A Luz dos Teus Olhos
27 Capítulo 27 - Medo do desconhecido...
Notas iniciais
O MountainGate Country Club ficava localizado na base das montanhas de Santa Mônica, próximo ao Museu Getty e ao sul da Califórnia. Com quadra de tênis, campo de golfe e um enorme casarão, a área era maior do que a maioria dos clubes. Quinn só o tinha visto através das fotos que Frannie enviara, mas agora, com o carro subindo a colina, conseguia ver como era grande. O sol de fim de tarde parecia mais próximo. Ela suspirou, observando os outros carros seguindo o mesmo trajeto e sentindo o olhar de Rachel.
O carro parou no estacionamento nos fundos do casarão, mas Quinn não fez menção de sair. Rachel desligou a ignição e tirou o cinto de segurança.
— Não quer sair? — Ela perguntou carinhosamente.
Quinn a fitou.
— Não. Eu não quero ver todos os meus parentes. Ontem, Anne passou a tarde inteira falando sobre você. Eu não quero nem pensar em como os outros vão reagir ou o que vão achar da nossa amizade.
Rachel assentiu. Apesar de ninguém ali saber que eram namoradas, ela mesma se sentia aflita por ter de passar várias horas conhecendo a maioria dos Fabray. Frances e Eileen tinham sido ótimas companhias, mas nem todos poderiam ser assim.
Ela buscou a mão de Quinn, tentando transmitir algum tipo de conforto e sentindo os dedos frios tocarem a sua pele, embora o ar condicionado não estivesse tão forte. Rachel não a culpava por estar tão nervosa. Por ser tão discreta e isolada de olhares, era difícil se adaptar em ser o alvo da curiosidade dos outros, incluindo a sua família.
— Eu estou aqui. Por você, por nós e por qualquer coisa que pode acontecer, mas se for deixá-la melhor, eu posso ir embora. Frannie pode ter outra madrinha. Eu não vou ficar chateada. — Rachel sorriu.
Quinn espelhou o sorriso que recebeu. Não porque estava mais calma ou mais confiante e sim porque Rachel sempre tinha as palavras certas para alentá-la, sendo tão complacente e irresistivelmente hospitaleira.
— Eu vou estar melhor com você aqui. — Quinn disse. — Eu amo você e quero que fique comigo o máximo que puder. Eu só... estou ansiosa. Eu não sou muito próxima de uma grande parte da minha família. Alguns são arrogantes demais. Eu nem sei se entendem a minha intersexualidade.
— Eu sei. — Rachel balançou a cabeça em um gesto afirmativo. Conhecia a família Fabray há muito tempo para saber que tinham uma árvore genealógica ampla. Era impossível saber se todos eram tão gentis quanto Quinn, Frannie, Frances e Eileen. Ela esperava que sim. — Eu sei e repito que estou aqui, Q. E se você quiser, podemos evitar agir mais intimamente.
— Podemos? — Os olhos de Quinn brilharam em culpa e em alívio. Ela esperava contar para todos sobre o seu relacionamento com Rachel, mas talvez fosse melhor esperarem até que o divórcio saísse e a fixação da mídia amenizasse. — Você não vai ficar magoada?
— É claro que não. — Rachel sorriu outra vez. — Eu amo você e não quero vê-la mal. Vamos ficar juntas, mas como amigas. Pelo menos por enquanto.
— Tudo bem. — Quinn apertou e beijou a mão de Rachel. — Eu te amo.
— Eu te amo.
Rachel se aproximou para segurá-la pela nuca, encostando o seu nariz na bochecha dela e aspirando o aroma da loção de groselha que conhecia muito bem. Queria permanecer dentro daquele carro até que o casamento acabasse e tivessem de voltar para Nova York, onde ficariam em SoHo, TriBeCa ou em qualquer outro lugar, mas não podiam, então aproveitaram os vidros esfumaçados do carro para se beijarem. Ela reprimiu um gemido quando a sua língua tocou a língua de Quinn, aprofundando o beijo o máximo que o espaço do veículo permitia. Era impossível explicar o motivo de estarem tão desesperadas, muito menos como os corpos quase entravam em combustão rapidamente. Tudo o que sabiam era que quando se beijavam, entravam em uma neblina e não pensavam em nada que não fosse avançar sobre a outra. Como uma força imparável da natureza, não conseguiam ficar longe por muito tempo.
Os hormônios de Rachel nunca descansavam. Ela deixou que Quinn a puxasse para o próprio colo, subindo o vestido para facilitar a tarefa de esfregar o seu clitóris coberto pela calcinha molhada no volume que se formava na calça jeans apertada entre as suas pernas. Gemidos escapavam enquanto ainda se beijavam. Rachel quebrou o contato e moveu os lábios inchados e avermelhados para o pescoço de Quinn, deixando um rastro até a orelha dela.
Quinn apertava a bunda de Rachel firmemente, mas parou para ajudá-la a retirar o vestido. As janelas do carro embaçavam pela temperatura subindo à medida em que Rachel continuava se mexendo, sorrindo quando Quinn a olhou com os olhos mais escuros do que costumavam ser. Em um período de duas semanas, havia transado com Quinn mais vezes do que conseguia contar, e o olhar dela continuava o mesmo da primeira noite em que passaram juntas. Era um olhar amoroso, desejoso e embevecido, como se fosse a única mulher do mundo. Como se fosse a única e mais bonita mulher do mundo. Era o olhar que aquecia o seu corpo e o seu coração em uma canção de compassos iguais. E era o tipo de olhar que nunca havia recebido até conhecê-la.
— Você é perfeita. — Quinn disse.
— Você é perfeita. — Rachel a deu um selinho. — E está com roupas demais.
As mãos impacientes de Rachel retiraram o suéter de Quinn, aproveitando a pele exposta para continuar a sessão de beijos até o vale entre os seios. Quinn tentava se concentrar em mexer na inclinação do banco do carona, inclinando-o para que pudesse se deitar, e não na fricção que sentia no seu pênis e nos lábios de Rachel na sua clavícula.
Ela segurou a cintura de Rachel. Havia mais espaço agora que o encosto estava completamente curvado. Rachel abriu o botão e desceu o zíper da calça de Quinn, mas estancou quando o celular dela começou a tocar.
— Deixa tocar. — Quinn atacou os lábios de Rachel. Elas se esqueceram do barulho estridente. A posição em que estavam era provocante demais para se concentrarem em outra coisa. Rachel gemeu quando Quinn a segurou pelos cabelos. Os dedos dela se divertiam com o elástico da sua calcinha.
O celular começou a tocar pela segunda vez.
— Eu acho melhor você atender. — Rachel disse após interromperem o beijo. — Pode ser importante.
Quinn caiu para trás com um suspiro derrotado e pegou o celular do compartimento frontal da sua bolsa de viagem sobre o assento traseiro. As duas ligações perdidas eram de Frannie, e Quinn não precisou retornar. Ela tinha deixado uma mensagem de texto.
Quinn fez uma careta.
— O que aconteceu? — Rachel perguntou.
— Frannie precisa de você. Coisas de madrinhas. — Quinn digitou algo e deixou o celular de lado. — Não podemos só ignorar?
— Eu gostaria de dizer que sim, mas nos sentiríamos culpadas.
Quinn concordou, mesmo a contragosto, e Rachel riu antes de se inclinar e a beijar suavemente.
— Vamos lá.
Elas se vestiram, arrumaram os cabelos e saíram após Quinn fazer o volume sumir da sua calça. Frannie se aproximou ao avistá-las.
— Isso é lindo, não é?
— É muito lindo, Fran. — Quinn sorriu, feliz por ver Frannie tão animada. — Você precisa que Rachel a acompanhe, não é?
— Sim, eu preciso. Me desculpem.
— Ei, não se desculpe. Eu vou adorar ir com você. — Rachel não queria falar em voz alta, mas casamentos eram os seus eventos favoritos. Mal podia esperar para ver Adam se casar.
— E o que eu vou fazer? — Quinn arqueou a sobrancelha.
— Você pode ir até a Cassie e evitar que ela sofra uma crise de nervos.
— Mas a pessoa mais provável de sofrer isso é você.
— Mas ela é filha única. Eu vou estar com a Rachel, e você fica com ela.
— E a mamãe?
— Ela não vai falar ou fazer algo com mais de quinze pessoas no mesmo lugar.
— Tudo bem. Nos vemos depois, então.
Frannie sorriu agradecida e esperou que as duas trocassem algum afeto, mas o que aconteceu foi apenas um acenar simples com a mão. Quinn sabia que a irmã faria perguntas a Rachel quando elas se afastaram e caminharam até entrarem no casarão.
Ela se virou para ir até Cassandra, mas sentiu o coração saltar quando viu os amigos saindo do carro de Adam. Brittany correu para abraçá-la. Santana caminhou lentamente enquanto observava o local.
— Isso aqui é enorme. Seus pais ajudaram Frannie a pagar? Porque se não ajudaram, ela pode ter assaltado um banco.
— Eles ajudaram. — Quinn se afastou de Brittany e a abraçou.
— Onde está a estrela de Nova York?
— Ela foi com Frannie conhecer as outras madrinhas. — Quinn respondeu. — Espero que se deem bem.
— É claro que elas vão se dar bem. A Rachel é muito gentil. Não se preocupe com isso. — Brittany falou.
— Provavelmente elas vão pular sobre a Rachel. É melhor tomar cuidado. Ela pode trocar você por uma namorada mais velha. — Santana abriu um sorriso divertido.
Quinn a fulminou com os olhos.
— Isso não vai acontecer.
— Eu sei. Eu só não consigo ver toda essa situação sem falar algo.
Quinn revirou os olhos, mas não respondeu. Ela sabia que Santana nunca pararia de usar o humor ácido que carregava. A sua atenção, entretanto, foi fisgava por Adam, e um sorriso involuntário cresceu nos cantos da sua boca. Ele parecia tranquilo e sem ressentimentos, mas ainda assim se sentiu nervosa e angustiada. Não se falavam pessoalmente há semanas.
— Aqui está. — Adam entregou a bolsa que segurava para Santana. — Eu não ganho um obrigado?
— Nós aguentamos a sua discografia no carro até aqui, então somos nós quem merecemos agradecimentos. — Santana respondeu, ganhando outro revirar de olhos.
Quinn cumprimentou Connor, mas se retesou diante de Adam. Não sabia se podia abraçá-lo. Brittany percebeu a tensão que fluía dos dois.
— Então agora nós já podemos ir conhecer os quartos. Frannie nos passou as informações por mensagem. — Brittany puxou Santana e Connor. — Nos vemos depois.
Quinn não respondeu. Ela continuou olhando Adam timidamente.
— Oi.
— Oi, Q. — O tom de voz de Adam era baixo e afetivo. — Como as coisas estão?
— Tudo está bem. Amanhã é o casamento da Fran e...
— Não, eu quero saber como você está. Como está com tudo isso? A minha mãe, os seus pais, tudo.
— Você.... você quer mesmo saber?
— Por que eu não iria querer? Você é minha melhor amiga.
— Você tem certeza disso?
Quinn não queria estar tão receosa, mas tinha medo. Medo de que Adam despejasse acusações na sua cabeça e virasse as costas. Mesmo tendo conversado com ele pelo telefone, nada tinha sido consertado ainda.
Ele balançou a cabeça assertivamente.
— Podemos ir para um lugar mais calmo?
Quinn concordou. Não era propício entrar nos assuntos pendentes que tinham sob os olhares esporádicos dos seus parentes quando saíam dos carros.
Eles entraram no casarão. No caminho até os quartos, Quinn analisou a madeira rústica do hall, do corrimão da escada e dos móveis. Quadros com molduras douradas e esculturas sobre mesas pequenas decoravam os corredores. Ela parou para saudar alguns familiares. Na maioria, primas da sua idade. Os olhos brilhantes, os sorrisos largos e as mensagens que trocavam incontrolavelmente denunciavam que já sabiam sobre a sua amizade com Rachel e o fato de terem chegado juntas.
— Rachel está com Frannie. — Quinn repetiu pela sexta vez, recebendo mais um beijo na bochecha e ouvindo a risada de Adam. — Isso não é engraçado.
— É engraçado quando não é você o alvo das perguntas.
— Eu não consigo imaginar quantas vezes você passou por isso.
— Meus professores me perguntavam se eu iria para o show de talentos da escola só porque sabiam que a minha mãe me acompanharia.
— Então é por isso que todos gostavam de você? — Quinn brincou.
— Cala a boca.
Ambos entraram no quarto que Quinn e Rachel ficariam até o domingo. Quinn agradeceu que os pertences não haviam sido tirados do carro ainda. Talvez não fosse muito confortável para Adam ver as coisas da mãe ao lado das coisas da melhor amiga ao lado de uma cama de casal.
Era o mesmo tipo da madeira, Quinn pôde constatar. O mesmo tipo que havia visto no hall e no corredor agora na mesa de cabeceira, no suporte da televisão, na mesa entre as duas poltronas e na moldura da janela. Ela juntou as mãos em um gesto de nervosismo. Deveriam se sentar? Continuariam em pé?
Adam tomou a iniciativa e se sentou em uma das poltronas. Quinn se posicionou de frente para ele.
— Você se lembra quando discutimos pela primeira vez? — Ele perguntou.
— Sim, eu me lembro. Minha mãe estava em Nova York, insistindo diariamente para que saíssemos, e eu acabei sendo grossa com ela. As provas finais do primeiro semestre estavam acabando comigo.
— Então eu intervim, e você disse que eu não sabia nem metade da sua vida. Nos conhecíamos há menos de um mês. Aquela discussão poderia ter destruído a nossa amizade, mas surtiu um efeito contrário. Nos tornamos melhores amigos quando eu pedi para que me mostrasse a sua vida. Que me mostrasse mais de você. Porque, sem entender o motivo, eu sentia como se tudo fosse possível se você estivesse por perto. Senti como se pudesse ser o seu amigo para sempre. Você sempre ouviu mais do que falou, mas me mostrou a sua família, os seus gostos, a sua rotina e confiou em mim para contar sobre a sua intersexualidade. Eu admirei você, mas também senti inveja de você. Apesar da tia Judy querer que as coisas estejam sempre do jeito dela, ela ama estar casada com o seu pai. Eles têm uma afinidade impressionante. Os meus nunca tiveram isso. Não que eu me lembre. O casamento deles se tornou raso e quebradiço. Mal se tocavam ou se olhavam nos olhos, e a vida sempre foi cercada pelos tabloides. Eles falavam sobre Rachel Berry e Finn Hudson, sobre a família de Rachel Berry e Finn Hudson e sobre os amigos de Rachel Berry e Finn Hudson. E eu... eu era o filho da maior artista da Broadway e do jogador principal de um dos maiores times de Nova York. No meu aniversário de 17 anos, eu bebi e bati o carro. Isso saiu em todos os sites e revistas. Eu era um adolescente fazendo coisas de adolescente, mas tive de ler algumas pessoas falando que um filho criado na mídia só poderia ser alcoólatra. Você consegue entender o que estou dizendo? Se eu entrasse em uma briga em público, seria a primeira página das manchetes, e eu seria acusado de fazer parte de uma gangue. — Adam gesticulava. — As coisas sempre fogem do controle. Eu senti inveja do seu anonimato. Senti inveja de você poder sair para um restaurante com os seus amigos sem flashes atingirem o seu rosto ou ver a própria foto compartilhada em redes sociais. Naquela noite do meu aniversário de 17 anos, a minha mãe foi me buscar na delegacia. Eles nem me colocaram em uma cela. Nós chegamos em casa, e ela brigou com o meu pai. Ele queria me punir. Ela não. Eles não entraram em um consenso. Eles nunca entravam em um consenso. A briga que tiveram talvez tenha sido o único momento em que não fingiram sentimentos. — Ele fez uma pausa e limpou a garganta, tentando evitar que a voz falhasse. — Eu não entendia porque ainda estavam casados. Eu sei que o amor vai além de palavras, e eles não se amavam. Pelo menos não a minha mãe. Ela deixou de amar o meu pai há muito tempo. As fotos que tiraram na juventude é a única prova do que tiveram um dia. Eles nunca entravam no assunto da traição do meu pai na minha frente. Eu só soube disso porque ouvi os meus avôs comentando. A minha mãe queria esconder isso de mim. Ela é a melhor pessoa do mundo inteiro. Quando eu entendi que o casamento deles estava afundado, eu chorei por ela. Chorei porque ela merece todo o amor que puder receber. Eu só nunca achei que esse amor pudesse vir de você.
— Adam... — Quinn tinha um bolo enorme na garganta. As lágrimas escorriam pelas suas bochechas como duas cachoeiras.
— Eu parei de sentir inveja de você quando me tornei o seu melhor amigo. — Adam continuou. Ele tinha de continuar, ou então choraria também. — Eu parei de sentir inveja para sentir amor. O amor fraternal por me sentir o seu irmão. Você sempre foi a minha irmã mais nova. Eu a amei. Eu a amo. Mas eu quis brigar com você quando nem sequer conversamos sobre os seus sentimentos pela minha mãe. Eu quis brigar com você porque me senti um idiota. Porque, enquanto eu planejava que vocês pudessem desenvolver uma relação de mãe e filha, como a tia Judy e eu, vocês se entrelaçavam mais do que eu gostaria. Eu quis brigar com você, principalmente, porque o seu anonimato acabaria. O anonimado que eu sempre quis iria embora. Você seria conhecida como a namorada de Rachel Berry. Eu não queria que você fizesse o que estava fazendo, então eu me afastei para pensar. Para não brigarmos e para tentar ajudar o meu pai. Apesar de ele ter sido um idiota, eu não queria vê-lo sofrendo. Mas eu nunca parei de amar você, Quinn. Eu não sei o que vai acontecer amanhã ou daqui a um mês, mas eu preciso me certificar de que você não vai se acidentar nessa carga midiática. Eu nunca me perdoaria se a abandonasse dessa maneira. Se não segurasse a sua mão.
— Você... você está preocupado comigo? — Quinn soluçou. — Não está bravo? Magoado?
— Eu fiquei chateado e talvez ainda esteja, mas não estou bravo. Vocês são adultas. É só... desagradável pensar em vocês duas juntas assim.
— Me desculpe.
— Você não deve se desculpar por aquilo que você sente. Você ama a minha mãe, e eu entendo isso, Q. Eu entendo. O amor não deve ser motivo para arrependimentos. Mas mais do que o amor, às vezes nós precisamos pensar em como vamos ficar em uma relação. É isso o que você quer? Quer mesmo assumir o seu relacionamento com a minha mãe para todos? Você viu e soube das minhas histórias com a mídia. Está pronta para passar por algo semelhante?
— Eu... — As palavras morreram antes mesmo que pudessem existir na mente de Quinn. Ela mal conseguia formular uma frase. Tudo o que Adam dissera ainda pairava na sua cabeça, principalmente a pergunta feita. Ela já tinha pensado várias vezes se estaria pronta para se expor, mas sabia que quanto mais pensava, mais essa realidade se aproximava, e tinha medo. Medo de tudo. Medo do presente. Medo do futuro. Medo do desconhecido. — Eu não sei, Adam. Eu não sei. Eu a amo, mas...
— Mas você não sabe se vai conseguir.
Quinn assentiu atordoada, abaixando a cabeça para chorar em silêncio. Pela primeira vez, desde que a foto de Rachel tinha sido mostrada para o mundo, ela chorava copiosamente. O pavor que a fez enfrentar a mãe e pedir ajuda para a irmã agora escorriam pelo seu rosto vermelho.
Adam se levantou e se ajoelhou na frente dela, abraçando-a. Quinn apertou os braços ao redor do pescoço dele, molhando a camisa de botões com as suas lágrimas. Por dilacerantes minutos, eles permaneceram naquele abraço. O som do choro de Quinn ecoava no quarto todo. O corpo dela tremia. Adam se sentiu culpado por tê-la feito desmoronar, mesmo que aquilo fosse necessário. Amava a mãe, mas a fama que a perseguia poderia causar consequências negativas em uma pessoa despreparada de 20 anos. Quinn precisava saber no que estava embarcando.
Eles se separaram devagar. Adam a carregou até a cama e pegou alguns lenços de papel do banheiro.
— Quer que eu fique aqui com você? — Ele perguntou enquanto secava o rosto dela delicadamente.
— Eu adoraria, mas eu preciso ficar sozinha antes que isso seja impossível. — Quinn respondeu com a voz rouca.
— Tudo bem. Me ligue ou me envie uma mensagem se precisar de qualquer coisa. Eu virei correndo. — Adam a beijou na testa. — Eu amo você, Q.
— Eu também amo você, Adam.
Ela o viu deixar o quarto e tirou o par de tênis. Aquele dia deveria ser alegre. Deveria estar com Cassandra, mas tinha falhado em atender o pedido de Frannie. Era uma péssima companhia agora. Sua mão buscou o colar sob o suéter, apertando-o para tentar se acalmar. Sabia que tinha duas escolhas. Sabia, sobretudo, que as duas destruiriam algo. O seu anonimato ou o seu relacionamento com Rachel. A névoa que colocou sobre os olhos durante os doze dias que passou com ela era só uma tentativa de não enfrentar de vez os seus problemas. Perder Rachel era como perder a melhor coisa que a vida lhe dera, mas e se tudo virasse pó quando se assumissem e os seus pais cortassem o contato que tinham e a privassem de continuar em Columbia? Não havia como ter um prognóstico do que seguiria a partir de cada decisão. Não havia nem como imaginar os resultados e os impactos.
Quinn chorou de novo.
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