A Lágrima de Pierrot
1 Capítulo Único - A Lágrima de Pierrot
Notas iniciais
Aquele era um grande dia para a escola François-Dupont. Mas também era um grande dia para Marinette. Toda a escola estava agitada e ansiosa para o grande festival de belas artes; sua turma, em especial, faria uma apresentação de teatro, para qual os alunos vinham há um bom tempo se preparando. O trabalho tinha enorme valia acadêmica, o que para Marinette seria essencial para, de certa forma, compensar suas faltas e atrasos. Não era de propósito... Apesar de todas as desculpas esfarrapadas – a última que usara foi de que se trancara acidentalmente no banheiro feminino — ela bem sabia que era por um bem maior: pelo bem de Paris, cumpria seu dever de super-heroína. Pois quando precisavam dela, Ladybug estava lá!
— Marinette! — gritou Alya para ela, acenando de longe, tirando Marinette de um transe distraído. Sorrindo, ela acenou de volta para a melhor amiga, que correu em sua direção, atravessando rapidamente o pátio principal do colégio. — Ai, amiga. Está ansiosa? Porque eu com certeza estou.
Conhecendo a amiga como ela a conhecia, Marinette não precisou de um contexto para saber do que a outra estava falando.
— O que você acha? — perguntou, agarrando as mãos de Alya com força. — Eu estou enlouquecendo! Ainda não consigo acreditar que escolheram a mim, euzinha, Marinette Dupain-Cheng, para ser a figurinista oficial da escola para o festival!
A voz de Marinette foi subindo de tom até se tornar um gritinho oitavado e eufórico, que foi logo acompanhado em dueto pela melhor amiga.
— Eu sei! — disse Alya, retribuindo o aperto de mãos. — Estou tão feliz por você, Marinette.
As duas trocaram um sorriso sincero. Marinette se sentia grata por ter Alya ao seu lado para apoiá-la em qualquer situação. Em momentos como aquele, ela se sentia mal por não poder revelar a ela seu segredo, principalmente sabendo que descobrir a identidade secreta (e tudo mais relacionado) de Ladybug era, provavelmente, a maior obsessão da menina.
— E eu por você! — disse Marinette, em retorno. — Afinal, você também foi selecionada para fazer toda a cobertura do festival para o jornal da escola.
— Eu ainda acho que estou sonhando! — Alya começou a se abanar rapidamente, como se subitamente estivesse sentindo muito calor. Mas Marinette bem sabia que ela estava apenas extremamente feliz. — A única coisa que poderia me fazer mais feliz agora seria se a Ladybug aparecesse no festival.
Marinette congelou. Isso sempre acontecia, toda vez que Alya insistia naquela história. A verdade era que o mero pensamento de ser forçada a estar em dois lugares ao mesmo tempo parecia simplesmente aterrorizante. Ela sempre fora extremamente cuidadosa com seu segredo. Podia ser atrapalhada, desengonçada, o que fosse. Mas aquela era uma responsabilidade que ela carregava com a própria vida e não havia nada que pudesse mudar aquilo; nem mesmo sua melhor amiga, em quem tanto confiava.
— Não sei se seria exatamente uma boa ideia... — disse Marinette, com um sorriso amarelo, levemente sem graça.
— E por que não seria? — Alya quis saber, pondo a mão na cintura de maneira teimosa e inquisitiva. Marinette quis rir quando o movimento brusco fez o óculos da menina escorregar até a ponta do nariz. Sem desfazer a expressão resignada em seu rosto, ela o ajeitou.
— Porque — Marinette começou a explicar e cruzou os braços, defendendo sua opinião — Se a Ladybug aparecer, isso significa que há problemas. E eu não gostaria de ter nenhum "super-vilão hipnotizado" estragando nosso festival.
Alya estreitou os olhos para a amiga por um instante, como se considerasse o que a outra dissera.
— É — disse, cedendo. Consertou sua postura, mas ainda não estava totalmente convencida. — Não tinha pensado por esse lado — admitiu. — Um akuma seria um desastre para o festival. Mas isso não muda minha opinião! Ter a Ladybug e o Chat Noir no nosso evento seria sensacional!
Marinette riu e apenas deu de ombros. Não tinha como discutir com Alya, principalmente quando o assunto era Ladybug.
— Tá bom, agora olha só isso aqui — ela tirou de uma das caixas de papelão que trouxera ao colégio naquela manhã um dos figurinos que fizera. O tecido reluzia em cores e brilhos, o acabamento era impecável e característico, algo de que Marinette se orgulhou muito (e Tikki também). A expressão maravilhada no rosto de Alya deixou claro que ela se sentia da mesma maneira. — E então, o que acha?
— Marinette... — A menina pescou rapidamente seu celular no bolso da calça e apontou a câmera na direção da roupa. Prontamente, Marinette sorriu para a câmera, tímida, mas não escondeu sua obra de arte. — Ficou perfeito!
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Depois de se despedir de Alya, Marinette passou o resto da tarde organizando e catalogando seus figurinos. Queria que tudo estivesse simplesmente perfeito para o grande evento e ainda havia muito o que fazer. Enquanto se envolvia em suas tarefas, a menina de quinze anos parou para observar o andamento de todo o trabalho. Todos estavam lá, no ginásio da escola, cada um cuidando de seus próprios afazeres. Havia um murmurinho geral, de conversas, risadas e ordens sendo dadas. Um cenário pacífico e normal. Nada de akumas, nada de maldade. Apenas adolescentes...
— Ouvi dizer que Gabriel Agreste vai estar no festival — disse Chloé, tirando Marinette de seu momento de distração da maneira mais desagradável possível, com aquele seu típico jeitinho esnobe. Gabriel era nada menos que um importantíssimo estilista francês, por quem Marinette nutria abertamente uma enorme admiração.
Marinette duvidava que aquilo fosse verdade. Gabriel Agreste raramente comparecia a eventos populares em pessoa, mas ela sabia de alguém que com certeza estaria: Adrien Agreste. Filho único de Gabriel, modelo oficial da grife de seu pai, Gabriel, colega de classe de Marinette, e também, sua paixão secreta – e provavelmente de mais de metade das adolescentes parisienses, inclusive a própria Chloé. Ela sabia que, ele não apenas estaria no festival, como também participaria da apresentação. Ele havia sido selecionado para o papel principal do espetáculo do teatro – o que não era nenhuma surpresa – ao lado de Chloé Bourgeois.
— Se isso for verdade, — prosseguiu a loirinha mimada, e apontou para os figurinos que Marinette organizava, com sua pior expressão de desdém — eu não exibiria isso, francamente, se eu fosse você.
Marinette apenas revirou os olhos.
— O que você quer, Chloé?
— Nada. — Ela checou o próprio estado das próprias unhas, apesar de estarem simplesmente perfeitas. — Só achei que devia te dar este conselho, sei o quanto você gosta de Gabriel Agreste. Não ia querer arruinar sua carreira com este lixo, iria? Alguém tinha que vir falar com você. — Ela abriu um sorriso venenoso e piscou seus longos e maquiados cílios. — De nada.
— É muita gentileza sua... — Foi apenas o que Marinette respondeu, sem se deixar afetar. Ela simplesmente não estava com a menor paciência para aquilo. Era típico de Chloé, não permitiria que aquilo estragasse seu dia.
— A propósito — Chloé continuou a dizer, não satisfeita com suas palavras odiosas. — Você soube que o Adrien vai contracenar comigo no teatro amanhã, não soube?
Como eu não saberia? Marinette pensou consigo mesma. Você está se gabando sobre isso a semana inteira. Todo mundo sabe que você e o Adrien tem um lance, sua cobrinha peçonhenta. Pelo menos é isso que você sai espalhando por aí, não é?
— Sim, é claro — Marinette foi tão seca em sua resposta quanto o deserto ao meio-dia.
— Nós não somos o casal mais perfeito da França? — Chloé uniu as mãos próximo ao rosto e suspirou apaixonada. Se eles eram realmente um casal ou não, ninguém sabia com certeza. Mas o que todo mundo sabia era que Chloé só era capaz de amar uma pessoa na face da Terra: ela mesma. — Por falar nisso, olha só pra ele. — Ela apontou para um ponto ao longe, perto do palco. Imediatamente, Marinette avistou o cabelo dourado e naturalmente desalinhado. Adrien caminhava lentamente, de um lado para o outro, com um papel na mão. Seus lábios se moviam, conforme ele lia o seu roteiro, e gesticulava com as mãos. Ele experimentou diversas expressões, como alegria, tristeza e pavor, em seu ensaio particular. Enquanto Adrien praticava sua parte, Marinette sentia seu coração se derreter. Ele é tão... — Pode dizer, ele é a criação mais perfeita da natureza, não é mesmo?
— Com certeza... — respondeu Marinette, esquecendo-se completamente de que estava conversando com Chloé. Por um momento, ela havia se esquecido até mesmo do próprio nome. Então a garota loira parou à sua frente, bloqueando a visão privilegiada que ela tinha de Adrien. Marinette piscou, voltando a si.
— Que bom que concordamos nisso — disse ela, com um gesto amplo de mão, fazendo suas pulseiras tinirem no braço. — Agora seja uma boa menina e observe de longe, sim? Adrien não precisa ser incomodado.
Com isso, Chloé se virou para ir embora. Então, quando Marinette finalmente achou que seria deixada em paz, a loira parou e olhou por cima do ombro.
— A propósito, Marinette — falou. — Não deixe de se desfazer desses trapos. Precisamos de um figurino descente até amanhã à noite, sim? Não me faça apelar para o meu pai.
As bochechas de Marinette se esquentaram de raiva. Ela respirou fundo e assistiu a menina se afastar e acenar para Adrien conforme se aproximava. Havia alguém mais lá, um rapaz ruivo, que Marinette não reconheceu de início. Ele conversava com Adrien, e também segurava na mão uma cópia de roteiro. Aparentemente, estava ajudando o jovem modelo a passar as falas. Assim que Chloé chegou até os rapazes, ela dispensou a atenção do ruivo com um gesto bastante desdenhoso e grosseiro, voltando-se única e exclusivamente para Adrien. Ela literalmente se atirou sobre ele em um abraço forçado e tentou lhe roubar um beijo. Quando ele virou o rosto, fazendo com que o beijo fosse plantado em sua bochecha, Marinette riu.
— essa menina não desiste, não é mesmo, marinette? — disse Tikki, sem sair de dentro da bolsinha em que ficava. — não deixe-a te atingir. você é melhor do que isso. você é a ladybug! — Marinette olhou para sua kwami e sorriu.
— Confie em mim, Tikki, ela é a menor das minhas preocupações... — Então ela olhou novamente para Adrien. Lindo. Pensar nele fazia seu estômago se encher de borboletas. Ela suspirou, conformada, e se levantou. — Vamos — tornou a falar para sua kwami. — Vou arranjar alguns cookies para você comer.
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O que Marinette não havia visto, enquanto se perdia em suspiros por Adrien, foi Jean-Pierre: o jovem ruivo que fora desprezado por Chloé e Adrien durante um simples ensaio. Quando viu que não teria a atenção de ninguém ali (além das palavras de Chloé: "Por que não vai caçar o que fazer e nos deixa ensaiar em paz?") precisava de sua ajuda, ele mesmo decidiu se retirar. O professor, e diretor da peça, o havia escolhido para ser assistente quando fora rejeitado nas audições para papel principal. Ele seria Arlequim e contracenaria com a belíssima Chloé Bourgeois, como Colombina. Não que ele se importasse com Chloé, mas aquele seria o papel de sua vida. Jean Pierre sonhava em ser um grande ator do teatro francês e queria que aquela fosse sua grande chance. Contudo, não foi bem isso que aconteceu.
O rapaz caminhou pesadamente, para longe de tudo e todos que estivessem envolvidos com o festival. Ele estava cansado daquilo. Adrien podia ser o mais bonito e o mais popular, mas era ele quem estava melhor preparado para o papel. Ele sabia todas as falas de trás para frente e ninguém jamais seria capaz de levar tanta emoção a uma plateia quanto ele. Mas é claro que ninguém entenderia sua arte. Ninguém o reconheceria. Nas audições, ele contracenou com Chloé, sua Colombina. Mas ela riu na sua cara. Disse que ele estava levando o papel de "palhaço" a sério demais. Aquilo amargou completamente o coração de Jean-Pierre. A princípio, ele não se deixou abater. Ainda poderia ser útil nos preparativos do festival e poderia contribuir para que a peça fosse um sucesso, mas quanto mais ele assistia da arquibancada, mais ele desejava estar sob os holofotes.
Uma lágrima correu por seu rosto e, recusando-se a chorar, ele pegou no bolso de sua jaqueta um lenço que carregava sempre consigo. Um presente de seu falecido avô, um brilhante ator de cinema, sua maior inspiração. Jean-Pierre, ao invés de enxugar sua lágrima, deixou outra rolar e apertou o lenço em sua mão com profunda amargura. Estava decepcionado. Desapontado consigo mesmo por não ser capaz de honrar o nome de seu avô. Por não conseguir realizar a única coisa em que de fato era bom.
Aquele pensamento consumiu seu coração. E também o corrompeu.
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Marinette girou o corpo de um lado para o outro em frente ao espelho, admirando o próprio trabalho. Usava um corpete vermelho, com detalhes de lindas fitas de cetim preto nas costas, que modelou seu corpo esguio com delicadeza e perfeição. Na base, um acabamento com tule e renda que ligava o corpete à saia do vestido, formando o conjunto total. O vestido era mais curto na frente e se alongava atrás em uma cauda de cetim, renda e um forro branco de tecido translúcido. Fizera um figurino especialmente para si mesma, sabendo que, mesmo não fazendo parte da apresentação, precisava divulgar o seu trabalho. Ainda duvidava muito que Gabriel Agreste fosse estar lá, mas e se estivesse? E mesmo que não estivesse, muitos outros nomes importantes estariam lá.
Ainda ao encarar o vestido, o que mais espantou Marinette foi o efeito que ele lhe causava. A imagem de si mesma vestida daquela maneira, fez com que ela se sentisse diferente. Sentia-se especial, forte e poderosa. Sentia-se como Ladybug, mesmo sendo apenas a Marinette. No lugar de suas habituais marias-chiquinhas, a menina prendeu seus cabelos negros-azulados, que herdara orgulhosamente da mãe, em coques trançados.
— você está linda, marinette! — disse Tikki, flutuando bem ao lado do rosto da menina.
Marinette olhou para o reflexo de sua kwami e lhe sorriu com doçura.
— Obrigada, Tikki. Eu ainda estou um pouco nervosa — confidenciou, apertando as mãos ansiosamente. — E se a Chloé estiver certa? E se meus figurinos não forem tão bons assim?
— não seja boba — Tikki falou, logo assim que percebeu a real aflição na voz da menina. — olha só para você, está fantástica.
Tikki deu um giro ligeiro no ar e desapareceu em algum lugar do quarto. Marinette a procurou com os olhos, mas não a encontrou. Tudo o que ouviu foi um barulho de coisas sendo reviradas, mas logo Tikki estava de volta.
— não se esqueça disto aqui — disse a pequena kwami, aproximando-se da orelha de Marinette. Tikki pegou uma mecha da franja da menina, seu toque tão delicado quanto a superfície de uma pena, e prendeu algo ao cabelo de Marinette.
Quando a menina olhou, se deparou com uma pequena presilha em formato de joaninha. Aquilo aqueceu seu coração e, surpreendentemente, deu paz a ela. Marinette sorriu.
— Eu adorei, Tikki, ficou lindo. Obrigada — disse, com sinceridade.
— não foi nada — respondeu a kwami, rindo timidamente. — é para te dar sorte!
Então Marinette sentiu, no fundo de seu coração, que teria sorte afinal. Não pela presilha, apenas, mas porque sabia que apesar de qualquer coisa, Tikki estava com ela.
— Acho que estou pronta, agora — disse Marinette. — Vamos, eu não quero me atrasar.
— pegou tudo, marinette? melhor ter certeza de que não está se esquecendo de nada.
A menina deu uma olhada geral, apenas para ter certeza de que não faltava nada, como Tikki a aconselhara. As caixas com todos os figurinos estavam separadas e devidamente catalogadas, e descansavam sobre a cama dela. Marinette, apenas por via das dúvidas, as abriu e verificou se estava tudo lá. Na última caixa, ela viu o figurino de Adrien. Parou por um momento, tirando-o da caixa, o tecido cheio de losangos coloridos e brilhantes parecia até sorrir para ela. Na tarde anterior, todos os atores fizeram a prova das roupas. Chloé, é claro, não poderia deixar passar sua chance de criticar o trabalho da colega de classe e fizera um trilhão de críticas e exigências, mas não Adrien.
Marinette levou a roupa até o nariz e inspirou o perfume que ali ficara. Ela sentiu o delicioso cheiro amadeirado, característico do rapaz, misturado com algo não tão agradável assim, que mais parecia... queijo camambert? Ela sorriu de canto e se pôs a pensar. Por alguma razão, ele parecia estar constantemente cheirando a queijo camambert. Talvez ele simplesmente goste muito de queijo.
No entanto, outro pensamento lhe ocorreu. Aquele cheiro de queijo camambert era estranhamente familiar. Marinette se forçou a lembrar de onde vinha. Provavelmente, da padaria dos meus pais. Eles vivem inventando coisas novas na cozinha. Mas não, ela sabia que não era isso. Então lembrou-se de uma luta que tivera há cerca de dois dias, em que um astrônomo akumatizado – chamado de "Cometa" – a encurralou no alto do observatório do planetário de Paris. Naquele momento, se não fosse por seu parceiro Chat Noir... É isso! O Gato Preto a salvou bem a tempo, mas sendo ele quem era, não perdeu sua chance de galantear para cima de sua Lady. A proximidade fez Marinette reparar nele um forte aroma de queijo camambert.
— podemos ir, marinette? — perguntou Tikki, livrando a menina de seus devaneios.
— Tudo pronto, Tikki — afirmou, deixando de lado por completo aquele assunto. —Está tudo aqui, podemos ir.
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O ginásio do Collège Françoise Dupont estava inteiramente decorado para parecer um gigantesco anfiteatro. Quando Marinette chegou, o festival ainda não havia começado, mas uma pequena multidão de convidados já se formava nos âmbitos do colégio, ansiosos para entrar. Ela começou a sentir o nervosismo e ansiedade a invadirem novamente e apertou as caixas que carregava com um pouco mais de força. Respirou fundo, tentando se acalmar e pensou em Tikki.
— fique calma, marinette, eu estou aqui — disse a kwami de dentro da bolsinha preta que Marinette trouxera consigo, apenas para manter Tikki em segurança, e também para estocar alguns cookies, que àquela altura já deviam ter sido devorados.
A presença de Tikki fez com que Marinette se sentisse mais segura. Somente então, ela se permitiu relaxar, embora o frio na barriga permanecesse. Contra isso, não tinha o que fazer, era uma noite muito importante para ela. Olhou para o fluxo de pessoas em geral; já tinha bastante gente e muito mais ainda por chegar. Isso causou nela um leve calafrio. Já devia ter se acostumado com multidões a esta altura, Marinette, foi o que disse a si mesma, na intenção de se manter calma. Além disso, se quiser ser uma fashion designer famosa um dia, vai ter que aprender a lidar com esse tipo de atenção, com ou sem Ladybug!
O turbilhão que se passava pela sua cabeça se silenciou no instante em que avistou Adrien. Ele não a viu, pois estava distante; ele estava vestido com um elegante smoking, sem gravata, o que deixava sua aparência simplesmente descolada e jovial. O cabelo loiro estava penteado, ligeiramente puxado para trás. Ela jamais saberia dizer por quanto tempo ficara aérea daquela maneira, completamente estatelada pela visão da mais pura perfeição, que era Adrien Agreste. Mas Alya, que já estava mais do que acostumada, com certeza sabia.
— Marinette! — gritou a menina para a amiga, estalando os dedos na frente do rosto de expressão avoada. — Acorda pra vida, minha filha!
Marinette piscou rápido, assustada, e pareceu surpresa ao se deparar com Alya na sua frente.
— Ah, Alya! — Ela forçou o seu melhor sorriso, mas não deixou de rir sem jeito. — Desculpe, eu... eu não te vi — gaguejou.
— É, eu percebi — Alya cruzou os braços firmemente contra o peito, mas não estava realmente chateada por isso. Acontecia com muita frequência para ela se deixar afetar daquela maneira.
— Uau, você está sensacional — disse Marinette, logo assim que pôs os olhos na roupa da melhor amiga. Ela vestia um lindo vestilo longo, azul escuro, e disse adeus ao par de óculos, o que trouxe a ela uma aparência sofisticada, bem diferente do que se costumava ver em Alya. O cabelo tivera seus cachos reforçados e presos em um penteado lindo, e ela também parecia usar uma presilha brilhosa prateada.
— Você achou?! — perguntou, avaliando a si mesma. — Eu estou me sentindo tão estranha, não estou acostumada com essas coisas... — Segurou a saia do vestido e virou de um lado para o outro. — Mas ficou bom, não ficou?
— Magnifique! — Marinette falou, com extrema franqueza.
— Mas o que dizer de você... — Alya deu uma boa olhada na melhor amiga. — Está estonteante, que roupa incrível! Eu preciso tirar uma foto.
— Não, Alya, por favor agora não. — Estava tímida ainda, não queria atrair a atenção para si com a amiga disparando flashes em sua direção. Mas o motivo não era inteiramente esse. — Eu preciso ir levar essas coisas para os bastidores — apontou para as caixas que trazia, as pusera em um carrinho que deixara reservado lá para si no dia anterior. — A professora vai me matar se eu não estiver lá com os figurinos nos próximos vinte segundos!
Alya ergueu as sobrancelhas, numa expressão alarmada.
— Então é melhor correr, ela estava mesmo procurando por você. — Disse e apontou numa certa direção. — Siga por ali, tem menos gente e o acesso é mais rápido para os bastidores do palco. Vá!
E Marinette foi, despedindo-se com um aceno agradecido. Apressou o passo e driblou agilmente as pessoas no seu caminho, avançando pelo ginásio com pedidos de licença apressados e temendo pelo próprio pescoço. Parou e olhou de um lado para o outro, procurando o tal acesso de que Alya havia dito.
— My Lady? — Marinette sentiu seu sangue congelar ao ouvir aquela voz. Não podia ser... Chat Noir? Quando olhou para trás, não viu absolutamente ninguém.
Seu alívio foi visível, mas seu coração ainda martelava no peito com a ideia de ter tido sua identidade secreta descoberta. Mas que coisa estranha... pensou. Eu podia jurar que tinha ouvido –
— Marinette, o que está fazendo aí parada? — Alguém lhe segurou com força pelo braço e começou a arrastá-la. Era a professora de artes cênicas, e parecia um tanto nervosa.
— E-eu estava procurando os bastidores — explicou, sem jeito. — Obrigada, mademoiselle Albert.
— Ça va, ça va — "Tudo bem", ela disse com um gesto desdenhoso. — Vamos logo, você está atrasada.
— diga uma novidade — cochichou Tikki, para Marinette, rindo.
— Quieta, Tikki! — Marinette a repreendeu, cochichando de volta enquanto era arrastada a força para os bastidores.
— O que disse? — perguntou a professora.
Marinette riu, sem graça, e coçou a nuca
— Nada, nada.
Nos bastidores, Marinette, juntamente com a professora e dois outros alunos, começaram a fazer as distribuições dos figurinos. Todos pareciam extremamente encantados e encheram Marinette de elogios – tanto ao que usariam naquela noite, quanto ao que ela estava usando. A professora, contudo, embora tivesse deixado clara sua satisfação, não estava dando muita atenção a isso. Parecia preocupada e distraída, ao mesmo tempo em que muito agitada. Olhava para todo canto, como se procurasse alguém.
— Sacré bleu! Alguém viu meu assistente Jean-Pierre? — perguntou ela, com as mãos na cintura.
— Não senhora, — foi Adrien quem respondeu. Marinette sentiu um beliscão no antebraço, vindo de Tikki, quando entrou naquele estado de hipnose que ela assumia toda vez que estava na presença do jovem Agreste. — Eu não o vejo desde ontem à tarde. Estou preocupado.
A mulher suspirou pesadamente e esfregou as têmporas, parecia nervosa.
— Não importa, o show tem que continuar! Vamos, vamos todos! — Bateu palmas, para agitar o movimento do elenco. — Preciso que estejam todos prontos, nada pode dar errado!
Então ela se retirou, batendo os saltos no assoalho. De fato, Marinette se pegou pensando na última vez em que vira Jean-Pierre. Ele estava sendo "agraciado" pela aciado" pela gentileza de Chloé ali mesmo, perto do palco. Mas não se recordava de tê-lo visto sair, nem para onde poderia ter ido. Onde estaria o assistente?
— Olá, Marinette. — Ela sentiu o toque em suas costas e a resposta de seu corpo foi imediata, um arrepio lhe subiu pela espinha e suas bochechas arderam.
— O-oi, Adrien — gaguejou. Tentou sorrir, mas tudo o que conseguiu foi uma meia careta. Mordeu o lábio, xingando a si mesma internamente por ser tão atrapalhada.
— Você está linda — ele disse, cheio de gentileza. Ele tinha aquela aura suave e um olhar intenso por trás dos olhos verdes e brilhantes. Quando ele sorriu, Marinette derreteu.
Balbuciou o que devia soar como um "merci", mas não saiu palavra alguma, apenas um som incompreensível. Ele riu, achando graça, e ela corou. Mas não de um jeito ruim.
— O seu figurino ficou sensacional — ele disse. — Meus parabéns, tenho certeza de que meu pai vai ficar impressionado.
O coração dela martelou ainda mais forte. Gabriel Agreste vai ver meu trabalho!
— Jura?! — perguntou, cheia de expectativa de repente. Então, tentou se ajustar para não parecer tão desesperada. — Quer dizer — pigarreou. — Você acha?
— Bom — Ele revirou os olhos e coçou a nuca — Impressionado é uma palavra forte. Não que seu trabalho não esteja bom, pois está fantástico, mas é que meu pai não é uma pessoa realmente... Impressionável. Mas sim, eu acho que ele vai gostar.
Se Marinette podia ficar mais apaixonada, ela ficou naquele momento.
— Adrien, querido! — Chloé apareceu, enlaçando seu braço com o do rapaz, que pareceu desconfortável com o toque invasivo. Ela já estava toda caracterizada de Colombina. Seria admirável – ela era inegavelmente bonita – se não fosse tão desagradável. — Vamos, precisamos de você lá atrás para fazer a maquiagem. Por que ainda não está vestido?
— Eu estava só... — Ele tentou se explicar, não realmente tendo que dar alguma satisfação, mas ela o interrompeu.
— Não fique aí falando com essa tonta, você precisa se aprontar.
Antes que ele tivesse qualquer chance de protestar, ela começou a arrastá-lo para o vestuário improvisado dos atores. Ele apenas sorriu para a menina e acenou. Com alguma sorte, Marinette conseguiu acenar de volta.
Pouco depois da partida de Adrien, Marinette já havia deixado tudo pronto para os atores. Estava orgulhosa de si mesma e se sentia nas nuvens ao ver seus colegas vestidos com suas roupas. A última vez que se sentira assim foi quando seu cantor de rock favorito, Jagged Stone, pediu pessoalmente para que ela fizesse a capa de seu novo álbum – o que lhe rendeu certo reconhecimento e até mesmo Adrien pedira seu autógrafo, como um bom fã do cantor.
Um dos atores a chamou, pedindo para que ela o ajudasse a abotoar sua roupa. Marinette deu um passo à frente, e pisou em alguma coisa. Olhou para baixo e viu um pequeno sininho reluzente. Imediatamente, Marinette reconheceu o objeto: era um dos sininhos do figurino de Adrien, devia ter caído! Ela pegou e foi logo procurar por ele, para costurá-lo à fantasia novamente.
Para sua sorte, Chloé se mantivera ocupada com sua maquiagem e não viu Marinette chegar. Ela se manteve distraída e a menina aproveitou a oportunidade para procurar por Adrien sem que a loira lhe enchesse a paciência. Olhou, olhou, mas não o viu em lugar algum. Então, ouviu sua voz, vindo de trás do biombo. Era uma tela branca, ao estilo oriental – sua mãe tinha um desses em casa – em que só se era possível ver a silhueta de quem estivesse atrás. Logo assim que viu a sombra negra de Adrien por trás da tela, Marinette sentiu seu coração dar um salto. Não pela visão de Adrien, mas porque a silhueta dele não era a única.
— Eu sei, Plagg. — Ela o ouviu dizer para o que parecia ser um... kwami?! — Eu sei que prometi um camembert, mas eu preciso me aprontar para a apresentação primeiro. Além disso, faz menos de duas horas que você comeu um quase inteiro!
— tudo bem, só não reclame quando passar vergonha na frente de sua "lady" — respondeu o que Adrien chamara de Plagg.
O coração de Marinette começou a martelar num ritmo frenético dentro de seu peito. Sua cabeça deu um zilhão de voltas e ela sentiu que iria desmaiar.
Eu não posso acreditar. Ela estava completamente atônita. Adrien tem um kwami. Não pode ser... Esse tempo todo...
Ela não conseguia dar ordem aos seus pensamentos, de repente sentindo-se em pânico, completamente sem chão. Marinette engoliu em seco, sentindo que iria vomitar de tão nervosa. Ela não apenas havia descoberto a identidade secreta de seu parceiro, como também havia sido uma incrível revelação saber que, na verdade, ele era esse tempo todo o menino que ela secretamente amava. Pensou em todas aquelas cantadas e investidas que levara de Chat Noir.
Isso significa que ele me ama? Adrien Agreste me ama?!
Imediatamente, aquele mero pensamento fez o sangue de Marinette ferver.
— Tikki, o que eu vou fazer? — perguntou ela, mais para si mesma que para a kwami. Estava totalmente desesperada. — Eu descobri a identidade secreta de Chat Noir, o que eu faço?! Devo contar a ele que eu sou Ladybug?
— fique calma, marinette, foi um acidente — Tikki tentou tranquilizá-la. — você não pode contar a ele quem você é. esta é a sua responsabilidade.
Ela engoliu em seco, sabia que Tikki estava certa. Mas ela ainda não sabia como processar aquela informação, foi como se seu chão tivesse desmoronado. Como agiria diante de seu parceiro a partir de agora? Afinal, ele era apaixonado por Ladybug e não por Marinette.
— Marinette? — Adrien a chamou, fazendo-a dar um grito de susto.
Ela olhou para ele, ainda atônita, e não pôde evitar pensar nele vestido como Chat Noir. Como poderiam ser a mesma pessoa? Adrien era tão tímido e gentil. Ao contrário do impulsivo e atirado Gato Preto que conhecia tão bem.
— Está tudo bem? — perguntou ele, quando ela não respondeu. Marinette piscou rapidamente, para acordar de seus pensamentos.
— A-Adrien, oi — conseguiu dizer. — Sim, tudo ótimo, eu só... — pensou rapidamente em algo para explicar, e então lembrou-se do pequeno sino que tinha na mão. — Eu acho que isto aqui caiu da sua roupa, preciso prender de volta.
Mostrou o objeto a ele e então ele sorriu. O sino pertencia a um conjunto de vários outros sininhos que ficaram presos à barra da gola da fantasia. Ele parou e permitiu que Marinette fizesse seu trabalho.
Ela se aproximou do rapaz, receosa, quase como se tivesse medo de que ele também descobrisse quem ela era, mas ele parecia realmente não fazer ideia. Eu estou tão encrencada. Pegou seu kit de costura de emergência e começou a dar alguns pontos mais firmes. Daquela pouca distância, ela tornou a sentir a combinação estranha de aromas de Adrien. Isso explica o cheiro de queijo...
— Você parece um pouco tensa — disse o rapaz. Ele tinha uma placidez na voz, uma intensidade natural que ela não conseguia explicar.
Descobrir que Adrien era seu parceiro podia ter sido uma bomba na cabeça de Marinette, mas ela também descobriu que isso não mudou o que sentia pelo rapaz.
— Eu estou ansiosa — admitiu — por causa do festival. Todo mundo está.
Ele sorriu, brilhante.
— Tem razão. Eu também estou.
— Você?! — indagou ela. Como ele poderia estar nervoso? Ele era filho de um dos estilistas mais famosos da França; era modelo e estava sempre nas mais badaladas capas de revistas de moda. E ao pensar na atitude confiante e desinibida de Chat Noir, era um tanto estranho pensar nele sendo tão inseguro quanto ele demonstrava estar naquele momento.
Ele riu, compreendendo a dúvida de Marinette.
— Eu sei, é difícil de acreditar, mas eu sempre fico meio ansioso quando estou em evidência — confidenciou.
Marinette pensou por um instante.
— Não se preocupe — ela disse, sem gaguejar ou pestanejar, pela primeira vez. Ainda se concentrava em sua tarefa de reforçar os sininhos na roupa do menino. Quando terminou, olhou para ele, sem medo de encará-lo nos olhos. Aqueles enormes olhos verdes, brilhantes e curiosos. — Eu tenho certeza de que tudo vai dar certo.
— Pessoal, tudo pronto? — A professora perguntou a todos em geral. — O festival já vai começar, preciso que todos estejam a postos e com as falas na ponta da língua.
Adrien tornou a olhar para a menina.
— Obrigado, Marinette.
— Boa sorte, — Chat Noir... — Adrien.
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O show estava prestes a começar. Marinette havia se misturado à multidão de pessoas que estavam no festival quando a professora lhe garantiu de que seria chamada caso seus serviços ainda fossem necessários nos bastidores. Ela havia se oferecido para ficar e dar assistência, uma vez que a senhorita Albert parecia um tanto sobrecarregada fazendo tudo sozinha, sem o auxílio de seu assistente. Era tão estranho Jean-Pierre não ter aparecido para o festival, era um evento importantíssimo para ele também. Ela esperava que não tivesse acontecido nada de mal a ele...
— NÃO PRETENDEM COMEÇAR SEM MIM, NÃO É? — Alguém gritou do alto do palanque. Houve um coro de surpresa vindo da multidão. Marinette se forçou a tentar identificar quem era, mas estava muito longe. Parecia um... Palhaço? Ele soltou um lamento doloroso e dramático, como um gemido choroso. — EU SOU O PIERROT E EU QUERO A MINHA COLOMBINA.
Ele saltou do alto do palanque e aterrissou no centro do palco. Com um estalar de dedos, todos os holofotes miraram sobre o mais novo vilão akumatizado Pierrot. Ele se vestia como um palhaço tristonho e monocromático. O desenho de uma lágrima negra se destacava na maquiagem pálida de seu rosto. A única coisa colorida que ele tinha era um lenço vermelho, amarrado em volta de seu pescoço. Marinette cerrou os punhos enquanto Pierrot declamava seu discurso maligno. Sua risada se passava mais por um choro sofrido, era algo tão depressivo que provocava arrepios de agonia.
— Tikki, precisamos ir — ela disse baixinho para sua kwami. Por um momento, ela hesitou, lembrando-se de Chat Noir. Então Pierrot atirou um raio vermelho sobre alguém que o assistia do canto do palco (era a senhorita Albert!) e Marinette viu que não tinha tempo a perder.
Correu para um canto isolado, perto de uma das colunas de sustentação do grande palco. Dali, ela viu parte dos bastidores. A maioria dos atores estava amedrontada e todos se amontoaram, parcialmente escondidos, para assistir ao Pierrot de trás do palco. Então ela viu Adrien, por meros segundos. Ele correu para algum lugar na direção oposta de onde estavam os outros e desta vez Marinette sabia o porquê.
— marinette, estamos perdendo tempo! — disse Tikki.
— Sim, você está certa — Marinette falou, tomando uma profunda respiração. — Tikki, transformar!
No mesmo instante, Tikki foi sugada pelos brincos de Marinette para o início da transformação. Em questão de segundos, Marinette sentiu o poder de sua kwami em cada célula de seu corpo. Com o traje, a força e a agilidade. Com o ioiô, o talento e a sorte. E com a máscara, sua identidade. Ela já não era mais Marinette, mas a portadora do miraculous Ladybug.
Com seu ioiô, Ladybug escalou até o alto do palanque, onde Pierrot estivera há poucos instantes. Queria ganhar mais tempo para avaliar a gravidade do problema e, assim, ter mais vantagem sobre a situação.
— Salut, my Lady. — Era Chat Noir, sentado sobre os calcanhares como um verdadeiro felino. Ali em cima, longe de qualquer luz que não fosse da lua, ele se misturava com a escuridão. Apenas seus olhos brilhavam feito duas enormes esmeraldas e seu cabelo ganhava uma áurea dourada. O coração de Marinette, sabendo agora quem estava por trás daquele sorriso felino e olhar predador, pela primeira vez martelou forte na presença de Chat Noir. — Eu já estava ficando com saudades...
Ela engoliu em seco, não querendo dar vazão para a própria confusão que sentia. Seus problemas não podiam ser maiores que seu dever para com a segurança de Paris.
— Não temos tempo para isso, Chat Noir. Quem será este lunático?
— Eu faço uma ideia... — disse ele, pensativo. Ambos observavam Pierrot em seu discurso odioso, aproveitando seu momento sob os holofotes. Ele havia escravizado cerca de três pessoas até então e os transformado em palhaços tristes. — Eu o ouvi dizendo que queria sua Colombina. Esta seria a Chloé, correto?
— Certo. Mas por que ele quer a Chloé?
— Não tem ninguém "desaparecido" no festival? — ele perguntou à heroína.
Logo um estalo de compreensão lhe atingiu.
— Sim! — ela disse. — Jean-Pierre, o assistente da senhorita Albert. É ele!
Lá embaixo, Pierrot gritou:
— EU OS CONVIDO PARA UM PRIVILEGIADO SHOW, LADYBUG E CHAT NOIR! — ele riu seu lamento depressivo de maneira teatral, com sua melhor voz de palco. — POR QUE NÃO APRECEM PARA ME PRESTIGIAR E ME ENTREGUEM SEUS MIRACULOUS?!
Ladybug grunhiu descontente com o convite. O mesmo veio de Chat Noir, com exceção de que seu som mais parecia com o sibilar de um gato eriçado.
— Vamos — ele disse, decidido, e girou seu bastão. — Temos que dar fim nisso. Esse imbecil não sabe lidar com atenção.
— Vamos!
Os dois saltaram em direção ao palco. Chat Noir aterrissou sobre os dois pés, em posição de combate e Ladybug, balançando-se em seu ioiô, acertou Pierrot em cheio com um chute. Quando o vilão caiu, acariciou o próprio rosto contorcido em tristeza e então sorriu de um jeito lunático.
Pierrot começou a disparar uma sequência de raios vermelhos sobre Ladybug e Chat Noir, dos quais os dois se desviaram agilmente em malabarismos e revidando com golpes de bastão e ioiô. Chat o acertou nas pernas, fazendo o vilão cair e Ladybug o manteve imóvel com o cordão de seu ioiô.
— O que faremos agora? — perguntou Chat Noir, do alto de uma das colunas do palanque. — Precisamos descobrir onde está o akuma.
Naquele momento, Pierrot gargalhou – ou algo próximo disso – e tocou o cordão que o amarrava com a ponta dos dedos. Apenas com aquele toque, ele enviou uma carga de energia vermelha que percorreu toda a extensão do cordão até chegar à outra extremidade, para atingir a heroína.
— Ladybug, cuidado! — Chat Noir a alertou e saltou em sua direção, fazendo a menina soltar o cordão bem a tempo de ser escravizada.
O gato caiu sobre Ladybug, como já acontecera tantas vezes. Com o rosto próximo, ele sorriu para ela, já esperando que ela o afastasse, dispensando completamente suas investidas oportunistas. Contudo, ao contrário do que ele esperava, não foi o que ela fez. O sorriso deu lugar a uma expressão sincera de esperança, mas não durou dois segundos, pois Pierrot logo se livrou das amarras do ioiô.
Os heróis se puseram novamente de pé e foi Chat Noir quem partiu para o primeiro ataque, usando seu bastão para dar um salto e tentar atingi-lo com suas garras. Seu golpe fracassou, quando Pierrot desviou e revidou. Chat se defendeu contra o raio vermelho com seu bastão e continuou com suas investidas velozes e selvagens. Viu que o ioiô de Ladybug estava caído no chão e o arremessou para sua parceira, que pegou o objeto no ar.
— Boa, gatinho! — ela gritou. Girou seu ioiô, ajudando seu parceiro a deixar o vilão cansado, mas tudo o que conseguiram foi deixá-lo ainda mais irritado.
— Estou cansado de vocês dois! — berrou Pierrot, e lançou Chat Noir contra os ferros do palanque, derrubando-o enfim. — Me dêem os Miraculous...
— Ladybug — Chat Noir fraquejou, enquanto tentava se levantar. — O akuma está no lenço.
Ela investiu com tudo na direção do vilão, onde travaram uma batalha corpo-a-corpo. Ladybug foi veloz e desviou de todos os ataques, mas estes atingiram outras pessoas. Pierrot gritou ordens a seus novos palhaços tristonhos, que os cercaram em desvantagem.
Chat Noir, embora levemente machucado, estava novamente de pé.
— CATACLISMO! — Ele gritou e invocou seu poder. — Eu seguro a corja de palhaços, Ladybug. Pegue o akuma!
— Pode deixar, Chat Noir! — Ladybug jogou para cima seu ioiô mágico e invocou também seu próprio poder. — TALISMÃ!
O ioiô caiu de volta em sua mão, porém sob a forma de uma corneta.
— Uma corneta? — Ela franziu o cenho. — O que eu devo fazer com isso?
Ladybug olhou em volta e viu as marcações relacionadas ao seu talismã. Ela sabia o que fazer.
Pierrot correu em sua direção, suas mãos brilhando com uma energia vermelha intensa, tal como o lenço que tinha em seu pescoço. Ele correu com o objetivo de arrancar dela à força seu miraculous. Mas ela não permitiria. Chat Noir ainda estava se ocupando em impedir que o exército de palhaços avançassem na batalha. Ao invés de fugir, Ladybug correu também em direção à Pierrot, mas seu objetivo era definitivo.
Assim que estavam prestes a colidir, Ladybug saltou por cima da cabeça do palhaço.
— O circo já está partindo, Pierrot! — ela gritou e soprou a corneta, a qual disparou uma onda de confetes coloridos sobre o palhaço tristonho.
Ele grunhiu e tentou afastar os confetes, mas ficou desnorteado. Com um golpe ágil, ela pulou para ele e lhe arrancou o lenço do pescoço.
— Chega de maldade, akuma. — Ladybug rasgou o lenço vermelho, arrancando do vilão um grito de derrota. De sua câmara secreta, por trás dos olhos de seu vilão manipulado, Hawk Moth também gritou suas juras de ódio à Ladybug. — Hora de aniquilar a maldade!
Com seu ioiô, Ladybug capturou a borboleta enegrecida.
— Peguei. — Sua manobra de purificação foi completada. — Tchau, tchau borboletinha.
A pequena borboleta, agora purificada, voou para longe. Ladybug jogou para o ar seu talismã em forma de corneta.
— MIRACULOUS, LADYBUG!
Em poucos instantes, tudo estava de volta ao normal.
— Muito bem, my Lady — disse Chat Noir, parando ao seu lado no centro do palco. Todos da plateia os aplaudiam e gritavam "vivas" em comemoração à vitória de seus heróis.
O coração de Marinette saltou quando Chat Noir segurou sua mão e a guiou em uma reverência de agradecimento ao público que os assistia.
Ladybug sorriu para seu parceiro e então dirigiu-se à plateia:
— O show deve continuar!
— Aproveitem o festival, pessoal! — Chat Noir gritou também.
Juntos, a dupla saltou para longe do palco. Pararam sobre um telhado próximo, escondidos pela sombra de uma chaminé. Chat Noir e Ladybug observaram o festival aos poucos retomando seu ritmo alegre.
— Formamos uma bela equipe, my Lady — ele disse, olhando para Ladybug ao seu lado de soslaio.
Ela riu, um tanto sem graça, o que ele estranhou um pouco. Jamais tivera aquele efeito sobre sua parceira. Voltou-se totalmente para ela e deixou sua cabeça pender para um lado. Às vezes eles realmente se comportava com um gato.
— É — ela disse, sentindo-se corar. — Bom trabalho lá em baixo.
A verdade era que Marinette não sabia se devia contar a ele que sabia seu segredo. Eles tinham pouco tempo antes de assumirem suas formas reais. Tikki já havia dito que ela não devia revelar sua identidade e ela estava determinada a não fazê-lo. Mas se Chat Noir soubesse que Marinette sabia quem ele era de verdade, talvez... Não. Eu não posso fazer isso. Percebeu, de súbito. É muito perigoso. Além disso, ele ama a Ladybug. Como seria capaz de amar Marinette?
Aquele pensamento a entristeceu, mas era assim que as coisas deviam ser. Ela não sabia o que estava por vir, mas não cabia a ela definir qual seria o destino dos dois. Por mais que doesse, não podia ser egoísta. Não podia ser uma heroína apenas em suas lutas. Sua kwami contava com ela para ter aquela consciência e ela não iria decepcioná-la. O anel de Chat Noir começou a apitar em alerta, assim como seus brincos.
— Nosso tempo está acabando, my Lady — ele se pôs de pé rapidamente e estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. Sorriu para ela e lhe beijou o dorso da mão de forma extremamente cavalheiresca. Ladybug enrubesceu.
Ele soltou a mão da amada e se virou para desaparecer na noite, antes que assumisse sua verdadeira forma. Antes que ele partisse, ela usou seu ioiô para puxá-lo de volta. Ele exclamou em surpresa e em um segundo, se viu enroscado com Ladybug, separados apenas pela distância de um nariz.
— Uau, m-my Lady... — gaguejou ele, e sorriu num misto de nervosismo e felicidade. — Eu adoraria ficar, mas...
Sem querer desperdiçar mais um segundo daquela oportunidade, ela sequer pensou no que seria deles depois que fizesse o que estava prestes a fazer. Ela encurtou a distância entre eles até não haver mais nenhuma, até seus lábios se tocarem de um jeito que ela imaginara tantas vezes. De olhos fechados, Marinette sabia que estava beijando Adrien Agreste, enquanto ele se deliciava na fantasia de estar beijando sua amada mascarada. Um dia ele saberia, ela podia sentir. Já o havia beijado uma vez, para quebrar o efeito da flecha do Cupido Negro, mas aquele beijo foi diferente. Desta vez, ela o estava beijando também com o coração, com a sinceridade dos próprios sentimentos. Foi um beijo simples, apenas um toque suave de lábios, mas foi um beijo completo.
Quando o anel dele tornou a apitar, foi que ela finalmente o soltou. Ambos arfavam, pelo visto ele tivera o mesmo efeito que ela tivera de perder o fôlego por completo. Chat Noir a encarava, completamente embasbacado. Ladybug, contudo, lhe sorriu.
— Até a próxima, parceiro — foi apenas o que disse antes de saltar para longe, preservando assim sua própria identidade.
Não era o que ela queria, mas era como tinha que ser e Marinette ficou feliz por ter feito a coisa certa.
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— Marinette, onde você estava?! — Perguntou Alya, logo assim que encontrou a amiga no meio da multidão. — Você viu o que aconteceu aqui?
— Sim, eu vi! — respondeu Marinette, imitando o entusiasmo da melhor amiga, que particularmente estava torcendo para que os super-heróis dessem as caras no festival. — Eu estava escondida ali atrás — mentiu.
— Você tinha razão — ela admitiu, rindo. — Toda vez que eles aparecem é problema, mas foi incrível! Nossa, estou louca para postar os novos vídeos no Ladyblog!
Antes que Marinette pudesse responder, as luzes se apagaram e somente o palco se iluminou com um único holofote. Jean-Pierre estava no centro, vestido de Arlequim, e declamava as falas da peça com perfeição. Desta vez, ele era ele mesmo e parecia muito feliz. Marinette estreitou os olhos e conseguiu ver, escondido bem no canto do palco, espiando pela fresta da cortina, Adrien admirando o sonho de um colega sendo realizado. Viu também o kwami, flutuando alegre, orgulhoso de seu protetor por ter cedido seu papel em prol de alguém. Marinette sorriu com aquela visão.
— eu também estou muito orgulhosa de você, marinette — disse Tikki, de dentro da bolsa. Marinette sorriu para ela, com o coração aquecido.
— Eu também, Tikki... Eu também.
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