A Luz dos Teus Olhos

30 Capítulo 30 - Circunstâncias...


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Como vocês sabem, toda a minha demora é em razão da faculdade, mas eu sempre digo e repito: eu jamais vou abandonar essa ou qualquer outra história. E eu espero, de verdade, que ainda estejam dispostos a acompanhá-las. Eu espero também que gostem do capítulo e desculpem-me se houver algum erro. Boa leitura. =D

Aparentemente, a mídia foi mais rápida do que o veículo que Jesse conduzia.

Rachel apertou os olhos quando o primeiro flash atingiu o seu rosto ainda dentro do carro. O percurso de quase meia hora pareceu rápido demais ao perceber que haviam chegado ao hospital. Ainda estava entorpecida, sentada em um carrinho de montanha-russa e subindo intermináveis metros de trilhos até chegar no topo. Ao invés de ver uma paisagem, ela reviveu tudo o que aconteceu na sua vida na última semana. O casamento de Frannie e Cassandra perfurou a sua mente com a lembrança do seu próprio casamento. Ainda perfurava. Finn ainda tinha sido a pessoa com quem passou todos os seus dias por vinte anos. O seu casamento poderia ser apenas uma lembrança assim que ele parasse de agir como se ainda tivesse algum direito de exigir que não insistisse no divórcio e entendesse que estava em um novo relacionamento.

Estava?

Esperava estar.

O carrinho em que estava sentada se preparou para descer rapidamente com as lembranças da noite em que conversou com Quinn no MountainGate. A sensação amarga e acusadora de tê-la entregado um fardo para escolher. Um fardo que poderia consumi-la. As lágrimas escorrendo e molhando as suas coisas enquanto as recolhia no quarto que dividiram. O nó na garganta por não conseguir continuar chorando na primeira classe do avião até Nova York. Os dias que se passaram sem que Quinn entrasse em contato. Parecia um pacto de silêncio. Talvez estivessem esperando para saber quem daria o primeiro passo. Rachel não queria ser a primeira. Não quando ela nem havia escolhido nada. A demora por uma resposta a corroía cada vez mais.

Por fim, o carrinho passou por um tornado no seu cérebro, se estilhaçando na parede de concreto à sua frente com a notícia de que Finn tinha sofrido um acidente.

— Deus! Eles não se afastam nem por um segundo! — Jesse buzinou e tentou acelerar mais um pouco.

O aglomerado de fotógrafos cercava o carro. As vans das emissoras paravam no acostamento. Os guarda-costas de Rachel não estavam ali para ajudá-los, mas os seguranças do hospital conseguiram guiá-los até a porta giratória após Jesse estacionar. O barulho incessante dos chamados ficando para trás.

Rachel respirou fundo quando o silêncio da enorme recepção predominou e não precisou perguntar nada para a residente que se aproximou.

— Bom dia, Sra. Berry. Eu sou a Dra. Beck. O Sr. Hudson está em cirurgia agora. Eu vou levá-los até a sala de espera.

— Obrigada.

Ela a seguiu até o elevador, embora não precisasse ser orientada sobre como andar ali. Conhecia o hospital. Max e Maggie nasceram em um daqueles andares. Rachel se lembrava de andar de um lado para o outro, inquieta e preocupada, enquanto aguardava a barriga solidária dar à luz. Hospitais sempre a deixavam sufocada.

— Mãe! — O tom de voz aflitivo de Adam foi a primeira que Rachel ouviu quando o elevador se abriu, e ela praticamente correu para abraçá-lo, afundando as mãos na camiseta dele para buscar alguma paz ou algum apoio, mas Adam estava atormentado demais.

— O papai... mãe... — Ele voltou a chorar. Rachel se afastou para ajudá-lo a secar o rosto, tentando segurar as próprias lágrimas.

— Ele está em cirurgia. Vai ficar tudo bem, meu amor. — Ela tentou passar algum conforto e, sobretudo, acreditar nas próprias palavras.

Kurt, Blaine, Sam e Connor também estavam na sala de espera. Rachel cumprimentou um por um e aceitou o copo de café que Jesse buscou para todos. Estava agitada, como sabia que ficaria. Ela caminhou perto da janela somente até a primeira hora. Seus pés se cansaram mais rápido do que esperava, e seus olhos só desfocaram do relógio no alto da parede clara ao ouvir Connor mencionar o nome que fisgou toda a sua atenção.

— Quinn não atende?

— Não. — Adam digitou algo no celular. — Já falei com Santana, Brittany e até mesmo com Frannie e Cassandra, mas nada dela.

— Quando foi a última vez que se falaram? — Rachel perguntou, baixo o suficiente para ninguém a ouvir do outro lado da sala de espera.

— Hoje de manhã. Ela me enviou uma foto de um aquário em Long Beach. Estava lá com Lucy. E falando em Lucy, ela também não me atende. — Ele respondeu no mesmo tom. — Eu perguntei sobre vocês, mas ela desconversou. Não se falaram desde o casamento?

Rachel negou com a cabeça, apertando os dedos no tecido do vestido que usava. Por que Quinn estaria com Lucy em um aquário? Eram realmente amigas? Não queria pensar naquilo, tampouco sentir ciúme na condição em que estava, mas era inevitável. Não queria confessar que esperava que Quinn estivesse tão devastada quanto ela por se manterem afastadas. Que a saudade fosse recíproca. Que a melancolia por não trocarem uma palavra há dias a estava esgotando. Não queria ser aquele tipo de pessoa que anseia, mais do que qualquer outra coisa, que todos os seus sentimentos sejam correspondidos na mesma

intensidade. Rachel trincou a mandíbula quando uma lágrima indesejada escorreu do seu olho direito. Não deveria estar chorando por Quinn. Não com Finn em uma sala de cirurgia. Rachel se odiou por chorar de novo por alguém que poderia estar bem longe dela. Mesmo sendo adulta o bastante para não afirmar nada sem realmente saber o que aconteceu, estava desamparada. Não queria ser racional agora. Aquela sentença de Adam foi como um chute nos seus joelhos, fazendo-a perder o resquício das forças que tinha.

Ela deixou que a saudade, a preocupação com Finn e a raiva saíssem pelos seus olhos, e Adam a abraçou, puxando-a para apoiar o rosto no seu peito. Eles passaram mais uma hora abraçados, se separando quando Carole entrou na sala de espera com Burt. Rachel o cumprimentou, mas se retesou ao encará-la. Elas costumavam ser amigas e conversar quase todos os dias. Rachel falou com ela pela última vez no aniversário de Adam.

— Carole, eu sinto muito pelo Finn.

— Obrigada, Rachel. — O tom de voz de Carole era indiferente.

— Se eu puder fazer qualquer coisa...

— Você já fez muito. Não precisa fingir que se importa tanto assim.

— Mas eu me importo. — Rachel retrucou. — É claro que eu me importo. Estar me divorciando do Finn não anula a minha preocupação.

— Então por que está fazendo tudo isso?

— Do que você está falando?

— Quando Finn a traiu, eu entenderia perfeitamente você querer o divórcio naquelas circunstâncias, mas você quis continuar ao lado dele. Então anos depois devolve tudo em um ato muito maior, expondo-o publicamente para ser motivo de humilhação com uma traição sendo praticamente assumida em todos os tabloides.

— Eu não queria que as coisas tivessem acontecido dessa maneira, Carole, e jamais pensei que seria exposta. Você me conhece. Eu não traí o Finn para me vingar e ia pedir o divórcio, mas a foto foi vazada. Tudo saiu do meu controle.

— Você deveria ter pedido o divórcio primeiro. E errou tanto quanto ele.

— Eu errei. Eu errei muito. Eu escolhi perdoá-lo anos atrás porque não queria acreditar que uma traição nos quebraria, mas a nossa relação começou a ser consumida depois disso. — Rachel pegou o lenço que Sam a ofereceu e secou os cantos dos olhos. — Eu não quero ter uma relação horrível com o Finn. Não quero que nos odiemos. Mas não o quero mais como meu marido. Você não viu nem metade das nossas discussões. Eu estou ciente da decisão que estou tomando.

— Eu falei com o Finn sobre isso. Ele estava disposto a dar uma pausa do futebol para que pudessem viajar e resolver tudo. Você acha que nunca passamos por crises no casamento? Vocês estão juntos há vinte e dois anos. Vale mesmo a pena jogar tudo fora? Será que no final isso vai ser algo bom?

Rachel demorou um pouco para responder. Sentia que precisava do divórcio. Manter aquele casamento era cruel para ela e para Finn, porque não o amava mais e sabia que tinha suportado muitas situações desconfortáveis por medo de colocar um fim naquela relação. Por medo de perder a estabilidade rotineira que se instalou gradativamente. Era triste desmontar tudo o que construiu com as expectativas da sua relação com ele. Apesar das desavenças, Finn sempre demonstrou o orgulho que sentia da sua voz. Do seu talento. Ele foi, por anos, o responsável por nunca parar de tentar melhorar os seus desempenhos teatrais. Ele foi o seu amigo em vários momentos. Tudo isso poderia ser uma crise do casamento. Seria mais fácil se fosse. Poderiam viajar após ele se recuperar e esquecerem todas as crises. Rachel cogitaria aquilo no passado. Mas não mais. Agora, isso nem se passava pela sua cabeça. Não era o que queria. Pensar em nunca mais olhar ou tocar Quinn Fabray arrancava fora o seu coração.

— Não é uma crise no casamento, Carole. — Rachel respondeu calmamente. — Eu sinto muito. O meu relacionamento com o Finn acabou.

— Rachel...

— Carole, agora não é o momento. — Burt interveio. — Deixe Rachel respirar. Vocês podem conversar depois.

Carole suspirou, mas concordou e se sentou ao lado de Burt. Rachel continuou de pé. Os minutos se passavam lentamente. A agonia por notícias os acertava, especialmente Carole, que não parava de chorar. Nem mesmo a residente que os recepcionou podia falar alguma coisa. Tudo o que ela repetia era que a cirurgia ainda estava ocorrendo e que deviam esperar.

E a espera, em alguns casos, pode ser algo devastador.

Quando quatro horas já tinham se passado desde o acidente, Rachel se levantou para pegar mais café, ao mesmo tempo em que o elevador se abriu, revelando uma Lucy ofegante de olhos arregalados.

— Rachel. — Ela parou ao lado da máquina de café. — Como o Finn está? Eu peguei o primeiro voo para Nova York, e os sites não falam de outra coisa, mas ninguém sabe o diagnóstico. Só dizem que um caminhão perdeu o controle e bateu de frente com o carro dele.

— Ele está em cirurgia. Ainda não tivemos notícias. — Rachel respondeu. — Você veio sozinha? Conseguiu dirigir até aqui?

Rachel realmente estava preocupada com Lucy. Ela parecia bastante nervosa, e dirigir naquele estado podia ser perigoso, mas, mesmo sem querer, havia uma curiosidade fortuita para saber se ela tinha vindo com Quinn. Se Quinn estava em Nova York. Talvez fosse a inveja por Lucy ter estado com ela, ou talvez fosse o seu coração pedindo motivos para não se sentir magoada por Quinn nem mesmo ter enviado uma mensagem perguntando se estava tudo bem.

— Eu vim de táxi. Pegamos ele no aeroporto. Quinn foi para o apartamento dela em SoHo e me deixou aqui no caminho. Também fez a gentileza de levar as minhas coisas com ela para que eu não viesse até aqui com algumas malas.

Uma gota de alívio preencheu o corpo de Rachel.

— Então você vai ficar no apartamento dela?

— Eu ainda não sei. Discutimos isso durante a viagem. Eu disse que podia ficar em um hotel, mas ela insistiu para que eu ficasse no apartamento.

— Você pode ficar na minha casa. Finn terá de continuar lá quando sair daqui para que possa se recuperar. Tem milhares de quartos, e você pode ficar em um deles.

— Está tudo bem mesmo? Vocês iam se divorciar, e a mansão é um assunto que não resolveram ainda.

— Vamos nos divorciar, mas esse acidente vai fazer com que isso se adie um pouco dependendo da recuperação dele. Seria injusto fazê-la se locomover tanto para vê-lo. Vocês podem ficar mais próximos se estiverem na mansão.

— Tudo bem. Eu acho uma ótima ideia. — Lucy sorriu.

Rachel também sorriu, satisfeita em saber que Lucy não dividiria um apartamento com Quinn. O seu ciúme poderia ser infundado no final das contas. Lucy e Quinn poderiam ser apenas amigas, como Santana e Brittany eram, mas Rachel nunca conseguia se sentir segura ou relaxada sempre que olhava nos olhos dela.

E não entendia o porquê.

A quinta hora marcou o fim da tarde, fazendo com que o sol de Manhattan entrasse pelas janelas, e não demorou muito para a sexta hora cobrir o céu de estrelas e os arranha-céus ao redor do hospital iluminarem a rodovia.

Rachel se aproximou da janela, observando o movimento dos carros e abraçando o próprio corpo. Ela podia ver o Central Park ao leste. Pensar que aquele lugar não a marcou em vinte anos como marcou há três meses era só mais uma sentença de que estava completamente à mercê de outra pessoa. Ainda não conhecia Quinn tão bem quando foram ali, mas foi uma das melhores tardes da sua vida. Não podia nem mesmo imaginar que se apaixonaria por ela e que passariam noites fazendo declarações de amor. Nunca havia pensado em falar palavras apaixonadas para alguém que não fosse Finn. Além da preocupação que sentia, o desejo de não estar vivendo um momento tão caótico era quase uma prece silenciosa.

Ela abriu um meio-sorriso para Adam, que parou ao seu lado, e o abraçou.

— Vai ficar tudo bem, mãe. O papai é muito forte.

— Ele é, Adam, mas até os mais fortes caem, e eu tenho medo. Estamos nos divorciando, mas eu ainda sinto afeto por ele.

— Eu sei que sente. E eu repito que vai ficar tudo bem.

Rachel não respondeu e respirou fundo quando ele beijou o topo da sua cabeça, permanecendo naquela posição até Kurt chamá-los, avisando que o médico tinha acabado a cirurgia.

Michael Hall era um homem de estatura alta. Os óculos de aros finos quase escorregando pelo nariz longo e os cabelos brancos escapando através da touca cirúrgica estampada mostravam o quanto ele parecia exausto.

Ele se apresentou após identificar a família de Finn. Não havia muitas pessoas na sala de espera. Ninguém estava disposto a reconhecer Rachel enquanto também esperavam por notícias.

— Como o meu filho está, doutor? — Carola voltou a ficar nervosa.

O médico suspirou antes de começar a falar. Aquilo não era bom, Rachel pensou. Não poderia ser bom. Poderia ser somente o cansaço por passar seis horas em uma sala de cirurgia, mas tinha algo mais. Sempre tinha.

— Finn teve um acidente brusco. Ele estava com o cinto de segurança, mas isso não o impediu de bater a cabeça e sofrer um traumatismo craniano. Porém, pelo uso do cinto, o traumatismo foi leve e formou apenas um coágulo pequeno que conseguimos conter reduzindo a pressão intracraniana. Finn pode ficar um pouco confuso e com a visão turva quando acordar. Além do traumatismo, ele também recebeu alguns machucados no braço e no rosto, que foram leves. O problema realmente foi a coluna.

— O que... o que aconteceu com a coluna dele? — Adam segurou a mão de Rachel automaticamente, temendo a resposta que receberia. Já tinha visto filmes e séries de médicos demais para saber que acidentes na coluna podem ser algo extremamente grave.

— Ao longo de toda a coluna, raízes nervosas saem e se direcionam para cada parte do corpo. As consequências das lesões nesse local estão ligadas à altura onde ocorreu o trauma.

— O que isso significa? — Burt perguntou.

— Significa que se a lesão for no início até a metade da coluna, o paciente pode morrer ou ter tetraplegia irreversível. Se for no final, ele pode ter paraplegia ou a perda de alguns movimentos dos membros inferiores. Quando o carro de Finn virou, ele sofreu uma pressão grande do cinto, puxando-o para baixo abruptamente. Isso afetou uma das vértebras mais baixas na lombar. Provavelmente, Finn perderá a força muscular por algum tempo.

Carole precisou se sentar. Blaine abraçou Kurt, e Adam fez o mesmo com Rachel, que começou a chorar novamente.

— É uma lesão reversível. — Ele continuou. — Finn pode recuperar os movimentos rapidamente com uma fisioterapia constante.

— Há... há chances de ele não recuperar? — Lucy foi mais direta. A sua voz estava rouca e levemente enrolada.

— Ele pode não conseguir mais correr e precisar usar um apoio, mas os casos são raros. Com a fisioterapia, Finn poderá receber uma estimativa de tempo para recuperar a força muscular.

Rachel tentava secar o rosto e não pensar no pior dos casos. Finn não estava paraplégico. Ele poderia voltar a correr e a jogar sem problemas. No entanto, ainda estava desolada por ele. Impedi-lo de correr era como cortar as asas de um pássaro. Era terrivelmente bárbaro. Finn deveria estar no estádio, liderando o time que sempre admirou e não em uma cama de hospital prestes a começar inúmeras sessões de fisioterapia para recuperar a força nas pernas.

Ninguém falou nada por alguns minutos. Nem mesmo o médico. Ele sabia o quanto aquele momento era delicado para que todos pudessem assimilar a ficha caindo devagar da real situação atual.

— Nós podemos vê-lo? — Adam pediu.

— Claro, mas precisamos contar para Finn sobre a perda da força muscular. Muitas pessoas no quarto podem deixá-lo mais confuso.

— Nós entendemos. — Kurt assentiu. — Eu acho que Rachel, Carole e Adam deveriam ir. Pelo menos nessa primeira visita. Finn vai precisar do apoio deles.

— Eu... eu acho que não sou a melhor pessoa para ir. — Rachel falou. — Finn pode estar zangado comigo, e eu não quero chateá-lo.

— Finn ama você mais do que sente raiva, Rachel. — Carole contrapôs. — Ele iria querer que estivesse presente quando acordar. Eu tenho certeza disso.

Rachel ainda estava receosa, mas seguiu o médico até os quartos.

•••

Todos os canais interrompiam a programação e anunciavam algo a respeito do estado de saúde de Finn, que ainda era desconhecido por todos, exceto pelas três pessoas no apartamento.

Quinn desligou a televisão e jogou o controle remoto no outro lado do sofá.

O silêncio era total. Não conseguiam pensar em algo para falar. Não queriam. Não enquanto as suas cabeças não racionalizassem o que acabaram de saber através da mensagem recente de Connor.

Finn não conseguiria andar sem ajuda.

Aquilo era lamentável. Não o conheciam tão bem, mas nunca desejariam que ele passasse por isso. Pensar em não conseguir se locomover livremente fazia um arrepio desconfortável passear pelo corpo de Quinn. Ela podia imaginar como Finn ficaria ao saber. Como todos ficariam.

E Rachel.

Ela suspirou pesadamente. Não tinha enviado mensagem alguma, tampouco ligado para Rachel desde que chegara em Nova York. Não queria incomodá-la. Ela precisava de espaço para lidar com o acidente de Finn, porque se importava com ele e ainda eram casados. Isso era uma certeza. A certeza que Quinn não tinha era se ela ainda continuava sendo a sua namorada.

— Por que não fala com ela? — Santana quebrou o silêncio e encarou Quinn. — Sente falta dela, não sente?

— Sinto. Sinto falta dela, mas não posso simplesmente falar com ela. Rachel deve estar ocupada e desnorteada com os recentes acontecimentos.

— E é por isso que deveria falar com ela. Pelo menos enviar alguma mensagem. Ela deve sentir sua falta também.

— Será que sente? Ela não pareceu sentir algo quando decidiu me deixar sozinha em Los Angeles. Quando se afastou. — A voz de Quinn estava amargurada e quebrada. Era óbvio que sentia falta de Rachel. A saudade que sentia era como se cada pedaço do seu corpo estivesse se estilhaçando, mas também estava magoada. Não era justo. Nenhuma mensagem por dias. Nenhuma ligação.

— Ela deixou você sozinha para que pudesse decidir o que fazer. Não seja infantil agora, Quinn! — Santana se irritou.

— Eu não posso ser infantil? Eu tentei ser racional e sensata, e então ela me deixa com o peso todo do relacionamento nas mãos e vai embora se refugiar na mansão e na vida midiática. Eu sinto falta dela, Santana, mas eu não sei o que fazer. Deixar que ela pague a mensalidade de Columbia está fora de cogitação. — Quinn se levantou do sofá.

— Então abra mão de Columbia. — Santana também ficou de pé. — Se Rachel é o amor da sua vida, dê um tempo da faculdade até encontrar uma solução. Você tem dois pesos na mão. O problema é que não sabe se o seu sentimento pela Rachel é grande o suficiente para fazê-la soltar Columbia temporariamente.

— O meu sentimento é enorme, Santana. Eu nunca escondi o que sentia por ela.

— Então por que não luta pela Rachel? Vocês podem decidir o que fazer juntas. Largue o orgulho e deixe que ela pague a mensalidade até você se estabilizar financeiramente.

— Não é tão simples assim.

— Por que não é tão simples assim? Me diga, Quinn. O que tem de tão impossível nisso tudo?

— E se tudo der errado? — Quinn diminuiu o tom de voz. — Se eu não for o que ela procura? Se ela se arrepender e jogar tudo o que pagou sobre as minhas costas? Eu não vou ter como me defender.

— Se ela fizer algo desse tipo, eu acabo com ela, embora eu ache isso impossível, Q. A Rachel recebe milhares de dólares semanalmente e está sempre nas maiores posições das listas de celebridades rentáveis do país. Ela não faria isso. Mas não é só por esse motivo, certo? Há algo mais. Algo que você não está contando.

Quinn foi incapaz de responder rapidamente. Ela fitou o rosto afligido de Brittany antes de voltar a mirar Santana.

— Eu tenho medo de não suportar o meu relacionamento com a Rachel. E se ela começar a pagar, eu não vou ter coragem de falar.

— Porque vai sempre se sentir em dívida com ela. — Santana complementou.

Quinn acenou positivamente com a cabeça e se sentou novamente no sofá.

— Eu me sinto terrivelmente mal em cogitar que posso não aguentar isso, porque não sei se conseguiria viver sem a Rachel. O meu coração é completamente dela.

— Mas ainda que seja dela, você pensa que talvez não seja certo.

— A mídia e a exposição. Eu não sei se sou forte. Não sei se conseguiria ficar com ela e ver o meu rosto em todos os lugares. E esse peso é maior do que a faculdade. Eu estou muito confusa.

Santana a entendia. Ela já tinha pensado sobre isso e conversado com Brittany quando estavam a sós. O simples fato de Quinn caminhar até uma loja de conveniência seria o suficiente para a mídia importuná-la após se assumir publicamente com Rachel. Cada milímetro da vida dela seria revirado pelos tabloides. Quem era Quinn Fabray? Qual a profissão de Quinn Fabray? Santana temia que começassem a acusá-la de querer o dinheiro de Rachel. Criariam qualquer manchete sensacionalista para vender. Era um jogo sujo e quase perigoso.

Não havia dois pesos naquela balança. Havia três. Rachel, a mídia e Columbia. Os dois primeiros entrelaçados. Rachel não existia sem a mídia. A mídia era o peso que vinha com Rachel. Ter um relacionamento com ela era como assinar um contrato de exposição.

— Vocês acham que o meu amor pela Rachel deveria ser maior do que o meu medo da mídia?

— Eu acho que existe espaço para o amor e para o medo. — Brittany levou o corpo para perto de Quinn. — Você a ama, mas tem medo. Isso é normal. Você poderia amá-la e ser impulsiva em se expor sem pensar nas consequências, mas está pensando nisso. Não há nada de errado em ponderar. É a sua vida, Quinn. É a sua privacidade.

— Eu tenho uma escolha muito pior do que a da faculdade para fazer, não é? O problema não é a mensalidade de Columbia e sim se não vou ser uma covarde para enfrentar a mídia.

— Você não é covarde por querer fugir. — Santana passou o braço sobre os ombros de Quinn. — Eu também iria querer fugir. Não é como se você fosse escolher o que comer no café da manhã.

— Você tem uma escolha para fazer, e infelizmente nós não podemos solucionar esse problema. Somente o seu coração e a sua cabeça podem fazer isso. Quando os dois concordarem, você vai saber que é o certo e que não vai se arrepender. — Brittany a abraçou.

Quinn apoiou a cabeça no ombro dela. Precisava sair do labirinto que a sua própria mente criou. Não era justo deixar Rachel esperando por tanto tempo.

— Mas agora não há como tomar qualquer decisão. Finn sofreu um acidente, e Rachel precisa estar lá por ele. — Santana disse.

— Eu espero que ele fique bem e se recupere o mais rápido possível. — Quinn quebrou o abraço devagar. — É normal eu sentir ciúme por saber que a Rachel vai ficar perto dele e que ele pode tentar reconquistá-la?

— É normal sentir ciúme da sua namorada com o marido dela? Sim, mas ainda é muito estranho.

Quinn acabou soltando uma risada curta. Sua vida havia mudado de alguém que recusava convites para festar para estudar para alguém que namorava uma artista célebre e enaltecida. Ela esperava as reviravoltas do destino. A vida nunca para.

Mas não que tudo fosse se inverter como uma ampulheta.

•••

Finn não tivera a reação que Rachel esperava que tivesse. Não sabia se era por ter despertado há pouco tempo ou porque ainda estava entorpecido pelos medicamentos intravenosos. Ele não gritou. Apenas chorou.

Suas mãos cobriram o próprio rosto e seu corpo tremia consideravelmente. Não poderia andar corretamente. Não poderia se levantar daquela cama e caminhar até a porta. Não sem precisar de ajuda. Ainda sentia as pernas, mas não conseguia levantá-las como antes. Era como se estivesse sob o efeito de uma leve dormência. Apesar de o médico ter dito que era bastante comum conseguir a sua força de volta, era impossível não sentir medo.

Carole se sentou na beirada da cama e o abraçou, sentindo a dor dele nela mesma.

— Vai ficar tudo bem, meu amor. Você vai passar por isso. — Ela segurou o rosto dele e o beijou na testa.

Rachel se aproximou hesitante.

— Carole está certa, Finn. Você é forte e vai contornar essa situação.

Finn enxugou o rosto parcialmente, fitando Rachel com os olhos vermelhos e inchados. Ainda estava um pouco tonto e se sentia cansado, mas esticou a mão, sentindo Rachel segurá-la.

— Eu não posso fazer nada agora a não ser chorar.

— Eu entendo e entendo sua dor. Eu sei o quanto isso pode ser amedrontador, mas estamos aqui. Eu estou aqui. Carole está aqui. Adam, Kurt, Sam, Blaine, Burt, Lucy. Todos estamos aqui e vamos ajudá-lo. Você vai ter todo o suporte necessário, e quero que fique na mansão. Quero adaptar ela para você.

— Rachel, não precisa. Eu...

— Precisa sim, Finn. Você é importante para mim e é meu amigo acima de qualquer coisa. Eu quero e vou estar aqui.

Finn não contestou mais e sorriu minimamente. Ainda estava devastado, mas se sentia acolhido, e uma chama de esperança brotava no seu peito em quem sabe ter o amor de Rachel novamente. Ainda a amava e não poderia desistir dela.

— Obrigado, Rachel.

Rachel sorriu carinhosamente e beijou as costas da mão dele. Finn chorou mais um pouco antes de reclamar de dor de cabeça, adormecendo quando a enfermeira aplicou mais um medicamento no seu cateter. Rachel odiava vê-lo daquela maneira Ele sempre foi tão forte e agora parecia tão frágil. Ela deixou o quarto ao lado de Carole e Adam após se certificaram de que ele realmente tinha dormido.

— Ele está bem? — Sam perguntou assim que voltaram para a sala de espera.

— Está inconsolável, mas dormiu e só vai acordar amanhã. — Carole informou. — Podemos alternar as visitas. Provavelmente ele estará menos cansado e tonto.

Todos concordaram. Apenas uma pessoa poderia ficar acompanhando Finn a noite toda.

— Você se importa se eu passar a noite com ele? — Carole perguntou a Rachel.

— Não, Carole. Claro que não. Você é a mãe dele. Adam quer ficar amanhã. Eu posso ficar outro dia. — Rachel respondeu, apesar de não saber se queria ficar sozinha em um quarto com Finn. Ainda que ele dormisse a maior parte do tempo, seria como jogar uma moeda e esperar o resultado. Se Finn decidisse retornar ao assunto do divórcio, tudo poderia desandar.

— Está bem.

Carole se despediu dos demais. Burt foi embora com Kurt, Blaine, Sam e Jesse, mas voltaria com roupas limpas. Adam, Connor e Lucy esperaram Rachel perto do elevador.

O caminho até o estacionamento foi curto, mas conturbado ao serem alvos dos fotógrafos. Os seguranças do hospital ajudaram outra vez. O relógio marcava oito horas quando Adam conseguiu acelerar e adentrar a rodovia.

Eles não trocaram muitas palavras. Estavam perdidos em seus próprios pensamentos. Rachel mantinha a cabeça apoiada no assento do veículo e observava o rio East. Sentia o corpo pedir por um descanso e a cabeça pedir para conversar com Quinn. Precisava falar com ela.

Adam parou o carro no estacionamento interno quase trinta minutos depois. Rachel continuou calada até chegarem no elevador.

— Vamos buscar as suas coisas. — Ela disse a Lucy. — Você pode voltar comigo para a mansão. Kurt e Blaine vão estar lá. Eles vão nos ajudar a adaptá-la. Finn não vai passar muito tempo no hospital.

Lucy aquiesceu, concordando. Talvez não fosse ruim ficar com Rachel na mansão. Esperava poder conversar com ela, conhecê-la melhor e quem sabe estabelecerem uma amizade.

— Cumprimentem a Q por mim. Eu preciso cair na cama. A minha cabeça está me matando.

— Tudo bem. Descansem um pouco. Vocês precisam disso.

— Vocês também. Tentem dormir.

— Eu vou tentar. — Rachel assegurou.

Adam e Connor se despediram e saíram quando o elevador parou no andar correspondente. Rachel e Lucy permaneceram até chegarem no último.

Lucy se adiantou em tocar a campainha do apartamento de Quinn. Rachel não se lembrava de sentir o coração bater tão rápido desde o casamento de Frannie e Cassandra. Ou quando foi para Los Angeles. Ou quando passou todas aquelas noites com Quinn. Ou quando estavam sozinhas no seu avião particular. Ou quando ela foi ver Wicked. Ou quando foram para o Central Park. Ou quando a reencontrou. As memórias correram na sua cabeça e todas eram sobre Quinn. Sentia tanta saudade que poderia quebrar a porta. Maldito fosse o fato de Lucy estar ao seu lado, porque não poderia agir como gostaria.

Foram longos segundos de espera até Quinn abrir a porta. Os cabelos estavam úmidos e bagunçados, e ela vestia um short e uma camiseta desgastada de alguma banda que Rachel começou a ouvir por causa dela.

Quinn se surpreendeu. Não esperava ver Rachel na sua frente enquanto Finn não estivesse totalmente bem. O seu coração quase saiu da sua boca e caminhou pelo corredor do prédio. Sentia tanta falta. E por Deus, como estava linda. Ainda que o rosto estivesse abatido, continuava impecável. Como poderia escolher a faculdade e a privacidade quando poderia tê-la na sua vida para sempre? Era como escolher entre viver e morrer, mas sabia que as coisas não eram tão fáceis assim.

Ambas se encaravam. Lucy parecia esquecida naquela soma de dois números. Os sentimentos eram mútuos, assim como a atração. Qualquer um poderia ver a quilômetros de distância. Se queriam. Se desejavam. Se amavam. Era inegável. Poderiam dizer o que quisessem, mas os olhos não mentiam e entregavam tudo. Todas as palavras que não foram ditas e o que sentiam.

Tinham tantas coisas para conversar. Precisavam falar sobre a circunstância em que viviam, e Quinn sabia, verdadeiramente, que precisava fazer logo a sua escolha. Não havia para onde fugir.

No entanto, naquele minuto, enquanto se olhavam, o mundo parecia girar corretamente outra vez.

Notas finais
Todos os diagnósticos falados nesse capítulo foram colocados depois de algumas pesquisas, então se algo estiver errado, me desculpem. Espero que tenham gostado do capítulo. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. twitter.com/yasagron