A Loba & O Pirata: Relacionamento Oculto
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Capítulo Único
Storybrooke estava tão parada que os moradores foram pegos por uma monotonia deprimente. A última aventura que haviam vivido fora quando a cidade ameaçara ser destruída por um mecanismo que Regina criara. Felizmente, a própria Evil Queen ajudara a salvar Storybrooke, antes de embarcar numa viagem à Terra do Nunca para salvar seu filho Henry. Mas depois disso tudo voltara ao normal. Nada de interessante acontecera pelos últimos três meses.
– Pelo amor das fadas, isto aqui está tão parado – comentava Leroy, sentado no balcão do Granny’s – Nós vamos levar uma vida normal pra sempre? Onde é que estão as aventuras?
– Que aventuras você espera encontrar numa cidade do Maine? – perguntou a dona do estabelecimento, que se abanava com um leque – Devíamos estar gratos por não termos mais problemas.
A maioria das pessoas concordaria com Leroy. Já estavam todos cansados de suas vidas rotineiras. Na Floresta Encantada as coisas costumavam ser mais intensas, mas ali, naquela cidadezinha isolada do resto do mundo, tudo era tão chato e entediante que as pessoas se sentiam estranhamente infelizes. Ruby Lucas não poderia dizer o mesmo, é claro, já que estava no meio de um relacionamento secreto com um pirata.
Bem, ela não sabia se poderia chamar aquilo de relacionamento, já que ela e Hook não estavam realmente namorando. Basicamente, os dois se esgueiravam pela cidade e iam se encontrar escondido. Ninguém descobrira ainda, mas todos notaram que a neta da viúva Lucas andava mais alegre e falante do que de costume.
Ruby acordara de muito bom humor naquela manhã e isso de certa forma irritou as pessoas. Ninguém queria ouvir o quanto o dia estava lindo e ensolarado, que ela adorava o perfume das flores na primavera, ou que os croissants estavam mais saborosos do que de costume. Ruby suspirou quando um cliente mal humorado fez com que ela calasse a boca e caminhou de volta ao balcão como se nada tivesse acontecido.
– Está aí o mal da humanidade – ela dizia, mais pra si mesma do que pra uma pessoa específica – As pessoas não sabem admirar o que há de bom na vida.
– Falando sozinha, Ruby? – riu Henry, que tomava café antes de ir pra escola.
– Só estava pensando alto...
Um toque alto e barulhento soou pela lanchonete e Ruby levou uns segundos até entender que seu celular tocava. A avó mandou que ela atendesse aquela coisa logo e Ruby apanhou o aparelho no balcão, perguntando-se quem estaria ligando a uma hora dessas.
– Alô!
– Bom dia, lobinha! – a voz de Killian Jones veio do outro lado da linha e Ruby franziu a testa. Desde quando o pirata sabia usar o telefone?
– Kil... – ela abriu um sorriso e já ia cumprimentando o homem quando se lembrou de que devia manter aquilo em segredo – Ah, olá Belle! Tudo bem? – e passou pela porta que dava no corredor que ligava o Granny’s à pensão. Ali poderia conversar sem que a ouvissem – Killian, que diabos está fazendo? Quem te ensinou a usar o telefone?
– Henry, é claro. Ele disse que essa coisa se chama celular... Mas você quer mesmo continuar com essa farsa? Por que as pessoas não podem saber que está falando comigo? – perguntou ele, um tanto chateado.
– Porque... porque sim, Jones! Eu já disse, se quer alguma coisa comigo, então vai ser do meu jeito. – ela andava de um lado para o outro pelo corredor, enérgica demais para conseguir ficar parada – Eu ainda tenho uma reputação a zelar e não quero que pensem que sou uma vadiazinha qualquer que anda com piratas. Aliás, o que é que seus marujos vão dizer se o virem comigo?
– Eles não dirão nada, porque não devem se meter em minha vida. Além do mais, se a virem comigo, ficarão muitíssimos admirados pelo fato de Captain Hook, o pirata mais temível dos sete mares, ter sido tão esperto e sedutor a ponto de conseguir conquistar a lobinha gostosa e sexy do café.
Ruby imaginou o sorrisinho pervertido e convencido do pirata e indignou-se.
– Jones! Cale essa sua boca! Não fale assim de mim! – ela ordenou autoritária (embora tivesse gostado do elogio), e Hook riu do outro lado.
– Por que não? Você é mesmo gostosa! Acha que estaria com você se fosse... como é mesmo que dizem...? Uma baranga feia e desdentada?
Aquilo era demais pra ela.
– Até mais, Killian.
– Espere, não desligue! É brincadeira, amor, é brincadeira... – ele cumprimentou alguém e, pelos ruídos no fundo, Ruby entendeu que Hook estava caminhando – Ei, não quer vir até o beco pra me encontrar? Tenho uma surpresa pra você.
– Eu estou trabalhando, Jones, não posso sair no meio do meu turno – Ruby revirou os olhos.
Na verdade, ela não queria sair e arriscar ser vista aos beijos com um pirata. Num beco, ainda por cima. Mas o maldito instigou sua curiosidade ao dizer:
– Oh, é uma pena... Achei que gostaria de saber que segui seu conselho e renovei meu guarda-roupa...
– Você o quê?! Ah meu Deus, eu preciso ver isto!
A loba, mais do que depressa, voltou à lanchonete e, discretamente, saiu pela porta que levava ao beco na parte de trás do estabelecimento. Nada havia por ali além de uma caçamba lotada de lixo, cuja tampa aberta atraía moscas. Ruby torceu o nariz para o fedor que escapava da caçamba e pensou que não havia lugar mais romântico para que ela e Jones se encontrassem.
– Jones? – ela chamou baixinho, quando não encontrou Hook. Talvez ele ainda não tivesse chegado. Logo, porém, sentiu um par de mãos lhe cobrindo os olhos.
– Adivinhe quem é! – uma voz rouca e sexy sussurrou em seu ouvido, deixando-a completamente arrepiada.
Espere aí... um par de mãos? Ruby retirou as mãos de seus olhos, ao mesmo tempo em que se virava para olhar Killian. Arrependeu-se amargamente por ter feito isto. Jones estava tão diabolicamente sexy, que as pernas de Chapeuzinho bambearam, seus joelhos cederam e ela quase caiu. Quase. Porque ele a segurou antes.
– Oh, eu sabia que tinha esse efeito nas mulheres – ele riu maroto, segurando-a pela cintura. Com as duas mãos – Minha beleza diabólica afetou suas pernas, lobinha?
Ruby não respondeu, apenas se livrou dos braços do pirata e se afastou para olhá-lo melhor. Oh, ele ainda usava couro, ela notou, mas suas novas roupas com certeza se adequavam à época atual. As calças continuavam a ser de couro, bem justas e de cor preta. A inovação estava nos sapatos que ele usava, também pretos e de couro, mas com certeza muito mais sofisticados do que aquelas botas esfarrapadas que ele usara por sabe se lá quanto tempo. Ele sempre usara coletes de couro por cima de uma fina camisa de mangas bufantes, mas agora usava um colete de algodão (de cor preta, obviamente) por cima de uma camisa social azul escura. Não bastasse tudo isso, ele ainda fizera questão de deixar os primeiros botões da camisa sem abotoar, de forma que era possível vislumbrar os fios escuros que ele tinha no peito. O maldito ainda usava perfume e seus olhos delineados estavam mais brilhantes do que de costume. Até o brinco na orelha ele fizera questão de manter. Mas de tudo isso, o que mais chamava atenção, era o fato de ele ter uma mão esquerda.
Hook a olhava com a cabeça caída de lado e uma sobrancelha erguida. Era a expressão que ele fazia quando queria indagar sem verbalizar a pergunta. “E então, o que achou?”, era o que seus olhos perguntavam.
– Nossa... você... eu... Você está... é, até que você não está de se jogar fora, Jones – foi a resposta de Ruby, que o estava achando mais irresistível do que nunca.
Hook fez biquinho.
– Só isso, amor? Eu esperava mais, lobinha.
– Bem... confesso que não esperava tudo isso – ela disse, olhando-o de cima a baixo, e Hook sorriu convencido – Quem foi que o vestiu assim?
– Sua amiga Belle. Ela disse que você ia gostar destas roupas. E então, gostou?
– Claro que gostei, mas desde quando você e Belle são amigos? – ela botou as mãos na cintura.
A voz de Ruby estava carregada de ciúmes e Killian não deixou de sorrir quando percebeu isso. A loba poderia dizer o contrário, mas ele sabia que os sentimentos que ela tinha por ele eram muito intensos. Era arriscado dizer que ela estava apaixonada, mas era o que Ruby demonstrava, a cada dia que passava.
– Ciúmes, lobinha? – ele arqueou a sobrancelha.
– Claro que não, por que eu teria ciúmes de você, Jones? – Ruby cruzou os braços e fez cara de quem não estava nem aí para o fato de Hook conversar com outras mulheres (embora no fundo odiasse que ele tivesse tantas amizades femininas) – Eu apenas me preocupo com a segurança de Belle. Você quase a matou, caso não se lembre.
– E eu já pedi desculpas, caso não se lembre. – o homem sorriu e a puxou para mais perto – Não há necessidade de sentir-se enciumada, querida, já lhe disse que a única pessoa que me interessa nesta cidade é a lobinha raivosa e agressiva que gosta de vermelho e trabalha num café.
Ruby sorriu, lisonjeada pelas palavras de seu pirata (porque ela era mesmo raivosa e agressiva, e se orgulhava disso). Jones, então, envolveu a cintura da moça com as duas mãos e cobriu a boca dela com a sua. Desde que se beijaram pela primeira vez, ficara difícil demais resistirem um ao outro. Hook era encrenca, e Ruby sabia muito bem disso, mas ela não conseguia e nem queria ficar longe dele. Não quando os dois estavam se dando tão bem.
– Este perfume é novo? – ela perguntou após se separarem, seu olfato de lobo farejando o homem. Agora que ela reconhecia o cheiro de Hook, poderia farejá-lo mesmo que ele estivesse há quilômetros de distância. Ou seja, não havia como o pirata fugir dela. – Eu gostei.
– É, achei que ia gostar. Não vai dizer nada sobre isto? – o isto era sua mão esquerda, que agora ostentava alguns anéis.
– Ah, eu ia mesmo perguntar, ela é de verdade? – Ruby olhava a mão do homem, curiosa.
– É claro que sim! – Hook revirou os olhos – O Crocodilo a manteve intacta por todos estes anos. Um troféu, como ele mesmo disse. O maldito gosta de se vangloriar por seus feitos.
– Bem, isto é... estranho... – Chapeuzinho agarrou a mão do homem, examinando-a como que para ter certeza de que era verdadeira – Eu já estava até acostumada com o gancho. Por que Gold lhe devolveu a mão, afinal?
– Porque eu exigi que o fizesse. Veja bem, a mão sempre foi minha, ele não tinha o direito de tirá-la de mim e mantê-la imersa num...
– Jones! – a moça gritou, interrompendo-o – Você fez um acordo com ele?!
– É claro que sim, acha que isso sairia de graça?
– Você é idiota ou o quê? Não sabe que toda magia tem um preço?
– Sim, mas...
– Qual foi o acordo?
– Ruby...
– Jones, qual foi o acordo? – ela gritou e seus olhos assumiram um brilho amarelado, mas apenas por um instante.
Não era prudente irritar a loba e Hook sabia muito bem disso. Ruby o prensou contra a caçamba de lixo, segurando-o pela gola da camisa. Por mais que o homem estivesse assustado, não deixou de sentir-se ainda mais atraído pela garçonete. A verdade é que ele adorava mulheres bravas como aquela.
– Olhe, isto é entre mim e o Crocodilo, está bem? – ele disse, sufocado pelo aperto de Ruby – Agora, se não se importa, eu gostaria de poder respirar.
– Desculpe – ela se afastou, muito envergonhada – Hum, já que não vai me contar nada, então já vou indo.
– Ei, e meu beijo?
Ruby lhe deu um rápido selinho, sorriu e então voltou à lanchonete, onde sua avó procurava por ela.
– Onde é que esteve? – perguntou a idosa, tão logo Ruby entrou pela porta dos fundos.
– Ah eu só fui tirar o lixo...
Mas a Vovó não era boba. A mulher apurou o nariz e farejou o ar. Podia sentir o cheiro de Killian impregnado nas roupas de Ruby e também podia farejar sua exata localização. Ele acabara de sair do beco nos fundos da lanchonete.
– Você sabe que não me engana, foi é se encontrar com o Jones – disse ela e caminhou até o balcão – Não me agrada o fato de estarem namorando escondido, mas a vida é sua, então...
– Você sabia? – por que é que ela estava surpresa? A viúva Lucas devia ser a velha mais esperta das redondezas.
– É claro que sabia. O cheiro dele sempre fica impregnado nas suas roupas. Além do mais, você não é a única a ter audição apurada. – riu a avó, marota.
– O que exatamente a senhora escutou? – Ruby começou a ficar vermelha.
– Ah, eu prefiro nem comentar... – a idosa deu risada, bem humorada. Remexia numa papelada sobre o balcão e ajeitou os óculos sobre o nariz antes de olhar para a neta – Apenas diga ao Capitão Perversão que ele deve tomar mais cuidado com o que diz por aí. Alguma velha com boa capacidade auditiva pode escutar e... bem, desaprovar o comportamento que ele tem para com sua neta.
As orelhas de Ruby estavam pegando fogo, de tão vermelhas. Ela vivia dizendo ao Jones para parar com aqueles comentários pervertidos e cheios de insinuações. Mas ele a ouvia? Não, não ouvia.
– Em todo caso – continuou a viúva Lucas – fico feliz por ter encontrado alguém. Espero que vocês dois tenham uma boa razão para manter esse romance escondido.
– Bem... – Ruby suspirou e foi ajudar a avó com a papelada – Ele queria assumir, mas eu não estou preparada para isso.
A avó lhe lançou um olhar indagador, como que questionando o porquê daquilo tudo.
– Eu não sei se vai dar certo, sabe. – explicou a jovem, pouco à vontade para falar do assunto – Eu quero dizer, não só pelo fato de ele ser um pirata, mas também por ser um encrenqueiro. Talvez ele não queira nada sério...
Mas Ruby estava mentindo. Killian já lhe dissera que conquistá-la não fora parte de um jogo. Ele realmente gostava dela, embora ainda não tivesse dito as três palavras. Se a lobinha fosse apenas um passatempo, Hook não se preocuparia tanto em agradá-la. E os céus sabiam o quanto aquele homem estava se esforçando. Até o visual ele mudara por ela.
A avó sabia o que estava acontecendo. Ela também era boa em decifrar sentimentos.
– Sabe, já faz muito tempo. Peter ia querer que fosse feliz – foi o que ela disse, antes de lançar um olhar significativo a Ruby e se afastar.
E a viúva Lucas estava certa.
***
Teria sido um jantar romântico à luz de velas, se Hook não tivesse sido chamado às pressas para uma missão urgente e largado Ruby plantada no restaurante. Ao que parecia, Storybrooke estava passando por mais uma cadeia de acontecimentos catastróficos que colocavam em risco as vidas de seus habitantes.
Sozinha e irritada, Chapeuzinho terminava sua refeição, enquanto o jantar inacabado de Killian esfriava aos poucos. “Sempre bancando o herói”, ela pensou, tomando um grande gole de vinho “Como se ele se importasse com alguém nesta cidade...”.
Mas ele realmente se importava. Deixara isso bem claro quando se levantara e apanhara o casaco:
– Eu não iria se não fosse importante, amor. Ao que parece, todos nós estamos em perigo e não vou permitir que nada a machuque.
– E quem garante que você não irá se machucar?
– Ora, eu sou bom em sobreviver, não sou? – ele lhe deu seu melhor sorriso convencido, então beijou a moça rapidamente, antes de piscar para ela – Não se preocupe, baby, compensarei o tempo perdido depois.
E foi embora. Ruby fora colocada para escanteio... Bem, ela entendia que aquilo era pela cidade. Não se importava com o fato de ele bancar o herói; o que a incomodava de verdade, era Killian bancar o cachorrinho e ir correndo atrás de Emma toda vez que ela o chamava. Mas aquilo era pela cidade, ela dissera a si mesma. Pela cidade, não por Emma.
– Afinal, ele não sente nada por ela – Ruby murmurou consigo mesma, pensando alto – Ele mesmo disse isso...
Mas ela meio que tinha suas dúvidas, ainda mais sabendo o que acontecera entre Killian e A Salvadora na Terra do Nunca. Aquele bastardo tivera a audácia de pedir um beijo a Emma, após ter salvado Charming. E tivera mais audácia ainda ao contar aquilo a Ruby (“Sabia que ela não ia resistir a mim”, ele dissera, convencido “Você sabe, nenhuma delas resiste...”). A garçonete fingia indiferença toda vez que o assunto do beijo vinha à tona, mas lá no fundo, estava se remoendo de ciúmes.
Logo agora que ela ia concordar em assumir o romance... Mas estava tudo bem. Hook poderia brincar de herói o quanto quisesse. Enquanto isso, ela terminaria seu salmão ao molho de camarão – que custara a Killian uma fortuna -, mas estava simplesmente divino. Sabe se lá o que aconteceria à cidade, ou quando eles poderiam comer outra vez. Se os heróis queriam lutar contra Pan em plena noite de sexta-feira, o problema era deles. Ela ainda ia terminar a sobremesa antes de ir para casa e se preocupar com alguma coisa.
Pra falar a verdade, o que mais estava chateando Chapeuzinho, além de Hook tê-la abandonado no meio do encontro romântico, era o fato de ela não ter sido chamada para ajudar. Por que apenas Killian, se ela também já fora e ainda era uma heroína? Afinal, quem foi que ajudara os Charmings quando eles lutaram contra os exércitos de Rei George? E quem é que sempre estivera ao lado deles, mesmo quando as coisas ficaram sombrias demais? E ela também não bancara o pombo-correio, sempre levando recadinhos de Snow para Charming e vice-versa? Mas isto não importava mais, não é? Não precisavam mais dela, agora que tinham Neal e Hook...
Ela teria pedido pela sobremesa, mas foi gentilmente expulsa por um dos garçons, que veio lhe dizer que o restaurante seria fechado mais cedo. Era melhor que todos fossem para casa, ele dissera. É, era o melhor a se fazer. Assim, Ruby caminhou até o Granny’s com o rabinho entre as pernas.
– E então, como foi? – perguntou a Vovó, tão logo a neta entrou na lanchonete.
– Um desastre – Ruby suspirou, largando a bolsa no porta-casaco e sentando-se no balcão.
A lanchonete estava vazia e a viúva Lucas terminava de fazer as contas do dia. Ela juntou todo o dinheiro do caixa, fazendo um rolinho e guardando-o no bolso.
– Bem, estas coisas acontecem... – disse ela – Que foi que o Jones fez, hein?
– A senhora precisa mesmo perguntar? Ele foi ajudar a Emma, é claro. Desde que voltaram da Terra do Nunca, ele sempre faz o que ela pede.
– Oh... – a senhora soltou uma risadinha, percebendo o tom de ciúmes na voz de Ruby – É o que se ganha quando se é um herói, as pessoas sempre irão precisar de você.
– É, mas ninguém precisa de nós, não é mesmo? Não somos heroínas?
– Você é. Eu já estive nos meus tempos mais heróicos, mas agora... estou velha por demais – riu a Vovó, trancando a porta da frente, apagando as luzes e entrando no corredor que ligava a lanchonete à pensão – Devia estar feliz por não precisarem de você, já passou por muita coisa.
– Eu não ligaria de ajudar – Ruby a seguiu, de braços cruzados. Ela estava muitíssimo chateada – Talvez pudesse ter alguma utilidade. Que é que eles foram fazer, afinal?
As duas alcançaram a escadaria e a Vovó ergueu a barra do vestido enquanto subia.
– Bem, não sei ao certo, mas parece que Pan escapou da tal caixa na qual estava preso. Não sei o que aquele peste aprontou, mas foi o bastante para deixar todos bem preocupados.
– Devemos nos preocupar também?
– Ah não, isso não é problema nosso – respondeu a avó. Ruby admirava o quanto ela podia ser sincera às vezes – Mary, David e Emma não são nossos líderes? Pois então, eles que resolvam tudo. Felizmente, a única coisa que me preocupa é a qualidade das lasanhas que vendemos, então... é, posso dormir tranqüila. – ela alcançou a porta de seu quarto e a abriu – Tenha uma boa noite, querida – e já ia fechando a porta quando se lembrou de acrescentar – Oh e diga ao Jones que ele deve parar de roncar e peidar como um porco. Francamente, eu mal consigo dormir com tanto barulho.
Ruby soltou uma risada. Killian era bonito e sexy demais para ser acometido por roncos e flatulências. Talvez a Vovó estivesse apenas brincando.
Levou tempo até que o homem voltasse à pensão. Eram pouco mais de três da manhã. Ela não conseguira dormir, pensando nele. Felizmente, tanto Killian quanto Tinker Bell estavam bem. E como ela sabia disso? Bem, ela ouvira os dois rindo e conversando. E fizera questão de sair de camisola no corredor, apenas para vigiar seu homem.
– ...eu podia ter rasgado sua garganta aquele dia, Jones – ia dizendo a fadinha, que também adotara a moda atual e agora usava os cabelos soltos.
– Ah, você não faria isso com um homem tão incrivelmente lindo e tão diabolicamente sexy. – respondeu Hook, usando seu habitual tom convencido (e esquecendo-se de que Ruby era provida de uma audição aguçadíssima e que provavelmente escutara aquilo) – Ousaria dizer que ganhei sua afeição naquele dia, Tink...
Tinker Bell ia protestar e dizer que nunca sentira afeição por Hook, mas nesse momento Ruby saiu do quarto, interrompendo a conversa.
– Oh, vocês estão aí... – ela disse, colocando seu robe de seda vermelha e sorrindo inocentemente, como se não tivesse tido pretensão de interrompê-los – Não se incomodem, eu só estava indo buscar um copo d’água.
– Oh, não se preocupe, também vou indo dormir – sorriu Tinker e Ruby quase a fuzilou com os olhos quando viu que ela usava o casaco de Killian – Obrigada pelo casaco, Killian.
Ela tivera a audácia de chamá-lo pelo nome? Por que é que, de repente, todas as mulheres da cidade o tratavam por Killian e não por Hook, que era seu apelido usual? Ruby apenas fingiu não dar importância e se afastou após dar boa noite. Killian, no entanto, a alcançou quando ela já ia descendo a escada.
– Ei, espere aí – segurou-a pelo braço – Não precisa ficar chateada. Ela estava com frio, por isso emprestei meu casaco.
– Quem disse que estou chateada? – ela fingiu indiferença, embora estivesse se mordendo de ciúmes.
– É claro que está! Sei como reconhecer sua expressão “Não toque em mim, estou enciumada!”.
Ela não pôde evitar uma risada, principalmente ao lembrar-se do que a avó dissera sobre Killian, pouco antes de ir se deitar.
– Que foi? – perguntou Hook, meio confuso. Uma hora ela estava raivosa, no minuto seguinte estava rindo loucamente. Talvez Ruby fosse um tanto bipolar.
– Nada... E então, como foi sua noite de herói? Salvou a cidade e ganhou a admiração de Emma, Tinker Bell e qualquer outra que estivesse por perto? – perguntou ela, livrando-se do aperto de Hook.
O homem arqueou a sobrancelha e jogou o casaco sobre um ombro.
– Não toque em mim, estou enciumada – imitou a voz de Ruby e em resposta ela revirou os olhos – Não há necessidade de sentir-se tão enciumada, amor. Sabe que Emma está comprometida com Neal, que sua querida amiga Mary é casada, que Tinker Bell consegue resistir ao meu charme e que Regina... bem, esta aí teria me matado trocentas vezes, principalmente após descobrir que eu não matei a falecida Cora. Não havia quem me admirasse por meus feitos. Primeiro, porque não fiz nada além de correr atrás dos outros, bancar o herói e cair a todo momento. E segundo, porque a única pessoa cuja admiração eu quero conquistar, não estava lá.
– Quem seria esta pessoa? – oh, ela tinha plena consciência de que ele falava dela, mas precisava ter certeza.
– A lobinha do café oras, quem mais seria? – ele sorriu, puxando-a pela cintura e olhando-a de cima a baixo — Devo dizer, querida, eu nunca pensei que a veria usando uma vestimenta tão sexy...
– Ora, são apenas um robe e uma camisola... – as orelhas de Ruby queimaram de vergonha.
– Vermelho combina bem com sua pele, mas você sabe, eu preferia que você não usasse nada...
Neste momento, uma porta se abriu e a viúva Lucas saiu, olhando diretamente para o casal parado à beira da escada. Killian perdeu o ar e Ruby ficou mais vermelha do que o robe que usava. Os dois se separaram no mesmo momento.
– Que foi? – perguntou a Vovó, segurando uma risada (porque a expressão dos dois era impagável) – Eu só vou ao banheiro... – e caminhou tranquilamente até o banheiro no fim do corredor. Entrou e, antes de fechar a porta, botou a cabeça para fora – Continuem! Sou velha e surda, não estava ouvindo nada.
Houve um momento de silêncio, em que Killian e Ruby se encararam. O homem, então, jogou a cabeça para o lado, ligeiramente preocupado.
– Sua avó também tem audição de lobo? – perguntou, sussurrando.
– É claro que sim, você já deveria saber... – ela sussurrara de volta.
– Oh, isto é um problema...
A Vovó saiu do banheiro, fechando a porta atrás de si.
– Oh, ainda estão aí, é? Como vai, senhor Jones? – sorriu, lutando para não rir da cara que Killian fazia.
– Bem, obrigado, e a senhora? – Killian sorriu da maneira mais inocente que conseguiu.
– Estou ótima, obrigada... Você sumiu o dia todo, já estava me perguntando por onde o senhor andava.
Ela com certeza sabia sobre o relacionamento entre ele e Ruby, o que era uma surpresa, já que a lobinha dissera que ninguém, incluindo a avó, sabia daquele segredo.
– Ah, sabe como é, estava ocupado demais salvando a cidade... – ele coçou a cabeça, nervoso – Pan escapou, como vocês já devem saber e...
– Sim, sabemos. – assentiu a avó, divertindo-se com a situação.
– ... e passei o dia todo na cola daquele malandrinho... Felizmente, conseguimos capturá-lo antes que destruísse a cidade inteira.
A avó fingiu engolir a mentira, mas sabia muito bem que Killian e Ruby estiveram escapando vez ou outra para se encontrar escondido. Na verdade, ela até confessara ter ouvido tudo o que se passara entre eles no beco.
– Bem, ao menos você veio para o lado do bem agora, não? Fico feliz por terem salvado a cidade mais uma vez – ela bocejou – Bem, me dêem licença, estou muito cansada. Boa noite!
– Quem diria que ela ia engolir a mentira tão fácil... – riu Hook, após ouvirem a porta do quarto de Vovó fechar-se. Ruby revirou os olhos, envergonhada pela situação.
– Ela não acreditou em uma palavra do que você disse. Sabe aquele encontro no beco? Ela ouviu tudo. Aliás, ela sempre sabe quando nos encontramos, já que sente seu cheiro nas minhas roupas. – ela sussurrou, apontando um dedo para o pirata, como se a culpa fosse toda dele.
– Oh... Hum... bem, ela não reclamou, nem me ameaçou... não arrancou minhas mãos, nem meu coração... isso quer dizer que ela nos aprova! Eu sabia que ela ia aprovar, afinal, sou o homem perfeito para a neta dela... – sorriu ele, cheio de si.
– Ih, vai ficar se achando...
– Será que ela ia se importar se eu tentasse te levar para meu quarto? – ele falou no ouvido dela, sem ter o cuidado de falar baixo o suficiente para que a viúva Lucas não escutasse – Você sabe, trezentos anos se passaram desde a Milah e ainda não me acostumei com uma cama fria...
– Me poupe, Jones! – Ruby se afastou na direção de seu quarto.
– Você não iria se eu tentasse? – Hook fingiu decepção e depois deu de ombros – Tudo bem, já que não quer, vou convidar sua avó...
– Eu aceito! – gritou a viúva Lucas, de seu quarto. A danada estivera ouvindo toda a conversa e surgiu na porta, para o espanto de Jones e divertimento de Ruby. – Não há necessidade de sentir-se solitário mais, querido, lhe farei companhia. Deus sabe o quanto estou precisando de um homem.
Ruby abafou uma gargalhada com as mãos e Hook ficou tão embaraçado que começou a gaguejar.
– Ah... b-bem... eu só e-estava...
– Oh não há necessidade de ruborizar-se, meu bom rapaz, não é vergonha nenhuma desejar a companhia de uma mulher mais velha. É como dizem, a panela é velha, mas com certeza ainda faz comida boa.
Chapeuzinho foi tomada por uma crise de risos e precisou correr até o banheiro, antes que molhasse as calças. E o pobre Killian, sem perceber que tudo não passava de uma brincadeira da Vovó, ficou realmente assustado com o descaramento da velhinha. Felizmente, para alívio do pirata, a viúva Lucas jogou a cabeça para trás e riu até não poder mais.
– Devia ver sua cara, Jones, está mais branco do que as paredes – disse ela, enxugando as lágrimas de riso – Não se preocupe, meu filho, eu só estava tirando uma com a sua cara...
– Mas eu pensei que a senhora...
– Oh, não, não, não, meu jovem... Eu jamais passaria a noite com um pirata, mesmo esta sendo uma oportunidade tentadora. – ela sorriu marota (e ele achando que aquela velha era inocente...), e em seguida apontou um dedo gordo para o homem – E fique sabendo que eu me importaria, caso levasse minha neta a fazer coisas impróprias. Onde já se viu, isto aqui é uma pensão familiar... – virou-se para entrar no quarto, mas parou no meio do caminho – Ah, e por favor, sei que está passando por uma perturbação intestinal, mas ninguém merece tantas flatulências... Eu avisei para não exagerar no repolho... – e bateu a porta na cara de Hook, que ficou atordoado o bastante para nem conseguir sair do lugar.
– Que é que ela quis dizer com perturbação intestinal? – ele se perguntou e a voz da velhinha veio através da porta fechada.
– Quis dizer que você é um terrível peidorreiro!
Depois dessa, ele quase não conseguiu encarar Ruby, que ria escandalosamente.
***
– Quer um conselho? Fique longe do repolho – riu a lobinha garçonete, quando Hook apanhou o cardápio à hora do almoço. O homem fez careta para ela (nem assim ele ficava feio) e fingiu estar chateado com as piadinhas, embora não conseguisse ficar com raiva de sua lobinha. – Ah, vamos lá, foi brincadeira. Você não está com raiva, está? Killian?
– Eu gostaria de uma porção de strogonoff, seja lá o que for isso. – disse ele, agindo como um cliente qualquer – E pode ir me servindo um bom vinho. É só isso, obrigado.
Chapeuzinho botou as mãos na cintura.
– Já entendi, você vai me tratar com indiferença. Tudo bem. Logo agora que pensei em assumir nosso namoro... – e já ia se afastando, quando o homem a pegou pelo braço.
– Ei, espere aí... Você disse assumir o namoro? – ele arqueou uma sobrancelha.
– Bem, nós estamos juntos há um tempo, não? – Ruby escorregou para o assento oposto ao de Killian – Então eu pensei, se o Jones quer algo comigo, vai ter que ser coisa séria. E então, Killian, quer namorar comigo?
Hook engasgou com o rum que acabara de botar na boca, assustado demais pelo o que Ruby acabara de lhe pedir. Não que ele não quisesse nada sério com ela, apenas surpreendia-se com o fato de a garota-loba ter tomado iniciativa, antes que ele mesmo fizesse isso.
– Você está... – ele tossiu, ainda meio engasgado – Você está falando sério?
– Estou com cara de quem está brincando? – a garçonete cruzou os braços.
– Não devia ser ao contrário? Eu deveria estar pedindo a sua mão... Por que as mulheres deste mundo são tão independentes e cheias de atitude?
– Bem vindo ao século XXI! E aí, vai aceitar ou não?
– Bloody hell, é claro que aceito! – E Killian a puxou para um beijo meio desajeitado, que arrancou aplausos de quem estava na lanchonete.
Apoiada ao balcão, a Vovó assistia a tudo. Sua expressão era indecifrável, embora Ruby pudesse afirmar que ela estava feliz. A viúva Lucas, no entanto, não deixou de fazer um sinal a Killian, primeiro apontando para os próprios olhos e em seguida apontando para ele. A linguagem corporal para: “Tô de olho em você, garoto!”.
– A sua avó está começando a me assustar... – murmurou ele, segurando as mãos de Chapeu por cima da mesa.
O clima romântico teria continuado, não fosse Leroy entrar correndo e gritando.
– A maldição está vindo! Está vindo por todos lados! A maldiçãããão!
Foi um escarcéu danado. As pessoas correram porta afora, tão desesperadas que saíram sem pagar por suas refeições inacabadas. A Vovó reclamava, enquanto que Killian e Ruby saíram para ver o que acontecia. Uma fumaça verde estava sendo dispersada pelo vento. Ainda estava longe, vindo da floresta, mas os alcançaria em questão de minutos.
– Pan... – foi o que Killian disse, apertando os punhos e a mandíbula – Volte para dentro, amor, vou procurar pelos outros.
– De jeito nenhum, eu vou com você!
– Eu também vou! – a avó saiu, trazendo sua besta, da qual nunca se separava.
– Por que diabos a senhora tem uma besta? – perguntou Hook.
– Ora, o que você queria, menino? Sou velha e viúva, preciso me defender. Vamos!
Personagens de contos de fadas corriam pelas ruas gritando, como se assim pudessem impedir a grande catástrofe que estava por vir. Enquanto corriam à procura de Mary Margaret, David e Emma, Killian rapidamente explicou a Vovó e Ruby o que acontecera na noite anterior.
Felix, o garoto que era o braço direito de Pan e estivera vivendo sob as vistas das fadas, conseguira escapar do convento e invadira a loja de Gold à procura da Caixa de Pandora em que Pan fora preso. A questão é que ele conseguira encontrar a tal caixa — sabe se lá como – e, sem conseguir abrir a mesma (já que apenas o Senhor Gold poderia fazer isso), fugira para a floresta levando-a no bolso. A essa altura as fadas já haviam alertado Emma sobre a fuga do garoto e então Gold – que estivera fazendo sabe se lá o quê – encontrara sua loja toda quebrada e revirada. Começaram, então, uma operação de busca ao fujão. É claro que Felix não poderia abrir a caixa, logo, não havia como Pan sair e espalhar o terror pela cidade. Mesmo assim, Emma e os pais acharam que seria melhor que encontrassem o garoto, para evitar possíveis problemas.
– ...foi quando Emma me ligou e interrompeu nosso encontro, lobinha – ia dizendo Killian, enquanto corriam pela avenida principal. A Vovó arqueou as sobrancelhas ao ouvir o apelido carinhoso que o pirata dera a Ruby. – Procuramos por Felix quase a noite toda. Eu fui o primeiro a encontrá-lo, mas o filho da mãe me nocauteou e me deixou completamente nu no meio da floresta.
– Sério?! – riu Ruby, tentando imaginar a cena – Como é que recuperou suas roupas?
– Tinker Bell as encontrou!
– E você andou pela floresta pelado até encontrá-las? – indagou a avó, também imaginando a cena – Essa eu queria ver!
Killian estava achando aquela velha um tanto pervertida.
– Claro que não, eu me cobri com umas folhas... Posso ser um pirata, mas ainda tenho vergonha na cara. Não riam...
– Tinker Bell é uma boba! Eu, no lugar dela, teria me aproveitado da sua falta de roupas...
– Vovó! – Ruby arregalou os olhos, indignada. A Vovó parecia a pessoa mais inocente do mundo, no entanto, estava se revelando o oposto. – E você disse que Tinker Bell resistia ao seu charme – disse ela para Killian, furiosa – Aposto como deu em cima dela, aproveitando-se da situação.
Hook ia protestar e se defender, mas nesse momento toparam com Mary, Emma, David, Belle, Henry e Neal, que tentavam socorrer a pobre Regina, desmaiada no meio da rua. Ruby, Vovó e Killian não entendiam nada do que estava acontecendo. Por que é que, de repente, uma nuvem de fumaça verde e sinistra invadira a cidade? Se aquilo era realmente uma maldição, como Leroy gritara para quem quisesse ouvir, o que é que faria à cidade e seus moradores? E o mais importante: por quem fora lançada?
– Que aconteceu? – perguntou Ruby.
– Muitas coisas aconteceram, não temos tempo para explicar – foi a resposta de David, que fazia menção de carregar Regina, mas não conseguia, pois Mary teimava em dar tapinhas no rosto da mulher.
Hook rolou os olhos.
– Ela quer saber o que aconteceu à Regina, mate.
– Não sabemos, ela simplesmente caiu depois de segurar a maldição... – respondeu Mary.
– Ai minha cabeça... – gemeu Regina, abrindo os olhos e apoiando-se em David para conseguir levantar. Revirou os olhos quando todos começaram a falar ao mesmo tempo, perguntando se ela estava bem e o que acontecera quando ela tocara no pergaminho na qual a maldição (aquela que lançara há vinte e oito anos) fora escrita. – Eu estou bem... Sei o que precisa ser feito, vi quando segurei o pergaminho. Podemos quebrar esta nova maldição, mas há um preço. Meu preço, na verdade. Para fazê-lo, preciso dizer adeus à coisa que mais amo.
– Henry? – perguntou Emma, preocupada.
– Sim, Henry. Não poderei vê-lo nunca mais, mas não tenho escolha... Preciso desfazer o que comecei...
– A maldição que nos trouxe a Storybrooke – disse Mary, entendendo onde a prefeita queria chegar.
– Que criou Storybrooke – corrigiu Regina – Nós não pertencemos a este lugar. Nada disto – ela fez um gesto abrangendo o local em que estavam – pertence a este mundo. Entendem o que quero dizer?
– Então, se quebrarmos a maldição, destruímos a cidade? – questionou David.
– Sim. Será como se a cidade nunca tivesse existido, como se nunca tivéssemos vindo para cá. Todos voltarão aos seus lugares de origem. – ela olhou para o filho, cuja expressão neutra não dava pistas de como ele estava sentindo – Todos, menos Henry, porque ele nasceu neste mundo.
– Que está dizendo? – Neal deu um passo à frente – O garoto vai ficar aqui sozinho?
– Ele ficará com a Emma – agora Regina encarava a Xerife, que parecia terrivelmente confusa e assustada – Ela é a Salvadora, pode escapar desta maldição, assim como escapou da outra. Nós não temos escolha. Vocês precisam deixar a cidade!
– Mas eu acabei de encontrar minha família... – protestou Emma, quase sem voz – Não podemos partir assim...
– É o único jeito. Se eu não pagar o preço, não poderei quebrar a maldição e todos virarão marionetes de Pan.
– Marionetes, huh? – disse uma voz de adolescente e todos se assustaram quando se depararam com Peter Pan parado ali perto. O garoto ergueu a mão e, subitamente, todos sentiram seus corpos ficando duros, como se estivessem congelados. A única coisa que podiam fazer era respirar e mexer os olhos. – Irei poupá-los de tal destino, não se preocupem... Devo apenas decidir quem matar primeiro...
O menino sorria perversamente e Ruby sentiu um aperto no peito. Não era daquele jeito que ela queria morrer. Não nas mãos de um adolescente desequilibrado. Bem, na verdade, Peter Pan era muito mais velho do que Rumplestiltskin, visto que era pai dele. Sim, Peter Pan crescera e tivera um filho, mas o abandonara quando se deparara com a Terra do Nunca e com as diversões que aquela terra poderia lhe proporcionar. Ele abandonara Rumples. Trocara o próprio filho pela oportunidade de voltar a ser jovem.
– Oh, vocês dois estão tão adoráveis – disse ele, aproximando-se, e Ruby achou que falava dela e de Killian. Peter, porém, olhava para Neal e Belle, que estavam lado a lado – Difícil escolher quem matar primeiro...
– Fique longe deles! – eis que surge o Senhor das Trevas.
Oh, havia uma pontinha de esperança, pensou Hook, aliviado. Se ele não morresse, nem virasse um fantoche de Pan, diria a Ruby o que realmente sentia por ela.
Agora ia começar a lavação de roupa suja, eles perceberam, quando Gold e Peter se encararam. Mas por que é que o Senhor das Trevas, que adorava exibir seus poderes, não estava fazendo nada para tirá-los daquela situação? Os dois não deviam estar tentando se matar, ou coisa assim? Por que é que não havia carros explodindo e coisas voando?
– Ora, ora, ora... Olhe quem apareceu para brincar – debochou Pan, sorrindo de lado – Hello, Rumple! Chegou um pouco tarde, não? Sabe que não há como me impedir... Está feito! A maldição está vindo...
– Não permitirei que toque neles – disse Gold, tranquilamente.
– Ah eu adoraria ver isso...
– E vai ver... Veja bem, agora que sei o que precisa ser feito e como deve ser feito, finalmente estou disposto a pagar pelo preço – Rumplestiltskin sorriu gentilmente, como se estivesse dizendo as horas. Ele, então, ergueu um braço. Não estava lançando um feitiço ou coisa do tipo, mas chamando sua sombra – Você não tem uma sombra, mas não se esqueça, eu também não tenho... Mandei que ela guardasse uma coisa para mim.
A sombra era uma coisa escura e comprida, que tinha olhos brilhantes. Veio veloz, como que apanhada por uma forte corrente de ar, e trazia consigo a adaga de Rumplestiltskin. Ele arrancara a própria sombra com o objetivo de proteger a adaga, mas agora não havia necessidade de mantê-la escondida. A sobra lhe entregou a adaga e então se grudou ao corpo novamente, ao mesmo tempo em que Rumple se grudava a Peter, impedindo-o de fugir.
– Que é que está fazendo? – Pan guinchou, tentando se livrar de Rumple.
– O único jeito de você morrer, é se nós dois morrermos... – e dizendo isso, Gold enfiou a adaga nas costas de seu próprio pai.
Os dois foram envolvidos por uma fumaça negra e então, onde antes estava o corpo de um garoto alto e magro, surgiu o corpo de um homem barbudo e de cabelos escuros começando a ficar grisalhos. Aquele era Malcom, o pai de Rumple, antes de ele assumir o nome de Peter Pan.
– Não faça isso, Rumple... – implorou Malcom/Pan, contorcendo-se de dor – Vamos recomeçar! Podemos ter um final feliz...
– Mas eu sou um vilão – sorriu o Senhor das Trevas – e vilões não têm finais felizes...
E então houve um brilho amarelado, que cegou as “estátuas” estacadas no meio da rua por breves instantes. Rumple e Malcom desapareceram junto com a adaga e em seguida todos descongelaram. O Senhor das Trevas se fora. Sacrificara-se pelo bem maior.
Não havia palavras para descrever o que acabara de acontecer. A morte de Rumplestiltskin não mudava o fato de que a maldição estava quase alcançando a cidade. Não mudava o fato de Regina ter que abrir mão da pessoa que mais amava. Não mudava o fato de que Storybrooke ia deixar de existir e de que todos voltariam à Floresta Encantada. Também não mudava o fato de que nunca mais veriam Henry e Emma.
– Rumple... – Belle murmurou, caindo de joelhos e soluçando. Ficou embolada no chão, chorando. Ninguém se importou com ela, na verdade. Apenas Ruby, que não conseguiu dizer nada, mas a abraçou.
– Ele se foi... – Neal disse vagamente. Nem tivera tempo de se despedir do pai. E pensar que aquela era a segunda vez que o perdia. – Ele se sacrificou por nós... Meu pai não pode ter morrido em vão. O que faremos, Regina?
– Não será em vão. – disse ela, um tanto abalada – Eu já disse o que deve ser feito. Emma e Henry devem partir...
***
O fusca amarelo estava parado na entrada de Storybrooke. Os amigos mais próximos tinham ido se despedir de Henry e Emma, antes que os dois atravessassem o limite da cidade e sumissem de suas vidas.
Ruby não dissera uma palavra desde que descongelara do feitiço que Pan jogara neles, transformando-os em estátuas. Ela apenas abraçara sua amiga Belle, tentando confortá-la, já que mais ninguém fizera isso. A pobre bibliotecária ainda chorava baixinho, abalada demais pra conseguir dizer alguma coisa. E nem havia o que dizer.
Quanto a Killian, este aí ensaiava as palavras que ia dizer a Ruby. Quando pensara que ia morrer pelas mãos de Pan, o homem ficara preocupado com a possibilidade de não poder despedir-se de sua lobinha. Ele tinha alguns séculos de idade e já passara por terríveis desventuras, mas sobrevivera a todas elas. Enquanto estivera congelado como estátua, porém, tivera tempo para pensar. A vida era curta demais! Quem é que poderia dizer por quanto tempo ele ainda ia viver? Era por isso que ele precisava se declarar para a lobinha agora.
A fumaça verde estava mais perto agora. Ruby e Vovó ouviam Tinker Bell explicar o que acontecera na noite anterior, após ela encontrar Killian desmaiado no meio da floresta.
– ...fiquei realmente surpresa por encontrá-lo daquele jeito. Afinal, ele é tão metido que é de se esperar que saiba se defender – dizia ela e Hook protestou.
– Ei! Eu tentei me defender, mas aquele moleque imbecil foi mais rápido e me nocauteou com uma pedra. Maldito! Minha cabeça ainda dói... – ele gemeu, acariciando o alto da cabeça, onde Felix batera com a pedra.
– Onde é que encontrou as roupas do Jones, Tink? – perguntou a Vovó, mais interessada na história do pirata pelado do que na maldição que estava prestes a atingi-los.
– Roupas? – Tink franziu a testa – Do que estão falando?
– Hook disse que o comparsa de Pan o deixou completamente nu no meio da floresta e que foi você quem encontrou as roupas dele – Ruby finalmente falou, cruzando os braços. Tinker Bell apenas ergueu uma sobrancelha e encarou Killian pedindo por uma explicação.
– Piratas... sempre inventando histórias... – disse ela, com um ar de repreensão.
– Seu safado, era tudo mentira! – a Vovó bateu no braço do homem, frustrada – E eu me remoendo de remorso por ter perdido a oportunidade de vê-lo nu no meio da floresta...
– Como assim remoendo-se de remorso? – Ruby encarou a avó, indignada – Quer dizer que a chamaram para ajudar e a senhora não foi?
– É claro que me chamaram! Na verdade, queriam que você usasse seu olfato para localizar o garoto, mas eu disse que estava no meio de um encontro e que não queria ser interrompida. Eu poderia tê-lo encontrado, é claro, mas você sabe, estou velha demais pra essas coisas...
Ruby revirou os olhos. Ela bem que gostaria de ter ido ajudar na busca à Felix. Não seria uma aventura como as que ela já vivera na Floresta Encantada, mas teria sido divertido.
– E você, seu pilantra! – ela bateu em Killian, zangada – Devia ter imaginado que tinha inventado essa história. Era óbvio! Felix não ia perder tempo roubando suas roupas e largando num lugar em que qualquer um fosse encontrá-las...
– Eu só quis lhe fazer ciúmes – ele justificou, fazendo cara de inocente – Sei que não gostou de me ver com a Tink ontem.
– Vocês estão juntos, é? – Tinker Bell abriu um sorriso – Ah eu devia ter imaginado... Sabia que havia alguma coisa acontecendo desde que os flagrei se agarrando na lavanderia.
Ruby enrubesceu e Killian nada disse, mas sorriu maroto. A maldição estava mais próxima agora. Em questão de minutos, estariam de volta à Floresta Encantada. Mas a maldição de Pan não fora lançada para levá-los de volta à Floresta.
Na noite anterior, após nocautear Killian, Felix acabara encontrando o Senhor das Trevas, que não o matara, mas o mandara voando por cima de uma árvore, desmaiando-o. Pan ainda estava cerrado na Caixa de Pandora e não poderia sair até que alguém poderoso como Rumple o tirasse de lá. Foi o que Rumplestiltskin fez. Abrira a caixa e deixara Pan sair, para assim poder matá-lo. Era hora de acabar com aquilo, de fazer o que ele já devia ter feito há muito tempo. Mas Peter era muito forte, mandara Rumple voando de encontro a uma árvore e fugira, o que gerara uma enorme preocupação – já que todos sabiam do que o garoto era capaz. Então, enquanto os outros iam atrás dele, Killian voltara para a pensão com Tink, sentindo-se mais inútil do que nunca (já que fora nocauteado por um adolescente). Ele mentira, dizendo que estava tudo bem. Não queria preocupar a lobinha, mas sabia que se Pan não voltasse para a caixa, poderia machucar todos na cidade.
O garoto desaparecera misteriosamente até que, naquela manhã, acompanhado de seu mais leal companheiro, invadira o cofre de Regina e roubara a fórmula da maldição que ela lançara vinte e oito anos atrás. Seu objetivo era apagar as memórias daquelas pessoas, levá-las para outra terra e escravizá-las. Torná-las suas marionetes, como a Rainha Má dissera. Assim, sacrificara o coração de seu leal comparsa e lançara a maldição, que só poderia ser quebrada quando Regina desse adeus a Henry.
O clima de despedidas afetou a todos e algumas pessoas choravam. Até Emma, que costumava agir como uma pessoa que era forte o tempo todo, chorava, desolada por ter que deixar sua família. Killian entrelaçou sua mão esquerda com a de Ruby e ela olhou para ele, apreciando aquela demonstração de carinho.
– O que vai acontecer com a gente? – ela perguntou baixinho.
– Não sei, mas espero não perdê-la... – disse ele, puxando a para mais perto.
– Desde quando se importa tanto comigo? – ela sorriu.
– Desde que tudo isso começou, oras. Há três meses, lembra-se? Quando retornei da Terra do Nunca e lhe pedi rum.
É claro que ela se lembrava, como poderia esquecer? Ela estava apaixonada por ele desde aquela época, mesmo sem conhecê-lo direito.
– Claro que lembro. Você sempre pedia rum e eu sempre lhe dizia que não servíamos isso no Granny’s. Era uma mania insistente de sempre pedir a mesma coisa...
Ele riu.
– Eu pedia rum, porque sabia o quanto você ficava irritada. “Não servimos rum, pirata” – ele afinou a voz, tentando imitá-la – Eu gostava de vê-la irritada, ainda gosto. Eu devia estar cego quando achei que estava apaixonado pela Emma. Sempre foi você, desde o dia da gelatina.
Riram ao lembrar-se de quando se conheceram no hospital, quando Hook pensara que a gelatina em seu prato fosse uma alucinação e Ruby rira dele. Mas espere aí, ele dissera apaixonado? Pensara estar apaixonado por Emma, mas sempre fora Ruby...
– Você está... – ela começou, sem conseguir terminar.
A fumaça verde estava ainda mais perto. Os alcançaria em menos de dois minutos.
– Estou apaixonado por você, lobinha. – Killian admitiu, segurando as mãos dela e encarando aquele belo par de olhos verdes. – Não sei quando foi que me dei conta do que estava sentindo, mas eu sei... sei que faria qualquer coisa por você. E já até fiz, não é? – ele riu, olhando as próprias roupas – Mudei minhas roupas e até recuperei minha mão.
– Recuperou sua mão por mim? – ela pôs uma mão no coração, sentindo-o bater tão rápido que parecia que ia explodir. — Killian... não precisava ter feito isso. Eu o aceito da forma como você é. O gancho não me incomodava.
– É mesmo? Bem... achei que talvez quisesse um homem completo, não um pirata bêbado de uma mão só.
– Não seja idiota, Jones! – ela bradou, sem pensar no que estava dizendo – Eu o amo do jeito que você é!
– Ama? – Killian parecia chocado por aquelas palavras. Não esperava que ela o amasse. Sabia que ela gostava um pouco dele, mas amar...
A fumaça estava a poucos metros de distância. Emma e Henry entraram no fusca, prontos para partir.
– Eu também te amo... minha lobinha.
Sorriram feito bobos e se encararam por longos segundos. A vovó, que escutara tudo, tratou de apressá-los, empurrando Ruby para cima do homem.
– Andem logo com isso! Beijem-se de uma vez!
E foi o que eles fizeram, antes que a fumaça espessa os cegasse.
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