A Luz dos Teus Olhos
23 Capítulo 23 - Sentimentos inteiros...
Notas iniciais
Apesar de ter trocado mensagens com Rachel até a madrugada, Quinn não precisou se esforçar para sair da cama no dia seguinte. Ela tomou banho e ligou a TV depressa. Estava ansiosa. Seu coração acelerava desconfortavelmente.
— Bom dia. — Frannie entrou no quarto. — O café está pronto.
— Eu não estou com fome. — Quinn respondeu sem olhá-la. A programação, gradativamente, voltava ao normal, exceto pelos canais sensacionalistas. Quinn não tinha entrado muito nas suas redes sociais, mas achava que as coisas não estavam tão calmas por lá.
— Você não jantou ontem, e eu não vou deixar que fique sem comer. Vamos, Quinn.
— Frannie...
— Não há nada que você diga que me fará mudar de ideia. Vamos. — Frannie pegou o controle remoto e desligou a TV. — A Rachel só vai estar ao vivo à noite e vai ligar antes, então se acalme um pouco, tudo bem?
Quinn suspirou. Sabia que Frannie estava certa, mas ainda queria ficar ali, sentada e esperando, como se Rachel pudesse aparecer, porque sentia falta dela. Tiveram apenas duas noites juntas, e agora parecia uma eternidade até vê-la de novo.
Por fim, ela acompanhou a irmã até a cozinha. De fato, não havia comido nada há várias horas. O seu estômago se revirou quando se sentou para tomar o café da manhã, principalmente quando comeu as panquecas de baunilha que Cassandra preparou.
— Eu recebi uma ligação há alguns minutos e preciso mostrar uma casa para um dos meus clientes. Foi algo de última hora, mas eu posso desmarcar se...
— Não, está tudo bem. — Quinn limpou a boca antes de responder. — Você não precisa adiar os seus compromissos por minha causa, Fran. Eu vou ficar bem.
— Mas eu queria ficar. Eu senti sua falta.
— Eu também senti, mas vou ficar aqui até o seu casamento. Teremos muitos momentos juntas. — Quinn sorriu.
— Está bem. — Frannie bebeu um pouco de café.
Elas engataram em uma conversa descontraída depois disso, se despedindo de Cassandra quando ela teve de ir para a clínica correndo por causa de uma das suas pacientes pronta para dar à luz. Quinn observou com um ar risonho Frannie provocá-la sobre agradecer o parto matutino, assim não perderia a entrevista de Rachel porque era uma grande fã, se esquivando do sapato que Cassandra ameaçou jogar nela.
Elas eram um casal bonito, harmônico e divertido. Quinn esperava ter esse mesmo clima leve e simples com Rachel, rindo e preparando refeições com os pés descalços, cabelos amarrados e pijamas amassados, mas ainda teriam uma longa estrada pela frente. Elas nem mesmo tinham um relacionamento oficial. Havia assuntos pendentes, e Quinn sentia medo de alguns deles.
Quinn se despediu das duas após terminarem de comer e respirou fundo, fechado os olhos diante do silêncio que predominou todo o apartamento. Era a primeira vez que estava realmente sozinha desde a foto de Rachel exposta na mídia. Ela se levantou e lavou as louças devagar. Não havia como distrair a própria cabeça e nem como parar de pensar constantemente em como tudo se desenrolou sem alguém para bater na porta ou atravessá-la com diálogos.
Há quase três meses, sua única preocupação era a semana de provas de Columbia e a sua péssima alimentação sendo saciada por caixas de pizzas e energéticos que dividia com os amigos. Entre latas enfileiradas na mesa de centro e papéis espalhados no chão, eles planejavam o que fariam no final de semana. Agora, Adam dificilmente voltaria a ser o seu melhor amigo. Agora, seria conhecida como a suposta amante de Rachel Berry. Quinn sabia como seria difícil remover essa ligação do próprio nome. Seria quase o seu prefácio pessoal. E sabia que ter o amor de Rachel era um presente inimaginável do universo. As probabilidades de ela ter notado a sua presença e, ainda por cima, se apaixonado, eram quase nulas. Não havia comparação plausível para tentar igualar quem ela era perto da sua vida monótona de estudante de faculdade. Mas, por um segundo, Quinn se perguntou como estaria atualmente se nunca houvesse ido ao aniversário de Adam. Sobretudo, se nunca tivesse mostrado nenhum interesse em levar Rachel ao Central Park. Estaria em Lima, na casa dos seus pais, apreciando a superproteção de Judy e as piadas de Russel? Estaria longe da notícia implosiva que Rachel diria à noite? Continuaria na sua vida pacata até conhecer alguma garota que a mãe adoraria e com uma família igualmente tradicionalista? Era provável que sim. Quem seria Rachel Berry se a sua carreira na Broadway não decolasse? Ela se casaria com Finn se nunca houvesse engravidado acidentalmente? Ela estaria residindo em Nova York? Estar ali só foi possível graças ao caminho tortuoso do destino. Se Rachel nunca tivesse ascendido profissionalmente, talvez se mudasse para outro lugar, e se a carta de Columbia nunca tivesse chegado, Quinn tentaria a sorte em Los Angeles, então nunca se reencontrariam a tempo de viverem o que estavam vivendo.
Quinn soltou um riso curto. Ter se envolvido com Rachel não só mudou a sua vida, mas quem achava que era. Sair da zona de conforto tinha algumas vantagens. No final da situação paralela que criou, Quinn tinha certeza de que não voltaria no tempo se pudesse, mesmo que fosse impossível não tropeçar em algumas padras no caminho.
Ela secou e guardou as louças. Estava indo para a sala de estar quando o seu celular tocou no bolso da calça de flanela que usava.
— Quinn?
A voz de Rachel abraçou Quinn como um grosso cachecol.
— Oi, Rach. Como você está?
— Estou péssima. Se o meu pai, Kurt, Blaine e Adam não estivessem aqui, eu me sentiria tão sozinha. Eu ainda me sinto sozinha, porque você não está do meu lado. Eu não quero conceder essa entrevista. Eu só quero pegar o próximo voo para Los Angeles.
— Tudo o que eu queria era estar com você, mas você precisa fazer isso, Rach. Se você não fizer, Finn continuará procurando meios para prejudicá-la. Eu não me importo se isso vai me afetar, mas não quero ver a sua imagem manchada.
— Eu vou fazer, Q. Mas... eu não vou expor o seu nome.
— O quê? Rachel, você precisa...
— Eu posso contornar essa situação. Eu pensei a noite inteira e eu não posso entregar o seu nome para a mídia como um presente. Não seria certo.
— E o que você pensa em fazer?
— Eu sei como usar a estima ao meu favor. Eu não vou negar que me apaixonei, mas não vou revelar o seu nome.
Quinn sorriu. Ela confiava em Rachel e agradecia o cuidado que recebia dela. Isso a fez se sentir aliviada e tirou grande parte do peso que sobressaía nos seus ombros, mas não totalmente. Embora não soubesse o motivo, um pouco de frustração latejou no seu subconsciente. Se Rachel revelasse o seu nome, poderiam falar sobre namoro. Escondê-lo tornava mais difícil a tarefa de entrar nesse assunto.
— Eu amo você.
— E eu amo você.
Elas conversaram por quase uma hora. Tempo suficiente para esquecerem temporariamente tudo o que estava acontecendo e Rachel precisar desligar após Kurt insistir que deveria comer um pouco. Quinn prometeu que faria as refeições corretamente. De qualquer maneira, Frannie e Cassandra não a deixariam quebrar aquela promessa.
•••
Rachel deixou o celular sobre a mesa de cabeceira e fitou Adam entrando no seu quarto. Ele não precisou perguntar com quem estava falando por tanto tempo.
— Ela está bem?
— Você deveria ligar para ela.
— Eu... acho melhor não. — Adam afundou as mãos nos bolsos da calça.
— Ela é a sua melhor amiga, meu amor. Vocês precisam conversar.
— Talvez depois, mãe. — Ele fitou os próprios pés.
Rachel suspirou e se aproximou, segurando o queixo dele para que pudessem se olhar.
— Ela ainda é a sua melhor amiga. Ela ainda é a pessoa com quem você pode rir e desabafar. Você só precisa enxergar isso, porque ela enxerga. No final de tudo, você ainda é o melhor amigo da Quinn. Não se esqueça disso. — Ela o beijou na bochecha. — Eu te amo.
— Eu te amo, mãe. — Adam abriu um sorriso pequeno.
Rachel o seguiu até a sala de jantar e comeu um pouco da Salada Waldorf, mas não conversou muito. Ela ouvia e concordava com Blaine e Kurt, que tentavam deixar o clima mais leve.
Durante a sobremesa, ela saiu para falar com Ellie. Estava agitada e diligente, discutindo remotamente com a equipe responsável pela gestão de crise. Rachel não tinha falado muito com eles, mas tirou a tarde para saber de mais alguns detalhes sobre as próprias mídias sociais. Não havia tantos comentários negativos quanto achou. Seu nome ainda era o assunto mais mencionado, mas a maioria esmagadora de pessoas a defendia e mantinha a curiosidade inerente. Algumas até brincavam com a traição. Rachel respirou mais aliviada depois de saber disso. Perder uma reputação era mais fácil do que criá-la.
— É uma abordagem arriscada apresentar diferenças irreconciliáveis. Finn precisa assinar os papéis do divórcio. Nós sabemos que isso dificilmente vai acontecer. — Ellie comentou quando encerrou a reunião e desligou os computadores do escritório.
— Ele pode reconsiderar. — Rachel apoiou a cabeça no encosto da cadeira giratória.
— Você quer mesmo acreditar nisso?
— Por que você parece tão cética?
— Porque você era a esposa-modelo-perfeita. Ele não quer perder o posto de marido de uma das mulheres mais admiradas e nem perder alguém que se dedicava tanto a ele.
— Não exagere.
— Eu não estou exagerando. Quer uma prova? — Os dedos ágeis e finos de Ellie digitaram algo no tablet, e ela o entregou para Rachel. — Em dez anos, você se atrasou duas vezes para se encontrar com o Finn. Uma delas porque o piloto demorou para chegar ao aeroporto, e a outra porque aconteceu um acidente na Madison Avenue. Em dez anos, você defendeu os pequenos erros dele quatrocentas e oitenta vezes. Isso é mais do que três vezes por mês. Eu já vi você chorar no Gershwin e no Majestic. Você discutiu com ele no banheiro do The Met seis vezes. No meio do Met Gala. Eu sei que casamentos são difíceis, Rachel. Eu tenho 35 anos e já estou divorciada. Mas o Finn tirou o cinto de segurança da relação de vocês porque achou que o carro jamais bateria. Você era fabulosa. Se eu pudesse, me casaria com você.
Rachel riu, mas estava um pouco envergonhada e surpresa por Ellie ter guardado tudo aquilo em uma planilha. É difícil ver quando o relacionamento virou uma corrida de perdões e reconciliações. Inevitavelmente, você começa a apagar as primeiras mágoas para dar lugar às novas. Mas olhando os números, era como olhar a prova do fracasso de ter dado mais do que sempre recebeu.
— Isso é... deprimente. Eu nunca cobrei nada do Finn, mas ele nem mesmo se esforçava, não é?
— Eu estou mostrando isso porque pode ajudá-la a ter mais certeza de que o seu casamento estava atingindo um lugar sem retorno e estava pensando em conversar com você para tentar fazê-la enxergar. Eu sei que é íntimo demais, mas você estava sofrendo muito, mesmo que tentasse esconder.
— Nós somos amigas, Ellie. Eu contei para você sobre a Quinn. Você não precisa ser cuidadosa ao falar comigo. — Rachel colocou o tablet em cima da mesa. — Você tem razão. O meu casamento já estava arruinado. O divórcio estava prestes a ser uma certeza para mim quando eu fui para Lima.
— Bom, eu desconfiei um pouco quando você me ligou às pressas para que eu preparasse tudo para a viagem que fariam.
— Eu estava nervosa.
— Você cogitou comprar outro avião particular quando soube que a manutenção atrasaria algumas horas.
— Eu estava nervosa. — Rachel repetiu.
— E apaixonada.
Rachel sorriu.
— Só um pouquinho.
— E agora?
— Agora é maior do que qualquer coisa que eu já senti.
Ellie também sorriu.
— Eu vou estar pronta para liderar a equipe do seu casamento. Não se preocupe.
Rachel gargalhou.
— Eu ainda nem estou namorando com a Quinn.
— E o que está esperando?
— O meu divórcio.
— E desde quando isso impede que você crie um título com ela?
Não havia respostas para aquela pergunta. Ela tinha pensado sobre namoro e achou que Quinn quisesse esperar o seu divórcio sair. Não tinham falado sobre isso, mas já se tratavam como namoradas, então por que não?
— Eu acho que você tem razão.
— É claro que eu tenho. — Ellie piscou o olho e se levantou quando o seu celular vibrou na sua mão. — O sol está quase se pondo. Preciso ajustar alguns detalhes. Você vai para o estúdio daqui a pouco. Eu venho chamá-la.
Rachel assentiu e a observou sair antes de pegar o celular e mandar uma mensagem para Quinn, que a respondeu quase instantaneamente. Ela se sentia mais segura por saber que estava bem no apartamento de Frannie. Ambas falaram sobre a entrevista e sobre Los Angeles. Rachel nem mesmo reparou que era hora de ir quando Ellie retornou.
Os fotógrafos continuavam acampados do lado de fora da mansão, chamando incessantemente o nome de Rachel ao verem os carros passando pelos portões duplos de ferro. Outros estavam esperando no Rockefeller Center. Rachel acenou, mas não parou de andar e entrou em um dos arranha-céus.
O processo de ir para o camarim, se trocar e se maquiar custou mais algumas horas. Rachel comeu rapidamente entre os intervalos. Ellie falava ao telefone. Hiram assistia ao programa na televisão. Ela falou brevemente com Quinn para avisá-la e seguiu para o palco após ser anunciada.
•••
Quinn parou de responder as mensagens de Santana quando ouviu o nome de Rachel. Sua respiração engatou. Nem mesmo um metrônomo poderia compassar as batidas do seu coração. Rachel estava deslumbrante. Não era uma novidade, mas Quinn nunca pararia de elogiá-la mentalmente. O vestido era longo e discreto. Sem decote. O salto não era alto. A maquiagem não era forte. Mas por Deus, ainda estava irresistível. Quinn não ouviu nada do que Frannie e Cassandra falavam, tampouco prestou atenção no apresentador, mas Rachel estava interessada em responder as perguntas sobre Wicked e os seus planos futuros. Aquele foi um gancho para entrarem no assunto do divórcio, ela sabia. Era sutilmente proposital. Quase combinado. E talvez fosse.
— Você não acha que o divórcio pode atrapalhar o seu desempenho na peça?
— Não. Eu já enfrentei coisas piores. O meu desempenho continua o mesmo.
— O que seria pior do que um divórcio para você?
— Eu acho que morrer por dentro sem admitir é pior.
— Era assim que você se sentia? Por isso os acontecimentos recentes?
— Os acontecimentos recentes não estavam nos meus planos, mas o divórcio sim. Eu escondi muitos detalhes, mas o casamento não ia bem. As coisas pioravam cada vez mais. Não acabou agora. Para mim, já estava acabando há muito tempo. Eu só me neguei a aceitar.
— Eu sinto muito pela foto vazada, Rachel. Já tivemos casos assim na mídia. Alguns maiores e outros menores, mas ainda dolorosos.
Rachel assentiu.
— É difícil pensar sobre isso. Pensar nas pessoas pegando os celulares e comentando. Eu sei que a minha vida sempre foi parcialmente pública, mas não há como se acostumar com esse tipo de coisa.
— São mudanças alarmantes, mas a sua concepção sobre elas é imprescindível. Você já esteve aqui várias vezes. Fizemos esquetes. Brincamos sobre o seu casamento. Agora você está se preparando para não ter mais um. O quanto você acha que vão comentar sobre a sua vida de solteira?
— Eu não vou ficar solteira por muito tempo. — Rachel foi categórica.
— Existe alguém?
— Sim, existe.
— Deveríamos falar sobre o que todos estão comentando então?
— Que eu estou apaixonada de novo? Isso é verdade.
— Quer nos falar quem é?
— Não agora. Tudo está muito recente.
— Nesse caso, podemos agendar a próxima entrevista?
Rachel e a plateia riram.
— Podemos. Eu espero estar melhor até lá.
— Deixando as brincadeiras de lado, como você está se sentindo?
— Eu cometi um erro, estou resolvendo esse erro e pronta para recomeçar longe dele. Acho que estou indo bem. Cicatrizar isso e poupar o meu filho é o meu maior objetivo.
— Eu fico feliz por estarmos aqui. Você está sendo apontada constantemente como a artista da década da Broadway, mas ao mesmo tempo é a pessoa com quem todos querem conversar em um bar e tomar uma cerveja. A fama não tirou a sua simpatia. Vão precisar de muito mais para balançar esse status.
— Eu achei que o meu status fosse ser perita em cair nas pistas de patinação. Você se lembra daquela esquete?
A plateia riu outra vez, acompanhada pelo apresentador.
Quinn soltou o ar que prendeu e se jogou no sofá, vendo Rachel falar mais alguns minutos e se despedir. O quadro mudou para alguma apresentação musical. O ponto alto da entrevista foi tênue. Quinn entendia que não podiam se aprofundar tanto. A vida de Rachel não era um espetáculo, principalmente com o tamanho da fama que carregava, mas serviu para amenizar um pouco as especulações sobre um caso banal. As redes sociais estavam enérgicas. Quinn rolou a tela. Era impossível ler a maioria. Perfis com a foto dela elogiavam-na e transcreviam algumas frases. Não pareciam irritados ou debochados. Muitos estavam orgulhosos pela sinceridade. Ela largou o celular e fitou o teto. Não sabia o motivo de se sentir frustrada pela segunda vez. Deveria estar incondicionalmente feliz. Rachel não revelara o seu nome e dissera estar apaixonada em rede nacional. Seus olhos brilharam enquanto falava. Mas talvez quisesse acabar logo com todo o suspense que a rodeava. Ou talvez quisesse apenas uma certeza de que tinham uma relação definida. Tudo ainda era novo, mas Quinn queria pedi-la em namoro. Só não sabia se devia.
•••
Rachel abraçou Hiram quando voltou para o camarim.
— Você foi maravilhosa, meu amor. Como sempre.
— Eu estou mais tranquila. Acho que falei tudo o que era preciso por enquanto.
— Você tem uma entrevista agendada com a Vanity Fair. — Ellie disse. — Vamos fazer somente duas entrevistas. Uma para um programa e outra para uma revista.
Rachel assentiu. Eram quase duas da manhã quando ela retornou à mansão. Adam ainda estava acordado e conversava com Finn na sala de estar. Rachel tentou dar meia-volta sem alertá-los, mas Finn se levantou.
— Rachel. — Ele a chamou. — Eu vi a sua entrevista. Aparentemente você não vai colocar um fim na sua relação.
Rachel se virou.
— Não, eu não vou. Eu nunca faria isso. Nunca me submeteria a você desse jeito.
— Pai, está tarde. — Adam também ficou de pé. — Vamos dormir.
— Eu não vou dormir. A sua mãe está enlouquecendo. Eu não entendo como você não está zangado com tudo isso.
— Ela não estava feliz, pai. Um divórcio não é um fim do mundo.
— Ela está ficando com a sua melhor amiga. Pelo amor de Deus, Adam! Rachel tem idade para ser a mãe dela.
— Que droga, Finn! Está na hora de você parar de fingir que não está tratando isso como uma disputa de egos e começar a ver que está lutando sozinho. Eu cometi um erro, mas não vou para a cadeia. Mas se você atirar calúnias sobre a Quinn, eu mesma vou garantir que pague por isso e que não chegue até ela.
— Você parece tão apaixonada. Tão estupidamente apaixonada. — Finn pegou o copo de uísque em cima da mesa de centro e o entornou. — Você costumava ter aquele tipo de olhar quando estava comigo e não falando de outra pessoa.
— Eu amei você, Finn. Quantas vezes preciso repetir? — Rachel respirou fundo, sentindo as têmporas doerem. — Eu o amei até quando você me traiu, mas acho que fiquei receosa depois disso, sempre tentando chamar a sua atenção como se isso o impedisse de cometer esse erro de novo. Como se algo justificasse. Eu me culpei no início. Fiz terapia para tentar entender os seus sentimentos. Eu me esforcei mais do que deveria. Foi humilhante. Eu quero amar e ser amada igualmente. Quero que alguém esteja comigo porque quer estar e não porque olhou na agenda o dia em que precisa estar por perto. Eu quero sentimentos inteiros.
— Eu poderia mudar se...
— Não há mais como mudar quando o amor se foi, Finn. Nada disso teria sido assim se aquela foto não fosse vazada. Eu conversaria com você, e resolveríamos isso de forma adulta e racional, mas eu estou tentando amenizar todos os lados como posso, então por favor, me ajude.
— Eu... eu não quero me divorciar, Rachel. — Finn se sentou no sofá e apoiou a cabeça entre as mãos.
— Mas eu quero, Finn, e isso vai acontecer. Eu já tomei a minha decisão. Eu vou morar em TriBeCa e...
— Eu posso ir morar lá. — Ele a interrompeu. — Eu não vou suportar ficar aqui sem você.
Rachel assentiu, triste por ter de repetir que não o amava mais. Cada ato e cada escolha é como uma faca de dois gumes, criando resultados diversos. Ela se sentia feliz por estar com Quinn, mas se sentia mal pela situação atual. Todo final de relacionamento é melancólico. Não importa o quão estilhaçado estivesse.
Ela não soube mais o que responder, por isso voltou para o hall e subiu para o quarto, suspirando quando se livrou dos sapatos de salto alto. Seus pés estavam cansados. Seu corpo todo estava dolorido. Não dormia bem desde a segunda noite que passou com Quinn. Ela se sentou na cama e ouviu batidas na porta.
Adam entrou e a fitou com um sorriso triste.
— O papai voltou para o quarto. O tio Kurt me ajudou a levá-lo.
— Eu odeio que você esteja passando por isso. Deveria estar aproveitando as suas férias.
— Está tudo bem. Eu não ficaria de fora. Só é terrível ver o papai falando da Quinn.
— Você conversou com ele? Por isso ele desistiu de falar sobre ela?
— Nós conversamos. Ele estava enfurecido, mas eu o convenci a não fazer isso. Eu nunca o perdoaria por uma atitude tão covarde. Ela nem mesmo conseguiria se defender.
Rachel abriu um meio-sorriso.
— Você ainda a ama.
— Não há como deixar de amá-la. — Adam se aproximou e se sentou ao lado de Rachel. — Você foi fantástica na entrevista. Eu sempre gostei de vê-la na televisão. Mas eu acho que você precisa conversar com a Quinn. Ela deve estar um pouco aflita.
— O quê? Como assim? — Rachel franziu o cenho.
— Você mudou de ideia sobre falar o nome dela um pouco rápido demais. Eu sei que foi uma decisão urgente e favorável, mas não garante que estão juntas. Somente que existe uma nova pessoa na sua vida.
— Mas eu estou me divorciando e quero ficar com ela. Ela sabe disso.
— Mas você precisa pensar um pouco com a cabeça dela. Para ela, você pode mudar de ideia a qualquer instante. Vocês são socialmente diferentes. Eu tenho certeza de que a Quinn acha que você é um monumento e deve estar tentando se convencer de que a merece. — Ele fez uma pausa. — Eu vou deixar você sozinha. Precisa descansar. Eu amo você, mãe.
Rachel retribuiu o beijo que recebeu na testa.
— Eu também amo você, meu amor.
Adam saiu do quarto, a deixando pensativa. Ela sabia sobre as inseguranças de Quinn. Em poucos meses, trocaram confidências o suficiente para entenderem mais sobre a vida que tinham e tiveram. Quinn precisou de anos e inúmeras consultas com a psicóloga para não sentir vergonha da própria intersexualidade. Não é como se todos pudessem compreendê-la. O período no ensino médio também não ajudou muito. Algumas pessoas descobriram e a atormentaram durante alguns meses até serem expulsas. Era um assunto delicado. A ignorância e o preconceito do mundo sempre a recuava.
Rachel pegou o celular. Precisava fazer alguma coisa.
•••
Quinn resmungou quando ouviu a campainha. Ainda estava no sofá. Um cobertor repousando delicadamente sobre o seu torso. O sol fraco de início da manhã invadia a sala de estar sem permissão. Não se lembrava quando havia dormido depois que Frannie e Cassandra foram para o quarto, mas não terminou o filme que começou a ver em algum canal aleatório da TV a cabo para tentar não pensar em Rachel e no fato de não ter recebido nenhum retorno das ligações que tinha feito para ela.
Ela se levantou e cambaleou até a porta enquanto esfregava os olhos. Seu sono desapareceu repentinamente quando observou Rachel sorrindo inocentemente na sua frente, como uma miragem. Quinn se perguntou se estava sonhando, porque era impossível que estivesse ali, de carne e osso, tão real que era possível sentir o cheiro do perfume inebriante que carregava.
— Oi.
— Oi. — Quinn sussurrou. Ainda estava em efeito de transe.
— Eu posso entrar?
— Claro... claro que pode. — Quinn se afastou da entrada.
— Eu te amo. — Rachel disse assim que ela fechou a porta. — Eu te amo e quero que saiba disso me ouvindo falar pessoalmente e olhando nos seus olhos. Eu não mencionei o seu nome porque quero protegê-la deles, mas todos vão saber em breve. Eu não quero esconder isso. O nosso amor não é errado.
Quinn sorriu e chegou perto dela. Seu corpo formigava até o último dedo do pé, e seus olhos marejaram. Ela a segurou pelo rosto com as duas mãos, juntando as testas e sentindo os braços de Rachel enlaçarem a sua cintura.
— Eu te amo.
— Eu te amo.
Elas riram mutualmente. Os lábios tremendo pelo choro leve. Quinn a abraçou, se certificando de que não estava delirando. Depois, a beijou com saudade, doçura, desejo e amor. Rachel suspirou e apertou as mãos nos quadris dela. Seu coração pulsava intensamente. Trocar aquele beijo depois de se confessarem cara a cara era como ser resgatada de uma tragédia. Não havia muralhas entre elas. Não sabiam se o destino estava escrevendo aquele capítulo há muito tempo, mas sabiam que se pertenciam e que não voltariam atrás nem se pudessem.
Rachel clamou pela boca de Quinn até precisarem se separar.
— Me leva para o seu quarto.
Quinn balançou a cabeça e acatou o pedido que recebeu. Um beijo não era o bastante para sanarem tudo o que estavam sentindo.
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