A Luz dos Teus Olhos
17 Capítulo 17 - Frio no verão...
Notas iniciais
Quinn já estava deitada há algum tempo, mas não conseguia dormir. Ainda que fosse julho, início de verão, o dia amanheceu gris. A chuva escorria pela janela do quarto. Mal conseguia enxergar a copa da árvore balançando na área dos fundos. Ela suspirou. Seus olhos ardiam. Seu corpo estava pesado e tenso. Não conseguia parar de pensar na conversa trocada com Rachel na noite anterior. Queria acreditar fervorosamente que ela pediria o divórcio quando chegasse em Nova York, mas a insegurança começava a consumi-la enquanto repetia que ela não mentiria sobre os próprios sentimentos. Rachel não era assim. Quinn sabia disso. Mas ainda era difícil não sentir a fragilidade daquilo tudo. No fim, estava diante de duas tempestades. Interna e externa.
Ela pegou o celular sobre a mesa de cabeceira e abriu a galeria. Sentia falta de Rachel. As horas passavam devagar, torturando-a com o desgosto de não estar passando os dias em Lima com ela. Tudo o que podia fazer era ver as fotos e mensagens que tinha acumulado durante semanas. As imagens que Rachel enviava nos intervalos dos ensaios de Wicked, as histórias que leu, os vídeos que assistiu. Não queria pensar que ela não podia contatá-la porque Finn não saía de perto. Não queria pensar que ele poderia querer beijá-la. Não queria pensar no que Frannie dissera. Sua mente repassava as palavras de Rachel. Estava apaixonada também. Partilhava dos mesmos sentimentos. Quinn esperava que a paixão recente fosse forte o bastante para não permitir que hesitasse sobre o divórcio. Não cabia mais a ela decidir alguma coisa agora. Rachel precisava continuar com a sua decisão.
E isso era angustiante.
Ela se assustou quando o celular começou a vibrar na sua mão, puxando-a da luta interna da sua cabeça. O nome de Rachel piscava na tela. O coração de Quinn martelou, e a adrenalina invadiu o seu corpo. Sabia o que era. Frio no estômago. Sua circulação sanguínea diminuiu no abdômen. O estômago se contraiu e liberou uma maior quantidade de ácido. Já tinha sentido aquilo muitas vezes. Quando foi para o primeiro encontro. Quando deu o primeiro beijo. Quando tocou outra garota. Quando recebeu a carta de Columbia. Mas agora parecia pior, como se houvesse um elástico encolhendo o seu estômago o máximo que conseguia, martirizando todo o seu corpo.
Ela aceitou a chamada.
— Quinn?
— Rach?
Quinn a ouviu suspirar do outro lado.
— Graças a Deus. Eu achei que você não fosse atender.
— Por que eu não atenderia?
— Porque eu fiquei com medo. Medo de você ter desistido de mim. De nós duas.
Quinn percebeu quando ela diminuiu o tom de voz.
— Ele está por perto?
— Não. Meu pai exigiu que ficássemos em quartos separados. Foi uma forma de me ajudar, mas eu não quero que ele ouça algo acidentalmente e tudo vire uma confusão.
— É engraçado, não é? — Quinn encarou o teto. — Finn está no quarto ao lado do seu enquanto você fala com a sua amante.
— Você não é a minha amante.
— E o que eu sou?
— Você é a minha amiga e a pessoa pela qual eu estou apaixonada.
Quinn ouviu uma porta se fechar, e de repente um eco familiar soou no seu ouvido.
— Você está no banheiro?
— Estou. Eu estou sentada dentro da minha banheira.
Quinn soltou uma risada. Ela riu pela primeira vez desde que Finn chegara em Lima, e Rachel a acompanhou quando se deu conta do porquê ela estava gargalhando. Era uma situação cômica, embora fosse revés.
Elas pararam de rir gradativamente e ficaram em silêncio por alguns segundos até Quinn mudar de assunto.
— Eu sinto sua falta.
— Eu também sinto. Eu sinto muito sua falta. Você poderia vir aqui. No meu quarto.
— O quê?
— Eu disse para o Finn que estava sofrendo uma série dolorosa de cólicas, então você pode vir e me fazer companhia como uma boa amiga faria. Ele não vai desconfiar.
— Rachel...
— Por favor, Quinn. Eu... preciso ficar perto de você. Eu quero abraçá-la. Podemos apenas conversar. Eu só quero ter você do meu lado.
— Eu não posso, Rach. Eu queria, queria muito, mas me sentiria péssima de estar em uma casa com o Finn.
— Você não pensou nisso quando esteve comigo duas noites seguidas, Quinn.
— Ele não estava aqui, Rachel. Quando você tirou a aliança e a colocou na minha mesa de cabeceira, eu esqueci, por todas as horas seguintes, que você era uma Berry-Hudson. Que você era uma mulher casada. Eu vi você como uma linda mulher que eu reencontrei anos depois e que estava solteira. Eu não sou tão confiante quanto pareço. Eu não consigo tê-la novamente com a imagem do Finn me cumprimentando no jantar de ontem cravada na minha memória.
Rachel demorou um pouco para responder.
— Então eu vou até aí. O Finn não vai me seguir.
— Não, Rach.
— Por que não? Não precisamos transar, Quinn. Por acaso você se arrependeu de tudo o que disse? — Rachel estava visivelmente chateada.
— Eu não me arrependi. Eu estou aqui, apaixonada por você, querendo desesperadamente atravessar o jardim da casa dos meus pais para ir até o seu quarto e tocá-la, mas eu também quero ficar na minha cama, olhando a chuva cair e pensando em tudo o que houve. Foi rápido demais para nós duas, e eu estou morrendo de medo, Rachel. Eu estou com medo de você abrir os olhos e descobrir que não vale a pena trocar um casamento de anos por uma pessoa que está começando a trilhar os próprios caminhos agora. Estou com medo de que decida dar mais uma chance para o Finn. — Quinn respirou fundo.
— Eu abri os meus olhos no dia em que percebi que conseguiria ser feliz fora desse casamento, Quinn. E isso veio antes de você. Você só me ajudou a enfatizar isso. Quando nos beijamos pela primeira vez, minhas pernas ficaram fracas. Eu já abri os meus olhos para mim mesma. No dia em que eu soube da traição do Finn, eu achei que iria deixar de amá-lo. Os meus pais e Kurt estiveram comigo, me aconselhando e repetindo o quanto ele não me merecia, mas eu não consegui largá-lo, mesmo sentindo vontade de arrancar o meu coração. E então os anos se passaram. Eu ainda não tinha aberto os meus olhos completamente e ainda tentava chamar a atenção dele, apesar de receber promessas vazias. Eu provavelmente pediria o divórcio daqui a alguns meses se você não estivesse aqui, mas você estando aqui, ocupando o meu coração, me fez querer agilizar o que eu tanto queria e não adiar o inevitável. Eu sinto que posso ser feliz novamente com uma pessoa boa, gentil, amorosa, honesta, sensível. A vida é feita de escolhas, Quinn. Eu fiz a minha escolha. Eu quero tirar os venenos e os espinhos da minha frente e fazer o meu próprio final feliz. Eu queria pedir o divórcio ainda hoje.
— Não, Rach. Você não pode. — Quinn não conseguiu dizer mais do que isso. Ela fungou e secou algumas lágrimas.
— Você está chorando?
— É claro que eu estou. Ninguém nunca disse algo tão lindo assim para mim.
— Você me faz sentir única, e eu quero fazê-la se sentir única também.
— Você me faz sentir única só pelo fato de estar comigo, Rachel. Eu sou a pessoa mais sortuda do mundo.
— Então me deixe pedir o divórcio, Quinn.
— Em Nova York.
— Mas...
— Nós sabemos o que vai acontecer se você fizer isso agora, Rachel. Meus pais não vão parar de falar sobre esse assunto. Além disso, Adam precisa saber disso primeiro. Não seria justo com ele. Eu vou voltar para Nova York logo depois de você.
— Eu achei que os seus pais tivessem mudado vários pensamentos.
— Eles mudaram, mas não o suficiente.
— Tudo bem. Eu acho que você tem razão. Preciso conversar com o Adam pessoalmente. — Rachel suspirou. — Eu não aguento mais esperar.
— Você vai para Nova York amanhã.
— Mas parece tanto tempo.
Quinn riu.
— Você é tão dramática.
— E você é tão chata.
— Eu estou com saudade.
— Eu também estou.
Quinn iria falar mais alguma coisa, mas a voz de Hiram soou no fundo da ligação. Estava na hora do almoço.
Elas se despediram, e Quinn enterrou o rosto no travesseiro. A ligação fez bem para o seu estado emocional, mas também agradecia por estar sozinha. Precisava pensar um pouco e colocar os pensamentos em ordem para conseguir suportar o que viria com o divórcio de Rachel. Não sabia como contaria aos pais quando decidissem assumir tudo publicamente no futuro e não sabia como todos reagiriam, mas sabia que precisava, antes de tudo, estar calma.
•••
Havia silêncio incômodo na sala de jantar dos Berry. Rachel não sabia o que dizer, porque não queria estar ali e sim no quarto de Quinn. Hiram e Leroy também estavam desconfortáveis. Eles podiam sentir a inquietação emanando da filha e sabiam que a mente dela estava distante daquele cômodo. Tinham conversaram bastante na noite anterior quando estavam a sós no quarto. Um divórcio nunca era fácil, e embora Rachel alegasse que já não sentia amor por Finn, ainda assim seria um processo extremamente complicado, principalmente porque ele não teria uma boa reação. Por isso, tomaram algumas decisões.
— Nós vamos passar alguns meses em Nova York. — Leroy comunicou.
— Vocês vão? Quantos meses? — Rachel sorriu.
— Longos meses. — Hiram respondeu. — Queremos ficar mais próximos do nosso neto e de você também. Sentimos falta do Adam.
— Nesse caso, eu vou ligar para a mansão e pedir para o Lucien preparar o quarto de vocês. — Rachel gesticulava rapidamente.
— Nós ainda vamos fazer as malas e preparar tudo na clínica antes de irmos, meu bem, então provavelmente vamos precisar de alguns dias. Não precisa ter pressa.
— Mas eu quero tudo perfeitamente preparado para vocês. Eu já volto. — Rachel deixou o guardanapo sobre a mesa e se levantou.
Finn sorriu para os sogros.
— É uma ótima notícia. Adam vai adorar tê-los por perto, assim como a Rach e eu.
— Obrigado, Finn. Nós estamos animados também. — Hiram retribuiu o sorriso.
Leroy abriu um sorriso menor e tomou um gole de suco. Tinha certeza de que Finn estava mentindo parcialmente. Apesar de estar casado com Rachel há muito tempo, a convivência entre eles não era das mais amistosas. Havia sempre uma implicância implícita na relação que desenvolveram, e tudo piorou após a traição. Leroy sabia que casamentos podem ter uma segunda chance, mas nunca conseguiu digerir como Finn teve coragem de fazer aquilo enquanto Rachel estava desesperada com as provas de NYADA e cuidando integralmente de um filho de 4 anos. Ela precisava de apoio e não de um golpe nas costas. Um relacionamento é uma via de mão dupla, mas tudo o que Leroy enxergava naquele casamento era o esforço exaustivo de Rachel para não permitir que ele afundasse sem receber nada em troca. Talvez Finn a amasse, mas não parecia ser o bastante. Não aos olhos de Leroy. O ego dele sempre gritou alto demais quando se tratava de Rachel. A certeza deturpada de que a teria para sempre o impediu de ver que, um dia, ela simplesmente poderia se cansar. E que se isso acontecesse, não conseguiria mais recuperar o que se perdeu.
Rachel voltou depois de alguns minutos e se sentou novamente.
— Demorei muito?
— Para mim sim. — Finn segurou e beijou as costas da mão dela.
Rachel tentou sorrir. Queria conversar francamente com Finn, mas Quinn pediu para esperar até chegarem em Nova York, então agiria da melhor forma que conseguisse até o dia seguinte.
— Lucien vai preparar tudo. Eu estou tão feliz por saber que vou ter vocês perto de mim.
Hiram sorriu. Ele também estava contente. Não aguentaria ficar longe quando a mídia explodisse sobre Rachel. Aquela foi a melhor decisão que poderiam ter.
•••
Quinn aspirou o ar frio assim que pisou na grama molhada do jardim e afundou as mãos nos bolsos do casaco antes de caminhar até o The Lima Bean. O movimento estava fraco. Com a chuva torrencial, as pessoas ainda deveriam estar em casa, pensou. Contudo, estar ali era melhor do que encarar as paredes do seu quarto. Depois de pedir um café gelado, ela se sentou em uma das mesas para observar a avenida através das janelas, mas percebeu uma pequena confusão se instalar na pequena fila perto do caixa.
A mulher que não conseguia encontrar a carteira na bolsa parecia ter a sua idade. Os cabelos eram pretos e curtos, como um chanel, só que mais moderno, e a pele pálida era coberta por alguns sinais. Usava botas sem salto, mas era perceptivelmente mais alta. No entanto, havia algo familiar sempre que ela se mexia. Quando estreitava os lábios, as covinhas nas bochechas ficavam evidentes. Ela estava quase sendo retirada da fila quando Quinn se levantou e se ofereceu para pagar.
— Não. Não precisa. — Ela balançou a cabeça, negando. — Eu sei que está aqui.
— Você está nervosa, e há pessoas esperando na fila. Eu posso pagar. Depois você me devolve. O que acha? — Quinn abriu um sorriso gentil.
A mulher pensou por um instante, mas acabou aceitando. Quinn esperou que ela fizesse o pedido e o pagou.
— Obrigada. Muito obrigada. — Ela agradeceu e seguiu Quinn até a mesa de dois lugares em que estava sentada.
— Não há de quê. — Quinn fitou o copo dela. — Café puro na hora do almoço?
— Eu preciso disso para me manter acordada. A propósito, meu nome é Lucy. Lucy Vaux. — Ela estendeu a mão após se sentarem. Quinn a apertou.
— Vaux? Então você é francesa?
— Franco-americana. — Lucy bebeu um pouco do café. — A minha mãe nasceu na Inglaterra, mas se naturalizou nos Estados Unidos, por isso me chamo Lucy. Ela quis manter parte das origens.
Quinn soltou uma risada.
— A minha mãe adora a Inglaterra. Talvez eu me chame Lucy por causa disso. Eu nunca perguntei.
— Lucy? Você também se chama Lucy?
— Sim. Na verdade, é Lucy Quinn, mas eu gosto que me chamem pelo segundo nome. Quinn Fabray.
— É um prazer conhecê-la, Quinn Fabray, e obrigada outra vez por me salvar daquela situação constrangedora. Eu jurava ter colocado a carteira na minha bolsa ao deixar o hotel hoje pela manhã.
— Então é a sua primeira vez em Lima?
— Em Ohio, para ser mais sincera. Eu moro em Santa Bárbara.
— Eu adoro Santa Bárbara. A minha irmã morava lá antes de se mudar para Los Angeles. Eu a visitei bastante. — Quinn sorriu. — E considere o café um presente pela sua primeira vez em Ohio, embora não seja tão interessante.
— Há coisas interessantes em Ohio, principalmente aqui. Conhecer você me fez enfatizar esse pensamento.
Quinn se sentiu corar diante do olhar de Lucy. Ela era linda, e os olhos verde-escuros contrastavam perfeitamente com o resto do rosto dela, mas não passou pela sua cabeça que a sua ajuda poderia significar mais do que um ato de gentileza.
Ela não soube exatamente como agir, mas falou o que tinha de falar.
— Eu estou apaixonada. Por uma pessoa. — Quinn não pensou que poderia soar rude até as palavras saírem da sua boca. — Me desculpe falar tão diretamente, mas eu não quero que isso pareça algo que não é. Digo... eu a ajudei e...
— Está tudo bem. — Lucy a interrompeu com uma risada. — Eu fico feliz por você ter sido tão sincera, porque eu realmente fiquei interessada, mas você está apaixonada, e eu não vou tentar outro flerte.
Quinn sorriu aliviada.
— Obrigada.
— Então você gosta de uma pessoa. Uma mulher?
— Sim. Uma mulher.
— E por que você está aqui nessa cafeteria sozinha e não aproveitando esse dia chuvoso com ela?
— É... é complicado. — Quinn encarou as gotículas de água escorrerem do seu copo.
— Não é recíproco?
— É recíproco, mas ela tem alguém.
— Oh, a sua pessoa já tinha uma pessoa antes de conhecê-la.
Quinn apenas assentiu devagar, e Lucy decidiu mudar o rumo da conversa. Não queria deixá-la desconfortável. Elas continuaram conversando sobre alguns assuntos mais básicos. Quinn contou sobre Columbia e descobriu que Lucy trabalhava como bióloga marinha em Santa Bárbara.
— E o que trouxe você até Ohio?
Lucy ponderou, mas puxou um envelope amarelo da bolsa.
— Eu vim conhecer o meu pai biológico. — Quinn se surpreendeu, e Lucy continuou: — A minha mãe já estava grávida quando se casou e foi morar na França. Ela conheceu esse garoto no ensino médio, mas nunca contou sobre a gestação. Ele estava feliz com a nova namorada, e ela não queria atrapalhar a vida dele, o que eu achei tolice. Ela nunca me falou sobre ele até semana passada, no meu aniversário de 23 anos. Disse que era o presente que eu mais queria. Eu passei dias processando a informação quando ela me falou tudo isso. Desde então, reuni algumas notícias em que ele era o assunto principal para saber um pouco mais sobre a vida dele.
Quinn absorvia a quantidade de informações que recebeu.
— Então ele é conhecido na mídia?
Lucy assentiu e entregou o envelope para ela.
— Eu estou bastante ansiosa. Quando decidi ir até ele, eu soube que estava aqui com a esposa em uma viagem através de um site. Como você nasceu e cresceu aqui, eu decidi contar. Talvez você o conheça.
Foi como uma pancada forte nas têmporas de Quinn, fazendo-a congelar até a sua mente cair sobre Finn. As covinhas nas bochechas. O sorriso um tanto quanto infantil e assustadoramente conhecido. Não era possível que... ou era?
Ela abriu o envelope em uma velocidade impressionante, arregalando os olhos ao ver a foto de Finn em alguns jornais recortados.
— Você é filha de Finn Hudson?
Quinn mal podia acreditar que diante de uma infinidade de pessoas com quem poderia conversar, estava conhecendo justamente a filha até então desconhecida do marido da mulher por quem estava apaixonada.
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