A Ligação

1 Capítulo Único


Notas iniciais
O meu presente de Amigo Secreto da Liga dos Betas para a Fuyu. Uma one-shot baseada em um romance canônico, feita por um pseudo romancista.

1

— Já faz um ano desde que Ed e Al foram viajar, Vovó.

— Não parece que faz tanto tempo..

— Al foi para o oeste aprender mais sobre a “alquimia de Xing”, e Ed foi pro Oeste, me pergunto onde ele está nesse momento...

— Winry, menina, você está deformando as conexões dessa prótese!

De fato, enquanto eu apertava as juntas do novo modelo que eu estava construindo, acabei me distraindo e logo, alguns fios da conexão estavam emaranhados ao final de um grande parafuso; a própria rosca do parafuso tinha sido comprometida, em meus pensamentos eu esqueci que o meu trabalho não só é braçal e maçante, mas é caro quando erro.

Por livre e espontânea vontade da vovó, abandonei o trabalho naquele momento e fui convencida a ter um momento de descanso, que é claro, de nada adiantou. Na minha mente começaram a voltar as lembranças com Ed e Al. Finalmente eles haviam conseguindo seus corpos de volta, o motivo pelo qual tanto lutaram havia se realizado: voltaram a normalidade sem precisar envolver a vida de outras pessoas.

Quando vi aqueles irmãos voltando pra casa, inteiros, achei que teríamos a partir dali uma vida “comum” ou algo perto de “normal”. Acontece que aqueles dois desviam da tranquilidade como um demônio foge de um anjo.

Assim que Al partiu para Xing, não tive dúvidas que ele não só iria pesquisar sobre a Rentanjutsu, ou seja lá como se chama, mas também iria pesquisar especificamente a princesa May Chang, não só por que iria estudar com ela, mas por que o rapaz não passava um dia sem falar nela enquanto esteve aqui. Me surpreendeu muito mais o fato do Ed ter decidido viajar também, esses alquimistas são muito estranhos, pode ser natural do humano procurar por experiências novas na vida, não há nada mais saudável, de fato; mas aqueles que são alquimistas parecem sempre se desesperar em busca de algo novo, eles são sabem o que procuram, mas querem algo novo.

Me surpreendeu mais ainda a bizarra declaração de amor do Ed antes de partir. Não que os seus sentimentos por min sejam “bizarros”, mas uma confissão com alquimia não é todo o dia que se vê. Tivemos ali um entendimento quase tácito, em troca de uma parte – ou de toda a nossa vida – dividiríamos a vida um do outro juntos...

Já faz um ano que Ed deixou Resembool se dirigindo para os países do Oeste, ele já me intrigou mandando algumas cartas. O tema delas nunca era essa nossa conversa na estação de trem, e assim eu nunca sabia se ele não queria tocar neste assunto por não querer falar apenas por cartas ou... Se ele poderia ter mudado de ideia?

O mundo é muito grande, e embora nós tenhamos uma história longa, ela é uma história fraternal, atualmente o Ed – ou o Alquimista, Edward Eric – é mais um homem do que um garoto, que pode perfeitamente se interessar por outras mulheres das maneiras mais levianas que cercam a mente da maioria dos homens. Um fato que vai contra isso é: em todo o tempo de viagem que ele teve com Al, ele, ou eles, nunca escreviam, e quando telefonavam, era sempre algo relacionado as próteses do Ed; é claro que nós demonstrávamos felicidade quando nos víamos, era bom ver amigos queridos.

Mas desde essa conversa minha e do Ed... Eu diria que nós subimos um degrau além de “amigos infância”? Certamente sinto isso. Das cartas em nome do Ed que chegaram aqui, e essas foram três, a primeira foi dirigida a min e a vovó, sobre assuntos triviais, ele parecia só querer entrar em contato. As duas últimas foram dirigidas a min, mas ele novamente parecia só querer conversar com alguém que ele gostava e estava longe, nada mais do que isso. E finalmente eu admito, não conversar sobre os nossos sentimentos me deixa um pouco frustrada.

Eu continuaria submersa nos meus pensamentos e dominada por essa frustração que já me ocorreu em outros dias, se não fosse o barulhento toque do telefone.

— Eu atendo! – Nesse momento eu estava na janela da minha oficina, no segundo andar, sai do cômodo e desci as escadas rapidamente. O telefone esperneava, atendi. – Alo?

— Winry? – era uma voz masculina do outro lado da linha, eu reconheci na hora!

— Ed? É você?

— Claro, e quem mais seria? Ficou tanto tempo sem ouvir a minha vez que esqueceu como é?

— Não é difícil esquecer, você nunca liga!

— Não liguei antes por que não pude, descobri do pior jeito que para além de Creta a maioria das linhas telefônicas não conecta a Amestris. Achei que tinha dito isso em uma das cartas.

— Disse? – ele realmente tinha dito. – Pois eu não lembrava. – Pensando melhor agora, eu lembrava sim. — Onde é que você está? – talvez eu estivesse um pouco tensa, talvez não.

— Agora eu estou em Creta. Estou pensando em voltar, espero estar aí em seus ou sete dias.

— Você arregaçou a sua perna em algum lugar, não é?

— Mas é claro que não! Eu nunca liguei apenas pra pedir reparo da prótese! – Ed realmente pareceu indignado falando isso, se não foi um gesto de ignorância, foi de uma audácia inacreditável. – De qualquer maneira, eu preciso compilar os dados da minha pesquisa, eu não passo mais de uma semana em um lugar a meses, e além de eu estar cansado pode ser que a minha pena precise de ajuste...

— Ah, mas eu sabia.

— Mas de qualquer maneira – só consigo supor que Edward Elric é mesmo um pouco ignorante em relação às pessoas – Como vocês estão?

— Estamos bem, Ed.

— E como nós estamos, Winry? – Fiquei confusa com o que ele queria dizer com “nós”.

— Nós?

— Sim! A gente! – quando Ed tentava se referir a algo que o vergonhava, era como uma criança tentando sinalizar para a mãe da maneira mais indireta possível que fez xixi na cama.

— Não tem como você ser mais claro?

— A nossa troca equivalente!

Enfim o momento que eu estava esperando havia chegado, novamente da maneira mais bizarra possível, da maneira mais Edward Elric possível, vamos assim dizer. Novamente com as analogias malucas com alquimia.

Meus sentimentos ficaram mistos ali, em parte estava feliz por ao menos ouvir o Ed falando sobre “nós” novamente; a realidade é que eu também estava gargalhando por dentro pela forma altamente desastrada com que ele executou essa ação, e ao mesmo tempo eu também havia sido surpreendida. Suspirei lembrando de nossa cena na estação, um suspiro de saudade pela candura das nossas palavras, do nosso abraço; também um suspiro de tenção, como diabos eu deveria reagir a essa situação, ainda mais por telefone?

— Ed... Se você for usar mais analogias com alquimia pra falar sobre “a gente”, não seria melhor se fosse pessoalmente do que por telefone? – E talvez aquele fosse o momento de eu tomar o controle daquele barco sem timoneiro – A teoria que você e o Al estão desenvolvendo, a troca equivalente deixa tudo na mesma, certo? Se eu te der tudo e mais um pouco, você me retribui com tudo seu e um pouco mais, assim nós vamos crescendo, juntos, entendeu?

A ligação ficou silenciosa por alguns segundos. A linha poderia ter caído, meu telefone poderia ter dado problema, ou o Ed poderia ter tido um ataque de vergonha, eram várias possibilidades. No final dessa pequenina eternidade o suspiro veio do outro lado da linha com um riso sincero, o resultado da minha investida foi um sucesso.

— Winry, você continua incrível. Eu realmente preciso recarregar as energias aí em Resembool e lembrar do que realmente é importante. Você foi uma das pessoas que melhor me demonstrou que depois de um caminho de dor, existe uma trilha de felicidade. – A tranquilidade que ele expressou a partir desse momento fez com que eu me lembrasse do tom de voz dele no início da nossa conversa como inquieto, truncado, até um pouco vacilante, me senti feliz por desconserta-lo, mas avia-lo ao mesmo tempo. – Meu trem sai daqui alguns minutos, eu estou ligando da estação, inclusive. Se eu perder esse não há a menor chance de eu estar aí em uma semana.

— Tudo bem, nos vemos em uma semana então.

Uma pequena despedida e a ligação estava encerrada. O clima da ligação revigorou o meu humor aquele dia; me senti feliz por estar em uma fase com o Ed em que algumas colegas já tinham me relatado quem se tem com quem ama, essa fase inicial de maior candura, onde todas as palavras sobre esse sentimento mútuo aquecem o coração e fazem as duas partes se sentirem felizes, a ponto de corar as maçãs do rosto.

Animo revigorado, é hora de voltar ao trabalho. Há uma prótese em cima da minha bancada que vai precisar de novos conectores e uma nova rosca para a articulação do cotovelo. Subindo as escadas de volta pra minha oficina, vejo a vovó descendo em minha direção, resolvo dizer as “boas novas”.

— Era o Ed no telefone, ele está em Creta, mas está voltando, vai chegar daqui a uma semana.

— Ah, que bom! Se não haver nenhum atraso ele vai chegar aqui no dia do seu aniversário, vai ser muito bom ter ele na festa.

Eu havia esquecido completamente que o meu aniversário era daqui a uma semana, nas últimas semanas eu literalmente mergulhei nos trabalhos a fim terminar os novos modelos. O Ed vai voltar e é provável que seja no meu aniversário!

2

Logo depois de desligar o telefone público, o primeiro apito do trem soou. Esse é para indicar que quem ainda não embarcou deve fazê-lo agora, o segundo serve pra avisar que o trem está partindo e se alguém ainda não embarcou, vai ter de correr e pular no trem.

Um velhote em um restaurante me disse que, a uns dois anos atrás, viajar de trem em Creta era perigosíssimo. A Guerra Civil grassava no país, e a fronteira leste era excecionalmente perigosa, ali não só existia a luta armada entre os diferentes grupos da Federação, como também os conflitos fronteiriços violentos com Amestris. Há cerca de um ano o meu país de origem assinou vários acordos de cessar-fogo com todos os países vizinhos, com Creta não foi diferente.

As estações do leste são belas, mesmo a de uma vila pequena, como eu estou agora. Todas elas são construídas de alvenaria, nunca de madeira; algumas tem buracos de bala na faixada, lembrete de atentados terroristas feitos por guerrilhas. O povo de Creta é alegre e hospitaleiro, mesmo nas pequenas estações de trem existem mulheres e crianças vendendo guloseimas.

Já era início da tarde eu ainda não havia almoçado, resolvi comprar um doce de uma dessas crianças e fazer o máximo para não comprar comida do trem, ela seria muito mais cara e eu já estava quase sem dinheiro. Comprei meu doce, enfiei o pacote no bolso do sobretudo, dei a gorjeta para o menino que ficou com sua face rosada sorridente e me meti no trem. Tomei um lugar na janela e comecei a pensar sobre a conversa que tinha acabado de ter com a Winry.

Viajar sozinho tem sido... Bem solitário. Eu sinto muita saudade da companhia do Al, não me esqueço como não tínhamos medo de nenhum perrengue, sempre tínhamos a cobertura um do outro. Nos últimos meses também tenho pensando em como eu poderia ter aproveitado melhor a presença da Winry, isso seria mais complicado, a verdade é que eu não tive coragem de falar pra ela tudo o que eu queria até a hora de partir.

Ligar foi complicado, mas acabou dando tudo certo, perceber que eu fiquei com uma perna mais curta do que a outra teve sua utilidade. Eu também já tinha reunido bons dados pra pesquisa que estou fazendo com o Al, agora era cruzar com o conhecimento de alquimia em Amestris e depois, colocar o pé na estrada de novo. Vamos dizer que os planetas se alinharam pra eu voltar, e esse alinhamento ordenou que eu usasse essa oportunidade para entrar e contato e falar com ela sobre “nós”. Admito que não fui o mais fluído possível, mas deu certo.

Se tudo der certo, chego em Resembool em uma semana, no dia do aniversário da Winry, parece que ela não se tocou da coincidência, pelo menos não esbouçou reação sobre isso no telefonema. O problema é que eu também não me toquei em como farei para que esse dia seja especial pra ela, eu não tenho dinheiro para um presente, e eu só vou me apresentar de cara amassada depois de seis dias de viagem...

Só posso concluir que o amor não se pode teorizar, mas o cálculo do meu tempo de viagem, isso sim é uma ciência exata. Da fronteira de Creta, que é onde eu estou agora, até o Estado Sul, são quatro dias, do Sul pra Resembool, mais dois dias no expresso. Agora só posso torcer para que não haja nenhum atraso e aproveitar esses dias dormindo em trens e estações para pensar em como avançar com a Winry sem querer enterrar a minha cabeça de vergonha.

Desafio maior que fazer uma teoria de transmutação humana, é fazer uma transmutação de sentimentos em palavras adequadas. Se é que algo assim existe.

3

Sete dias se passaram desde o meu último contato com o Ed.

O fim da tarde se aproxima com e lá vinha o pôr-do-sol, a noite vai mostrando a seus encantos lentamente. A festinha que a Vovó insistiu em organizar pra min acabou de começar, e eu ia recebendo os colegas e amigos queridos que iam chegando em casa e vão se acomodando em um canto ou outro. Alguns ficam perto da mesa consumindo as guloseimas e rindo de piadas aleatórias, outros ficam bebericando cerveja e conversando sobre a vida, a Vovó está entre estes.

Hoje vieram alguns envelopes da Cidade Central com cartões dentro, todos endereçados para min, dois deles vieram com selos do exército. O primeiro era da Tenente Hawkeye, que com uma caligrafia bonita e severa me desejava carinhosamente feliz aniversário e muitos anos de vida, em seu nome e do General Mustang; o segundo cartão veio do Major Armstrong, com um desenho do próprio Major com os braços abertos como se quisesse me dar um abraço por meio do papel, este desenho parecia ter sido feito à mão, e o conteúdo dele dizia que: “essa é a técnica de confecção de cartões de aniversário, passada de geração em geração na família Armstrong que lhe felicita por mais um ano de vida. Parabéns, Srta. Winry!”. O último cartão da Central, era da Sra. Gracia, contendo uma mensagem escrita por ela, e ao que parecia por Elicia também, já que uma parte tinha uma letra bem tortinha, como a de uma criança. Os amigos de Rush Valley também mandaram lembranças.

Apenas os conhecidos de Resembool haviam marcado presença, todos os outros tiveram motivos para não poder vir, mas não me saia da cabeça a demora do Edward. Tive dúvidas se ele realmente conseguiria chegar naquele dia.

Fui em direção a porta da frente e sai do sobrado, comecei a olhar para o sol que se escondia quase por completo entre as colinas, olhei para os meus pés e percebi que o salto das minhas sandálias já me incomodavam, sentei nos degraus do deck e fiz com que o vestido cobrisse os seus joelhos. Mais uma vez o sentimento de incerteza de antes do telefonema estava comigo, arrumei uma das alças do vestido que queria se desprender do meu ombro e comecei a olhar para a estrada, até onde ela era visível no horizonte. A noite caia, o sol se punha, o céu estava limpo e a sombra de um homem ia crescendo no horizonte.

A sombra foi tomando forma, um homem jovem com um sobretudo era iluminado pelos últimos raios de sol daquele dia, uma mão estava no bolso do casaco comprido, a outra, segurava a mala de mão. Os raios de sol iam moldando cada vez mais a sombra do homem caminhante. Era ele, era o Ed. Me levantei e comecei a caminhar em sua direção.

De dentro de casa eu ouvia as vozes alegres das conversas felizes, algumas eram de adultos regados a álcool, outras eram de crianças alegres e seus passinhos agitados. Todos esses sons iam ficando mais distantes a cada passo que eu dava em direção ao Edward, a cada passo o meu andar ia ficando mais rápido, e a velocidade ia aumentando vagarosamente, as passadas dele também se aceleravam, embora parecesse mancar. Logo, eu pude olhar diretamente nos seus olhos, estávamos em fim, frente a frente.

— Winry, desculpe por ter demorado tanto, eu...

Antes que ele pudesse começar ou terminar de se justificar, eu já tinha envolvido ele em um abraço e isso é uma maneira elegante de dizer que eu pulei no Edward quase derrubando-o, como sempre acontecia quando ele chegava de viagem depois de algum tempo. Ele retribuiu o meu abraço quase instantaneamente, e os nossos olhares se cruzaram mais uma vez, seus olhos estavam felizes, mas o resto do seu rosto indicava um cansaço bruto.

— Seu idiota, o importante é que você está aqui!

Ed parecia feliz, mas o mesmo tempo vacilante. – Eu queria te trazer um presente, mas não consegui.

— Você ainda não percebeu? O presente é você estar aqui, Ed! Venha, até eu estou me sentindo cansada por você. Deve estar faminto também.

Peguei o Ed pela mão e fui puxando-o até em casa, nós estávamos só a alguns metros e logo chegamos. O pessoal que também o conhecia desde de criança foi ao delírio, vários apertos de mão e cumprimentos se seguiam, o pobre rapaz parecia ficar mais pálido a cada comunicação, embora fosse o mais amigável possível com todos. A Vovó logo percebeu que ele estava a ponto de colapsar e foi acomodando-o no sofá enquanto trazia um prato com alguns dos pastéis que estavam na mesa. Me sentei ao seu lado, ele olhou para o prato, olhou para min, e puxou assunto enquanto começava a comer.

— O último trem que eu peguei antes de chegar aqui ficou algumas horas parado na estação, ele estava com algum problema mecânico aleatório, se fosse a algum tempo atrás eu poderia resolver facilmente com alquimia, – ele começou a comer um os pastéis – o meu eu de agora só pode esperar essas coisas acontecerem, e assim eu vou me ajustando.

— Você ainda precisa se ajustar mais, te olhando um pouco dá pra ver que uma das suas pernas está mais curta, você está chegando a mancar. – Provoquei.

— Ah, até na fase final do meu crescimento eu sou desrespeitado! Lembre-se que agora eu já sou mais alto do que você pelo menos!

Ed parecia indignado, mas logo em seguida riu de si mesmo, e nós rimos da situação, rimos também da alegria de estar compartilhando pequenos momentos novamente. A festa seguia o cansado Elric ia se recompondo, ficando mais à vontade, já sem casaca e colete interagia com as outras pessoas e parecia no mínimo mais bem alimentado.

A noite ia avançando e a festa ia se encaminhando. Veio o bolo, e o meu rosto corou em todos os tons possíveis por ser o centro dos parabéns e de todos os olhares, a vergonha vinha junto da felicidade de ter pessoas queridas e amigos juntos, felizes, em um momento em que apenas sentimentos positivos estavam no ar. Os adultos foram ficarando mais engraçados e o álcool ia terminando, as crianças iam ficando com sono e se dirigiam pro sofá; no quintal, alguns decidem colocar o rádio para a fora e começar uma dança ébria cheia de alegria e também cheia de inocência.

Meu par em potencial não apresentava as condições ideias para qualquer tipo de dança, então fiz outro tipo de proposta:

— Quero caminhar um pouco, você pode ir comigo?

Ed se surpreendeu, levantou e fomos andando para fora da casa, nesse momento a lua já estava alta e contracenava com as estrelas num céu limpo, a luz dos astros noturnos nos iluminava e produzia sombras que nos acompanhavam enquanto caminhávamos pela estrada. A casa ia ficando longe e o silêncio parecia nos dominar, não era um silencio constrangedor, eu me sentia envolvida pelo silêncio tranquilo que é possível sentir quando se está com a pessoa certa, e palavras não são necessárias. Havia muito a ser dito, é verdade, mas eu estava curtindo aquele momento.

De repente o ritmo dos passos do Edward foram diminuindo, até que ele parou completamente e olhou pra min, parece que o silencio acolhedor não estava sendo tão bem aproveitado por ele.

— Winry, eu... Eu sinto que nós precisamos conversar. – Quando ele terminou a frase, já foi possível perceber que ele ainda não estava pronto, mas ia pro tudo ou nada, não havia problema, eu ajudaria se fosse preciso.

— Eu também, Ed. Vamos nos encostar ali – apontei para uma mureta de pedra que ficava na beirada da estrada, ambos sentamos ali. A noite bonita nos fazia companhia, de um lado as luzes evanescentes do vilarejo, do outro, os ruídos do sobrado iluminado cheio de alegria com a grande placa de “AUTO MAIL” em frente.

— Durante a volta eu vim pensando em uma fórmula pra tentar transmutar as minhas palavras em sentimentos, o que eu me esqueci, é que eu posso até descobrir uma formula, mas eu mesmo perdi a capacidade de transmutar – ele deu uma pausa e olhou para a Lua – Acho que eu estou condenado a ser um bizarro quando se trata desse tipo de sentimento, mas eu vou tentar falar de uma forma ou de outra. – Agora Edward parecia estar usando toda a sua determinação pra se expressar, ele voltou a olhar pra mim, dessa vez, fixamente nos meus olhos, a Lua iluminava o seu rosto que agora estava avermelhado. – Eu também não quero apenas te oferecer metade! Eu não quero que a nossa troca seja equivalente! Winry, eu quero dividir tudo o que eu puder com você, e eu quero que você esteja comigo sempre... Eu... Ah! Eu não estou conseguindo expressar direito de novo! Mas eu troco meu sentimento troca do seu, entende?

Uau, ainda estava um pouco estranho pra falar a verdade, mas o esforço que ele fazia era admirável. A vermelhidão do rosto dele foi passando para o meu, os nossos olhares sempre fixos, e se ele iria para o tudo ou nada, eu não ia deixá-lo sozinho.

— Ed, não se preocupe, eu também enrolei pra me expressar na estação, não me expressei o suficiente pelo telefone e nunca me comprometi o suficiente até agora, veja – peguei as suas mãos e continuei e olhar nos seus olhos – Vamos deixar a alquimia de lado, nesse caso, não há troca equivalente, só a soma dos nossos sentimentos, se com tudo isso você quer dizer que gosta de min, eu só posso dizer que eu te amo, são estes os nossos termos?

E este foi o momento em que eu atingi o pico de sinceridade da minha vida, se alguma hora eu julguei o pobre rapaz por corar o máximo possível para um humano, agora o julgamento deve voltar em min todas as forças, eu só sentia o meu rosto ferver e os nosso olhares ainda fixos. Já estávamos mais próximos do que num primeiro momento, eu incentivei uma aproximação maior e coloquei uma das minhas mãos em seu ombro. A distância agora era o suficiente para sentirmos a respiração um do outro, com os olhos fechados eu pude ouvir Ed responder com a voz baixa “sim, eu também te amo”, e de maneira tímida, nossos lábios se tocaram pela primeira vez.

Cheguei a pensar que eu havia avançado demais, pulado algumas palavras essenciais e atropelado o nosso processo com ações, mas logo senti um abraço mais seguro e nossos lábios se tocaram novamente, dessa vez por um longo tempo. Quando os nossas bocas se encontraram pela última vez, estávamos seguros e sinceros, todo nervosismo já tinha ido embora e dessa vez a lua cheia iluminava a mais nova descoberta do mais jovem alquimista da história: sentimentos nem sempre podem ser transmutados em palavras, mas podem ser transmutados em ações.

Ali se iniciava a minha a minha troca com equivalente com Edward Elric, e assim como quando nós conversamos a primeira vez na estação de trem de Resembool, os anos foram demonstrando que nosso relacionamento não era apenas uma troca equivalente, o amor e a admiração que se tem uma pessoa especial te faz sempre querer se dedicar a ela ao máximo e um pouco mais. Ed sempre me retribuía com o seu máximo e um pouco mais, assim íamos crescendo juntos, evoluindo juntos e em conjunto, comprovando a nova Teoria dos Irmãos Elric; é possível criar algo novo sem troca equivalente, isso é uma soma, isso é o amor.

Para alguém que não gostava de usar analógicas com alquimia, eu dou o meu braço a torcer, aprendi muito com um alquimista pra dizer que essa visão é dispensável. Ele não tem jeito, afinal, é um alquimista.

Notas finais
A minha leitora implícita bem sabe que eu não cheguei a consulta-la sobre como a história deveria ser. Segui suas primeiras recomendações, pesquisei e usei um pouco do meu conhecimento sobre o fandom. A minha maior vontade era fazer um pequeno conto romântico agradável de se ler, com as características da minha escrita, dedicando-o a uma pessoa que se mostrou amável comigo em pouco tempo de convivência. Espero ter atingido esse objetivo. Obrigado pela sua leitura, Hannah!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!