A Luz dos Teus Olhos
4 Capítulo 4 - Central Park (Parte I)...
Notas iniciais
Elas correram por alguns quilômetros.
Rachel agradecia o pouco movimento. Por ser tão isolado do centro de Manhattan, o parque quase se tornou um espaço privado do bairro em que morava, mas ainda recebia a visita de algumas pessoas de fora, especialmente quando ela o frequentava corriqueiramente.
Pelo canto do olho, ela viu dois fotógrafos apontando as câmeras na sua direção, mas não se importou. Era mais agradável do que caminhar na rua, pensou. Mas isso não a impediu de ser abordada quando parou de correr.
Ela tirou os óculos escuros e sorriu para a foto ao lado de uma garota. Quinn, um pouco mais afastada, sabia que estava sendo capturada desde que começou a correr com Rachel, mas não era tão ruim quanto achou que seria, ainda que a incomodasse minimamente o fato de tudo aquilo ser uma exposição. Talvez fosse pior se estivessem em outro local.
— Vamos nos sentar um pouco. — Rachel a chamou quando a garota se foi, e Quinn a seguiu até um dos bancos.
— Isso deixa você desconfortável? — Quinn perguntou. — Ter pessoas fotografando-a até mesmo quando sai para correr?
— Eu me acostumei, mas ainda prefiro lugares fechados. Eles me dão mais privacidade. — Rachel se virou para fitá-la melhor. — Adam nunca gostou muito de ser fotografado.
— Ele me contou como fica um pouco estressado quando os fotógrafos o seguem. Isso o fez ser um pouco retraído também. Quando nos conhecemos, ele teve medo de ser meu amigo porque achou que eu queria me aproximar de você.
— Adam sempre teve poucos amigos, mas eu fiz tudo o que pude para não expor a imagem dele quando me tornei conhecida. Ele ter escolhido seguir os meus passos me pegou de surpresa, principalmente porque ele precisa se acostumar com os holofotes se quiser alcançar a Broadway.
— Eu acho que ele só precisa de tempo. Não é fácil lidar com a própria imagem sendo compartilhada o tempo inteiro. Eu sei que já fui fotografada com ele uma vez, mas ver os fotógrafos parece pior para mim.
— Como você se sentiu?
— Um pouco sufocada. É estranho porque eles estão longe, mas eu já vi como eles são quando você sai do Gershwin. É uma loucura.
— É, realmente é uma loucura. Não é todo mundo que gosta dessa vida. É claro que eu sou beneficiada com ela, mas também me tirou muita coisa. Eu não conseguiria caminhar por um quarteirão sem ser cercada por dezenas de pessoas. Isso soa egocêntrico?
— Não, claro que não. — Quinn atestou. — É interessante conversar com você. Digo, eu vi algumas entrevistas suas e li algumas coisas, mas é diferente. Nós conversamos por quase duas horas enquanto corríamos.
— Você esperava que eu fosse arrogante? — Rachel sorriu.
— Talvez um pouco. — Quinn confessou. — Adam sempre comentou sobre você, mas ele é seu filho. Eu não esperava me sentir tão...
— Tão...?
— Tão bem perto de você.
Rachel continuou sorrindo. Durante o tempo em que conversaram mais cedo, Quinn parecia tentar formular exatamente o que dizer. Era quase evidente demais como estava nervosa, mas Rachel se esforçou para deixá-la confortável. Não queria afastá-la, tampouco fazê-la se sentir mal. Todo o seu círculo social era composto por pessoas minimamente conhecidas ou habituadas com a mídia. Para Quinn, era como sair de um aquário e nadar em um oceano. Rachel sabia que Adam não atraía tanta mídia quanto ela. Era exponencialmente maior.
— Eu também me sinto bem com você, Quinn. Se algo a incomodar ou se tiver alguma pergunta, fale comigo, está bem?
Quinn assentiu.
— Temos um acordo, então.
Elas ficaram em silêncio por alguns segundos, e Quinn olhou brevemente ao redor antes de voltar a atenção para Rachel.
— Agora eu posso brincar com o Adam e dizer que tudo o que eu queria era realmente me aproximar de você.
Rachel soltou uma risada.
— Então você era uma fã esse tempo todo?
— Como eu poderia não ser? Você foi a primeira pessoa, em décadas, a ser aceita em NYADA com mais de 18 anos, e a sua apresentação de inverno do último ano foi tão boa que eles elogiam ótimos desempenhos com uma nota personalizada em seu nome.
— Eu não acredito nisso. — Rachel riu outra vez. — Você leu a minha biografia?
— Eu passei as últimas madrugadas lendo. Acho que você já ouviu isso de muitas pessoas, mas você é incrivelmente forte e admirável, Rachel. As causas que você já apoiou poderiam ter prejudicado a sua ascensão, principalmente ter se assumido bissexual quando isso nem mesmo era comentado tão abertamente. Eu não teria metade da coragem que você teve.
— Isso é o mínimo que eu poderia fazer, Quinn. Se eu não tentasse usar o meu privilégio para mudar o que eu acho errado, a minha carreira não seria nada.
— Mas isso já é muita coisa, Rachel. É mais do que você pode imaginar. Tudo já valeu a pena só por eu ter conhecido você e ter tido a honra de estar aqui agora.
Rachel abaixou um pouco a cabeça. Ela não sabia o motivo de se sentir tão embaraçada. Recebia elogios constantemente de pessoas próximas. Mas talvez o tom usado ou o brilho que Quinn carregava nos olhos a envolvessem mais do que qualquer homenagem que já recebeu.
— Eu não esperava ficar tão sem jeito.
— Desculpe, eu... eu disse algo errado? Se eu falei algo que...
— Não, não de uma forma negativa. — Rachel a tranquilizou. — Eu passei a maior parte da minha vida sendo ovacionada pelas pessoas, mas você parece carregar uma certeza quase cega sobre mim. Não apenas sobre o meu talento.
— Eu acho que ainda temos algum tipo de ligação. Você acompanhou uma pequena parte da minha infância.
Rachel maneou a cabeça, concordando. Talvez fosse isso. Era a melhor justificativa para explicar o motivo de se sentir tão à vontade com Quinn em tão pouco tempo.
— Eu sinto falta de Ohio. — Quinn continuou. — Adoro Nova York, mas às vezes eu só queria sentir toda a monotonia de Lima.
— Há quanto tempo você não visita os seus pais?
— Muito tempo. Eles normalmente passam uma semana aqui a cada três meses.
— Eu estou pensando em visitar os meus pais. Se você estiver interessada, nós podemos ir juntas. Acho que preciso ficar um pouco longe de toda essa agitação.
Quinn sorriu.
— Isso é um convite?
— Talvez. Podemos discutir isso em breve, o que acha?
— Eu acho que é uma ótima ideia.
O ambiente se tornou tácito novamente, mas Quinn não desviou a atenção e continuou encarando-a, gostando da sensação de olhá-la tão de perto. A forma como a pele de Rachel brilhava sob alguns feixes de sol que escapavam das copas das árvores acima delas era quase um pedido silencioso para que fosse observada cuidadosamente. Isso fez Rachel olhá-la de volta, e por lentos e incontáveis segundos elas permaneceram em uma troca indireta de palavras que não foram verbalizadas. Não precisavam falar. A admiração e o conforto que sentiam eram o suficiente para preencher qualquer necessidade de diálogo.
Quinn encerrou o contato e voltou a mirar o parque. Seu rosto ardia consideravelmente. Admitir internamente que estava encantada por Rachel a fez se culpar por um momento. Seu coração batia descompassado.
— Quer voltar a correr? — Ela mudou de assunto.
— É melhor não. O sol já está forte. Acho melhor irmos embora.
— Tudo bem.
Elas se levantaram, e Rachel insistiu para levá-la até SoHo. No caminho, continuaram conversando como se fossem amigas há anos. Quinn se esqueceu temporariamente sobre o que estava sentindo enquanto a ouvia contar histórias sobre o seu passado.
O carro parou no acostamento do edifício quase trinta minutos depois. Quinn soltou o cinto de segurança.
— Obrigada por me trazer, mas você sabe que eu poderia ter vindo de táxi. Eu não queria incomodá-la.
— Você ainda age como se não fôssemos próximas? Eu acho que vou começar a me sentir ofendida.
— Não é isso. É só que...
— Quinn, eu não sou tão ocupada a ponto de não conseguir dar uma carona para uma amiga. Da próxima vez, não se sinta assim.
Quinn suspirou com um sorriso.
— Está bem.
Rachel se inclinou para envolvê-la em um abraço de despedida.
Talvez fosse a agitação do aniversário de Adam ou talvez a falta de privacidade com as pessoas ao redor, mas ali, no carro, Rachel sentiu os braços formigarem quando rodeou o pescoço de Quinn, inconscientemente apoiando a cabeça no ombro dela. Sua mente dispersou qualquer indagação sobre o porquê daquele afeto tão repentino e íntimo.
Elas se separaram lentamente. As bochechas de Quinn estavam mais vermelhas do que o normal.
— Até mais tarde, Rachel. — Quinn acenou e saiu do carro.
— Até. — Rachel respondeu em um sussurro, vendo-a caminhar até entrar no prédio antes de dar a partida novamente.
•••
Finn não estava na mansão quando Rachel chegou.
Ela tomou banho e se deitou ainda vestindo o roupão, cochilando por alguns minutos, mas acordou sentindo beijos no seu rosto.
Finn estava ao seu lado. O braço dele apoiado delicadamente na sua cintura.
— Que horas são? — A voz de Rachel estava rouca e baixa.
— Perto do almoço. — Ele afastou uma mecha de cabelo que caiu na frente do rosto dela. — Eu estive pensando em algo.
— Pensando em quê? — Ela se sentou na cama e cruzou as pernas. Finn a imitou.
— Vamos ter outro bebê.
Finn despejou a frase suavemente, como se não houvesse pegado Rachel de surpresa, mas ela sentiu o peso das palavras. Isso era algo que tinha pedido há anos, mas Finn sempre recusava.
— Não agora. Depois do encerramento de Wicked podemos tentar. O que acha? — Ele a segurou pelas mãos.
Rachel abriu a boca, mas nada saiu. Aquela era uma decisão importante demais. Quando pediu, estava pronta para ser mãe de novo. E agora? Ainda estava pronta? Não sabia se estava.
— Eu... eu não sei, Finn. Eu pedi isso há algum tempo, e você disse não.
— Eu sei, Rach, mas agora eu quero isso. Eu sinto que precisamos. Quando Adam nasceu, foi o melhor momento das nossas vidas. Podemos trazer isso de volta. — Ele insistiu. — Essa mansão é grande demais, e outra criança vai animá-la novamente.
Finn continuava olhando-a, esperançoso. Ele não queria que Rachel percebesse a urgência do seu apelo, mas foi a única solução que encontrou para evitar que ela se afastasse mais. Ela normalmente o perdoava logo, mas se manteve apática a semana inteira. Não queria perdê-la.
— Eu posso pensar sobre isso?
— Claro que pode, meu amor. — Ele se aproximou, selando os lábios nos dela. — Eu te amo, Rach.
— Eu também amo você, Finn.
Finn saiu do quarto após receber uma ligação, deixando Rachel sozinha com pensamentos turbulentos. Ter outro filho poderia ser algo positivo. Queria outro bebê. No entanto, Finn parecia, mais uma vez, ignorar toda a crise que estavam tendo no casamento. Se as discussões não amenizassem, criariam uma criança no meio de uma instabilidade. Ela não sabia se ele estava propondo aquilo por amor ou por desespero. Na verdade, ela nem mesmo sabia o que Finn verdadeiramente sentia. Ele estaria presente inteiramente na vida de um segundo filho como esteve na vida de Adam? Eram tantas perguntas sem respostas.
Rachel afundou o corpo na cama, respirando fundo. Precisava ir para Lima o quanto antes. Seus pais saberiam aconselhá-la melhor do que qualquer outra pessoa.
Seus questionamentos foram interrompidos quando o seu celular tocou na mesa de cabeceira. Ela o pegou e aceitou a chamada.
— Você sabia que a Quinn conseguiu arruinar um frango de micro-ondas? Eu achava que isso era impossível, mas não é.
Rachel sorriu, ouvindo Quinn insultar Adam do outro lado da linha.
— Vocês podem vir almoçar aqui.
— Eu acho melhor não. Papai não gostaria.
— Seu pai não é um velho rabugento, Adam, e essa casa também é sua. Seus amigos são bem-vindos aqui.
— Eu sei, mãe, mas eu prefiro almoçar aqui. Por que você não vem para cá? Eu soube que agora você e a Quinn são amigas. Acho que estou perdendo a minha melhor amiga para a minha mãe. — Ele brincou.
Rachel soltou uma risada.
— Não se preocupe com isso. Quinn vai continuar sendo a sua melhor amiga. De qualquer forma, eu adoraria ir, mas tenho de ficar. Seu pai e eu precisamos desse momento a sós.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada demais. É só o nosso trabalho. Ficamos muito ocupados essa semana, então precisamos aproveitar um pouco. — Ela mentiu.
— Tudo bem. Eu preciso desligar agora. Eu te amo, mãe.
— Eu também amo você, querido. Dê um beijo em todos por mim. — Ela desligou e deixou o celular sobre a cama quando Finn entrou no quarto.
Eles desceram para almoçar, e a conversa estava agradável. Rachel ria enquanto falavam sobre banalidades, deixando de lado a peça, os jogos de futebol ou as brigas que tiveram. Contudo, o toque estridente do celular de Finn os tirou daquela bolha.
Ele recusou a chamada.
— Você pode atender. — Rachel bebeu um pouco de suco.
— Você não se importa?
— Não, não me importo.
Ela não queria dizer que se importava, mas quando Finn saiu para retornar à ligação, um suspiro escapou dos seus lábios. Esperava que ele pudesse, pelo menos por um dia, não priorizar o trabalho, mas não o fizera. Ao voltar com uma expressão pesarosa no rosto, Rachel soube que ele tinha algum problema em mãos.
— Um dos receptores sofreu um pequeno acidente em casa, e agora precisamos discutir isso. Eu sou o quarterback, e o próximo jogo é na segunda.
De fato, parecia ser uma emergência. Rachel não rebateu e o deixou ir, mas não se abalou tanto quanto antes. Ao contrário da melancolia que sempre sentia, ela terminou de comer e se trocou rapidamente.
O trânsito naquele início de tarde não estava tão caótico. Ela estacionou no interior do edifício pouco tempo depois e usou o elevador do estacionamento para ir até o andar em que Adam morava, checando o próprio reflexo na câmera do celular quando parou na frente da porta do apartamento. Estava nervosa. Sabia que os amigos de Adam estavam ali, o que incluía Quinn. Ela se recriminou por estar se comportando como uma garota, mas hesitou um pouco mais até tocar a campainha.
Passos apressados ecoaram do outro lado. A porta se abriu e revelou uma Quinn usando shot e camiseta. Os cabelos estavam levemente úmidos e soltos. Ela sorriu, o que fez Rachel sorrir também, encarando-a em um misto de divertimento e afeição.
— Oi, Quinn.
— Oi, Rachel.
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