A Luz dos Teus Olhos
5 Capítulo 5 - Central Park (Parte II)...
Notas iniciais
Rachel parou de rir para normalizar a respiração. Seu rosto estava vermelho, e as bochechas doíam um pouco.
Ela estava sentada sobre o carpete de poliéster ao redor da mesa de centro enquanto apoiava o corpo no sofá e observava os demais comerem as pizzas que haviam pedido. Durante a última hora em que esteve ali, ela focou unicamente em desfrutar o dia sem códigos formais que há muito tempo não tinha. Gostava dos seus amigos e dos eventos que participava, mas às vezes tudo o que queria era poder se livrar da camada midiática e polida que sempre precisava mostrar.
Quando Brittany terminou de contar mais uma história da sua infância ao lado de Quinn e Santana, Rachel sorriu. Elas pareciam inseparáveis.
— Todos vocês moram nesse andar?
— A Quinn não. — Santana respondeu. — Britt e eu moramos aí na frente, Connor mora no apartamento ao lado, mas a Q mora no andar de cima. O último.
— Ela mora em um sótão. — Adam disse.
— Não é um sótão. — Quinn contestou. — É quase uma cobertura, mas não são dois apartamentos em um.
— Aquilo só tem um cômodo. Parece um sótão. — Foi a vez de Connor replicar, se esquivando do guardanapo que ela lançou na sua direção.
— Eu só o comprei por causa do espaço para as flores. Você sabe disso.
— Você é a dona do jardim do último andar? — Rachel se surpreendeu. — Quando eu acompanhei Adam na compra do apartamento, a corretora comentou sobre isso.
— Não é um jardim. — Quinn sentiu as bochechas corarem. — Eu só gosto de flores. Sempre cuidei delas na casa dos meus pais e queria algo assim no meu apartamento.
— Não seja modesta. Você tem uma coleção de flores, e eu nunca consegui aprender tudo sobre elas. São muitas. — Santana disse.
Rachel sorriu, observando como Quinn parecia constrangida e achando aquilo adorável. Ela se mostrava cada vez mais doce e serena. Rachel se sentia completamente relaxada perto dela, como se estivesse em paz.
— Eu gostaria de ver, se você não se importar. Eu sou apaixonada por flores.
— Claro. Não vai ser incômodo algum.
— Então enquanto a Q mostra o jardim, nós vamos lavar as louças. Adoraríamos ir também, mas já ouvimos o bastante sobre elas. — Adam se levantou.
Quinn revirou os olhos, mas o ignorou, assim como ignorou o sorriso faceto que Santana abriu ao ver Rachel se virar para sair do apartamento. Ela a seguiu, e ambas foram até o elevador.
— Então você quer ser médica.
Foi uma afirmação, e Quinn assentiu depois de apertar o botão do andar correspondente no visor do elevador.
— Eu espero me formar com boas notas em Biologia para conseguir entrar na escola de medicina e então fazer a especialização em neurocirurgia. — Quinn afundou as mãos nos bolsos do short.
— É claro que você vai conseguir ótimas notas, Quinn, embora não deva ser nada fácil estudar tudo isso. — Rachel a fitou.
— Os meus pais dizem a mesma coisa. Eles queriam que eu tentasse a pediatria, mas eu não sou muito boa com crianças. Na verdade, acho que serei uma mãe horrível. — Quinn soltou uma risada.
— Não há como saber disso até conviver com uma criança. Eu achava que seria uma péssima mãe, mas Adam se tornou um homem admirável. — As portas do elevador se abriram, e elas saíram. — Eu tenho certeza de que você seria uma pediatra incrível, assim como eu sei que você vai ser uma ótima cirurgiã e ótima mãe.
Quinn sorriu agradecida.
— E você? Não pensa em ser mãe outra vez?
Rachel não respondeu de imediato. A pergunta fez com que ela retornasse na conversa que tivera com Finn antes do almoço e no pedido repentino. Pensava em ser mãe novamente. Só não sabia se ainda estava animada para viver isso com ele.
— Talvez. Eu espero conseguir se isso acontecer. A idade é um fator que atrapalha muito quando se trata de gravidez.
— Você precisa parar de achar que está velha.
Elas chegaram até o fim do corredor, e Quinn buscou as chaves, abrindo a porta e dando passagem para Rachel entrar.
Ela olhou todo o apartamento rapidamente. Era como um grande galpão. Sem paredes para dividir os cômodos. Havia uma escada em “L” na lateral que levava até o que seria um quarto em um espaço suspenso com uma cama de casal visível, outra escada e uma porta. Provavelmente o banheiro. Embaixo, ficava a cozinha, separada da sala pelo balcão. Pequenos detalhes chamaram a sua atenção por mais tempo, como os livros espalhados pelo sofá e a grande estante no outro flanco do apartamento. Mas definitivamente a parede de vidro era o adereço mais bonito dali.
— Quinn, isso é lindo. — Rachel caminhou, parando na sala de estar. Ela olhou os porta-retratos do consolo da lareira de pedras artificiais.
— Obrigada. — Quinn se aproximou dela.
— Essa é a Frannie, não é? — Rachel apontou para uma das fotografias. Nela, Quinn parecia mais nova, mas ainda era idêntica à mulher loira ao seu lado, exceto pelos olhos. Os dela eram azuis.
— Sim, é a Frannie. E essa é a noiva dela, Cassandra. — Quinn sinalizou outra imagem.
Cassandra era extremamente bonita e fazia um belo casal com Frannie, Rachel pensou. Era mais alta, e os cabelos eram de um amarelo mais escuro. Ela abraçava Quinn pelos ombros.
— Judy e Russel ainda são exatamente como eu me lembro. — Rachel comentou, ainda encarando as fotos restantes.
Quinn sorriu.
— Você quer ir na frente?
— Ir na frente? — Rachel a fitou com o cenho franzido.
— Na escada. Para o jardim.
— Oh, claro.
Quinn a acompanhou até a parte superior e depois na escada espiral, mas se arrependeu momentaneamente por ter sugerido que ela fosse na frente. O vestido que usava marcava exatamente os pontos que Quinn evitou olhar na posição em que estavam nos degraus estreitos e íngremes. Sua atenção estava em qualquer lugar que não fosse o balançar da cintura de Rachel, e sua cabeça batia incessantemente nas teclas de que ela era a mãe do seu melhor amigo e uma mulher casada. Não podia sequer cogitar encará-la daquela maneira. Ela agradeceu silenciosamente quando chegaram no pináculo, mas ainda estava distraída demais para reparar no encantamento de Rachel olhando a quantidade de flores do seu jardim.
Havia tantos vasos que ela mal conseguiu enumerá-los, mas começou a olhá-los de perto. Ela tinha o próprio jardim na mansão, mas ali tudo era mais acolhedor e íntimo. Um espaço completamente pessoal.
Ela reconheceu as rosas, tulipas, girassóis, gardênias e orquídeas, mas havia muito mais do que isso. Além delas, as espreguiçadeiras eram convidativas para se deitar e ler alguma coisa, sobretudo na primavera.
— Quinn, esse espaço é maravilhoso. — Rachel continuava andando entre os vasos.
— Eu gosto de vir aqui e cuidar delas. Acho que também me ajuda depois de um dia inteiro em Columbia e na agitação de Nova York. — Quinn caminhou até uma das flores. — Vem aqui.
Rachel foi até ela, vendo-a pegar a tesoura de poda e retirar uma flor lilás com o estigma amarelo.
— Essa é a áster. — Quinn explicou antes mesmo que Rachel pudesse perguntar. — Áster significa Flor Estelar, por causa do formato. Então eu acho que ela é sua. Você é uma estrela.
Rachel pegou a flor quando Quinn a entregou delicadamente, mas não disse nada. Ela sorria e a encarava. O encantamento pelo jardim se deslocando para Quinn através dos seus olhos. Elas se mantiveram naquela troca de olhares, exatamente como no parque pela manhã, mas havia algo mais. Rachel não conseguiu quebrar o contato. Não sabia se queria ou se tinha forças para isso. Suas pernas ficaram um pouco mais fracas, como se o magnetismo que sempre sentia ao fitar Quinn tivesse aumentado consideravelmente.
No entanto, ela se obrigou a voltar a mirar as flores quando o seu coração acelerou, buscando ar para acalmá-lo.
Quinn continuou em silêncio. Ela mesma estava perdida na imensidão dos olhos grandes e transparentes de Rachel. Eles pareciam dizer alguma coisa, ou talvez fosse a sua imaginação, tentando criar falsos cenários para justificar o quanto estava em êxtase perto dela.
— Obrigada, Quinn. — Rachel disse por fim. Não sabia o que estava acontecendo, tampouco o motivo pelo qual o seu coração ainda parecia querer correr uma maratona, mas se concentrou apenas em prender a flor nos seus cabelos. — Fiquei bonita?
Quinn aquiesceu freneticamente.
— Ficou muito bonita.
Elas trocaram mais um sorriso antes de ouvirem a voz de Santana no andar de baixo, chamando-as para a sobremesa.
A tarde passou em um piscar de olhos, mas Rachel já não prestava muita atenção na conversa que se desenrolava. Há pouco tempo, sua cabeça estava na proposta de Finn, mas agora não conseguia parar de pensar no gesto de Quinn e no que sentiu. Desde que a reencontrou, sua vida tinha sido atingida com uma descarga de sentimentos. No aniversário de Adam, tinha se convencido de que era somente a animação por revê-la, mas não parecia diminuir. Pelo contrário. Quanto mais convivia com ela, mais queria estar perto. Isso ia contra toda a sua natureza. Era uma pessoa extremamente sociável para fazer amigos, mas dificilmente se interessava tanto assim por eles.
Ela olhou brevemente para Quinn, que estava na sua frente do outro lado da mesa de centro, e correspondeu o sorriso que recebeu, odiando se sentir apaziguada e igualmente nervosa com aquilo. Não saber das coisas a frustrava, mas quem sabe estivesse assim com tudo ao seu redor, principalmente com Finn. A dualidade do seu casamento poderia estar causando uma confusão em todo o resto. Rachel suspirou discretamente. Não sanaria todas as suas dúvidas, mas sabia que não colocaria a sua amizade com Quinn a perder por estar passando por uma crise interna.
O sol já estava fraco quando todos saíram do prédio. Quinn se trocou no próprio apartamento e se acomodou no carro de Rachel depois de protestar que Adam deveria ir, mas ele estava mais interessado em Connor ultimamente, e Brittany e Santana o seguiram. O silêncio reinava sobre elas, e Quinn fitava a cidade através da janela com o olhar distante.
Ela era observada esporadicamente por Rachel sempre que o veículo parava em um sinal vermelho.
— Quinn? — Rachel chamou, trocando a marcha e dando a partida outra vez.
— Sim? — Quinn a encarou.
— Você está bem?
— Estou. Só há algumas coisas rondando a minha cabeça.
— Como o quê, por exemplo?
Quinn percebeu que estava criando vários diálogos mentalmente quando pensou em explanar sobre o seu interior se revirando sempre que estavam próximas, mas não conseguiria verbalizar isso.
— É só... um seminário de Columbia que está se aproximando.
— Você vai se sair bem. É a melhor da sua turma. — Rachel tentou confortá-la.
— Eu não sou a melhor.
— Não foi o que Santana falou.
— Santana só estava pegando no meu pé. Ela vive me chamando de nerd.
— Nerd ou não, você é muito inteligente, Quinn. Eu tenho certeza de que vai tirar uma nota excelente.
Quinn sorriu.
— Eu espero que sim. — Elas ficaram em silêncio de novo, e Quinn mudou de assunto. — Você já ouviu falar da lenda do Hotel Chelsea?
— Você quer dizer o fantasma dos antigos donos estarem lá, assim como a namorada daquele escritor?
— É, eu acho que não teria coragem de me hospedar lá.
— Eu recusei me hospedar lá quando tive de me mudar para outro apartamento antes de comprar a mansão. — Rachel confessou, e Quinn riu.
— Então você acredita nessa lenda.
— Talvez. Eu só não queria arriscar. Você também parece acreditar.
— Só um pouco, mas também tenho curiosidade.
— Podemos ir lá. Estamos a dez minutos dele. Nos hospedamos na melhor suíte. Se ouvirmos algo, poderemos ter a nossa própria experiência.
— Você está falando sério?
Rachel sorriu. Um ar divertido pairava nos seus lábios.
— Não.
Quinn ficou aliviada.
— Eu assustei você, Quinn Fabray?
— Claro que não. Eu só estava pensando em como poderia proteger você se algum fantasma aparecesse.
— Então você seria a minha protetora?
— É claro.
— Eu acho que eu seria a sua protetora.
— Tudo bem. Podemos entrar nesse acordo.
Rachel sorriu e estacionou pouco tempo depois quando avistou o Central Park, caminhando até Adam e os demais. Quinn a acompanhou, reparando quando os grupos de pessoas começaram a fotografar Rachel de longe. Ela parecia não se importar com isso, tampouco em como eles falavam entre si e apontavam na sua direção, e se sentou sobre a toalha que Santana estendeu sob uma das árvores.
Eles estavam longe do lago e das trilhas de caminhada. Só o que conseguiam ver era a extensa área verde adornada por árvores e os carrinhos de comida e brinquedos. Algumas crianças corriam despreocupadas, e Rachel se lembrou da primeira vez que esteve ali.
Aquele foi um dia especial. Havia acabado de se mudar para Nova York com Finn, Kurt e Adam aos 22 anos e não esperou retirar os objetos das caixas para ir correndo até a estação de metrô. Adam tentava fugir do abraço de Finn enquanto gargalhava embaixo de um sol pacífico de fim da tarde, que servia como testemunha de uma família feliz. Tudo deveria ter continuado daquela maneira, mas Finn jogou aquilo fora quando conseguiu sair de um time pequeno para os Giants em um período rápido demais. Ele se orgulhava disso, mas Rachel sabia que a pessoa com a qual ele havia dormido era alguém importante, capaz de fazê-lo se tornar superior rápido demais.
Ela nunca soube, de fato, quem era essa mulher. Finn nunca contara, apenas alegava que não era alguém importante e que nunca mais teriam de se preocupar com isso porque ela já não fazia parte da vida dele. Rachel então o perdoou e deixou essa história se esvair, mas não das suas lembranças. Havia uma parte dela que ainda estava aos pedaços e que nunca conseguiria perdoá-lo totalmente. Entretanto, isso já não era muito relevante. Seu casamento estava desmoronando como um castelo de areia, e a traição nem mesmo era o motivo disso.
— No que está pensando?
Rachel balançou a cabeça, espantando as memórias, e fitou Quinn sentada ao seu lado olhando-a com curiosidade.
— Estou pensando na primeira vez em que vim aqui. Adam tinha 3 anos, e havíamos acabado de nos mudar.
— Eu também corri para cá assim que me mudei. Passei a vida toda em Lima, e Nova York é gigante. Ainda me sinto intimidada. Mas você conseguiu conquistá-la. É uma das pessoas mais conhecidas daqui.
— Mas não foi tão fácil lidar com isso no começo. Eu sempre quis os palcos da Broadway e todos os holofotes, mas a realidade é sempre diferente do que pensamos.
— Como foi para você?
— Bom, eu consegui o meu primeiro papel off-Broadway em...
— Não, eu quero saber como você se sentiu. — Quinn a interrompeu. — Eu sei que você estreou na off-Broadway somente alguns meses depois de começar a estudar em NYADA e que depois disso foi direto para Spring Awakening, o que fez você ganhar o primeiro Tony. O segundo com Funny Girl, e o terceiro com Os Miseráveis. Eu sei a sua trajetória profissional. Eu quero saber o que sentiu. Se pensou que o mundo estava indo rápido demais para você ou se tem algum arrependimento.
Rachel demorou um pouco para criar uma resposta. Ela estava pronta para discorrer sobre a sua vida, mas tudo o que pensou em falar foi sobre as peças que protagonizou. De forma automática, sua cabeça projetava respostas para as dúvidas que a maioria das pessoas tinham, o que não incluía os seus sentimentos mais restritos.
— Eu fiquei eufórica quando fui escalada para Spring Awakening, mas me assustei com a quantidade de mídia que isso gerou, principalmente no dia em que fui indicada para o Tony. — Ela começou. — A cada vez que eu saía de casa, mais pessoas me paravam. Eu gostava disso. Mas tive momentos ruins quando recebi críticas em blogs e páginas online sobre a minha aparência. Muitos comentavam sobre o meu nariz. Outros, sobre a minha altura ou o meu rosto não ser fino o bastante. Eu entrei em uma rotina de depreciação. Sempre que ia para algum lugar, corria para ver se alguém havia falado alguma coisa sobre mim. Sobre o meu peso. Sobre o meu corpo. Foi quando eu comecei a me consultar com um terapeuta. Ele me ajudou nisso. Foi importante. Eu estava obcecada em ser algo que eu não era. Não comia direito e vivia me exercitando. Não por prazer. Eu só queria me livrar dos comentários negativos. Mas não há escapatória para isso. Não importava o que eu fizesse, essas pessoas nunca parariam. Então eu parei de olhar aquilo aos poucos e me concentrei em quem gostava de mim. Eu já falei sobre isso em algumas entrevistas, mas nunca falei que eu quase desisti de mim mesma nesse período. Era sufocante demais. Como se tudo me esmagasse. É por isso que eu sempre tentei não sobrecarregar o Adam com essa vida e sempre o aconselhei a levar tudo como uma brincadeira. Acho que funcionou. Mas talvez, se eu pudesse voltar no tempo, teria ficado mais um pouco na off-Broadway antes de ir direto para o prato principal. Se meus pais, Adam e Kurt não estivessem ao meu lado, eu não sei o que teria feito.
— Você não mencionou o Finn.
— O quê?
— As pessoas que estavam ao seu lado. Finn não apoiou você?
— Ele me apoiou, mas... ele me traiu pouco antes disso tudo acontecer.
— Eu não sabia disso. Eu sinto muito, Rachel. Eu não queria fazer você pensar nisso.
— Está tudo bem. Eu já o perdoei. — Rachel a tranquilizou.
— Como você conseguiu perdoar algo desse tipo?
— Eu ainda não sei direito. Eu sempre disse que nunca perdoaria uma traição, mas perdoei. Acho que sou uma idiota. — Rachel riu suavemente.
— Não, você não é. — Quinn respondeu rapidamente. — Você é gigante. Nova York, os Estados Unidos e o mundo são minúsculos perto de você.
Rachel sorriu. Não era doloroso para ela falar sobre isso, mas uma pequena parte daquela história a deixava triste. Ela observou Quinn se aproximar mais e segurar a sua mão.
— Eu também sinto muito por você ter sentido o peso da mídia tão drasticamente e fico feliz que esteja bem agora. Eu posso estar sendo egoísta demais em falar isso, mas eu odiaria nunca ter tido o prazer de reencontrar você. Se o mundo a perdesse, ele nunca se recuperaria disso.
Rachel ficou calada. O maldito fascínio explodindo outra vez. Sua boca parecia selada. Ela olhou para a mão de Quinn sobre a sua. Os dedos dela passeando na sua palma em uma carícia tranquilizante. Depois, por um instante, fitou os lábios finos e rosados tão perto antes de encarar os olhos transbordando orgulho, amabilidade e algo mais. Novamente a adição sentimental que não sabia decifrar.
— Vocês querem comer alguma coisa?
A pergunta de Adam fez Quinn se distanciar um pouco. Por impulso, Rachel puxou a mão e encarou o filho.
— Não, meu bem. Você quer algo, Quinn?
Quinn negou com a cabeça e descansou o corpo no tronco da árvore. Se antes estava em um mar de dúvidas, agora tudo tinha piorado. Talvez não fosse um delírio sentir que havia algo que a atraía inconscientemente para perto de Rachel, mas isso não a impedia de se recriminar por isso.
Adam voltou a repousar a cabeça no colo de Connor. Eles conversavam animadamente com Brittany e Santana, e Rachel arrastou o corpo, se encostando na árvore e no ombro esquerdo de Quinn.
Elas ficaram em silêncio por alguns minutos. A quantidade de pessoas no parque diminuía gradativamente à medida em que o céu escurecia.
— Eles são sempre assim?
Quinn seguiu o olhar de Rachel, que observava os casais interagindo.
— Sim, o tempo todo. Eles me incluem nas conversas, mas eu tento deixá-los nessa bolha. Quando eu namorava, era um pouco mais fácil.
— Você está solteira há muito tempo?
— Há quase um ano.
— E por que não deu certo?
— Nós brigávamos demais.
— Eu não consigo imaginar você brigando o tempo todo.
— Foi difícil. Eu nunca gostei de brigar. Mas as coisas começaram a ficar difíceis. Ela reclamava de praticamente tudo. A forma como eu preparava as panquecas e o café, depois isso passou para a forma como eu tratava os meus amigos. Santana quase avançou sobre ela. Cinco meses depois, eu não aguentava mais. Ainda nos esbarramos na faculdade, mas é apenas isso.
Rachel assentiu.
— Eu lamento, Quinn. Términos são horríveis.
— Está tudo bem. — Quinn sorriu e notou Rachel estremecer quando o vento soprou sobre ela. — Você está com frio?
— Só um pouco. Eu achei que as mangas do vestido seriam o suficiente, mas aparentemente não foram. Não se preocupe.
— Você pode ficar com o meu casaco. — Quinn tirou a jaqueta que usava.
— Quinn, não. Você vai ficar com frio.
— Eu estou usando um suéter. Você precisa mais do que eu.
Rachel hesitou, mas pegou a roupa, vestindo-a por cima do vestido. Quinn sorriu, vendo como a peça era um pouco maior do que ela.
— Está se sentindo mais confortável?
— Ainda não. — Rachel a segurou pelo braço e o passou pelos próprios ombros. — Agora estou.
Elas ficaram naquela posição até anoitecer enquanto seguiam conversando. Quinn ainda estava surpresa pelo movimento súbito de Rachel, mas estava longe de reclamar por senti-la apoiada parcialmente no seu torso.
O céu estava limpo, e as luzes dos arranha-céus ajudavam a iluminar ainda mais o Central Park, mas o clima esfriava cada vez mais.
— Eu acho que a minha mãe é a única pessoa protegida do frio aqui. — Adam disse. — Deveríamos ir. Ainda precisamos preparar o jantar.
Rachel concordou e se levantou, mesmo a contragosto. O dia tinha passado em uma velocidade assustadoramente indesejada por ela, mas tinha certeza de que nunca se esqueceria de como se sentiu no mundo particular que construiu com Quinn desde que recebeu aquele telefonema pela manhã.
Eles caminharam até os carros. Do outro lado da avenida, fotógrafos reconheceram e capturaram os movimentos de Rachel, que parou para falar brevemente com Adam.
Santana jogou a toalha dentro do porta-malas e se virou, encarando Quinn apoiada no veículo.
— É estranho conviver com alguém tão famoso, não é?
— Eu ainda estou me acostumando.
— Eu também.
Rachel se aproximou delas.
— Tem certeza de que não quer jantar conosco? — Adam perguntou.
— Eu adoraria, mas o seu pai já deve estar em casa.
— Tudo bem. Eu amo você. — Ele a puxou para um abraço.
— Eu também amo você.
Adam entrou no veículo após Santana, Brittany e Connor se despedirem de Rachel. Quinn ficou por último.
— Eu acho que preciso devolver isso. — Rachel apontou para a jaqueta que ainda vestia.
— Você pode ficar, se quiser.
— Eu gostaria, mas não seria justo com você. — Ela tirou a peça e a entregou para Quinn.
— Então até mais.
— Até mais. — Rachel sorriu e a abraçou.
O contato durou mais do que elas imaginavam. Os braços de Quinn apertaram com delicadeza a cintura fina coberta pelo tecido tênue do vestido, e Rachel se separou quando sentiu o coração pular repentinamente. Tanto pelo afeto quanto por se lembrar de tudo o que falou com Quinn momentos mais cedo.
Ela não disse nada e andou até o próprio carro, respirando fundo antes de colocar o cinto de segurança e notando que tudo parecia cheirar ao perfume de Quinn impregnado na jaqueta que usou. Aquilo não ajudou a amenizar o nervosismo latente, mas a fez abrir um sorriso pequeno e involuntário.
•••
Quinn não aguentava mais os olhares de Santana desde que chegaram, indo do jantar até o início do filme que escolheram assistir. Sabia que ela faria algum comentário quando estivessem sozinhas e queria evitar ao máximo que aquilo acontecesse, por isso agradeceu quando eles dormiram no sofá do apartamento de Adam e foi para o próprio apartamento, trancando a porta e indo direto para o seu jardim.
Ao se sentar em uma das espreguiçadeiras, foi impossível não pensar em Rachel. Ela era ainda mais fabulosa do que aparentava ser sempre que Adam a descrevia. Era engraçada, gentil, atenciosa, astuta e tantos outros adjetivos que conseguisse pensar. Não era à toa que conquistava tantas pessoas. Metade da sua turma comentava sobre o talento dela esporadicamente. A outra metade elogiava a beleza que carregava. Entretanto, não queria pensar tanto sobre o arroubo de sentimentos que a atingiu quando estavam ali durante a tarde. Não se agitar perto de Rachel era uma tarefa impossível.
Ela se levantou, caminhando até a flor púrpura conhecida, e como se pudesse ler os seus pensamentos, seu celular vibrou no bolso da sua calça.
Era Rachel.
— Quais musicais você já viu?
Quinn sorriu.
— Na Broadway? Nenhum. Somente filmes.
— O quê? Você nunca foi na Broadway?
Quinn riu. Ela conseguia imaginar perfeitamente como o semblante de Rachel deveria estar.
— Não, eu nunca fui. Acho que eu dormiria antes do primeiro ato acabar.
— Isso não vai acontecer quando você for assistir Wicked.
— Eu vou?
— Vai. Eu pedi esse final de semana de folga, mas volto na terça. Eu já providenciei que colocassem o seu nome na lista de entrada. Espero que goste da peça, principalmente da Elphaba.
— Ainda que você fizesse parte do coro de fundo, eu sei que seria brilhante, Rachel.
Houve alguns segundos de silêncio depois disso. Quinn pensou em se corrigir, mas Rachel a respondeu.
— Nos vemos na terça, Quinn.
— Até lá, Rachel.
Elas desligaram, e Quinn guardou o celular, pensando, pela primeira vez, que odiava o fato de precisar esperar para revê-la.
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