A Linha Tênue Entre Nós
18 Capítulo 17 — O Preço
Emily Prentiss estava morta havia sete dias.
E Spencer Reid começava a odiá-la por isso.
O pensamento era monstruoso.
Sabia.
Sentia vergonha toda vez que surgia.
Mas continuava vindo.
Enquanto todos lhe diziam que ela havia feito o possível.
Que não tinha escolhido morrer.
Que aquilo não era culpa dela.
Uma parte irracional de Reid só conseguia pensar:
Você prometeu ficar.
Naquela madrugada, sentado na mesa dela, abriu novamente o caderno.
O fogo transforma.
— Que ótimo — murmurou. — Então me diz no que isso deveria me transformar.
— Talvez em alguém disposto a olhar melhor.
Reid virou-se.
Hotch estava à porta.
— Há quanto tempo está aí?
— O suficiente.
Reid fechou o caderno.
— Eu estou bem.
Hotch não respondeu.
Isso irritou Reid ainda mais.
— Para de olhar para mim desse jeito.
— Que jeito?
— Como se estivesse esperando que eu quebrasse.
— Estou esperando que você durma.
Reid soltou uma risada amarga.
— Ela está morta, Hotch. Dormir não vai mudar isso.
Hotch ficou em silêncio.
Então colocou um envelope sobre a mesa.
Preto.
Sem remetente.
Reid parou.
— Quando chegou?
— Dez minutos atrás.
Reid abriu.
Dentro havia apenas uma fotografia.
Emily.
Viva.
Sentada numa cadeira.
Segurando o jornal daquele dia.
Reid deixou de respirar.
No verso:
VOCÊ QUER ELA DE VOLTA?
Abaixo:
VENHA SOZINHO.
— Absolutamente não — disse Hotch.
Reid estava de pé diante da equipe.
— É ela.
— Sabemos.
— Está viva.
— Sabemos.
— Então não temos tempo.
Hotch aproximou-se.
— É uma armadilha.
— Claro que é.
— E ele quer você.
— Eu sei.
Rossi entrou:
— Essa é a questão, garoto.
Reid virou-se.
— Então o que vocês sugerem? Esperar outra semana?
Ninguém respondeu.
Ele perdeu o controle.
— Ela passou sete dias em algum lugar enquanto nós fizemos um funeral!
JJ fechou os olhos.
— Spencer...
— Não.
Ele bateu a mão na mesa.
— Não me digam para manter a calma.
Garcia encolheu-se.
Reid percebeu.
Imediatamente se arrependeu.
Mas era tarde.
Hotch falou baixo:
— É exatamente isso que ele quer.
Reid riu.
— Ótimo. Então conseguiu.
Pegou o casaco.
Hotch bloqueou sua passagem.
— Você não vai sozinho.
Reid encarou-o.
— Tenta me impedir.
O silêncio caiu.
Rossi foi o primeiro a perceber.
Aquilo não era o Reid que conheciam.
Não completamente.
O Arquiteto já havia alterado alguma coisa.
Emily ouviu passos.
Depois a voz.
— Ele está vindo.
Ela ergueu o rosto.
O Arquiteto estava parado diante dela.
— Claro que está.
— Sozinho.
O coração de Emily afundou.
— Não.
— Pedi exatamente isso.
— E ele nunca faria.
O homem sorriu.
— Você realmente ainda acredita nisso?
Emily tentou esconder o medo.
Spencer era racional.
Spencer pensava.
Spencer não entregaria tudo por uma provocação emocional.
Mas ela conhecia a outra parte.
A parte que amava ferozmente.
A parte que destruía a própria segurança se alguém que amava estivesse em perigo.
— Se ele vier sozinho, você o mata.
— Não.
— Então o quê?
O Arquiteto aproximou-se.
— Quero que você veja o que fez com ele.
Reid chegou ao armazém às vinte e duas e dezessete.
Sem colete.
Sem rádio.
Sem equipe.
Pelo menos era o que o Arquiteto deveria acreditar.
Ao entrar, ouviu a voz pelos alto-falantes.
— Doutor Reid.
— Onde ela está?
— Nenhuma saudação?
— Emily.
A risada veio baixa.
— Segundo andar.
Reid subiu.
Encontrou uma sala iluminada.
Emily estava atrás de uma parede de vidro.
Viva.
O mundo parou.
Ela levantou-se ao vê-lo.
— Spencer!
Ele correu para o vidro.
— Emily.
A mão dela encontrou a dele através da barreira.
— Você não devia ter vindo.
— Achei que estava morta.
A voz dele rachou.
Emily fechou os olhos.
— Eu sei.
— Sete dias.
— Spencer...
— Sete dias.
Ele encostou a testa no vidro.
— Eu enterrei você.
Emily começou a chorar.
— Me desculpa.
Reid olhou para ela.
— Não.
— Eu não...
— Não pede desculpa.
Então as portas se trancaram.
O Arquiteto apareceu numa passarela acima.
— Comovente.
Reid virou-se.
— Abra a porta.
— Ainda não.
Emily bateu no vidro.
— Spencer, sai daí!
O Arquiteto continuou:
— Tenho uma pergunta para vocês.
Reid ergueu a arma.
— Não estou interessado.
— Mas ela deveria estar.
Uma tela acendeu.
Imagens.
Reid na BAU.
Reid quebrando objetos.
Reid discutindo com Hotch.
Reid sentado sozinho diante da cadeira de Emily.
Emily ficou imóvel.
— Pare.
— Você precisa ver — disse o Arquiteto. — Precisa entender o que sua ausência fez.
A tela mostrou Reid chorando sozinho.
Emily levou a mão à boca.
— Pare!
Reid disparou contra a câmera.
A tela morreu.
Silêncio.
O Arquiteto riu.
— Viu? Transformação.
Reid olhou para Emily.
E algo doloroso aconteceu.
Ela estava assustada.
Não com o Arquiteto.
Com ele.
— Spencer...
Ele baixou a arma.
— Você acha que eu enlouqueci.
— Não.
— Está escrito no seu rosto.
— Eu acho que você sofreu.
— Por sua causa.
As palavras saíram antes que pudesse impedir.
Emily recuou.
O arrependimento foi imediato.
— Emily...
— Não.
Ela baixou os olhos.
— Você tem razão.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Mas disse.
O Arquiteto observava.
Satisfeito.
Era aquilo.
Não queria matá-los.
Queria contaminá-los.
Reid percebeu.
— Emily.
Ela não olhou.
— Olha pra mim.
Silêncio.
— Ele quer que a gente transforme dor em culpa.
Ela ergueu lentamente o rosto.
— Ele quer que eu culpe você por ter desaparecido e que você se culpe pelo que isso fez comigo.
O Arquiteto deixou de sorrir.
Reid aproximou-se do vidro.
— Não vou fazer isso.
Emily respirou fundo.
— Nem eu.
O Arquiteto pressionou alguma coisa.
As luzes ficaram vermelhas.
— Que pena.
Fumaça começou a entrar.
Reid percebeu imediatamente.
— Gás.
Emily tossiu.
— Spencer!
Ele atirou contra o painel de controle.
Nada.
Então ouviu.
Explosão no andar inferior.
Gritos.
O Arquiteto se virou.
Reid sorriu pela primeira vez.
— Você realmente achou que eu vim sozinho?
Hotch surgiu na passarela oposta.
— FBI!
O Arquiteto correu.
Rossi e JJ fecharam a saída.
Reid quebrou o mecanismo da porta.
Emily cambaleou para fora.
Ele a segurou.
Ela caiu contra seu peito.
Por alguns segundos, não falaram.
A equipe perseguiu o Arquiteto pelo edifício.
Reid só conseguia sentir Emily respirando.
— Eu achei que tinha perdido você — disse.
Ela segurou seu rosto.
— E eu achei que ele tinha quebrado você.
Reid fechou os olhos.
— Talvez tenha quebrado um pouco.
Emily aproximou a testa da dele.
— Então a gente junta os pedaços.
Ele soltou o ar.
— Juntos?
— Juntos.
Reid a beijou.
Suave.
Como quem não queria exigir mais nada daquela noite.
Quando se afastaram, um disparo ecoou ao longe.
Depois a voz de Hotch pelo rádio:
— Suspeito escapou.
Emily fechou os olhos.
Reid apertou-a contra si.
O Arquiteto ainda estava solto.
E agora havia conseguido algo que Elias jamais conseguira.
Deixara uma cicatriz entre eles.
Pequena.
Quase invisível.
Mas real.
A única questão era se aquela fissura os destruiria.
Ou se seria exatamente por ela que a luz conseguiria entrar.
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