A Luz dos Teus Olhos
28 Capítulo 28 - Escolhas...
Notas iniciais
Quinn abriu um sorriso genuíno quando a voz de Rachel soou sob o pergolado de madeira enfeitado por cortinas finas e lustres pequenos. Estavam no alto da montanha. O sol fraco de fim de tarde quase intencionalmente próximo demais, cobrindo as flores que acompanhavam o caminho das noivas entre as filas de cadeiras brancas dobráveis. Durante os últimos preparativos, Frannie e Cassandra aceitaram que Rachel cantasse como um dos presentes de casamento. O outro seria o apartamento e o avião particular emprestados para a lua de mel em Zermatt. Quinn fitava Rachel minuciosamente. O vestido de madrinha cor-de-rosa claro perfeitamente ajustado no contorno do quadril e no decote, os cabelos presos em um coque baixo, a maquiagem acentuada. Ela era capaz de ofuscar todos os convidados.
Quinn sentiu Frances apertar o seu o braço delicadamente após todos ficarem de pé e as noivas começarem a entrar. Os olhos azuis cheios de lágrimas. Rachel continuou cantando até chegarem no altar com os pais. Judy estava do outro lado de Quinn e secava o rosto sutilmente para não borrar a maquiagem. Havia se livrado de toda a raiva que acumulou momentaneamente para prestigiar o casamento. Toda a vida de Frannie passando na sua cabeça enquanto a olhava. O tempo tinha exagerado na tarefa de fazê-la crescer. Quinn estava seguindo o mesmo caminho. Judy a olhou de canto de olho, vendo-a sorrir para Rachel como se estivesse vendo o retrato mais bonito da sua vida. Queria para Quinn o mesmo que Frannie tinha. Um casamento com toda a família reunida. Não conseguia imaginar isso acontecendo se ainda estivesse com Rachel. Ela já havia se casado. Com vestido branco e damas de honra. Agora, tinha 40 anos e seria constrangedor repetir o ritual. Judy achava aquilo completamente injusto.
Rachel finalizou a canção e parou ao lado das madrinhas sob o som dos aplausos, fitando Quinn disfarçadamente. Ela estava deslumbrante com o vestido longo azul-escuro de alças finas e com os cabelos soltos e levemente ondulados. Mas mais do que isso, estava distante desde que se encontraram no quarto na noite anterior. Rachel queria acreditar que era somente o cansaço dos últimos dias a fazendo ficar mais sucinta, mas sabia que não era só isso.
Todos se sentaram, e o juiz de paz iniciou a cerimônia. Quinn não parou de olhar Frannie nem por um segundo. Estava nervosa. Era evidente. A voz tremia um pouco ao falar os votos. Cassandra se saiu melhor, mas falhou em não chorar. Estavam lindas. Os vestidos com véus longos eram distintos e fascinantes. Quinn também deixou que algumas lágrimas escapassem. Alguns pensamentos a rodeavam, principalmente a conversa com Adam. Se sentia culpada por esconder isso de Rachel e por fingir estar com sono quando ela tentou conversar momentos mais cedo, mas precisava de tempo. Nunca foi boa em transparecer preocupações ou pedir ajuda. Infelizmente, aquele era o traço predominante mais marcante da sua família.
Todos aplaudiram depois que as noivas trocaram as alianças e assinaram o livro matrimonial. A chuva de arroz caindo sobre elas ao se beijarem. Quinn se levantou para abraçá-las e se afastou para que pudessem cumprimentar a grande quantidade de parentes e amigos.
Rachel se aproximou. Estavam perto de uma das árvores.
— Você está linda.
Quinn sorriu.
— E você está maravilhosa.
Elas não trocaram um afeto profundo, mas Quinn rodeou o braço sobre os ombros de Rachel, caminhando até o salão de festas na área externa.
Ao chegarem no local, Frannie abraçou Rachel.
— Obrigada por ter sido a nossa madrinha. Eu acho que vou colocar uma das fotos em um porta-retratos. Todos vão morrer de inveja.
Rachel soltou uma risada.
— Eu é quem agradeço por você ter cedido esse espaço para mim.
— Nós estamos muito felizes por você, Fran. — Quinn falou.
— Eu também estou. Eu estou casada! — Frannie ergueu o dedo anelar esquerdo. Estava radiante. O véu tinha sido arrancado, e os cabelos loiros e compridos caíam graciosamente nos ombros cobertos pela renda do vestido. Ao contrário dela, Cassandra estava com os fios presos e os ombros nus.
Frannie acabou arrastando Quinn para falar com alguns parentes, e Rachel optou por ficar um pouco longe. Ela observava as noivas e a decoração elegante da recepção e pensava no seu próprio vestido de casamento. Há quase vinte e dois anos, não era famosa e não tinha um terço da fortuna que acumulava atualmente. O vestido foi tudo o que os seus pais conseguiram pagar, mas era lindo. Poucos amigos compareceram à cerimônia. Na maioria, amigos de Finn. No entanto, Frannie esteve lá, com Judy e Russel. Agora, estava vendo-a se casar. Rachel suspirou. Seu casamento não foi recheado de pessoas, tampouco algo que planejara. Os votos foram renovados com Finn a cada cinco anos, com festas enormes, comentadas nas revistas e mídias sociais. Mas nunca se sentiu tão feliz quanto Frannie e Cassandra estavam.
— No que está pensando, mãe?
Rachel fitou Adam parado ao seu lado. Ele estendia uma taça de champanhe na sua direção. Ela a pegou e bebeu um gole.
— Estou pensando em casamentos. Casamentos sempre me deixam nostálgica.
— Você se lembra do seu casamento com o papai?
— Sim, eu me lembro. Você já estava na minha barriga.
— O vovô Roy sempre diz que foi uma das notícias mais comentadas da cidade.
— Foi uma fofoca, na verdade. A mais falada. Alguém me viu na clínica fazendo alguns exames e espalhou. Engravidar sem ter um marido ainda era motivo para comentários maldosos há vinte e um anos. E sendo filha de um casal gay, era pior.
— Eu não gosto de pensar nisso. Pensar em como eu seria tratado se estivesse vivo naquela época. Lima evoluiu, mas não muito. As coisas sempre retrocedem. De uma maneira ou de outra.
Rachel concordou e o abraçou de lado, repousando a cabeça no tronco dele e sentindo um carinho sutil nas suas costas.
— Você pensa em se casar novamente?
— Bom... — Rachel ponderou por um segundo. — Eu penso em ser feliz com a Quinn. Se isso me levar para um segundo casamento, então tudo bem.
— Ela com certeza vai querer se casar. Já falamos disso várias vezes. — Adam soltou uma risada.
Rachel sorriu. Quinn caminhou até eles bebendo da taça que tinha em mãos.
— Judy não deveria estar recriminando você por estar bebendo?
— É só ela não me ver. — Quinn sorriu. — E nem a futura advogada bebendo a terceira taça. — Ela apontou com a cabeça para Santana conversando com Connor do outro lado do salão.
— Ela vai ser a primeira bêbada dessa festa. — Adam comentou com um ar risonho. — Eu vou até lá para irritá-la. É um dos meus passatempos favoritos.
Quinn o viu se aproximar de Santana e falar algo que a fez revirar os olhos. Eles não tinham voltado no assunto da conversa que tiveram desde o início dos preparativos do casamento no MountainGate, e ela não o procurou quando ficou sozinha no quarto chorando vergonhosamente. Tudo o que fizera foi tentar eliminar os pensamentos negativos para focar em Frannie e Cassandra, mas não havia como evitar se sentir sobrecarregada por saber, involuntariamente, que teria de encarar a realidade mais cedo ou mais tarde. O contato rompido com os pais e com a faculdade ou o afastamento do seu relacionamento.
Em um reflexo espontâneo, ela bebeu o restante do champanhe em um único gole.
— Quinn! Não faça isso. — Rachel a censurou.
— Desculpe. — Quinn olhou para baixo. — Eu só... precisava disso. Minha família toda está aqui, e eu me sinto sufocada às vezes.
— Eu sei disso, mas não desconte na bebida.
— Eu não vou. Me desculpe. — Quinn repetiu.
Elas foram até as mesas e se sentaram perto de Adam e dos demais. Os discursos seguiriam a ordem da família e de alguns amigos. Russel foi o primeiro, seguido de Judy. Estavam nitidamente orgulhosos, mas não prolongaram demais. Quinn não prestou muita atenção no que os pais de Cassandra falaram porque deixou que a sua mente a lembrasse de que se continuasse com Rachel, seus pais jamais fariam monólogos tão bonitos e sentimentais. Seria mentira dizer que isso não a afetava, ao mesmo tempo em que a deixava irritada.
Quinn nem mesmo notou que era a sua vez de falar. Rachel a cutucou sutilmente por debaixo da mesa, e ela se levantou. Ao segurar o microfone e sentir todos aqueles pares de olhos no seu rosto, seu coração acelerou desagradavelmente. Odiava falar em público. Era intimidador.
Ela tentou não gaguejar.
— Casamentos e discursos são duas coisas que eu não domino. — Quinn começou. Seus dedos relaxaram o aperto no microfone quando as noivas e os convidados riram. — Mas eu sei de algumas coisas, como o fato de que há sempre uma confusão enorme sobre o que é o amor. A maioria das pessoas aqui já deve ter se perguntado se realmente amou em algum momento, porque não há exatamente como saber. Não há uma prova ou um diagnóstico. Tudo o que não se pode ver ou documentar é difícil de falar. Por isso as pessoas escrevem. Por isso há tantos conceitos diferentes sobre o amor. Para mim, o amor é quando você acha que vai ser rasgado ao meio, mas então o seu corpo se reconstrói para que caiba mais. E aí, quando você se pergunta até onde vai esse mais, é quando você chegou em um cenário assustador. Quando não há volta. Quando não há como pisar no freio. E se bater, vai arrebentá-lo. Vai... quase matá-lo. — Ela encarou alguns conhecidos até parar em Rachel. — Essa é uma parte dos meus pensamentos sobre o amor. Há muitas outras histórias que podem explicá-lo, como Eros e Psiquê. Eros era o deus grego do amor. Bastante experiente em atirar flechas, ele acaba atirando uma flecha em si mesmo e se apaixonando por Psiquê, uma princesa que causava inveja até nas deusas por ser tão bonita, enquanto tentava puni-la a mando da mãe, Afrodite. Eles se casam, mas com a condição de que Psiquê jamais veria o rosto de Eros para que não se apaixone pela beleza e sim por quem ele é. Em uma noite, ela o desobedece e ilumina o rosto dele. Isso faz com que ele se sinta traído e termine o relacionamento. Psiquê fica completamente desolada e passa a vagar sozinha, castigada por Afrodite por ter machucado o filho dela. Psiquê desiste de lutar para ter o seu amor de volta e se entrega à morte, mas Eros a encontra e implora a Zeus que tenha misericórdia deles. Zeus concede o pedido de que ela se torne uma imortal, e Eros a desperta com uma flecha. — Ela fez uma pausa. — Talvez essa seja a minha história favorita sobre o amor. Um pouco esperançosa demais, mas eu gosto de pensar que finais felizes são possíveis. Para todos. O amor é o que consegue mover qualquer coisa. O amor maternal, paternal, fraternal, matrimonial e muitos outros. É o amor que eu vejo nos olhos de Frannie e Cassandra. É o amor que eu vejo nos meus próprios olhos. No final, o amor é uma flor que nunca para de crescer e que precisa ser cuidada todos os dias. Vocês cuidaram e cuidam há anos do amor que sentem uma pela outra. Eu espero fazer o mesmo. Eu espero que saibam que vocês são o amor.
Quinn não esperava dizer o que disse, tampouco os aplausos que recebeu. Algumas pessoas choravam, incluindo Frannie e Cassandra, que se levantaram e a abraçaram.
— Nós também somos o amor. Eu te amo, Q.
— Eu amo você, Fran.
Elas se separaram, e Quinn voltou para o seu lugar, sentindo a mão de Rachel apertar a sua coxa suavemente. Ela secava algumas lágrimas.
— Isso foi lindo.
Quinn sorriu. Já era noite quando as mensagens direcionadas às noivas acabaram e a música alta preencheu o local. Ela dançava com Frannie no salão, ouvindo os comentários dela até Russel interrompê-las e pedir para que trocassem de par. O sorriso de Quinn diminuiu por ter de dançar com Judy. A situação não poderia ser mais desconfortável.
Ainda assim, as duas começaram a dançar.
— Eu sempre imaginei o casamento de vocês. Desde que nasceram. — Judy quebrou o silêncio que predominou entre elas. — Sempre imaginei cada detalhe. Frannie está se casando, mas você...
— Eu ainda sou nova demais para isso, mãe. — Quinn tentou cortá-la.
— Você não vai ter o mesmo que a sua irmã, porque a Rachel já se casou. — Judy continuou.
— Mãe...
— Eu sei que você a ama. É fácil amar quando alguém é gentil e a faz se sentir nas nuvens, mas como você disse, não há como saber se é realmente amor.
— Eu dei a minha definição de amor, que é exatamente o que eu sinto por ela. Eu a amo, mãe.
— E ela realmente a ama também? Ela já ia pedir o divórcio, Quinn. Rachel só adiantou as coisas.
— Ela me ama, e eu a amo. Isso é o mais importante.
O clima agradável já estava substituído pela tensão. Quinn encerrou a dança e tentou se afastar, mas Judy a puxou e a segurou pelo rosto.
— Você sabe que tudo está confuso na sua cabeça, Quinn. Um relacionamento não deveria exigir tantos sacrifícios como os que você terá de fazer se insistir nessa aventura. Pense na mídia. Seu pai e eu podemos pagar uma viagem para fora do país. Você vai esquecê-la.
Quinn colocou as mãos sobre as da mãe, fitando-a intensamente. O brilho dos olhos de Judy era uma mistura de súplica com desespero. Estava desesperada para afastá-la de Rachel a qualquer custo. Não conseguia entender que se amavam. Era, no maior dos clichês, praticamente uma representação mais amena de Afrodite ao saber do amor de Eros por Psiquê.
— Você está insegura. Eu posso ver isso. Está tão insegura que não conseguiu apresentar Rachel como a sua namorada.
— Eu não apresentei porque ela precisa se divorciar primeiro. Estamos indo com calma.
— Esse não é o único motivo. O divórcio da Rachel não importa depois daquela foto vazada. Todos sabem que ela está com alguém. Independentemente do tempo, quando souberem do namoro de vocês, os comentários e olhares serão os mesmos.
— Mãe...
— Diga! Diga para toda a sua família que ama Rachel Berry, que ela a ama e que estão juntas! Diga!
— Pare!
— Diga, Quinn!
— Já chega!
Quinn finalmente conseguiu escapar das mãos de Judy, mas não queria ter gritado, porque a música parou e todos olharam na sua direção. Estava ofegante. Seu peito subia e descia rapidamente. Judy não estava diferente.
Ambas continuaram se encarando.
— Está tudo bem? — Frannie chegou até elas. — O que você disse para a Quinn, mãe?
— Fale, Quinn. Aproveite os olhares. Diga logo. — Judy ignorou a pergunta de Frannie. Seus olhos continuavam presos em Quinn como duas miras de alta precisão.
Quinn desviou os olhos de Judy e fitou os convidados. Tinha atenção e silêncio. Ela os pousou em Rachel, que as olhava aflita e curiosa. Poderia chamá-la e anunciar que estavam juntas. Poderia beijá-la e não guardar mais um segredo. O segredo do seu amor. Já compartilhavam um relacionamento. Finn sabia, Adam sabia, seus amigos e pais sabiam. Não havia motivos suficientes para justificar a sua omissão, exceto o seu medo latente.
Judy tinha razão, mas Quinn nunca diria isso em voz alta. Tinha razão ao dizer que estava insegura e que o divórcio não era o único motivo para não assumir o seu relacionamento com Rachel para toda a sua família. Havia se sentido mal quando ela não mencionou o seu nome na entrevista concedida para protegê-la. Contudo, naquele salão, Quinn não queria proteção. Ela apenas não queria dizer. Não queria exteriorizar os seus sentimentos. Não conseguia. Não conseguia ser alvo de comentários tão negativos. Não conseguia imaginar a força que teria de ter para não abaixar a cabeça e ignorar o que ouviria. A ironia, as acusações implícitas, a notícia se espalhando incontrolavelmente pela mídia. Nunca gostara de holofotes. Nunca nem sequer cogitou ser conhecida por pessoas que nunca ouviu falar. Mas tudo seria o oposto quando decidisse assumir o seu relacionamento com Rachel. Pela primeira vez, Quinn afirmou para si mesma que queria Rachel, mas que talvez não aguentasse a fama dela. E não havia uma forma de separá-las. Rachel nunca deixaria de ser famosa. Quinn nunca pediria para que deixasse de ser. Ela sentiu o medo aterrorizante cortá-la com uma espada enferrujada. Seus pais nem mesmo a apoiavam. Não teria o colo deles para chorar e desabafar sem que ouvisse os insultos que guardavam de Rachel. Sua garganta ardeu. Sua respiração descompassava cada vez mais. Estava asfixiada.
— Eu... — Os olhos de Quinn ainda estava em Rachel. — Me desculpem. Eu só... não queria mais dançar. Com licença.
Ela não conseguiu projetar uma frase mais coerente para explicar a sua explosão, mas não esperou que eles a entendessem e se retirou, tirando os saltos médios ao pisar na grama bem aparada da montanha.
Se sentia covarde por não clarear a situação com sinceridade e mostrar os seus sentimentos para a pessoa que amava publicamente. Amava Rachel. Tinha certeza de que amava, mas parecia tão difícil enfrentar tudo o que viria naquele instante. Odiava pensar em si mesma estampando notícias na internet e em revistas como a namorada de Rachel Berry. Odiava pensar que todos em Columbia falariam pelas suas costas e que a tratariam diferente. Odiava pensar que onde quer que estivesse, alguém já teria visto uma foto sua em alguma rede social. Era assustador. Adam havia crescido como o filho de Rachel. Estava acostumado. Quinn não. Era um salto de realidade nunca desejado por ela.
No entanto, apesar disso, não enfrentar tudo resultaria em não ter Rachel ao seu lado e aquilo doía. Doía como nunca doeu em toda a sua vida. Eram caminhos tortuosos e que exigiam rompimentos. Rompimentos permanentes e irreversíveis.
Ela sobressaltou quando alguém a tocou gentilmente no ombro, se virando e encontrando os olhos apreensivos de Rachel.
— A sua mãe me contou tudo quando eu fiz menção de vir até aqui. Ela ficou na minha frente e disse o que houve. Judy parecia satisfeita, mas eu não estou satisfeita.
— Me desculpe. Eu...
— Não há o que se desculpar, Quinn. — Rachel a interrompeu. — Eu não vou brigar com você porque não fui apresentada como a sua namorada no casamento da sua irmã. Eu sei que você não está preparada para isso, e nós vamos caminhar juntas para que algum dia consiga.
— Então você não está brava?
— Eu não estou brava. — Rachel balançou a cabeça enfaticamente. — Não estou brava e muito menos chateada. Eu não tenho direito de estar. Você só tem 20 anos e...
— Eu não sou uma adolescente.
— Eu não estou dizendo que você é uma adolescente, mas eu sei e entendo o peso da minha imagem e da pessoa que eu sou. É complicado, Quinn. Tudo isso é complicado.
— Eu só... queria ter coragem para enfrentar tudo sem sentir medo, mas parece impossível.
— Nós só precisamos conversar. Sobre tudo o que anda nos rondando e todos os nossos sentimentos. Começando pelas providências que a sua mãe disse que tomaria quando nos flagrou juntas pela segunda vez.
— Rachel, aquilo não foi nada.
— Você quer mesmo continuar adiando esse assunto? Depois de ter prometido que não faria isso? Eu estou aqui por você, mas preciso sentir que você também está aqui por mim.
Quinn assentiu devagar. Sabia que era desonesto continuar escondendo aquilo quando Rachel sempre era um livro aberto e sincera a respeito de tudo o que a cercava. Ela olhou brevemente para cima, encarando as estrelas e a lua. A altura em que estavam contribuía para deixá-las com o dobro do tamanho. Por fim, respirou fundo antes de voltar a encará-la.
— Os meus pais vão confiscar o meu carro, o meu apartamento, a minha conta bancária e a mensalidade de Columbia se eu continuar com você.
— Eles... — Rachel abriu a boca, extremamente surpresa. Achava que Judy e Russel não podiam tomar uma atitude tão horrorosa, mas aparentemente estava errada. — Eles não podem fazer isso. É muito abrupto, Quinn.
— Eles vão fazer isso, Rachel. Não há nada que eu possa fazer para mudar o pensamento deles.
— Eu posso...
— Não. Você não vai pagar nada.
— Você sabe que eu posso pagar sem esforço. Você pode ir morar comigo e...
— Rachel, não!
— É o seu futuro, Quinn! Seus pais estão agindo como dois estúpidos, e você, infelizmente, ainda depende deles. Você pode não depender mais.
— E então vou depender de você? Do seu dinheiro? Eu preciso do meu orgulho, Rachel.
— Não deixe o seu orgulho passar por cima do seu futuro profissional!
— O meu orgulho é tudo o que eu tenho! — Quinn elevou o tom de voz, se arrependendo logo depois. Ela olhou para o salão apenas para garantir que ninguém tinha ouvido e fitou Rachel outra vez. — Eu não tenho certeza de nada. Nem sobre Columbia. Mas eu tenho o meu orgulho e sempre vou tê-lo.
— Então você sabe que tem duas escolhas, Quinn. — Rachel disse calmamente. Seus olhos se enchiam de lágrimas. — Ou você termina tudo e deixa os seus pais felizes ou fica comigo e aceita a minha ajuda.
— Não é assim, Rachel...
— Nós sabemos que é, Quinn. E você precisa me dizer o que quer, porque não é justo. Não é justo você ter me conquistado e ter me feito amá-la para ir embora desse jeito. Não é justo comigo e com o meu coração. Não é justo com você. Não é justo conosco.
Quinn começou a chorar.
— É o meu futuro profissional, Rachel, mas eu amo você.
— Então permita que eu a ajude.
— Eu não posso. Eu... eu não posso.
Rachel não disse nada. Ela tentava absorver o diálogo que acabaram de ter. Quinn não estava dando uma resposta concreta, mas não queria ceder, e não podia prejudicar o futuro dela. Saber que Judy e Russel tinham chegado a esse ponto era uma pancada cruel.
— Se nós continuarmos fingindo que não estamos juntas e eles nos virem em alguma notícia ou fotos na internet, tudo vai ser destruído de novo. Não há uma saída que beneficie todos os lados. Você precisa escolher, Quinn. — Rachel disse. O tom de voz estava baixo, mas ela também chorava. — Eu vou voltar para Nova York amanhã de manhã.
— Rachel, não...
— Eu gostaria muito de ter uma solução definitiva, mas eu não tenho, Quinn. Eu também não posso fingir que tudo vai ficar bem e que você não precisa fazer uma escolha. Eu amadureci bastante durante anos, mas não posso agir como se nada disso me machucasse. Eu amo você e sei que vai partir o meu coração não ter você, mas preciso deixá-la escolher. Não posso alimentar esperanças e nem usar o que temos como uma chantagem emocional. É uma escolha delicada. Mas eu estou deixando claro que vou ajudá-la no que for preciso se você aceitar. Me ligue a qualquer hora e eu vou atender. Podemos nos encontrar em qualquer lugar. — Rachel estendeu a mão. Quinn só reparou que ela segurava uma pequena caixa de veludo quando a pegou. Havia um molho de chaves e um cartão dentro. — São as chaves e as senhas da casa em Malibu. Eu fechei negócio ontem e queria entregar quando estivéssemos sozinhas. Eu sei que pode não ser a hora mais adequada, mas eu precisava dar isso a você. Pense na sua decisão, mas se também precisar de carinho, venha até mim. Eu sou a sua amiga antes de tudo.
Quinn não respondeu e fechou os olhos quando Rachel plantou um beijo longo na sua bochecha. Seu rosto queimava e seu corpo formigava, exatamente como o primeiro beijo que recebeu dela. Queria agarrá-la ali e pedir para que ficasse. Que não fosse embora para Nova York. Queria tocá-la e beijá-la. Mas ao invés disso, Quinn a viu dar meia-volta e entrar no salão enquanto tentava disfarçar o rosto molhado. Rachel estava certa. Precisava fazer uma escolha de uma vez por todas. Embarcar no oceano sem recuar ou voltar para a terra firme.
Ela chorou observando a lua. O retrato romântico da natureza ao seu redor servia como testemunha da dor lancinante que a consumiu.
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