus tratos. Só estava confuso com o grau de importância que eu tinha pra ele.
— Quem está lutando com Bel e seu exército? – Conn pareceu não se aborrecer com a mudança brusca de assunto.
— Os caçadores da Aliança, temos um acordo. – sorriu de lado, empregando todo seu charme no gesto.
— Você é mesmo um Judas! – acusei-o. — Que tipo de acordo? – exigi.
— Gage os acobertará com os anciãos se por algum motivo a máscara ficar exposta, mas caso você seja capturada com os vampiros, precisam garantir sua integridade física. – balancei a cabeça incrédula. — Lembra-se que quando fugimos juntos da casa de Raleph te pedi que fizesse um x com os braços no alto da cabeça? – prosseguiu ele. Apenas assenti. — Pois então, era para que os caçadores da Aliança, que estavam nos observando, nos dessem cobertura contra qualquer um que nos impedisse. Eles estavam no alto, com as armas contra vampiros e outras criaturas sobrenaturais em punho. Às vezes é muito proveitoso fazer acordos com outros grupos.
— Você é sujo, Conn. – ele sorriu, como se isso não fosse algo ofensivo, mas era.
— Vamos! Já é hora de devolver a princesinha para seu príncipe. – ele fechou o semblante com sua declaração.
Levantei-me. — Pela primeira vez acho que estou mais apegada ao Bel do que a você. – pensei em voz alta.
Conner ficou muito sério.
— Nada que eu tenha feito é mais condenável do que as coisas que ele faz. Não baseie seus sentimentos em quem faz coisas mais condenáveis, pois por pior que eu seja, ele ganha de mim. – o vampiro trincou os dentes.
— É. – concordei. — Não dá pra saber quem é o mais cretino. – me perdi nos meus pensamentos.
— Sim, Clarice, somos vampiros, assassinos, perigosos, não confiáveis, mas temos algo em comum, você mudou nossas vidas. Infelizmente não podemos mudar nossa natureza má, mas se agora nos culpamos por ser quem somos, é por que gostaríamos de ser melhores por você. – e o desgraçado sabia usar muito bem as palavras a seu favor!
— Saiba que eu ainda estou brava com você. Não só por ter me drogado e me deixado para trás, mas por querer me manipular o tempo todo. Por querer me usar como uma peça no seu jogo. – minha voz estava mais rancorosa do que eu gostaria.
— Tem o direito de estar zangada. – disse calmamente. — Não importa aonde ele te leve, vou estar por perto.
— Espero que ele te capture. – praguejei, ele gargalhou, me fazendo ficar com mais raiva ainda.
Conner estendeu uma gargantilha para mim. — Quero que fique com isso.
— Não vai comprar meu perdão.
— Não quero comprar nada, garota! Só quero que fique com isso. – Peguei o objeto. Parecia antigo e caro. Havia um pingente oval com um rosto em perfil esculpido na pedra fosca. Uma obra de arte.
— É um camafeu. – seu timbre acariciou a frase. Sua voz estava impregnada de amor.
— É lindo. Obrigada! – eu passava o polegar sobre a superfície do camafeu.
— Bem, se a alma dele te pertence, agora a minha também. – pisquei confusa.
— O que?
— É meu tótem. – o objeto triplicou de peso na minha mão.
— Ficou louco? Não posso aceitar isso. – estendi a mão para ele.
— Quero que seja seu. – estava suplicante, se recusou a pegar a gargantilha. — Confio em você. – Conner estava testando minha sanidade. Era impossível que esse camafeu fosse seu tótem, ele não me daria.
— Não quero ser e nem ter o tótem de ninguém!
— Há a possibilidade de destrui-lo. – ele não falava sério!
— O que deu em você? – agora eu agarrava aquele pingente nas mãos, como se minha vida dependesse disso.
— Sabe, há um motivo para eu ter te escolhido naquela boate. – Conn se aproximou de mim. — Não foi obra do acaso, estamos sintonizados. Eu quero te pertencer. Agora minha alma também é sua, sou seu escravo. – repetiu. Também? O que aconteceu com esse vampiro? Bel não me pertencia e nem era meu escravo.
— Conner! – o segurei pelos braços. — Não quero possuir sua alma. Quero que a divida comigo, não que me dê. – alguma coisa mudou na expressão dele, parecia comovido.
— Essa é minha forma de dividir a melhor parte de mim. Se não aceitar me fará ofendido. — vi que não havia modo de fazê-lo mudar de ideia. Suspirei, segurando aquele objeto, que de repente parecia pulsar, como um coração, entre meus dedos.
Conner me beijou na testa, essa era nossa despedida.
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