A Lua e o Rouxinol

No início de uma noite fria de outono, a tímida Lua crescente aos poucos se revelava por detrás de cinzentos tufos de nuvens que lentamente viajavam com o vento brando. Solitária, sem sequer uma estrela para fazer-lhe companhia no céu tomado por nuvens, ela quase não tinha forças para brilhar e iluminar a noite triste e sombria da qual era dona. Erguendo-se na amplidão, cada vez mais deixava sua noite ser tomada pelo silêncio solene. O fraco farfalhar das árvores provocado pela brisa não era suficiente para preencher o vazio do silêncio noturno. Quem poderia fazê-lo era o boêmio Rouxinol que, também solitário, finalmente chegara para fazer companhia à frágil Lua, entoando uma de suas harmoniosas melodias e espantando a quietude sepulcral.

O afável Rouxinol, tímido como a Lua, se escondia por entre as folhagens das árvores de um belo e conservado jardim que, no início da estação, já começava a tingir-se com tons amarelados das folhas de outono. Mas cantava forte, para si e para a Lua, tentando afastar a solidão que na noite crescia. Os lamentos da pequena ave camuflada na escuridão podiam ser ouvidos há muitas léguas dali e talvez acalentassem também outros corações solitários. Não obstante, há poucos metros de onde se encontrava, o canto vigoroso do passarinho não era capaz de acalmar a alma de um jovem aflito.

O jardim pertencia a uma rica residência, um casarão que conservava uma beleza antiga em sua arquitetura. Ao piano da ampla sala de estar, no canto próximo de uma das janelas que davam para o jardim e sob a fraca iluminação de um abajur, Otto Hoyer dedilhava meio inconsciente algumas notas singelas e tristes que estavam guardadas em algum canto de seu cérebro, distraído, sem se importar com os agudos gorjeios do Rouxinol contrastantes com os sons graves que ele tirava do instrumento. Tão desatento estava, atormentado por pensamentos torpes que insistiam em rodear sua mente, assustou-se com o soar repentino e desarmônico de algumas teclas, interrompendo a sua melodia. Logo percebeu o que se passara: Max, o gato, pulara no piano para receber alguma atenção, ronronando enquanto esfregava sua cabeça felpuda nas mãos frias e magras de seu dono.

Otto esboçou um pequeno sorriso, afagando o pelo macio e sedoso de Max. Apesar de já estar na metade da vida, meio gordo e com alguns pelinhos brancos aqui e ali se destacando em sua pelagem negra, o bichano ainda conservava o vigor da juventude e a destreza para pular em qualquer lugar alto que pudesse lhe dar a visão total e perfeita de seu território. Era curioso, observador e o piano era seu lugar preferido para testemunhar tudo o que se passava naquele cômodo. Também não perdera a mania, adquirida quando filhote, de ajeitar-se na madeira lustrosa do instrumento para observar de pertinho seus humanos a se divertirem enquanto tentavam tirar alguma melodia daquelas teclas. Ele não gostava de se sentir sozinho, apreciava a companhia das pessoas, principalmente de Otto, com quem tinha um apego especial. Pode-se dizer que eram amigos e se compreendiam, mesmo pertencendo a espécies diferentes. E Max percebia que Otto se sentia descontente, insatisfeito com algo, mas por ser apenas um gato, não podia fazer muito além de oferecer-lhe algum carinho e companhia.

De fato, o jovem Otto se sentia descontente. Mais do que isso, há muito tempo encontrava-se infeliz. Por um momento, graças a Max, aqueles sórdidos pensamentos que o desconcentravam se dissiparam e ele pôde se deixar sorrir fracamente. Mas logo voltaram, sombrios como aquela noite de meia-lua, tornando a deixar também seu coração em trevas. Ele era forte e até aprendera a conviver com sua infelicidade ao longo dos anos, orgulhoso demais para deixar transparecer que sofria, exceto quando se via a sós apenas com sua sombra e a solidão se tornava pesada demais para ser suportada.

Otto não sabia dizer quando se tornara tão solitário. Lembrava-se uma criança de poucas amizades, que preferia passar o tempo em seu quarto realizando invenções e experimentos a brincar com os colegas da escola, sempre a fazer traquinagens. Ele era um cientista ambicioso, curioso e apaixonado por fazer descobertas. Sempre se animava quando Max vinha lhe trazer insetos ou camundongos de presente, pois adorava estudar aquelas pequenas e fascinantes criaturas. Por outro lado, quando um adulto o mandava brincar com outros meninos, sentia-se desconfortável, pois não tinha nenhum talento para jogos coletivos e que exigissem muito vigor físico. Era desajeitado, pequeno e fraco, sempre humilhado pelos garotos mais fortes e robustos, que caçoavam e lhe davam tabefes sempre que se atrapalhava com uma simples bola. Nessas horas, sentia-se envergonhado e triste, mas não se permitia derramar sequer uma lágrima na frente de todos aqueles moleques. E cresceu assim, orgulhoso, mostrando-se um rapaz insensível às troças das quais era vítima e se afastando sem perceber de todos aqueles que pudessem fazer-lhe algum mal.

O que começara a perceber conforme ficava mais velho era que os colegas que de alguma forma insistiam em ameaçá-lo, nutriam por ele uma raiva inexplicável, pois não recordava de nenhum mal que os tenha feito. Era um garoto franzino, desastrado e um tanto tímido, como poderia prejudicar alguém? Com sua pele sempre tão pálida e seus olhos castanhos e pequenos, sua aparência era tão comum que dificilmente despertaria o interesse de alguma garota. Sua única qualidade julgava ser a inteligência, que se sobressaía à dos seus colegas. Era sempre o melhor da turma, alcançava a pontuação máxima em todas as provas e elogios dos professores não lhe faltavam. Raramente as matérias escolares lhe eram um desafio e ele possuía particular interesse nas ciências exatas. Perspicaz, logo começou a notar os olhares cobiçosos que recebia sempre que era elogiado por um professor ou passava com louvor em algum teste. Depois dos olhares, podia ouvir, ainda que sussurrados, alguns comentários que eram um misto de admiração e ambição por suas habilidades intelectuais, os quais eram sempre proferidos com certo tom de indignação ou ira. Envolvido por seu orgulho, porém, aquelas atitudes mal o atingiam... Na verdade, até gostava da sensação de ser admirado ou ter suas qualidades cobiçadas por todos, pois não era sempre que isso acontecia.

Em casa, por vezes o garoto se sentia tão sozinho quanto na escola. Sempre muito exigido por seu pai, o Sr. Hoyer, bem-sucedido homem de negócios que quase não tinha tempo para a família e desejava que o filho se tornasse bom o suficiente para administrar as posses que lhe deixaria, Otto não se lembrava de ter ganhado dele sequer um elogio. Pelo contrário, nas poucas vezes em que trocavam algumas palavras, tudo o que ouvia era que, sendo o único filho, não deveria decepcionar seu pai, que nele tanto investia. Contratara até mesmo um tutor, além de pagar uma renomada instituição de ensino, para que o filho recebesse a melhor educação que alguém poderia oferecer. Pressionado, Otto via-se obrigado a atender as expectativas de seu progenitor e, por essa razão, até se sentia especial ao ser invejado pelos colegas da escola. Mas talvez tivesse herdado aquela ambição de seu pai, pois fazia de tudo para aprimorar suas habilidades e ficava extremamente frustrado quando algo dava errado.

A Sra. Hoyer era tão rigorosa quanto o marido em se tratando de seu amado filho. Sonhava em vê-lo um homem importante e de sucesso, que se casasse com uma dama à altura de seu status social elevado. Até pensava em apresentar algumas pretendentes ao filho, filhas de amigos da família, para assegurar que seu desejo se concretizasse, mas Otto lhe parecia tão fechado a qualquer relacionamento que a mãe se decidiu por esperar até que ele apresentasse algum interesse ̶ embora sempre encontrasse alguma maneira de inserir este assunto em suas conversas na esperança de que ele despertasse alguma simpatia pela ideia de casamento. E Otto, apático, respondia simplesmente que pensaria no assunto.

A verdade era que Otto não gostava de estar na companhia da maioria das garotas que conhecia. A exceção era Agnes, sua amiga de infância e com quem sentia uma estranha sensação de liberdade. Ela nunca lhe fora rude, sempre respeitara seu espaço e havia um quê de pureza em seus gestos, suas palavras e até mesmo sua voz que trazia alívio e calma ao espírito e mente do jovem sempre tão angustiado. Sim, era bom estar com Agnes. Todas as outras lhe pareciam tão mesquinhas e estúpidas... Como gostar daquelas criaturas? Sempre em bando, rindo como se fossem as donas do mundo e protegidas por seus progenitores no conforto de seus lares tão harmoniosos! Além de ganharem festas, viagens e elogios por qualquer tentativa de parecerem belas e dotadas de algum intelecto.

Com Agnes, Otto tinha algo em comum. Desde a infância notava que ela também era sozinha, preferindo a companhia das flores campestres à das crianças travessas. Bem... Talvez gostasse de estar com Agnes por ela ser tão solitária quanto ele, pensava. A ideia de haver alguém em sua situação o reconfortava, ele se sentia compreendido, é verdade. Mas Agnes não era como ele. De família mais simples, sem muitas posses, ingênua e sem ambições... não se lembrava ao certo como se conheceram. Por acaso, talvez. Lembrava-se que seu gato, Max, estava por perto, brincando de caçar criaturinhas num parque. Era um final de tarde, Otto estava sozinho e um rouxinol cantava uma canção que lhe parecia triste junto à voz de uma menina, puríssima, com a qual ele se encantara. Não se lembrava de como ela chegara até ele, do que conversaram, nada. Mas aquela voz ficara gravada para sempre num cantinho precioso de sua memória. E, toda vez que perdia as forças para suportar o vazio que sentia em seu peito, aquela singela canção voltava para lhe dar alguma esperança e desanuviar seu coração.

Mas não era sempre que podia vê-la. Seus pais não gostavam de Agnes, por alguma razão que ele não podia compreender. Da mesma forma, Otto não era querido pela família dela, mas com isso ele se acostumara. Só sabia que cada vez menos se encontravam e isso o incomodava. Então, ocupava-se com a ciência, com a busca por conhecimento, numa tentativa de preencher sua mente para compensar o vazio de sua alma. Não se considerava um autodidata, devia muito o seu desenvolvimento intelectual ao seu tutor, Dietrich, um homem de meia idade, bondoso e gentil, com quem sempre podia contar. Inteligentíssimo, fino e bem apessoado, sua companhia era muito agradável e, a despeito de sua condição de tutor, tornara-se também uma espécie de conselheiro de Otto, alguém de confiança. Mesmo assim era difícil para Otto contar-lhe todos os seus segredos ou abrir seu coração, orgulhoso como era. Achava que Dietrich até compreendia suas angústias, podia ler em seus olhos, mesmo que o rapaz não se permitisse revelá-las.

O tutor se preocupava com o garoto. O queria bem e sabia por que Otto não conseguia mostrar suas fraquezas, mesmo que seu coração doesse tanto. Notava o quanto aquele jovem ambicioso ansiava por conquistar todo o conhecimento que pudesse ter e o quanto se orgulhava de suas capacidades. Queria mostrá-las a todos! E tanto se empenhava, como que numa tentativa quase desesperada de sobrepujar seus defeitos ̶ os quais, achava o rapaz, tanto mal lhe causavam ̶ , sentia-se destruído a cada erro. E o mal que fazia a si próprio passava-lhe despercebido. Aos poucos Otto adoecia, perdia suas forças, adentrando num labirinto escuro de frustrações de onde não conseguia sair.

Não podia admitir que estava sem saída.

O Rouxinol parara de cantar. O céu, agora totalmente encoberto por nuvens espessas, ameaçava chover. E dentro da bela residência, não se ouviam mais as notas graves do piano.

Otto se levantou e Max o acompanhou apenas com o olhar. Na cabeça do jovem herdeiro da família Hoyer, as lembranças das mágoas, humilhações e feridas provocados pela ira dos que lhe queriam mal, os interesses de seus pais que tanto o pressionavam, os fracassos pessoais, tudo lhe vinha num turbilhão latejante. Mas lá no fundo, escondida, a canção angelical de Agnes continuava a tocar. E ele saiu em busca dela, pronto para engolir seu orgulho ferido. Não podia mais suportar.

Saiu. Andou em meio à neblina, mal enxergava, os olhos opacos, mas seus pés o levaram ao parque onde encontrara Agnes pela primeira vez. Ela não estava lá. Por que estaria, afinal? Riu de si mesmo e continuou a andar... talvez o frescor da noite e o vento de outono levassem embora seus pensamentos.

No caminho de volta, que relutara em fazer, encontrou-se justamente com aquela que procurava e ficou confuso. Agnes voltava da casa de Otto, fora procurá-lo para lhe mostrar uma nova canção que compusera, mas a disseram que ele não estava, que saíra sem avisar. Como naquela casa sempre a tratavam de forma rude, ela não insistiu e resolveu encontrar-se com o amigo em hora mais conveniente, embora partisse com o coração apertado de saudades, pois já há muito tempo não se viam. Otto, no entanto, não quis ouvir muitas explicações. Abraçou-a e, ao fazê-lo, sentiu os olhos esquentarem. Permitiu que algumas gotas deles escapassem. Não estava acostumado àquela sensação, pois nunca se deixava chorar. Agnes sorriu. Teriam muito tempo agora para conversar. Por hora, cantou ao lado do frágil rapaz, em meio à neblina escura da noite, uma canção alegre que confortou seu coração.

Notas finais
Se chegaram até aqui, muito obrigada por terem lido, espero que tenham gostado! Estejam à vontade para comentar, o feedback de vocês é muito importante para mim!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!