Notas iniciais
É um capítulo introdutório e, admito, feito um pouco às pressas, pois precisava descarregar a criatividade. Quaisquer dúvidas ou questões em branco serão respondidas futuramente, em outros capítulos.
Boa leitura!

Março de 2015

NOVA IORQUE, 12h13

- Senhora, certeza que não viu esse indivíduo rondando por aqui hoje? – Connor Strydehead perguntou uma última vez, erguendo a fotografia à altura dos olhos da atendente do banco.

- Não, senhor – a mulher parecia impaciente.

- Passar bem, então. Mas, se vê-lo, ligue imediatamente para esse número – ele puxou um cartão da OIAM e deixou em cima do balcão, dirigindo-se à rua.

Era horário de almoço, então a calçada estava abarrotada de pessoas indo e vindo para todos os lados, muitos falando ao telefone ou simplesmente desfrutando dos poucos minutos que possuíam para uma rápida refeição. Connor pôs os óculos escuros e continuou andando até a faixa de pedestres mais próxima. Atravessou a rua e entrou no compartimento de um furgão branco com vidros fumês.

- Ninguém o v... – ele começou, mas foi bruscamente interrompido por Angharad.

- Nós já sabemos. Mas a informação foi clara. O denunciante tem certeza de que viu o homem.

- E você, tem certeza de que ele está certo?

- Sim. Ele o viu no mínimo umas seis vezes na última semana e em todas ele estava rondando o banco.

Connor jogou a jaqueta de lado e tirou a calça cáqui, ficando só com o uniforme escuro da OIAM, uma espécie de collant escuro que o cobria dos pés até o pescoço. Angharad e Josh, que estava sentado ao volante, vestiam a mesma roupa. Josh estava calado, observando a entrada do banco no outro lado da rua pelo para-brisas, enquanto Angharad mantinha o olhar fixo em um notebook sobre suas pernas.

Na tela do notebook um vídeo em tempo real estava sendo transmitido através de uma pequena câmera operada por Trevor, o chefe daquele destacamento de agentes, que estava no alto de um prédio próximo, observando por cima a multidão. Connor disse:

- Mas e se ele aparecer, o que faremos?

- Vamos contê-lo – respondeu Josh.

- Como? Há centenas de pessoas perto e dentro do banco. Ele certamente não vai se entregar facilmente.

- Ninguém disse que iria ser fácil – Josh voltou a falar.

- Nós temos que proteger as pessoas. A prioridade são elas – lembrou Angharad.

Connor estava nervoso. Essa era apenas a sua terceira missão em campo, e a primeira com aquele grupo. Ele não tinha sinergia nenhuma com os outros três, que tinham mais experiência, principalmente Trevor. Além disso, estar perto de um banco lhe trazia memórias de um passado que ele preferia esquecer.

- Certo. Pessoas, depois Araujo.

Miguel Araujo era o nome do criminoso pelo qual eles estavam ali. Ele havia escapado n’A Grande Fuga, que havia ocorrido há cerca de um ano. Desde então os agentes da OIAM haviam espelhado por todo o mundo as fotos das centenas de criminosos fugitivos, cuja periculosidade poderia por em risco não somente as pessoas, mas eles mesmos. Miguel era só um de muitos que ainda estavam desaparecidos.

O criminoso era pirocinético, ou seja, manipulava o fogo, e tinha maestria em fazê-lo expandir-se em quantidades de tempo ínfimas, simulando explosões. A suspeita era de que planejava um roubo ao banco.

- Ele chegou – disse Trevor, através do microfone da câmera. Sua voz era baixa e forte; calma, porém ameaçadora. – Vou entrar, fiquem prontos.

Connor sentou-se ao lado de Angharad e olhou no monitor do notebook a tempo de perceber um homem com roupas escuras e chapéu cruzar as portas duplas de vidro do banco. Sua vestimenta tentava tão obviamente ser discreta que acabava tornando-se chamativa demais. A pele era acobreada, indicando sua descendência latina

- Trevor está chegando – comunicou Josh. Certamente o chefe do grupo havia descido o prédio voando o mais rápido possível e agora se apressava em atravessa a rua. Connor observou-o aproximando-se da entrada do banco pelo notebook.

Levou as mãos ao cinto de utilidades do uniforme. Em pequenos compartimentos alguns materiais especiais, como pedras, metais e areia, residiam, visando acelerar o uso de sua mutação em campo de batalha. Suas mãos suavam de nervosismo. Ele pegou o notebook das pernas de Angharad ao perceber que ela já não lhe dava atenção.

A garota era uma telepata; não muito poderosa, mas era uma telepata, e pouquíssimas pessoas possuíam habilidades psíquicas como as dela. Ela estava com os dedos na têmpora e os olhos fechados, muito provavelmente concretizando o elo psíquico com Trevor para ver através dos olhos do outro mutante o que ocorria dentro do banco. O notebook já não tinha valor. Connor fechou-o e o pôs de lado, esperando sua deixa.

Foi sentar-se ao lado de Josh e deixou Angharad sozinha no fundo do veículo. Josh ligou o rádio especial do furgão e começou a ecoar ali a transmissão do microfone acoplado ao uniforme de Trevor.

Connor, contudo, não prestava atenção às palavras que ecoavam como um ruído indistinto no fundo de sua mente. Ele não estava lá dentro e mesmo que pudesse ouvir o que Trevor falava, sentia que aquilo não era suficiente. Queria provar a si mesmo e aos outros que era um bom agente, principalmente numa missão como aquela. Não via a hora de entrar em campo. Os minutos se passaram, mas parecia que estavam se arrastando. Quando ele voltou à realidade, foi tudo muito rápido.

Um clarão vermelho iluminou o interior do hall do banco, lançando sua luz na rua através das janelas altas de vidro. As pessoas gritaram e correram para todos os lados, assustadas, mesmo que a chama tivesse ficado dentro do prédio.

- VÃO! – gritou Angharad, momentaneamente saindo de seu elo psíquico com Trevor para alertar aos outros dois.

Não era necessário, pois Connor e Josh já estavam saindo do furgão a toda velocidade.

- Connor, comigo! – falou Josh num tom autoritário. Os carros que andavam pela rua haviam começado a acelerar para sair dela, também assustados com a labareda que iluminou a rua. Outra chama subsequente subiu no ar dentro do prédio. Josh parou no meio da rua, bem em frente às portas duplas de vidro da agência bancária, de onde conseguia ter uma visão clara de Miguel, que estava no meio do saguão, encoberto em fogo, o qual arremessava sobre as pessoas. – Pedra, agora!

Josh tirou do cinto uma pequenina semente marrom e a jogou no asfalto. Ergueu uma das mãos para a semente no chão e ela começou a brotar numa velocidade impressionante, mesmo sem a presença de terra, água ou nenhum outro nutriente. Dentro em pouco, a pequena semente já tinha se transformado numa enorme planta não-identificada de dois metros de altura, composta por um emaranhado de grossos cipós verdes. Connor pegou um pequeno pedregulho no cinto de utilidades e o segurou na palma da mão, concentrando-se.

Sua pele se rasgou segundos depois, transformando-se em pedras marrom-claras, como a que ele segurava. Seu volume corporal aumentou um pouco com a transformação, não que fosse significativo, pois ele já era musculoso naturalmente. Connor havia se transformado num enorme pedregulho. O uniforme especial da OIAM se ajustou ao seu novo tamanho.

- Se prepara!

Josh movimentou as mãos de maneira brusca e um dos enormes cipós que constituía a planta no meio da rua agarrou Connor pelo peito, erguendo-o no ar. Connor tentou manter-se parado e visualizar seu alvo. Foi tudo muito rápido. Josh mirou em Miguel e o cipó movimentou-se violentamente como se fosse um estilingue, arremessando Connor para a frente.

- AAAAAAAH! – Connor tentou controlar sua trajetória. A calçada estava vazia, as pessoas já tinham corrido.

Connor voou velozmente. A porta dupla de vidro do banco estilhaçou-se em milhares de pedaços quando ele a atravessou como uma bala e não sentiu um único arranhão. Seu alvo era claro e impossível de errar com a mira do arremesso de Josh. Segundo a segundo, Miguel, revolto em fogo e arremessando chamas apara todas as direções como um louco piromaníaco, se aproximava mais e mais. Até que se afastou.

Araujo, mesmo parecendo ensandecido pelo poder, estava muito ciente do que lhe cercava. Ao perceber Connor aproximando-se dele como uma bala, ele impulsionou seu corpo no ar com o fogo que o encobria, alçando um voo veloz que o tirou da trajetória do agente da OIAM.

- VOCÊS ACHAM MESMO QUE VÃO ME ENFIAR NAQUELE BURACO DE NOVO? – Miguel estava claramente furioso por ter seus planos de assaltar o banco frustrados. Connor continuou a trajetória de seu arremesso até o fim do saguão, onde se chocou contra a parede de concreto, que rachou-se no impacto.

- Ouch! – exclamou, mesmo com a dor amenizada pela mimetização em pedra.

Olhou em volta e percebeu que todas as pessoas que antes estavam no saguão haviam se refugiado atrás de Trevor. O mutante da OIAM, silencioso, observava Miguel, que voava, ateando mais chamas ao local; quando o fogo era em direção às pessoas, Trevor, habilidoso, manipulava o ar em volta de si e dos demais para girar numa velocidade absurda, criando uma bolha de vento que dissipava o fogo.

- Isso é pra aprender a não me pegarem de novo! – Gritou Miguel, estacionando no ar em seu voo e erguendo uma das mãos na direção de Connor. O mutante só teve tempo de fechar os olhos antes das chamas o encobrirem. Um jato poderoso de fogo emanou da mão esquerda de Miguel Araujo na direção de Connor.

O mutante se encolheu no lugar. As chamas não o queimavam e, devido às pedras, apenas chamuscavam sua pele. Seu uniforme foi carbonizado e dentro em pouco ele estava pelado. Ouviu um barulho de vidro quebrando e imaginou que era Josh agindo para retirar as pessoas do prédio. Um, dois, três... contou trinta e sete segundos sob o fogo. Apesar de não feri-lo, aquele ataque o cansava. Ele tinha que concentrar todas as suas energias em manter a mimetização ativa mesmo sob tanta pressão, senão viraria churrasquinho.

- AAAAAAH! – Chegou um momento em que manter o mimetismo ativo sob tanto poder acabou doendo de verdade, mas ele persistiu. O grito, contudo, deu a entender que ele já estava vencido, então o criminoso voltou sua atenção a Trevor.

Connor estava encolhido no chão, pelado, dolorido e inutilizado para combate. Abriu um dos olhos para observar Trevor. Nem todas as pessoas haviam conseguido fugir. Josh havia expandido seus cipós na rua até o prédio e usando-os para quebrar os vidros que formavam as janelas mais próximas às pessoas, oferecendo-lhes uma maneira segura para a fuga. Muitos conseguiram sair, mas cerca de dez pessoas ainda encolhiam-se atrás de Trevor, assustadas ao perceberem a atenção de Miguel voltada para eles.

- Ora, ora, agora que percebi – Araujo falou num tom alto, materializando uma bola de fogo na palma da mão direita e sorrindo cinicamente para Trevor. – Tenho a honra de conhecer o libertador. Não tinha parado para analisar sua fisionomia, garoto. Mas não se preocupe, você não a vai ter por muito mais tempo.

E arremessou a esfera de fogo na direção de Trevor, que desviou-a com uma rajada de ar.

- Você gosta de brincar, não é mesmo? – Miguel voltou a falar, sorridente. – Vamos ver se aguenta brincadeira de verdade.

- NÃO! – Connor gritou, mas era tarde demais.

Miguel apontou as duas mãos na direção de Trevor e da dezena de civis que se encolhia atrás dele e fez o inferno jorrar de seus dedos. Um turbilhão gigantesco de chamas foi na direção deles e os teria transformado em cinzas não fosse a maestria de Trevor em controlar o ar. O mutante, que era experiente, apesar da aparência jovial, não se deixou abalar pelas provocações do meliante. Quando percebeu o fogo vindo em sua direção, mexeu os braços rapidamente e o ar à sua volta moveu-se numa velocidade impressionante.

Connor assistiu à cena, aflito, sem saber o que fazer. Trevor protegia a si mesmo e aos civis com uma cúpula de ar. Era uma espécie de campo de força reisistente feito de uma película de vento finíssima que girava ao redor de si mesma em alta velocidade, impedindo qualquer coisa de entrar ali. Era possível ver as chamas lambendo a cúpula com voracidade, procurando uma falha para entrar e levar a morte às suas vítimas.

- MORRA, MORRA, MORRA! – Gritava Miguel, ensandecido.

- Já que pede tanto... – exclamou Trevor em resposta. Era possível perceber que sua voz estava trêmula. Era difícil manter controle sobre o poder quando se estava sob um ataque de tamanha magnitude. – Angie, missão abortada. Objetivo: eliminação.

NÃO! TREVOR, NÃO! A voz de Angharad ecoou na mente de Trevor, Connor e Josh ao mesmo tempo. A garota tinha elos psíquicos com os três, estabelecidos antes da missão para comunicação rápida e eficiente. Seu foco era somente em Trevor naquele momento, que era o chefe, então ela só via e ouvia o que ele via e ouvia. Contudo, o momento de desespero havia feito os poderes da telepata se alastrarem e a comunicação acabou sendo com os três agentes.

Connor não havia entendido o que iria acontecer, até que aconteceu. A cúpula de fogo se quebrou. Trevor, num movimento brusco, porém repleto de técnica, manipulou o ar que utilizava para se proteger e transformou-o num flagelo de morte. A cúpula giratória tomou a forma de um redemoinho de ar afunilado, que ascendeu no ar, cortando a rajada de chamas contínuas liberadas por Miguel. O vento subiu com força e velocidades impressionantes, dissipou as chamas ao cortá-las ao meio e atingiu o criminoso em cheio, bem na base do queixo, quebrando seu pescoço.

Ele caiu morto no chão, com a cabeça virada para trás em um ângulo grotesco. Chamas o rodeavam.

Notas finais
Sim, eu já pus ação no primeiro capítulo. Mas não vai ser tudo só luta. E não sei se o próximo também vai ser desse tamanho, eu me empolguei. Espero que gostem, e, se gostarem, deem um feedback. ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.