A Luz dos Teus Olhos

15 Capítulo 15 - Um mundo acinzentado...


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Espero que gostem do capítulo e desculpem-me se houver algum erro. Boa leitura. =D

Na manhã seguinte, Quinn acordou primeiro.

Rachel estava agarrada às suas costas. O calor do corpo dela aquecendo o seu. Quinn se virou e sorriu, afastando alguns fios de cabelo e a beijando na testa suavemente. Ela se mexeu, mas não despertou. Quinn aproveitou para se levantar devagar e ir para a cozinha preparar algo para o café da manhã, mas o ruído do telefone sobre a mesa embaixo da escada chamou a sua atenção.

Havia um recado deixado na secretária eletrônica. Quinn se encostou na borda da mesa para ouvir, e a voz de Judy ecoou no corredor do hall.

"Quinn, querida! Não sabíamos que você estava em Lima. Santana nos contou ontem à noite. Seu pai e eu estamos desembarcando em Columbus agora. Nos vemos daqui a pouco. Amamos você."

O recado tinha sido enviado há, pelo menos, uma hora. Quinn nem mesmo ouviu o bip do telefone antes de correr para checar as horas no relógio da cozinha. Quase meio-dia. Seus pais poderiam estar dobrando a esquina. As roupas que usou na noite passada ainda estavam no chão. A área dos fundos continuava decorada. Quinn se apressou em guardar todas as velas e as lâmpadas no depósito, lavar as louças e descartar a garrafa de vinho. Enquanto tentava equilibrar o buquê em uma mão e os vestidos e sapatos na outra, ela viu o carro de Russel entrar na garagem através da janela da sala de estar e subiu a escada depressa.

Rachel estava sentada na cama quando voltou para o quarto. O lençol enrolado no torso e os cabelos bagunçados. Quinn trancou a porta e largou tudo o que segurava na poltrona.

— Bom dia.

— Bom dia. — Rachel sorriu. Quinn quase se esqueceu dos seus pais no andar de baixo e caminhou para beijá-la rapidamente, mas Judy bateu na porta.

— Quinn? Você está aí?

Rachel a olhou assustada.

— Seus pais. — Sussurrou.

Quinn assentiu.

— Estou, mãe. Eu já vou descer.

— Tudo bem, mas não demore. Queremos abraçá-la.

Quinn ouviu os passos de Judy se afastarem do seu quarto e se jogou na cama.

— Eu não esperava que eles fossem chegar tão rápido.

— Eles disseram que chegariam três dias depois de nós.

— Eu sei. — Quinn suspirou. — E se nós escaparmos pela janela?

Rachel soltou uma risada.

— Judy provavelmente chamaria a polícia para encontrá-la.

Quinn balançou a cabeça. Rachel tinha razão.

— Eu preciso descer. Eles não vão me deixar em paz.

— Está tudo bem. Eu vou colocar um dos seus pijamas. Eles vão acreditar que passamos o dia aqui e acabamos dormindo.

— É normal eu estar frustrada por ver os meus pais?

— Um pouco. — Rachel sorriu e se inclinou para deixar um selinho nos lábios dela.

Elas não aprofundaram nada. Quinn entregou um short e uma camiseta para Rachel após colocar o vestido e os sapatos dela em uma sacola de compras.

— Eu queria tomar café da manhã com você.

— Eu também queria. — Rachel a abraçou. — Mas nós vamos nos ver mais tarde. Não se preocupe.

Quinn a apertou e a beijou. Beijar Rachel estava se tornando um hábito vicioso. Quando não pensava em tocá-la, pensava em beijá-la, e vice-versa. Era um ciclo interminável, como se conhecesse a boca dela há muito tempo. Na verdade, estivera familiarizada com Rachel desde que se reencontraram. Ainda não sabia explicar o motivo. Talvez nunca soubesse.

Elas se separaram lentamente e foram para a sala de estar.

— Mãe?

— Quinn, querida, por que não... — Judy estancou abruptamente quando atravessou a entrada que separava a sala de estar da de jantar. — Oh, Rachel...

— Oi, Judy. — Rachel abriu um sorriso gentil.

— Meu Deus! Há quanto tempo não nos vemos! Você sempre está linda. — Judy se apressou em abraçá-la. — Hiram me contou sobre a viagem que fizeram juntas, mas esperávamos vê-la mais tarde. O que estavam fazendo lá em cima?

— Nós estávamos vendo um álbum de fotos e ficamos com sono, então a Quinn me emprestou esse pijama e dormimos. — Rachel explicou. — Somos amigas agora. Nos reencontramos no aniversário do Adam e saímos algumas vezes.

— Eu soube da amizade de vocês. Você sempre foi muito importante para nós, Rachel. Eu estava esperando o dia em que se reencontrariam, já que o Adam é o melhor amigo da Quinn. Ele é maravilhoso.

— Souberam? Por quem? — Quinn perguntou.

— Seu pai e eu tentamos falar com você ontem à noite, mas você não atendeu o celular, então contatamos a Santana. Ela falou um pouco sobre você. Foi assim que soubemos da viagem. Ligamos para Hiram e conversamos um pouco.

— Nós também encontramos uma pessoa no aeroporto que estava ansiosa para vê-la, Rachel. — Russel entrou na sala e a cumprimentou com um abraço.

Rachel franziu as sobrancelhas.

— Uma pessoa? Quem?

— É melhor você ir até a casa dos seus pais e ver com os seus próprios olhos. — Ele continuou sorrindo.

Rachel lançou um olhar para Quinn, mas ela estava igualmente confusa. Só havia uma pessoa que poderia ter viajado para Lima. Seu peito se contraiu. Não podia ser.

— Eu vou até lá. Nos vemos depois, então.

— Claro. Vamos todos jantar juntos hoje à noite. — Russel disse.

— Nós vamos? — Quinn encarou o pai.

— Vamos.

Rachel fingiu um sorriso. Não estava mais tão tranquila quanto antes. Sua cabeça martelando e torcendo para não ser quem achava que era. Ela se despediu de Quinn sem saber ao certo como agir. Queria ser carinhosa, mas não podia ser carinhosa demais. Também não podia mostrar indiferença para tentar esconder qualquer coisa. No fim, elas se abraçaram brevemente, e Rachel andou até a casa dos pais.

Ela se deparou com Hiram e Leroy conversando ao lado da lareira. Não falavam alto. Pareciam duas crianças contando segredos um para o outro.

— Meu bem...

— Quem está aqui, papai?

— O Finn. — Leroy foi direto.

Rachel abriu a boca, surpresa e desapontada. Ela nunca imaginou que ficaria tão descontente por saber que Finn tinha mudado de ideia sobre alguma decisão que a chateou. Havia insistido para ele acompanhá-la para Lima. O desconforto iminente era como uma pancada forte na nuca.

— Eu ouvi o meu nome? — Finn entrou na sala de estar, alheio a qualquer aborrecimento que sobrevoava o cômodo, e abraçou Rachel.

Ela retribuiu o gesto, mas desviou o rosto instintivamente ao perceber que ele iria beijá-la e descansou a cabeça no peito dele. Sua mente gritava, tempestuosa. Não eram os braços de Quinn ao redor da sua cintura. Não era a mão dela repousando na base das suas costas. Não era o perfume dela invadindo os seus sentidos. Por um instante, o chão se abriu diante dos seus pés. Estava incomodada com o toque do próprio marido depois de vinte anos. Aquilo a fez se sentir mal consigo mesma e com a situação.

— Por que está usando essas roupas? — Finn perguntou.

— Eu... eu dormi na casa dos Fabray. Quinn e eu ficamos até tarde conversando, e ela me emprestou essas roupas quando eu estava quase adormecendo. — Rachel se afastou um pouco. Precisava de ar. Estava sufocada. — Eu preciso tomar banho.

— Eu vou com você.

— Nada disso. — Leroy interveio. — Eu quero vocês em quartos separados.

— Leroy, nós não somos mais adolescentes. Somos casados e temos um filho. — Finn fez uma careta.

— E essa casa ainda é a minha casa, então vai obedecer a todas as minhas regras. O quarto de hóspedes está pronto para você. Queremos respeito aqui. — Ele foi firme.

Finn não tentou mais rebater. Leroy sempre foi mais rígido do que Hiram. Isso ajudou a não levantar suspeitas sobre o motivo descabido de proibir o casal de dormirem juntos. Bastou uma troca de olhares para ele saber que Rachel o agradecia silenciosamente. Ela subiu a escada e foi para o próprio quarto, trancando a porta.

O banho demorou mais do que o habitual. Rachel passou mais de uma hora perdida em pensamentos. Pensamentos que iam até Quinn. Queria passar o resto do tempo que ainda tinha em Lima com ela e depois levá-la para qualquer outro lugar, mas Finn tinha estragado tudo. Ele não tinha culpa, sabia disso. Mais cedo ou mais tarde o peso do seu casamento voltaria para acertá-la. Só não esperava que fosse tão rápido. Precisava conversar com ele. Não podia esconder o que vinha sentindo, tampouco usar Quinn como uma amante. Não era certo. Com nenhum dos três. A única solução verossímil era o divórcio. Essa decisão seria como uma bigorna na sua vida, mas não podia continuar fingindo que amava Finn como antes e arriscar perder tudo por uma hesitação. Não havia para onde correr. A pergunta que fizera para Quinn há algumas horas soava ironicamente no seu ouvido agora que estava sendo forçada a encarar a realidade subitamente, mas não se arrependia. Nem um pouco. Pretendia ficar com ela. Para um laço se amarrar, precisava desatar outro. Ainda que não tivesse vivido nada do que viveu nos últimos dias, era uma violência consigo mesma se manter em uma relação infeliz. Mas talvez Quinn a tivesse ajudado a perceber isso antes que fosse tarde demais. Antes que não houvesse como reverter os efeitos colaterais de toda a crise que estava passando no próprio casamento. A viagem para Lima também a fez perceber que estivera exausta durante meses. Que vivia uma relação cautelosamente, sem saber como seria o dia seguinte. Finn falaria algo que a chatearia? Ele a elogiaria? Ambos brigariam? Rachel o insultaria? Eram uma roleta-russa. O disparo soaria? Ou seria adiado? Rachel já tinha sido perfurada tantas vezes que acabou se acostumando, mas não podia mais se martirizar daquela maneira. Era injusto e deprimente. Nunca teria certeza se o seu amor por Finn tinha surgido naturalmente ou por consequência dos eventos da sua juventude, mas estava atravessando a linha de chegada. Não queria mais segurar aquela corda. Não mais do que já tinha segurado.

Ela saiu do banheiro quando os dedos começaram a enrugar e se trocou lentamente, abrindo a cortina do quarto no mesmo instante em que Quinn apoiava o corpo no parapeito do outro lado do jardim.

Ambas se encararam. Rachel conseguiu ver como ela estava decepcionada, mostrando que sabia sobre Finn. Havia também uma sombra triste que a fez sentir o coração apertar e querer correr até a casa ao lado para abraçá-la, mas não era possível, porque a bolha que as cercava estourou.

Foi Quinn quem tomou a decisão de fechar a janela, não conseguindo fitá-la por mais tempo. Ela se sentou na cama e respirou fundo enquanto encarava o chão. Sabia que isso aconteceria. Se sentia tola por achar que ainda teriam algo quando a vida real de Rachel se tornasse proeminente de novo, mas a conversa que tiveram na noite passava a tinha dado esperanças.

Ela não sabia o que era pior. Ver a sua mãe animada com o jantar ou ter de fingir empolgação perto dela e de Russel. Não queria se trocar para receber Rachel ao lado de Finn. Não queria ver o casamento deles estampado no seu rosto, mas não podia decepcionar Judy se recusando a descer. O dia passou devagar, como se nem ele quisesse que a noite chegasse, e Quinn não estava nem um pouco feliz por ter de pegar outro vestido de Frannie.

•••

Rachel ouviu batidas na porta. Finn entrou no seu quarto vestindo um terno de grife feito sob medida. Ela tentou sorrir, tentando evitar que, pelo menos naquele instante, a sua cabeça não a fizesse se lembrar dos vestidos que Quinn adorava usar, mas era inevitável. A camiseta e o short que usou pela manhã estavam guardados em uma das suas malas.

Finn se aproximou.

— Você está linda. Eu já disse o quanto você é linda?

Rachel se limitou em assentir. Nunca foi boa em camuflar sentimentos. Agora, mais do que nunca, parecia mais difícil.

— Obrigada, Finn. — Ela se virou para colocar o par de brincos.

— Não conversamos muito desde que eu cheguei, mas quero que saiba que me arrependi de ter recusado viajar para Lima com vocês. Eu senti muito a sua falta em Nova York. — Ele esperou que ela terminasse de se arrumar e a segurou pelas mãos. — Eu amo você.

— Eu... — Rachel não sabia o que responder. Não gostava de mentir, principalmente sobre o que sentia, e não podia iludir Finn sobre algo que não estava mais sentindo. Suas mãos não formigavam. Não se sentia acolhida e amada. Os olhos de Finn não espelhavam os seus.

Tudo era desconfortavelmente acinzentado.

— Nós estamos atrasados! Vamos logo! — Leroy bateu na porta. Rachel não precisou responder Finn. Ela agradeceu ao pai pela segunda vez.

— Vamos? — Finn entrelaçou os seus dedos nos dela, mas franziu o cenho. — Onde está a sua aliança?

— Ela... está ali. Eu esqueci de colocá-la quando fui tomar banho — Rachel a pegou na mesa de cabeceira e a colocou antes do anel. O metal frio causava um estranhamento que nunca sentiu. — Vamos.

•••

Quinn fechou os botões frontais do vestido e saiu do quarto depois de calçar os mesmos sapatos que usou no encontro com Rachel.

— A sua irmã vai matá-la se souber que anda usando as roupas dela. Frannie é extremamente cuidadosa com esses vestidos. — Judy segurou o rosto de Quinn e alinhou mais um pouco a franja lateral.

— Ela não está aqui, e eu sei que vocês não vão contar.

— Você tem razão. Não vamos contar. — Russel piscou o olho, o que a fez soltar uma risada curta.

— Vivian ligou. Ela volta amanhã. Se soubéssemos que você viria, teríamos falado com ela.

— Não se preocupem. Eu comi na casa dos Berry e preparei algumas coisas também.

— Eu fiz um dos seus pratos favoritos. — Judy a beijou na testa. — Vou ver se está tudo pronto. Eles já devem estar chegando.

Quinn se sentou no sofá e passou alguns minutos conversando com Russel. Ela tinha de admitir que sentiu falta dos pais, embora não conseguisse mais desfrutar completamente dos dois.

Seu coração acelerou quando a campainha soou. Russel se levantou para abrir a porta. Quinn quase cogitou correr de volta para o quarto, mas aguardou que todos entrassem na sala de estar. Seus olhos mirando Rachel automaticamente.

O vestido cinéreo era elegante, mas ela o tornava ainda mais bonito moldando o tecido com as curvas que já conhecia. A maquiagem não estava pesada. Quinn sorriu verdadeiramente depois de tantos pensamentos conflituosos em um período tão pequeno, vendo-a sorrir de volta e caminhar na sua direção. Sua cabeça abstraiu momentaneamente a melancolia de não terem mais um só minuto sozinhas, destoando da noite passada, quando tinham todo o tempo do mundo.

— Oi, Q. — Rachel parou na frente de Quinn. Não poderia falar que sentia falta dela, mas era evidente. Esperava que fosse.

— Oi, Rach.

Quinn mal sabia como se comportar, mas foi surpreendida com um abraço. Ela quase suspirou e cheirou os cabelos de Rachel, mas Finn estava a centímetros delas, então correspondeu ao gesto da forma mais amigável que conseguiu.

— Vocês realmente se tornaram amigas. — Ele comentou.

— É, nós nos aproximamos muito durante a viagem. — Quinn respondeu. Não era um duplo sentido proposital.

— Isso é realmente bom. Eu sei que a Rach adora os amigos, mas você está fazendo bem a ela. — Finn se aproximou e a abraçou cordialmente.

Quinn se retesou um pouco, mas o retribuiu. Finn sorria como alguém que não sabia que a esposa estava dormindo com outra pessoa.

E Quinn ainda desejava estar dormindo com Rachel no lugar de ter de enfrentar esse maldito jantar.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. Boa quinta-feira para todos vocês. =D twitter.com/yasagron