A Luz sempre estará com a Sombra
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Notas iniciais
※ Luz e sombra ※
As densas camadas de nuvens se dissiparam, finalmente revelando a lua pairando no céu.
Todos os seus dias transcorreram normalmente. Nada aconteceu. Era como se todos tivessem sumido da face da Terra e esquecido dele. Diferente de três anos atrás. Quando todos ligavam para seu celular, mandavam mensagem e iam consolá-lo com abraços e pêsames.
Há três anos tudo tinha mudado...
Durante a noite não havia ninguém na rua. A claridade da lâmpada de mercúrio estava mais intensa e gélida do que das vezes anteriores. Os galhos das árvores lembravam ossos tremendo ao serem expostos ao frio. Olhou pela janela, a lua ora aparecia, ora desaparecia entre as nuvens. Estrelas cintilavam ao fundo. O vento dissipava a massa de sujeira acumulada no céu deixando o ar mais puro e límpido.
Naquela hora, já o estaria esperando na sala, junto ao cachorro. Recebê-lo-ia com um gentil sorriso nos lábios e depois esquentaria a janta. Como era todos os dias — ao menos, três anos atrás.
Deslizou a mão pelo edredom que cobria a cama, aonde deveria permanecer o corpo da pessoa que amou durante tanto tempo. Não havia se acostumado com aquilo, apesar de tanto tempo... Não conseguia se acostumar com aquela dor lancinante em seu peito. Machucava mais do que tudo. Era uma dor que... que não tinha como fazer parar.
Não depois de tê-lo desejado tanto, e depois, quando menos percebeu, perdê-lo.
Kuroko ficou com a visão embaçada por conta dos olhos marejados, com as lágrimas que não derrubava incomodando sua visão. Sabia que deveria ter ido para a festa de sua colega de trabalho, mas não iria. Naquele dia não conseguia fazer outra coisa além de ficar trancafiado naquele quarto.
Se lembrar daquela data não era bom para ele... Ainda por cima por causa da pessoa que perdeu.
A porta do quarto estava trancada, impedindo que o cachorro entrasse, batendo a pata na maçaneta e entrando para subir em sua cama. Queria silêncio no cômodo. O relógio indicava onze e meia, o que era muito estranho de sua parte. Não costumava ficar acordado até aquela hora.
Sempre, ao chegar esse dia, perdia o sono e demorava muito para dormir. Poderia não parecer inesperado, mas ainda assim se assustava com isso.
Olhou novamente para a janela, observando a paisagem noturna daquele sábado. Era como se pudesse encontrar alguma resposta para aquela dor que estava torturando seu coração. Mas não havia nada ali, nem mesmo um sinal de que algo naquele mundo estava errado e que poderia ser concertado. Só que nada estava errado e nada poderia ser concertado. Porque não havia o que ser concertado naquela triste — porém verdadeira — realidade. Ao menos não na realidade de Kuroko.
Ficou fitando os pontos brilhantes, suas lágrimas ainda não haviam caído, e isso apenas fez sua visão ficar ainda mais cintilante. Era frustrante ficar naquela situação. Seus olhos se enchiam e as lágrimas não escorriam pelo seu rosto. Talvez tenha chorado tanto que já não sabia mais o que fazer consigo mesmo.
Não... com ele mesmo ele sabia o que fazer. Só não sabia o que fazer com o que sentia.
Estava passando por aquilo por conta de um incêndio. Tudo por causa de um maldito incêndio do qual Kagami fora escolhido para apagar junto aos outros bombeiros.
Lembrar do que passou fazia sua cabeça doer como se estivesse levando marteladas fortes e consecutivas em seu crânio. Fazendo sua cabeça tremer e tremer...
Três anos atrás, fez tudo que sempre fazia. Acordou, tomou banho, tomou café e passou o tempo até poder ir trabalhar no jardim de infância que tinha não muito longe de casa. Gostava de como aquelas crianças não viam coisas ruins no mundo. Eram doces e inocentes, faziam parecer que ainda poderia haver salvação para esse mundo que se devastava aos poucos. Tudo parecia normal até chegar em casa e deixar as horas passarem... Minutos e mais minutos vieram e se foram, mas nada de Kagami chegar em casa.
Mandou mensagens e mais mensagens, e sua preocupação aumentava toda vez que via que elas não eram respondidas. Até que, finalmente, conseguiu uma resposta, só que ela não foi das melhores...
Durante o incêndio, segundo lhe informaram, já com todos os moradores retirados de dentro do prédio, Kagami foi o único que restou dentro do local. Até ele ouvir um choro. Não era humano, mas sim animal. Um cachorro estava encurralado pelas chamas, quase morto, latindo baixo. Como se pedisse ajuda para qualquer um que estivesse lá. E quem estava lá era Kagami Taiga. Disseram que ele saiu de dentro do lugar com o cão no colo, segurando com a outra mão sua máscara de oxigênio no focinho do animal.
As consequências de tal ato foram vômitos e tosse, até ser contestada sua morte. Ele teve sua vida ceifada por salvar um animal que tanto temeu. A notícia tinha sido um baque tão grande que a ficha demorou a cair. Não conseguiu acreditar que ele havia morrido, contudo aquela era a realidade que estava vivendo e precisava ser encarada. Depois da cremação e enterro, entregaram-lhe o uniforme, limpo e impecável. Ele fora bem guardado no guarda-roupas, junto com outras poucas roupas que resolveu deixar guardadas — todas as outras foram doadas meses depois.
Junto com o uniforme, também foi entregue o anel que servia de pingente para o colar. Havia oferecido-o para Himuro, mas o mesmo rejeitou e disse que era Kuroko quem deveria ficar com ele.
Quase ficou doente por conta da partida de seu amado, perdendo seis quilos em apenas um mês. Apenas conseguiu dar a volta por cima por conta de Nigou, que também estava começando a ficar doente por conta do estado de seu dono e por conta da saudade de Kagami. Ele não era o único que sofria com aquela perda. Mesmo que de forma pouco transparente, sabia que todos os outros ainda sentiam por aquilo. Que sentiam a falta do ruivo.
A psicóloga tinha recomendado que ele mandasse uma mensagem de despedida, mas apenas quando chegasse o momento certo. Todavia, qual seria o momento certo para que aquele verdadeiro adeus?
Pegou o celular que estava ao seu lado, olhando para a tela escura durante alguns minutos. De que adiantaria ficar daquele jeito? Nem mesmo aqueles sorrisos inocentes das crianças do jardim de infância o faziam sorrir de volta, e quando sorria era forçado. Ao abrir a conversa que teve com o namorado, ficou encarando a última frase que ele lhe mandou há tanto tempo. Eu te amo, Tetsuya. Era como se soubesse que não voltaria...
Suas mãos ficaram trêmulas, respirou fundo e então começou a pensar no que digitar.
Não demorou para os seus dedos começarem a se mover.
Olá, amor! Espero que esteja bem. A psicóloga me recomendou isso, assim que estivesse pronto para seguir adiante.
As coisas foram bastante difíceis desde sua partida.
Nossos amigos estiveram bastante mal, sabe? Nunca vi alguém chorar da mesma maneira que eles. Tudo foi muito difícil.
Aomine-kun entrou em uma forte depressão e Kise-kun também surpreendeu bastante, ele se afastou muito do trabalho e por um momento achávamos que iríamos perdê-lo, mas Momoi-san esteve ao lado deles e os ajudou a seguirem adiante. Com muita perseverança e amor por parte dela e da família do Kise-kun (e do Aomine-kun também), esse loiro idiota voltou ao que era antes, aos poucos voltou a se aproximar de nós e a ser o que era.
Midorima-kun também deixou o trabalho por um tempo, mas se especializou em cardiologia e tem um pós-grado em pediatria. Takao-kun esteve ao seu lado este tempo todo. E Murasakibara-kun havia deixado os doces! Pode acreditar? Himuro-kun tinha voltado para os Estados Unidos, ele não conseguia suportar sua ausência, só que acabou voltando. Murasakibara-kun quase teve uma anorexia nervosa, por isso ele teve que regressar ao Japão. Agora ambos são donos de uma pâtisserie super popular em um distrito de Akita. Eles estão bem e isso me alegra bastante.
Akashi-kun foi o pior. A companhia de sua família quase foi à ruína. Na verdade, foi um caos, “o Imperador” quase voltou. E Nijimura foi genial, ele demonstrou por todos os meios que o amava e que jamais o deixaria, e ele pouco a pouco voltou ao normal. O pai do Akashi-kun, Masaomi, ficou muito agradecido a ele.
Quanto a mim... Eu sinto sua falta. Chorei todas as noites desde a sua morte, e se não fosse por Alex eu estaria pior que todos juntos, estava totalmente perdido sem você. Me sentia péssimo e ela me orientou a ir em um psicólogo. E se passaram três anos desde então, creio que devo superar essa etapa.
Te perder foi algo difícil e bastante doloroso, pois tudo que vejo ou faço me lembra de você. Nigou chorava todas as noites por causa da sua ausência. Todos tentavam me animar, mas nada me anima sem você. É tempo de avançar, só que dói fazê-lo sem você comigo, Taiga. Sei que quer que eu seja feliz, só que levou consigo o meu sorriso e todos os sentimentos bonitos que eu poderia ter.
Taiga, essa é a última vez que te escrevo, nunca duvide, amor, nada do que faço ocupa esse vazio no meu coração... Nunca duvide que te amo. Nunca duvide que é e sempre será o amor da minha vida e agora sem você... é tão difícil seguir adiante como se nada tivesse acontecido...
É injusto. Não posso com isso, custa muito ser forte.
Agradeço por todos esses anos, agradeço por me amar como apenas você sabia. Cuide de mim onde quer que esteja, e espero que em alguns anos ou em outra vida... Espero voltar a te ver e a sentir seu calor.
Eu te amo, Taiga. Para sempre.
Terminando de escrever, as lágrimas escorriam pelas suas bochechas, uma seguida da outra. Seu peito doía como se estivesse sendo prensado entre duas paredes. Seus soluços ficavam cada vez mais altos e consecutivos.
— Mentiu... – sussurrou. — Disse que a luz sempre estaria com a sombra...
Tudo era tão escuro.
Deixou o celular cair no chão quando se encolheu na cama, abraçando as pernas e deixando as lágrimas molharem sua face e os soluços machucarem sua garganta. Seu coração se apertava tanto que chegava a doer.
No bate-papo, uma mensagem foi enviada, mas tudo estava escuro. Tanto, que ele não sabia se acordaria na próxima manhã para ver a nova luz do sol.
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