A Luz dos Teus Olhos
26 Capítulo 26 - Caminhando em cacos de vidro...
Notas iniciais
Os olhos azuis de Judy jogavam sobre Quinn e Rachel uma raiva quase tangível. Rachel, agora de pé, correspondia a dureza do semblante dela, tentando se manter impassível e segurando toda aquela tensão.
— Mãe...
— Eu não sei mais o que fazer, Lucy Quinn! Se nada do que seu pai e eu dissemos não foi o suficiente para afastá-la dessa mulher, o que teremos de fazer?!
— Nada! Eu tenho 20 anos, mãe! Você não pode me forçar a estudar fora do país ou me trancar em um internato como se eu não tivesse controle da minha própria vida! — Quinn estava igualmente nervosa.
— Essa é a minha vontade agora. Quem sabe assim você teria um pouco do juízo que eu achei que tivesse. — Judy gesticulava.
— Eu tenho juízo, mãe. Estar apaixonada não anula a minha responsabilidade.
— Estar apaixonada por ela anula completamente, Quinn. Você não vê que Rachel Berry vai deixá-la quando se cansar de brincar com você?
— Por que você fala isso com tanta certeza? — Quinn arqueou uma das sobrancelhas. — Você parece tão confiante afirmando que eu vou me magoar, mas poderia ser o contrário. Todos podem se magoar. Você pode magoar o papai. Ele pode magoá-la. Não existe uma regra.
— Porque eu sei. É isso o que acontece quando você se envolve com uma mulher famosa, mais velha e com uma bagagem pesada demais. É isso o que aconteceu com tantas outras pessoas. Eu só quero o seu bem.
— Eu também quero o bem da Quinn, Judy. — Rachel interveio. — Você precisa acreditar em mim. Eu estou me divorciando. Nos conhecemos há mais de quinze anos. Se pudermos conversar, eu...
— Eu não quero conversar com você, tampouco acreditar em você. — Judy continuou encarando Quinn. — Quinn, será que nós podemos falar a sós?
— Eu não vou falar com você, mãe. Eu não fiz nada de errado. Nada! Eu estou apaixonada. Rachel está apaixonada. Isso é tudo. Nós vamos ficar juntas. — Quinn decretou.
Judy suspirou profundamente.
— Você acha que vai ser tão fácil assim? Que tudo vai ser uma fábula com um final feliz? Eu vou dizer o que vai acontecer, já que você é uma adulta. — Ela se aproximou devagar. — Você vai conhecer lugares novos e vai se encantar por eles. Vai conhecer um mundo completamente diferente e talvez goste disso, mas nesse meio-tempo, Rachel Berry vai conhecer outra pessoa e vai se interessar por ela. Uma pessoa que faça parte do círculo social dela e que não seja constrangedor apresentá-la como a namorada vinte anos mais jovem. Você é só a crise de meia-idade que ela está sofrendo. É o objeto novo e deslumbrante que vai perder o fascínio gradativamente. Rachel é como uma criança que acabou de chegar em um parque de diversões. Ela vai brincar até se cansar e depois vai embora, mas vai deixá-la com uma ferida aberta, e você vai se arrepender de não ter dado ouvido aos seus pais.
Era possível ouvir a respiração pesada de Quinn. Seu peito subia e descia desesperadamente, tentando bloquear a sua vontade de lançar impropérios sobre Judy e repetindo incessantemente que ela era a sua mãe, embora nada daquilo realmente importasse quando as palavras cruéis sibilaram da boca dela. Quinn não era alguém que se irritava com facilidade, mas Judy — infelizmente — sempre saberia como acertá-la dolorosamente. Seus olhos mal pestanejavam, inundados pelas lágrimas da raiva que tirava todo o seu ar.
— Eu só quero evitar que se machuque, Quinn. — Judy continuou. — E ainda há o fato de você ser intersexual...
— Pelo amor de Deus, já chega! — Rachel ficou na frente de Quinn, fitando Judy diretamente. A diferença de altura que as separava parecendo insignificante perto da ira que carregava. — Você pode ter raiva de mim ou o que quer que seja, mas não pode vir aqui e dizer tudo isso para a sua filha! Ela é a sua filha!
— E é justamente por ela ser minha filha que eu preciso protegê-la!
— Você quer controlá-la! — Rachel a corrigiu. — Quer usar os nossos obstáculos e a intersexualidade dela para deixá-la insegura e fazê-la se reprimir porque ela está indo contra os princípios que você impôs pela primeira vez. Isso é baixo demais, e eu não vou deixar que continue esse discurso asqueroso. É inevitável que as pessoas escolham os próprios caminhos, Judy. Frannie escolheu, Adam está escolhendo, nós duas escolhemos. Eu posso magoar qualquer pessoa, incluindo a Quinn, assim como ela também pode me magoar. Não há como conduzir esse percurso. Mas nós podemos evitar isso criando um relacionamento saudável e honesto. Não estamos cometendo um erro.
— Você poderia ser a mãe dela. Você não vê isso? Não consegue ver o quão constrangedor essa situação vai ser? Você a viu nascer, Rachel. Esteve nos primeiros aniversários e cuidou dela quando eu precisei de ajuda. — O tom de voz de Judy era inflexível e implacável.
— Você acha que eu não pensei nisso? Eu pensei em tudo. E, acima de qualquer coisa, eu também pensei que não poderia pegar tudo o que estava sentindo e jogar em uma lata de lixo por causa do preconceito das pessoas. Eu poderia ser a mãe dela, mas não sou, e quem sabe um dia possamos ser mães dos nossos próprios filhos.
Não foi uma provocação, mas Judy entendeu como uma, o que a fez erguer a mão para acertá-la em Rachel com uma fúria quase irracional, mas Quinn foi rápida em segurá-la pelo antebraço firmemente. Os olhos verdes como duas pedras de gelo.
— Você não vai tocar nela, mãe. Você não tem esse direito.
O conflito no quarto poderia ser sentido a quilômetros de distância. O ar pesado só não era pior do que o olhar de Judy, que intercalava entre Quinn e Rachel. Se sentia imponente. Depois do que pareceu um longo tempo, ela puxou o braço, respirando fundo, e Frannie a segurou pelos ombros. Talvez o olhar dela fosse o mais suave dali.
— Mãe, por favor. Você precisa entender que a Quinn é uma adulta.
— Ser adulto não garante que alguém saiba como se comportar. Você é mais adulta do que ela e permitiu que a Rachel ficasse no seu apartamento.
— Eu jamais negaria isso, porque não vejo problema nenhum no relacionamento delas. Só você e o papai.
— Não apenas nós dois.
— Tudo bem, então pessoas ignorantes como você e o papai.
— Eu achei que poderíamos contar com você para fazer a Quinn ver que está agindo como uma adolescente imprudente.
Frannie respirou fundo para não revirar os olhos.
— Vamos até o outro prédio, tudo bem? Depois vocês podem conversar. Com calma.
— Nós já conversamos tudo o que tínhamos para conversar. — Judy passou as mãos na saia justa, alinhando-a, e encarou Quinn. — Seu pai vai saber disso, e nós vamos tomar as providências que prometemos. Se decidir terminar com essa loucura, sabe onde nos encontrar. — Foi a última coisa que disse antes de deixar o quarto.
— O que ela quis dizer com isso? — Frannie lançou um olhar confuso na direção de Quinn.
— É algo sobre a discussão que tivemos em Lima. Eu conto depois.
— Quinn...
— Depois do seu casamento. — Quinn foi decisiva.
— Tudo bem. Eu vou seguir a mamãe para ajudá-la a se acalmar. — Frannie disse. — Você está bem?
— Estou, não se preocupe. — Quinn mentiu. — Me desculpe por isso. São os preparativos do seu casamento.
— Está tudo bem, Q. Eu sei que a mamãe vai fingir que nada aconteceu. Ela sempre faz isso. — Frannie abriu um sorriso pequeno. — E nada disso é culpa sua ou da Rachel. As coisas seriam diferentes se ela e o papai não fosse assim.
Quinn se limitou em assentir e se sentou na cama quando Frannie saiu. Era impossível não ficar triste. Nunca vira Judy tão rigorosa e intolerante.
Ela sentiu a mão de Rachel acariciar os seus cabelos, mas não disse nada. Por alguns minutos, as duas ficaram em silêncio, até Rachel tocar no assunto que a deixou curiosa.
— O que aconteceu na discussão que você teve com os seus pais em Lima?
Quinn a fitou.
— Não é nada, Rach. É só uma ideia descabida deles.
— Não é descabida, Quinn. Eu vi como isso pareceu afetar você e quero que fale comigo. Até Frannie percebeu.
— Podemos conversar sobre isso depois do casamento? Frannie e Cassandra precisam de toda a atenção que pudermos dar. — Quinn pegou a mão de Rachel e a beijou suavemente.
— Mas Quinn...
— Por favor, Rach. — Ela subiu os beijos pelo braço descoberto, parando no ombro e indo até o pescoço. — Eu prometo que vamos conversar, mas não agora.
Rachel relaxou quando Quinn a beijou brevemente e a abraçou. Não precisavam falar tanto agora. Elas se deitaram na cama e ficaram se olhando, sentindo as respirações se misturarem em um ritmo calmo.
— Então você pensa em ter filhos comigo? — Quinn deu voz aos seus pensamentos.
— Eu penso. — Rachel foi sincera. — Mas é uma questão muito delicada para se tratar agora.
— Bom, nós podemos tratar isso enquanto tentamos ter um.
Quinn escalou o corpo de Rachel, que gargalhou e passou os braços ao redor do pescoço dela.
— Você ficou maluca. Um filho é uma responsabilidade enorme, e você precisa terminar a faculdade para que possamos começar a cogitar isso.
O sorriso de Quinn estremeceu, mas ela conseguiu escondê-lo enterrando o rosto nos cabelos escuros de Rachel. Sabia que quando conversasse com ela sobre o ultimato dos pais, o assunto das despesas entraria em questão. Entre todos os adjetivos que poderiam chamá-la, interesseira era o pior deles. Quinn esperava não ter de desistir do que mais queria.
Elas conversaram um pouco mais até decidirem, mesmo contra a vontade, ir para o prédio ao lado. As conversas cessaram quando entraram no apartamento. Quinn mal conseguiu dizer algo durante o tempo em que a sua prima mais velha, Anne, abordou Rachel, falando sobre musicais, veganismo e programas de TV. Quinn deixou que conversassem e cumprimentou alguns parentes de Cassandra. A sala de estar não estava tão cheia. A maior parte da sua família iria direto para o local do casamento. Ela olhou para Judy e Russel. Provavelmente ele já sabia o que ocorrera, mas mantinha a postura invejável. Quinn reprimiu uma risada. Eles eram ótimos em criar falsas aparências.
Frances a abraçou de novo, e dessa vez Quinn sorriu verdadeiramente. Ela era a sua avó mais afável e receptiva, sempre com um carretel interminável de histórias das viagens que fez com o seu avô, que morreu há alguns anos. Quinn pensava se conseguiria apresentá-la aos seus futuros filhos. Torcia para que sim. Sobretudo, torcia para que ela não a rejeitasse.
Elas se separaram, e Frances também abraçou Rachel. Quinn podia sentir o olhar de Judy queimar na direção dela, mas continuou conversando com Russel.
— Os outros vão direto para o MountainGate? — Quinn perguntou, um pouco mais afastada e observando Rachel de soslaio, que falava sobre a Broadway com a sua tia Eileen.
— Sim. O MountainGate preparou tudo para nós. — Frannie sorriu. — A tia Eileen e a vovó queriam passear um pouco pela cidade, então o papai alugou esse apartamento. Amanhã nós vamos subir para o clube e ficaremos até o domingo.
— Precisamos confirmar os quartos para a organizadora do casamento. — Cassandra pegou o celular. — Como a Rachel chegou agora, ela pode ficar com a Quinn.
— Ou com Anne. Talvez a Rachel se sinta entediada conversando com a Quinn. Ela é só uma garota. — Judy replicou.
— Rachel e eu somos amigas há meses, mãe, e conversamos o tempo todo. Vamos ficar mais confortáveis assim. — Quinn forçou um sorriso.
— Quinn está certa. Elas são amigas. Ter uma diferença de idade não as impede de conversarem, Judy.
Ninguém pareceu notar quando Judy pegou o copo de água sobre a mesa de centro, tomando um gole para reprimir a raiva que sentia, com exceção de Russel, que a direcionou um olhar crítico.
Quinn permaneceu parada no flanco da sala, observando Rachel imersa em uma conversa radiante sobre Wicked, Frannie e Cassandra murmurando sobre os detalhes da cerimônia e os seus pais olhando-a esporadicamente. Automaticamente, ela pensou em como seriam os preparativos do seu casamento. Toda a sua família estaria presente? Seria em um lugar tão grande quanto o MountainGate? Gostava de pensar que sim, mas não se importava, de fato, se fosse vasto. A cerimônia não era tão relevante se estivesse com Rachel, seus amigos e uma parte mínima da sua família que gostaria de ter ao seu lado. Números não importavam.
Ela caminhou calmamente até a varanda, fechando a porta corrediça de vidro e apoiando o corpo no parapeito. O sol forte a obrigava a fechar os olhos para enxergar nitidamente o trânsito e a praia distante. Era reconfortante não sentir o frio doloroso de Nova York, mas ainda estava incomodada com o clima interno que sentia dos pais, principalmente no evento que mais ansiava. Tinha ajudado Frannie e Cassandra com a maioria das escolhas do casamento. Trocaram mensagens e chamadas de vídeo para decidirem a cor dos talheres, das toalhas de mesa e das flores. E agora, quando tudo estava realmente pronto, não havia mais tanta empolgação da sua parte, porque a sua vida tinha virado do avesso.
Ela pegou o celular, lendo algumas mensagens antigas de Adam. Sentia falta dele. De como se complementavam e como liam sempre os pensamentos um do outro. Eles iriam juntos para o casamento. Será que ele estava pronto para vê-la? Os planos que fizeram se perdiam devagar. Mas Quinn o entendia. Entendia que ele a enxergava como a namorada da mãe dele, porque, inconscientemente, Quinn também começou a enxergá-lo como o filho da sua namorada, mesmo que ainda fosse o seu melhor amigo. Os rótulos ainda eram confusos. Organizá-los demandaria esforço e força de vontade. Quinn estava disposta. Adam estaria?
Queria falar com ele. Deveria ligar? Ela passou alguns instantes nesse dilema. Ele a atenderia? Se pensasse demais, acabaria desistindo, então discou o número dele em um lampejo de coragem.
Ele não atendeu na primeira tentativa. Nem na segunda. Na terceira, Quinn já tamborilava os dedos ansiosamente no parapeito e batia o pé no chão. Tinha medo de que ele nunca mais atendesse os seus telefonemas. De que cortasse todos os laços definitivamente.
No entanto, na quarta tentativa ele atendeu. Estava ofegante. Quinn se esqueceu de que ele corria diariamente naquele horário. Era um hábito que compartilhavam.
— Oi, Quinn.
— Oi, Adam. Quantos quilômetros correu dessa vez?
— Cinco e meio. Estou conseguindo avançar.
— Achei que chegaria aos seis. Eu estou realmente desapontada.
O seu coração acelerou quando ele riu, acendendo uma esperança que não tinha desde que Adam havia descoberto sobre o seu envolvimento com Rachel.
— Não é tão fácil quanto parece, Fabray.
— Talvez eu possa provar o contrário.
— Isso é um desafio?
— Isso parece um desafio?
— Quando você voltar para Nova York, decidiremos se é um desafio ou não.
— Isso é um convite?
— Isso parece um convite?
Eles riram juntos. Riram pela primeira vez depois de um período longo e doloroso. Quinn caminhava sobre os cacos de vidro da relação deles cuidadosamente, encarando o movimento de pedestres abaixo dela quando pararam de rir e ficaram em silêncio.
— Adam?
— Sim?
— Eu sinto sua falta.
Ele demorou um pouco para responder.
— Eu também sinto sua falta.
Quinn abriu um sorriso tão caloroso quanto o sol da Califórnia.
— Quinn?
— Sim?
— Você acha que eu devo usar colete sob o blazer? Porque Connor está muito convicto de que eu devo usar, mas Brittany diz o contrário.
— Do que você está falando?
— Do casamento. — Ele respondeu como se fosse óbvio. — Você acha que eu perderia o casamento de Frannie e Cassandra? Sou o melhor amigo da irmã dela, e a minha mãe é uma das madrinhas. Eu preciso estar lá.
Quinn começou a rir de novo, mal acreditando nas palavras que acabara de ouvir. Adam iria ao casamento de Frannie e Cassandra. Ele aparentemente não a odiava.
E mais do que isso.
Ele ainda era o seu melhor amigo.
— Eu também preciso ver todos os seus parentes reunidos. — Ele a acompanhou nas risadas.
— Oh, Deus. — Quinn pôs a mão sobre a testa. — Isso não vai ser divertido.
— Não vai, mas estaremos lá. Por você e pela mamãe.
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Por ainda ser a minha família.
Ela não conseguia ver a reação de Adam, mas sabia que ele estava sorrindo também.
— Eu sempre vou ser a sua família, Quinn. Nos vemos no MountainGate.
— Certo. Adam?
— Sim?
— Nada de coletes.
Eles finalizaram a ligação depois disso, mas Quinn continuou sorrindo, como se um peso houvesse saído das suas costas. Sua amizade com Adam não estava arruinada no fim das contas.
— Quinn, você está bem?
Quinn se virou, encarando Rachel parada na porta da varanda.
— Eu estou, Rach. Estou feliz.
— O que aconteceu?
— Algumas coisas estão se resolvendo. É isso o que aconteceu.
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