A Loba e o caçador
29 Capítulo 28 - Ecos da Escuridão
A noite caía espessa sobre as copas da floresta, e o vento parecia carregar murmúrios antigos entre as árvores. Leah caminhava devagar, o corpo ferido e o orgulho em chamas. A derrota diante de Renesmee doía mais que a própria carne rasgada; era o gosto amargo de uma humilhação que o tempo não apagaria. Cada passo deixava um rastro de raiva e ressentimento, e atrás dela, Seth a seguia em silêncio — os olhos baixos, o semblante dividido entre a lealdade e o medo.
Quando Leah parou diante de um penhasco coberto por musgo, o luar filtrado pelas nuvens delineou seu rosto endurecido.
— Ela está grávida — murmurou, e o som de sua voz se perdeu no vento. — A loba carrega o impossível.
Seth hesitou, o peito subindo e descendo depressa.
— E o que isso muda?
Leah o encarou como se ele fosse ingênuo. — Muda tudo, Seth. A Ordem jamais permitirá. Aquilo dentro dela é um erro da natureza... e um risco para todos nós.
Antes que ele respondesse, galhos se moveram próximos. Um som grave, um farfalhar, e logo uma figura emergiu da penumbra.
Embry.
O antigo membro da matilha de Renesmee. O rosto dele parecia mais envelhecido, os olhos carregavam algo escuro — ciúme e mágoa entrelaçados.
— Então é verdade — disse ele, a voz cortante. — Ela e o caçador...
Leah cruzou os braços, observando-o com um meio sorriso. — Você parece magoado, Embry.
Ele riu sem humor. — Eu a amava. E agora ela se deita com alguém que nasceu pra nos caçar.
Seth deu um passo à frente, a expressão dura. — Cuidado com o que diz.
Mas Leah foi mais rápida. — Talvez ele tenha razão. Renesmee traiu não apenas o bando, mas o próprio sangue. E se você for inteligente, Embry, pode provar que ainda tem valor.
Embry a fitou, os punhos cerrados. — O que você quer de mim?
— Que nos ajude — respondeu Leah, com frieza. — A Ordem está se reorganizando. Eles precisam de informações, de alguém que conheça o território e os hábitos dela.
Seth olhou para os dois, incrédulo. — Isso vai matá-la.
Leah arqueou uma sobrancelha. — Ou salvar o que resta de nós. Pense nisso.
O trovão ribombou, e o cheiro da chuva se espalhou pela mata, junto ao da traição. Leah virou-se e desapareceu entre as árvores, com Embry logo atrás. Seth permaneceu ali por alguns instantes, o coração pesado. Ele sabia que algo terrível se aproximava — e que Leah não mediria consequências.
A tempestade avançava sobre Forks, e as nuvens ocultavam o brilho da lua. Na casa dos Cullens, o silêncio era tenso, quase sólido. Edward estava imóvel junto à janela, os olhos perdidos na escuridão.
— Eles estão vindo — murmurou. — Eu posso ouvir seus pensamentos, distantes, mas furiosos. Leah, Embry... e outros.
Bella se aproximou devagar, o rosto preocupado. — O que eles querem?
Edward respondeu sem olhar para ela. — Não apenas vingança. Há medo nos pensamentos deles... e ódio por algo que ainda não entendem.
— A criança — disse Alice, descendo as escadas, a voz distante. — Eu vi sangue e lua. Mas o futuro muda cada vez que tento ver o que acontece com Renesmee. É como se o destino estivesse… se protegendo.
Carlisle se levantou, os olhos graves. — Então devemos agir antes que o pior aconteça.
Bella assentiu. — Sim. Ela é nossa filha, mesmo que o sangue não diga o mesmo.
O relâmpago iluminou a sala por um segundo. As sombras dançaram nas paredes e, por um instante, todos sentiram a força do que se aproximava.
Na cabana próxima à floresta, Renesmee repousava com a cabeça sobre o peito de Jacob. O som do coração dele era o único que a mantinha em paz. A pele dele ainda estava marcada por ferimentos da última batalha, mas o calor de seu corpo a acalmava mais que qualquer cura.
Jacob, desperto, observava o teto de madeira. O instinto de caçador o impedia de relaxar.
Renesmee abriu os olhos devagar, percebendo a tensão dele.
— Ainda sente dor? — sussurrou.
— Não. Só… um pressentimento. Como se algo estivesse à espreita.
Ela sorriu levemente, encostando a mão em seu rosto. — Está sempre à espreita, Jake. O mundo não gosta do que somos.
Ele se virou para encará-la, os olhos encontrando os dela. — Eu também não gostava. Até te conhecer.
Renesmee sorriu, mas o sorriso se desfez quando Caren entrou pela porta, o rosto pálido.
— Há movimento na floresta. — A prima disse, a voz urgente. — Eu senti. A energia ao redor mudou. Não é só Leah.
Jacob se levantou, a respiração acelerada. — Embry… ele está com ela?
Caren hesitou antes de responder. — Está. E algo mais… algo mais antigo.
Renesmee apertou a mão de Jacob, o olhar determinado. — Então é agora.
Do lado de fora, a chuva começou a cair, grossa e fria. O barulho dos pingos no telhado se misturava ao som distante de passos e grunhidos. Jacob se virou para Renesmee, a voz firme.
— Se algo acontecer, você corre.
— Não diga isso — retrucou ela, furiosa. — Eu não vou te deixar.
Ele sorriu de lado. — Sempre teimosa.
Ela se aproximou e encostou a testa na dele. — E você, sempre protetor.
Caren observava em silêncio, sentindo o vínculo entre os dois pulsar como uma energia viva. — Há algo crescendo entre vocês que nem o tempo vai quebrar — murmurou.
Edward apareceu na soleira, o rosto tenso. — A família está a caminho. Carlisle reuniu todos.
Renesmee assentiu. — Diga a eles que não estou mais fugindo.
Jacob puxou-a para um beijo calmo, mas carregado de promessa e medo. Quando se separaram, ela pôde ver o reflexo da própria coragem nos olhos dele.
O som de um uivo distante cortou o ar, e a floresta pareceu prender a respiração. Leah estava próxima.
Caren fechou os olhos por um instante, sentindo a vibração do solo. — Ela vem com raiva… e não vem sozinha.
Renesmee se afastou de Jacob e olhou pela janela. — Então que venha.
O vento soprou forte, as cortinas se moveram como véus, e o primeiro raio iluminou o bosque. O mundo pareceu se dividir em dois naquele instante — entre o que era antes e o que viria depois.
Jacob pousou a mão na barriga dela, como se quisesse protegê-la de tudo.
— Por você. — disse ele, num sussurro.
— Por nós. — respondeu Renesmee.
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