A Luz dos Teus Olhos
19 Capítulo 19 - Desastres naturais...
Notas iniciais
Aos 12 anos, Quinn começou a observar as particularidades da sua própria família.
Já que não podia passar mais do que poucas horas com Brittany e Santana, ela gostava de se sentar no topo da escada do hall e olhar a movimentação do andar de baixo. Gradativamente, enquanto anotava mentalmente os trejeitos de Judy sempre que ela decidia trocar algum móvel da mansão Fabray, de Russel discutindo ao telefone com algum advogado do trabalho, ou de Frannie estressada com qualquer novo relacionamento que estava tendo, Quinn começou a associá-los à desastres naturais.
Judy era o furacão. Dificilmente ela se permitia explodir, mas quando o fazia, tudo se tornava um caos. As suas roupas se desalinhavam, o seu penteado milimetricamente preso se desmanchava e as linhas de expressão do seu rosto ficavam marcadas e salientes. Quinn odiava rebatê-la, mas não sentia medo dela, ao contrário de Russel.
O seu pai-terremoto era uma pessoa difícil de prever. Não havia indícios de que ele sucumbiria à raiva, mas Quinn tremia levemente quando ele decidia gritar. Ele era alto e robusto. Apesar de nunca ter sido vítima da ira dele, não gostava de vê-lo zangado. Quinn evitava entrar em conflito com todos eles, principalmente com Frannie.
Ela era o que Quinn gostava de chamar de erupção vulcânica. Não existia nome melhor para defini-la. Frannie não respondia quando era contrariada. Ao contrário do que esperavam, ela se calava e absorvia todas as palavras até não aguentar mais e despejar lava fervente em cima de qualquer pessoa. Sua raiva machucava. Não era um traço muito saudável. Ela tentava conter e não fazer mais isso. Com o tempo, se tornou uma pessoa mais pacífica.
Mas, diferente de Judy, Russel e Frannie, Quinn se afastava dos elementos que eles partilhavam em comum.
Corriqueiramente, ela era como uma nevasca. Pura e gélida. Capaz de congelar uma pessoa quando era tirada do sério. Não era o tipo de pessoa que gritava sem controle ou que agia por impulso, mas talvez sentisse mais do que todo mundo. E talvez por sentir demais, tivesse aprendido a se controlar e internalizar. Seus olhos ficavam frios, e sua boca expulsava palavras cortantes. Quinn odiava ser contrariada. Sobretudo, odiava estar em lugares ou em situações inquietas. Ela fugia de conflitos e não explodia facilmente.
Até aquele momento.
Quando Quinn sentiu a bochecha esquerda arder, ela soube que, de fato, a sua mãe havia desferido um tapa no seu rosto. Seus olhos continuaram encarando o piso perfeitamente encerado até virar a cabeça para fitar Judy, que chorava silenciosamente e ainda mantinha a mão erguida, como se não pudesse acreditar no que havia feito. A padronização do que achava conhecer na sua família se desmanchando. Judy nunca chorava em uma briga, Quinn pensou. Era analítica demais. Mas agora deixava as emoções transbordarem.
— Judith! — Russel cortou a névoa densa que sobrevoava o cômodo. — O que você fez?! Não é dessa forma que vamos resolver as coisas!
— Eu... — Judy passou as mãos no rosto e tentou se aproximar de Quinn, mas ela se afastou instintivamente. — Eu perdi o controle. Desculpe.
— Todos estamos perto de perder o controle, mas eu não quero violência física nessa casa. Nós vamos conversar. Quinn, vá para o seu quarto.
Quinn engoliu em seco e negou com a cabeça.
— Eu não vou. Eu não vou ficar nessa casa.
— Lucy Quinn, vá para o seu quarto! — Russel mandou outra vez.
— Eu...
— Vá, Quinn. Você precisa ir. — O toque de Rachel no braço de Quinn a fez voltar momentaneamente para a realidade. Ela se virou e a encarou. As duas choravam. — Nós conversamos depois.
— Rachel...
— Depois. Eu também preciso resolver algumas coisas agora. Tudo desmoronou. Nos vemos mais tarde. — Rachel tentou sorrir, mas não conseguiu. Ela segurou sutilmente a mão de Quinn em um gesto de consolo, mas se foi rapidamente sem esperar uma resposta.
— Ela ainda tem coragem de querer ver você? — A voz de Judy era uma mistura de raiva, remorso e incredulidade.
— Judith, agora não. — Russel segurou os ombros dela. — Conversamos no seu quarto, Quinn. — Aquele foi um pedido para que os deixassem a sós, e Quinn o acatou mesmo a contragosto.
Ela subiu correndo e bateu a porta do quarto com a respiração ainda descompassada. Não conseguia ficar quieta. Queria pular a janela e fugir para qualquer lugar que a impedisse de ver os olhares dos seus pais. Aquele quarto parecia pequeno demais para o tamanho da confusão que rondava a sua cabeça. Seu laptop não parava de apitar. Havia vários pedidos de Brittany, Santana e Frannie para que as atendesse. Até mesmo Connor tentava algum tipo de comunicação. Eles sabiam. Claro que sabiam. Conheciam o seu quarto, mesmo em uma meia-luz. Mas Adam saberia? Não tinha como saber. Ele era o único que não tinha visitado a sua casa em Lima. Era impossível. Quinn torcia para que fosse.
Ela pensou em retornar a chamada de Frannie, mas os pais entraram no seu quarto.
Judy parecia mais calma, mas os seus olhos continuavam vermelhos. Ela fungou quando viu o rosto de Quinn com a marca dos seus dedos e tentou tocá-la, mas Quinn recuou novamente e deixou o laptop sobre a poltrona.
— Quinn. — Russel a advertiu. — A sua mãe está arrependida. Ela não vai bater em você outra vez.
— Eu estou bem. — Quinn enxugou as lágrimas. — Eu não tenho mais 15 anos. Não entendo o porquê dessa conversa.
— Não entende? O que acabamos de ver não é algo pequeno, Quinn. Você se relacionou com uma mulher casada na nossa casa sem que nós soubéssemos.
— Vocês não estavam aqui. — Quinn desviou o olhar. — Vocês estavam viajando quando isso aconteceu.
— Então vocês não tinham passado a noite juntas quando chegamos aqui e encontramos Rachel Berry usando as suas roupas? — Quinn não respondeu. — Como isso aconteceu?
Quinn respirou profundamente e os encarou antes de começar a contar parcialmente como tudo tinham se desenrolado desde o aniversário de Adam. Judy fazia força para ouvir e não a recriminar. Ela detestava imaginar a própria filha como um peixe pequeno demais nadando em um oceano perigoso. Detestava que Rachel fosse casada e que poderia ser a mãe dela, além de uma das mulheres mais famosas que já conhecera. Foi inevitável pensar no que todos diriam se soubessem disso. Rachel era um barril de pólvora. Qualquer notícia sobre ela era a faísca que incendiaria um país inteiro. Quinn era somente uma garota. O maior número daquela equação cairia sobre ela. Não era justo. Judy jamais conseguiria perdoá-la por ter escolhido a sua filha para suprir as lacunas da própria vida sem o mínimo de responsabilidade. Russel, sentado ao lado dela, também aparentava estar irritado e aflito. Eles planejavam chegar de viagem e passar as férias de Columbia ao lado de Quinn. Iriam juntos para o casamento de Frannie. Estavam animados. Agora, a casa deles estava uma bagunça. Não aprovavam nenhum tipo de traição. Quando Finn traiu Rachel, ambos o condenaram e, inconscientemente, acharam que Rachel pudesse retribuir aquele gesto desprezível mais cedo ou mais tarde. Só não podiam acreditar que Qunn estaria envolvida nisso anos depois.
Russel massageou as têmporas quando Quinn parou de falar e pensou por alguns minutos. Judy não se atreveu a dizer nada, e Quinn não queria. Não queria nem mesmo estar ali.
— Certo, isso não é o fim do mundo. Quinn é só uma garota e cometeu um erro. Rachel é uma artista e uma mulher mais velha. Isso a encantou. É normal. Podemos desfazer esse mal-entendido.
— Não, não foi só isso. — Quinn contestou. — Nós nos aproximamos e nos apaixonamos.
— Isso é impossível! — Judy ainda estava nervosa. — Rachel é casada há mais de vinte anos. Ela não se apaixonaria em dois meses, filha. Pare de achar que tudo é um conto de fadas.
— Nada é um conto de fadas, mãe. Eu não escolheria me apaixonar por uma mulher casada e mãe do meu melhor amigo, mas aconteceu. Foi algo natural e gradual. Eu não posso mudar isso.
— É claro que pode mudar. Você tem algumas semanas longe de Columbia e pode passar esse tempo com a sua irmã. Eu posso acompanhá-la. O casamento dela está chegando. Isso vai ajudá-la a esquecer Rachel Berry. — Judy a segurou pela mão. — Não faça isso conosco, Quinn. Não desaponte a nossa família dessa maneira.
— É sempre assim, não é?! — Quinn se levantou irritada. — Eu faço algo que vocês não gostam e então preciso abdicar disso pelo bem dessa família! É assim que as coisas funcionam! Eu nem mesmo posso falar o que realmente quero sem ser invalidada!
— Olha como fala conosco!
— Não! Eu sou uma mulher e não uma adolescente! Eu sei como me sinto perto da Rachel e sei que me apaixonei! Eu sei que talvez a ame! Não há nada que vocês possam fazer para estragar isso!
— Você acha que ela vai se separar do marido?! — Judy também ficou de pé. — Você foi só um cano de escape para ela fugir da vida monótona em que vivia! Você foi uma garota que ela usou! Não consegue entender isso?!
Quinn respirou fundo de novo e trincou a mandíbula. Não queria insular a própria mãe. Não era assim que gostava de agir. Ela deu meia-volta e tentou sair do quarto, mas Judy a segurou pelo braço.
— Não, Quinn! Não saia daqui! Nós estamos conversando!
— Vocês não estão conversando! Vocês estão tentando controlar a minha vida, como sempre fazem!
Judy se esforçou para se acalmar. Quinn tremia sob o seu toque.
— Nós só queremos o seu bem. — Ela diminuiu o tom de voz. — Eu amo você, e você sempre será a nossa garotinha. Estávamos vibrando pela sua admissão em Columbia dois anos atrás, e agora você faz tudo isso.
— Fazer tudo o quê?! Me apaixonar?! Não há nada de errado nisso! — Quinn puxou o braço.
— Há tudo de errado nisso. — Judy rebateu. — Ela é casada! Pelo amor de Deus!
— Eu não me importo, mãe! Há milhares de pessoas que se divorciaram e recomeçaram. Eu quero ser o recomeço da Rachel! Eu a quero!
— Isso é tudo culpa dela! — Judy voltou a se zangar. — Você está tão cega que não enxerga onde está pisando! O dever daquela mulher era se afastar e não usar uma garota de 20 anos!
— Ninguém está usando ninguém! E a Rachel também foi traída pelo idiota do Finn!
— E ela escolheu perdoá-lo e seguir em frente! Isso não dava a ela o direito de trair também! De trair com uma adolescente!
— Eu não sou uma adolescente! — Quinn gritou.
— Não grite conosco! — Russel ordenou, fazendo Quinn se calar.
Ninguém falou mais nada, e o ruído das respirações era sobressalente. Quinn se sentia asfixiada internamente. Precisava sair do quarto. Ela se moveu para girar a maçaneta, mas Russel a fez parar.
— Você tem até o fim do dia. Se não olhar nos meus olhos e disser que vai se afastar de Rachel Berry até o fim do dia, pode esquecer a mensalidade de Columbia, o seu carro, o seu apartamento e a quantia que recebe mensalmente na sua conta.
Aquilo foi pior do que o tapa que recebera de Judy, esse que Quinn nem sentia mais diante da perplexidade ao ouvir a sentença de Russel. Columbia era o seu sonho de infância. Se tornar neurocirurgiã era o seu maior objetivo. Era egoísta e vil usar isso para privá-la de viver e de amar uma pessoa. A tristeza a acometeu, mas mais do que isso, a raiva era maior e mais pesada, quase esmagando a sua cabeça. Quinn não disse nada. Tudo morreu no seu peito. Ao invés de dar meia-volta e proferir uma dúzia de agressões verbais, ela saiu do quarto e da casa.
O céu ainda estava nublado, ameaçando mais um temporal, e a rua continuava vazia.
Como se tudo isso não fosse o bastante, a figura de Finn irrompeu pela porta da casa dos Berry. Ele fitou Quinn como um leão encara a sua presa. Estava claramente perturbado. Seus olhos sequer piscavam.
Ele sabia de tudo.
— Você! — Finn gritou enquanto caminhava até Quinn. — Eu achava que você era apenas a amiga da minha esposa, mas vocês estavam transando!
Quinn mal teve tempo de se defender quando Finn segurou o seu suéter com as duas mãos. A respiração dele batendo freneticamente no seu rosto e fazendo os seus cabelos voarem. Ela não sabia o que ele pretendia fazer, mas não ficou com medo.
— O que você vai fazer, Finn? Me bater? — Quinn apoiou as mãos nos pulsos dele. Estavam perto demais. Os olhos de Finn queimavam perigosamente.
Finn não respondeu. Quinn quase caiu quando Hiram o afastou bruscamente. Leroy e dois guarda-costas que ela reconheceu estavam ao lado dele.
— Você ficou maluco? A Quinn é uma mulher. Ainda que não fosse, eu não permitiria nenhum tipo de violência aqui!
— Ela transou com a minha esposa!
— Rachel não é a sua propriedade, Finn! — Hiram o agarrou pelo blazer. — Ela também foi traída e não fez todo esse escândalo, então pare de gritar e agir como um animal!
— Então é isso?! Era só uma vingança?! Uma vingança por um erro cometido anos atrás?! Diga, Rachel! Era apenas uma vingança?! — Finn viu Rachel sair da casa dos pais. Estava alarmada e preocupada.
— Vamos entrar e conversar, tudo bem? — Hiram pediu. — Se Russel vier até aqui, as coisas podem piorar. Pessoas podem aparecer e registrar essa briga. Não queremos alimentar a mídia com mais conteúdo.
— Porque já alimentaram o suficiente com aquela foto nojenta! Se não fosse isso, eu continuaria sendo enganado! Eu deixei que você pisasse na minha casa! A melhor amiga do meu filho só se aproximou dele por causa da mãe!
— Não coloque as condições dessa forma! — Quinn falou. — Você não deveria estar tão ofendido depois de ter feito tudo o que fez com a Rachel! Você a traiu quando ela mais precisava de apoio e passou todo esse tempo colocando-a em segundo plano! Traição era o menor dos seus problemas!
— Você não tem o direito de falar do meu casamento! — Finn tentou avançar sobre Quinn outra vez, mas um dos guarda-costas o segurou rapidamente. — Quer falar de assuntos pessoais? Podemos falar sobre você! Uma anormal! É isso o que você é!
— Já chega! — Rachel gritou encolerizada e apontou o dedo no rosto de Finn. — Se pensar em falar assim com ela, eu não vou nem olhar para você.
— Como pode ficar ao lado dela?
— Você acha que eu ficaria do seu depois de ouvir isso? Só essa frase já me faria pedir o divórcio.
— Vamos entrar. — Leroy segurou o braço de Finn e praticamente o arrastou de volta para casa. Hiram o seguiu.
— Você está bem? — Rachel olhou para os lados para garantir que ninguém tinha saído para ver a cena que se desenrolou.
— Não, mas isso não é relevante agora. Você precisa conversar com ele.
— Eu vou conversar e esclarecer tudo. Nos vemos depois.
Quinn assentiu, e Rachel caminhou apressadamente até a casa dos pais. Finn transpirava. A camisa social estava amassada e com alguns botões abertos.
— Era só uma vingança? — Ele perguntou assim que ela fechou a porta.
— Não, não era. Eu me apaixonei, Finn.
— Isso é impossível, Rachel. Vocês conversam há pouco mais de dois meses. Ninguém se apaixona em dois meses.
— Eu me apaixonei. Me apaixonei em uma intensidade assustadora. — Rachel manteve a voz baixa. — Eu sei que não deveria ter perdoado você quando me traiu anos atrás, mas eu ainda o amava. Eu não fiz isso para ferir você propositalmente. Eu fiz porque me senti viva com outra pessoa depois de anos e não podia e nem queria ignorar esses sentimentos. Eu estou ficando velha e não posso perder tempo tentando fazer um casamento arrebentado dar certo.
— Exatamente, Rachel. Você está ficando velha. Eu estou ficando velho. Aquela... garota... é vinte anos mais nova. O que você acha que vai acontecer quando estiver senil e ela ainda for uma mulher jovem? Ela vai largá-la na primeira oportunidade, mas eu...
— Você vai continuar me colocando em segundo lugar, aparecendo quando o convém e agindo como se fosse um favor estar presente. Eu não quero envelhecer assim, Finn. Se ela me deixar um dia, eu não vou me arrepender de ter vivido o que vivi, assim como não me arrependo de nós dois, mas agora chegamos ao fim. Eu não me sinto mais feliz nesse casamento, e não há algo que faça essa situação mudar.
— Talvez isso seja apenas uma crise no casamento, Rachel. É natural as coisas enfraquecerem depois de vinte e dois anos, mas eu posso trazê-las de volta. Eu sei que posso. — Finn começou a se desesperar. — Me deixe reconquistá-la.
— Eu jamais trairia você se fosse apenas uma crise, Finn. Eu jamais transaria com outra pessoa sem sequer me arrepender no dia seguinte. — Rachel piscou devagar. Seus olhos se enchiam de lágrimas. — Nós vivemos o que tivemos de viver, mas ultimamente estávamos apenas nos destruindo, e não se destrói quem ama. Traição é uma destruição. O que eu fiz não foi certo, mas comprova que eu não o amo mais. Não como marido. Eu não queria que isso tivesse acontecido dessa forma, mas agora não há volta.
— E você acha que ela vai ficar do seu lado se todos souberem disso? Você acha que os seus fãs vão apoiá-la incondicionalmente?
Rachel abriu a boca.
— Você ouviu o que acabou de falar? Você também me traiu, Finn.
— Mas isso não se espalhou como fogo.
— Porque não éramos tão conhecidos.
— E agora somos. Eu sei o quanto você se importa em cultivar a própria imagem. Você vive para isso. Seu cardápio vegano, as causas que defende, os projetos sociais, os tecidos orgânicos. — Finn alfinetou. — As pessoas espelham você. O que acha que estão falando agora que descobriram que Rachel Berry gostou de abrir as pernas para outra pessoa?
Rachel deu dois passos para frente. As lágrimas dando lugar à cólera. Ela acertou Finn com um tapa forte no rosto, assustando-o e fazendo-o cambalear para trás.
— Nunca mais abra a boca para falar de mim nesse tom! Você não tem o direito! Eu fui a melhor esposa do mundo durante anos! Eu perdoei os seus atrasos, a sua falta de comprometimento, a sua indiferença e a falta de afeto quando eu precisava! Eu ligava todos os dias para o seu celular e deixava mensagens na sua caixa postal! A sua memória é boa para a minha rotina, mas e a sua?! Você se lembra, Finn?! Se lembra do tom cansado que usava quando chegava do trabalho e me encontrava esperando você sentada na mesa de jantar?! De como você mal me olhava?! De como tudo era mórbido e automático?! Aquilo me despedaçou por muito tempo, mas eu cansei! Eu cansei disso antes mesmo de conhecer a Quinn! O meu envolvimento com ela não é o motivo do divórcio, somente o estopim! Eu mereço mais do que o ciclo que entrei com você e estou tentando ser cordial, então não pense em despejar merdas pejorativas em cima de mim! Todos sabem quem eu sou! A minha carreira não vai ser destruída por causa disso! A minha carreira é indiscutivelmente maior do que você sequer consegue pensar! Eu vou continuar sendo a maior artista da Broadway, mas não mais o seu troféu pessoal!
— Rachel, eu amo...
— Não, Finn. Não. — Rachel foi cortante. — Nós estávamos errando muito antes da traição, então não diga que me ama. Isso não vai consertar nada.
— Mas eu amo! — Ele rebateu. — Eu posso ter sido um marido horrível, mas eu a amo. Se você ficar comigo, eu faço o que você quiser. Eu largo os Giants.
— Eu não quero nada, Finn. Eu pedi menos do que isso durante anos e nunca fui ouvida. Agora é tarde demais. Eu sinto muito, mas eu quero o divórcio.
— Eu não vou dar o divórcio.
— Eu sei que não, por isso vou para o litigioso.
— Rachel...
— Eu lamento, Finn, mas o nosso casamento acabou. Não temos mais nada para falar. Eu acho melhor você ir para a casa da Carole. Ela vai acalmá-lo.
— Você vai se arrepender disso, Rachel! Rachel! — Finn tentou segui-la quando ela foi para o hall, mas Leroy, que estava em silêncio no cômodo ao lado, o impediu.
— Finn, pegue os seus pertences e vá para a casa da sua mãe. Não me obrigue a expulsá-lo.
Finn se afastou e fungou. Seu rosto estava molhado de lágrimas.
— Você sabia disso, não sabia? Sabia que eu estava sendo feito de idiota esse tempo todo.
— Eu sabia que a Rachel estava sofrendo no casamento, mas não tentei mudá-la. Se é isso o que ela quer, eu vou apoiá-la.
Finn riu amargurado.
— Quinn vai deixá-la, e nós sabemos disso. Ela não vai aguentar o peso da mídia.
— Se isso acontecer, eu vou cuidar dela.
— Era isso o que você queria. Me ver longe.
— Eu queria que você entendesse o problema real do seu casamento, mas isso não aconteceu. Eu não estou feliz, Finn. Essa situação não me deixa satisfeito.
Leroy sentiu uma pontada de lamentação quando Finn enxugou o rosto com a manga da camisa, mas não podia fazer nada para acolhê-lo. Nada do que dissesse o faria se sentir melhor.
— Eu venho buscar as bagagens depois, mas isso não vai ficar assim.
Hiram entrou no cômodo a tempo de ver Finn deixar a casa. Ele encarou Leroy com pesar.
— Você acha que ele a ama? — Leroy perguntou.
— Acho. O amor não é sempre bonito como achamos. Às vezes, acaba se tornando destrutivo, mas Finn se nega a ver isso.
•••
No final daquele dia catastrófico, Rachel ainda não tinha saído do quarto. Ela estava quase enlouquecendo enquanto pensava em uma solução para falar com Quinn. Ter tanto dinheiro não a ajudava naquele momento. Era frustrante não poder levá-la para o avião particular em Cleveland e ignorar todo o caos dilacerante que as acometia.
A TV estava ligada, mas ela não parava de passar pelos canais que noticiavam e comentavam sobre a foto vazada, o que a causava um desconforto latente. Nunca estivera tão exposta. Finn estava certo sobre algo. Gostava de cultivar a própria imagem. Sua vida sempre estivera nos trilhos. Há horas, o trem acabara de bater. Ellie, Kurt, Blaine e dezenas de outros amigos ligavam initerruptamente para o seu celular, especialmente Adam, mas não os atendeu. Ainda não estava pronta. Mal conseguia pensar direito. Tudo o que queria era saber como Quinn estava.
Ela estava quase cogitando jogar algo na janela dela quando a porta do seu quarto foi aberta e Quinn passou por ela.
Rachel correu para abraçá-la.
— Oh, meu Deus, Quinn!
— Eu senti sua falta. — Quinn a apertou e enterrou o rosto no ombro dela. Queria prolongar o contato, mas Rachel a segurou e a fez encará-la.
— Não mais do que eu. Me desculpe. Me desculpe por tudo isso.
— A culpa não foi sua, Rachel. Eu esqueci o meu celular em cima da mesa do The Lima Bean e alguém o pegou. Eu fui irresponsável. Me desculpe. Desculpe...
Rachel a calou com um beijo, reivindicando e explorando a boca dela como nunca havia feito em um misto de saudade, medo e paixão. Elas caminharam até a cama e se deitaram. Não tinham clima para aprofundarem nada, mas se encararam após quebrarem o beijo. Os dedos de Rachel se enroscavam nos fios soltos do cabelo de Quinn.
— Eu também acho que a amo. — Ela sussurrou.
Quinn se esqueceu, por um momento, tudo o que conversara com os pais, a sua briga com Finn e a foto exposta. Ela as virou na cama e segurou o rosto de Rachel com as duas mãos. Seu coração martelava.
— Diz de novo.
— Eu acho que a amo também.
Quinn sorriu. Rachel estava ali, correspondendo aos seus sentimentos da maneira mais doce e sincera que conseguia após tantas turbulências. Não sabia como reagir, exceto tentando beijá-la o máximo que conseguia. Elas rolaram sobre o colchão até caírem no carpete grosso e macio em meio a risadas.
— Você está bem? — Rachel apoiou as mãos nos ombros de Quinn
— Estou, eu estou bem. Tudo fica bem quando eu estou com você. — Quinn a deu um selinho.
— O que os seus pais disseram?
— Eles... eles não aceitaram e nem irão. Eu não posso ficar naquela casa ouvindo tudo o que estão falando sobre você. — Quinn se sentou sobre o carpete. Ela se sentia mal por esconder de Rachel o ultimato de Russel, mas não queria deixá-la pior.
— Eu consigo entendê-los. — Rachel se acomodou ao lado dela. — Se Connor fosse vinte anos mais velho do que Adam, eu também me preocuparia.
— Mas você tentaria entender. Você sempre tenta entender todo mundo. O seu coração é enorme, Rach. — Quinn pegou a mão de Rachel e as entrelaçou. — Por isso vou voltar para Nova York com você. Vamos enfrentar isso juntas, e os meus pais vão ter de conviver com esse fato.
— Não, Q. Não faça isso.
— Como não? Eu quero. Eu...
— Quinn... — Rachel segurou o queixo dela com a mão livre. — O que as pessoas fazem quando há uma tempestade? Elas esperam passar. Pelo menos amenizar. Depois, elas saem. É isso o que devemos fazer. Provavelmente os fotógrafos estão agora na frente da mansão esperando qualquer pessoa. Assim que eu pisar em Nova York, eles não vão me deixar em paz. Se você for comigo, será fácil ligar todos os pontos, e eu não a quero exposta para o mundo agora.
— E o que você quer que eu faça? Quer que eu fique aqui? Eu prometi que estaria com você. — Quinn insistiu.
— Você prometeu isso antes dessa foto vazar. O melhor a se fazer agora é permanecer aqui ou voltar para Nova York depois que eu partir. Tudo vai entrar nos eixos em breve. Quando essa pressão diminuir, nós podemos dar alguns passos. Estaremos juntas enquanto isso, mas não podemos ser vistas publicamente por enquanto. Não é difícil para as pessoas nos associarem, principalmente porque eu traí o Finn depois de ter vindo para cá com você, mas não há provas. Quanto mais você sumir da mídia, melhor. Não sabemos se vão vazar nossas mensagens, mas não podemos arriscar.
Quinn suspirou, mas assentiu.
— Eu quero que me contate sempre.
— Eu irei. Estamos fazendo a coisa certa, Quinn.
— A coisa certa seria eu estar com você. Eu não queria deixá-la sozinha. — Quinn parecia chateada, e Rachel a abraçou.
— Eu estou perdidamente apaixonada por você, e você vai estar comigo no meu coração. Nós sempre estaremos juntas. Eu prometo.
Quinn não disse nada e a beijou. Sua mão subiu da cintura até o pescoço de Rachel, trilhando a linha da mandíbula e a ouvindo suspirar. Por fim, quebrou o beijo para contornar os lábios dela com o polegar. Talvez ainda fosse cedo para dizer as três palavras mais importantes com tanta certeza, mas não precisava verbalizar. Rachel sabia. Quinn sentia que ela sabia, porque sentia o mesmo.
— Você é a minha estrela, Rachel Berry.
•••
— Onde você estava? — Judy perguntou quando Quinn fechou a porta do hall.
— Eu estava com a Rachel.
— Eu não acredito que você foi vê-la.
— Eu fui vê-la apenas para dizer que vamos nos afastar. É isso o que vocês querem, não é? Eu pensei por horas e decidi tomar essa decisão.
— Você... o que... — O mundo pareceu sair das costas de Judy. Ela sorriu, diferente de Quinn, que estava frustrada por ter de fazer isso.
— É isso mesmo. Eu vou me afastar de Rachel Berry. Espero que estejam satisfeitos. — Quinn viu Russel se aproximar.
— Eu sei que não foi fácil, Quinn, mas estamos orgulhosos. Nós fizemos isso pelo seu bem. Espero que consiga entender. — Ele a abraçou.
Quinn se forçou a retribuir. Ela odiava ter raiva dos pais, mas não conseguia perdoá-los por estarem fazendo com que mentisse para eles.
— Eu vou preparar a sua sobremesa favorita hoje. Estamos aqui para ajudá-la a passar por isso, meu amor.
Quinn assentiu e subiu para o próprio quarto. Ela pôde ver o carro de Hiram parado no acostamento ao olhar pela janela. Ele guardava algumas bagagens no porta-malas com a ajuda dos guarda-costas de Rachel. Rachel saiu logo depois. Tinha trocado de roupa. O vestido e os sapatos sem salto trocados por uma saia longa e saltos altos. Ela parecia sempre impecavelmente elegante quando saía. Quinn se apoiou no parapeito, e Rachel olhou diretamente para a sua janela, como se soubesse que estaria ali.
Elas trocaram um aceno, e Rachel entrou no carro. Quinn fechou a janela quando ele acelerou e sumiu ao virar à direita no final do quarteirão, sentindo a solidão incômoda de constatar que estaria terrivelmente longe de Rachel em poucas horas.
Ela se sentou na cama. Não havia nada para fazer. Ainda não tinha falado com Frannie e com os amigos, tampouco ligado a TV. Mas deixou que Judy entrasse no quarto.
— O seu pai encontrou isso. É para você.
Quinn franziu o cenho e pegou a caixa pequena enrolada em papel de presente.
— Ele viu quem deixou?
— Não. Ele foi ao mercado e viu a caixa de correio aberta, mas não tinha ninguém por perto.
— Obrigada, mãe.
Judy saiu do quarto. Quinn ainda estava confusa. Não havia selo ou qualquer endereço. Somente o seu nome anotado com uma caneta hidrográfica permanente. Quem quer que tivesse deixado aquilo na caixa de correio, não foi o carteiro.
Ela rasgou e embalagem e pegou uma tesoura para cortar a fita da caixa de papelão. Dentro, havia isopor e o seu celular. Nada parecia ter sido alterado, apagado ou lido, incluindo as mensagens recentes não lidas.
Era como se quem pegou o seu celular soubesse, de alguma maneira, sobre Rachel.
Mas quem?
•••
Rachel suspirou.
— Você está bem, meu amor?
— Não, papai. Eu não estou. Eu só queria agilizar todo esse processo doloroso de não poder viver o que eu sinto livremente agora.
— Eu sei disso, mas tudo vai se resolver logo. Seu pai vai nos encontrar semana que vem.
— Obrigada por estar indo comigo. — Ela descansou a cabeça no ombro de Hiram e observou as ruas de Lima passarem através da janela do carro.
— Eu faria qualquer coisa por você.
— Eu sei, papai. Eu amo você.
Ninguém disse mais nada, e Rachel fechou os olhos.
Havia uma enorme estrada para percorrer. Maior do que o trajeto de Ohio até Nova York. Maior do que qualquer rota dirigível. Os obstáculos inevitavelmente a cercariam. Judy, Russel, Finn, Adam, a sociedade e uma mídia ensandecida.
Rachel esperava passar por tudo isso.
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