Notas iniciais
Esta é minha humilde publicação para o Natal.
Espero que se divirtam e tenham todos um feliz Natal e próspero Ano-Novo.

Você sabe como começa…

Carta, correio, noite feliz de dezembro e presentes cobertos com papéis coloridos, cheios daqueles desenhos divertidos, laços vermelhos, azuis, etc., junto com dizeres padronizados, do tipo “Feliz Natal”, “Boas Festas” e Blá Blá Blá.

Acho que a maioria das pessoas nem liga mais para essas coisas, já que, como meu pai sempre dizia “Pedro, você precisa aprender isso! Natal é comércio, propaganda e dinheiro”...

Porém, eu não pensava assim; nunca fui tão racional quanto meu pai.

Todo Natal eu ficava esperando a chegada de papai Noel, com seu trenó vermelho, com detalhes em ouro, renas de pelagem macia e aqueles guizos de som agradável, porém, o velho patriarca da família apenas me dizia “bobagens! Renas no Brasil? Não seja burro!” e eu apenas ficava em silêncio, caminhava para meu quarto, fechava a porta e deitava na cama.

Jamais liguei para a “sabedoria” de meu pai, mas acho que conseguia entender sua visão despida de sonhos e fantasias, afinal de contas, ele havia saído do nordeste e foi para São Paulo – a “cidade do novo-começo”, como costumava dizer – em busca de uma vida melhor, mas jamais conseguiu alcançar glória maior do que ser corretor de imóveis.

Claro, papai não era o tipo de pessoa a quem poderíamos chamar “fracassado”, mas dizer que ele foi o maior corretor que já caminhou sobre o mundo seria um absurdo.

O chefe de casa era um corretor padrão, sem grande destaque (ou amor) naquela tarefa tão difícil e enfadonha, onde você jamais sabe quando (e se) vai conseguir vender algo, sendo provavelmente essa a razão de suas preocupações constantes com dinheiro.

Havia uma expressão um tanto triste em seu rosto, que se manifestava constantemente em épocas festivas, pois era quando ele mais se lembrava de todos os sonhos que tinha e de como eles caíram, um a um, na maravilhosa “cidade do novo-começo”, enchendo-o de uma grande desilusão.

Apesar de tudo (e a despeito de sua insuperável avareza), papai não era de todo ruim e, naquele ano em especial, dia 24 de dezembro, decidiu presentear mamãe e eu com uma viagem em família para visitar alguns parentes na Amazônia.

O passeio não me empolgou em nada, pois eu preferia ficar em casa ajudando mamãe a preparar as sobremesas de Natal, porém, papai podia ser tão gentil quanto tirânico, do tipo com quem não se podia negociar, então apenas fiquei em silêncio e fui para meu quarto (eu só tinha 10 anos, mas minha raiva era de gente grande, podem acreditar).

Para adiantar a história, posso dizer que fomos eu, papai e mamãe para o aeroporto (nem me lembro qual o nome dele), mas foi ali que tive a mais divertida aventura de minha vida: meu primeiro encontro com papai Noel – e falo do verdadeiro!

Havia um grande trenó estacionado dentro do edifício, rodeado de guardas, mas isso pouco me atraiu a atenção, que estava focada no veículo maravilhoso: era vermelho e reluzente, como a maçã mais polida do mundo, tinha detalhes em ouro, estofamento de veludo vermelho e um grande saco também vermelho, de onde Noel certamente tirava seus presentes.

Atreladas ao trenó estavam as 8 famosas renas de Noel (a 9° delas seria Rudolph, que não estava presente), com rédeas limpas, carregando guizos prateados e dourados, que produziam um som encantador.

Papai Noel estava vestido com seu traje habitual vermelho, com detalhes em branco, botões de ouro, chapéu vermelho (e um tanto felpudo), botas de couro pretas e um cinto com fivela de ouro majestoso.

Achei engraçado que ele parecia muito menos “gordinho” do que se vê nos desenhos animados (mas garanto que sua figura era imponente, mesmo assim), mas foi a expressão de cansaço – e aflição – estampada em seu rosto que me chamou a atenção: o homem mexia em sua barba branca constantemente, enquanto reclama com um funcionário do aeroporto:

—Mas isso é um absurdo! – reclama o Bom Velhinho – Meu visto não pode estar vencido! Além disso, ele sempre foi uma mera formalidade, nunca precisei dele de verdade!

—Lamento muito senhor – dizia um desagradável (e bigodudo) funcionário – Mas sem o visto em dia, o senhor não vai viajar este ano!

As pessoas já se aglomeravam, divertindo-se com toda aquela cena e dizendo “olha só, esse ano o aeroporto montou uma apresentação”, mas eu sabia de imediato que aquele senhor de barba branca não era um ator, mas a figura real.

Qualquer um que ouvisse o som dos guizos com atenção, visse aquelas renas ou olhasse dentro daqueles olhos azuis e cheios de magia de Natal – e posso dizer que aqueles eram os olhos de Noel – perceberia imediatamente o erro e deixaria aquele senhor seguir viagem.

Mas claro, para uma criança de 10 anos era fácil perceber toda a magia, mas para os adultos tudo sempre é mais complicado, pois só entendem de ternos caros e números em folhas de papéis.

Caminhando até Papai Noel, perguntou se ele não poderia arrumar alguém que fizesse as entregas (naquele momento eu estava inspirado pelo espírito de natalino), mas meu pai ajeitou o terno cinza – horroroso — e arrumou os cabelos escuros, pedindo que eu não atrapalhasse aquela apresentação.

Noel, porém, não era um adulto chato como todos os outros, mas alguém muito perspicaz, do tipo que percebe quando recebeu um bom conselho:

—Não é má ideia… Mas quem eu poderia chamar? – pensou Noel – Bom, vejamos… Aqui é o Brasil, então seria interessante ter alguns ajudantes nativos…

—Se me permite, venerável senhor – comecei, com ares de “gente grande e respeitável” – Eu poderia sugerir alguns nomes?

—Hohoho, e quem você sugere?

—Saci-pererê, Curupira e Caipora.

Pensando por um instante, Papai Noel concordou e moveu suas mãos com luvas brancas, fazendo um bonito pózinho mágico, cheio de estrelas, se espalhar pelo edifício inteiro do aeroporto.

Em poucos instantes, as criaturas folclóricas estavam ali, olhando ao redor, sem entender nada.

Saci tinha pele escura, lábios grossos, um cachimbo (que depois fiquei sabendo ser novo, do tipo que soltava bolhas de sabão, pois Saci não fumava mais), uma bermuda vermelha de onde saia sua única perna, um gorro também vermelho e nenhum fio de cabelo na cabeça, cílios ou sobrancelhas – apesar de tudo, achei o baixinho muito simpático.

Saci andava descalço, assim como seus dois companheiros, Curupira e Caipora (que achei um tanto parecidos).

Apesar de parecerem um tanto bravos no início, logo percebi que também eram “gente de bem”, como papai dizia, a começar pelo Curupira, com seus cabelos cabelos vermelhos como fogo, pés virados – sua marca registrada – uma lança indígena e uma tanga também vermelha.

Quanto a Caipora, tratava-se de uma indiazinha mais baixa que Curupira, com cabelos vermelhos, desenhos de tinta escura no corpo, um saiote de penas e uma lança bastante pontuda.

Caipora montava um porco-do-mato (eu disse que ela era baixinha, como a Mônica do senhor Maurício), mas nada em sua fisionomia sugeria algo que não fosse respeitável ou apenas temeroso.

Como a ideia de trazer os três até o aeroporto tinha sido minha, senti que era meu dever explicar a eles o que estava acontecendo, mas logo Saci começou a fazer das suas, voando em um redemoinha até a cafeteria do lugar e azedando o leite.

Felizmente, os poderes de Papai Noel foram suficientes para conter as travessuras de Saci que, seguido de Caipora e Curupira, aceitaram trabalhar como ajudantes do Bom Velhinho naquele Natal.

Apesar de tudo, acho que Noel não confiava tanto assim em seus novos auxiliares, de modo que pediu que eu entrasse no trenó, junto com eles, e servisse de “fiscal natalino”, para impedir que os três arruinaram a mais bela noite do ano.

Não sei se o porco-do-mato estava confortável no trenó, mas a viagem precisava seguir o quanto antes, então Noel pediu que Curupira guiasse o veículo (pois ele era bom em achar caminhos ou apenas fazer os outros se perderem), enquanto Saci e Caipora serviriam de duendes, entregando os presentes nas casas ao redor do mundo.

Quanto a mim, eu seria responsável por indicar as casas que deveriam ser visitadas, utilizando para isso um mapa muito bonito, com desenhos que se moviam como se fossem animações.

Partindo dali, resolvemos começar as entregas pelo continente Americano, mas a partir do Brasil (porque o país merecia ser o primeiro em alguma coisa), sem perda de tempo.

No decorrer da viagem, as habilidades de “encontrar o caminho certo” que Curupira possuía, logo se mostraram bastante úteis, já que em meio aos grandes aviões e grupos de pássaros em migração era fácil se perder.

“Vamos começar pela parte Sul do Brasil” disse Curupira, enquanto Caipora montava em seu porco-do-mato e preparava-se para receber os presentes e entregar nas casas (essas logo estariam ali, diante de todos, prontas para serem visitadas).

Eu lia o mapa e mostrava a direção que deveríamos seguir, enquanto meu amigo de pés virados escolhia as melhores rotas, até que começamos a, de fato, fazer as entregas.

Não sei exatamente onde estávamos, mas acho que deveria ser Santa Catarina, onde dizem que há um tipo de geada, mas não sei, pois nunca vi nada assim.

Só posso dizer que era divertido ver Saci colocando os presentes do grande saco vermelho dentro de um redemoinho, que abria janelas e chaminés e levava os presentes para dentro das residências.

Fomos seguindo para as demais regiões do Brasil, retornando para São Paulo e indo para o Rio de Janeiro (onde Caipora espetou com a lança o traseiro do Saci, por ele querer enfiar o dedo no nariz do Cristo Redentor).

Quando avistamos as praias do Rio, agradeci por não ter tido a ideia de sugerir ao Papai Noel que trouxesse um Boto Cor-De-Rosa para ser ajudante natalino, já que isso poderia trazer dores de cabeça para todos.

Acho que o melhor momento foi quando Curupira parou em uma casa feita de madeira simples e apareceu diante de um garotinho, que chorava pela morte do gato de estimação.

Com um movimento das mãos, meu amigo de pés virados trouxe o gatinho de volta a vida, enquanto Saci espalhava pela humilde casa os enfeites e presentes de Natal e Caipora enfeitava um pinheiro de plástico (pois estávamos no Brasil e assim é mais comum) com os mais belos adereços de Natal – na verdade ela começou a enfeitar a árvore com flores coloridas (que trazia com sua mágica) e alguns muiraquitãs bastante bonitos.

Não havia uma ordem de visitação dos Estados, então uma hora estávamos em Minas Gerais, outra partíamos para o Amazonas e chegávamos no Amapá!

Sobre a selva Amazônica, o momento mais divertido foi quando visitamos uma tribo no alto Xingu: Me diverti bastante entrando dentro de uma grande taba e entregando embrulhos feitos de folhas verdes e vermelhas, que continham coisas lindas, como potes super decorados, colares coloridos e livros sobre os mais variados temas – sei disso porque alguns curumins abriram parte dos presentes.

Saci tirou de dentro do saco vermelho algumas caixas bastante grandes, que depois fiquei sabendo serem “computadores super tecnológicos”, mas admito que a ideia de índios usando essas máquinas me deixou um tanto surpreso.

Felizmente, o chefe da tribo me explicou que eles usavam sim computadores e também tinha energia elétrica, inclusive me dizendo que às vezes eles iam até Brasília para reclamar sobre invasões de terras, leis e muitos outros assuntos importantes.

Já que mencionei Brasília (nosso destino seguinte), quando lá chegamos, Saci não conseguiu se segurar e colocou pimenta com óleo de rícino dentro do café de nosso “amado e divino” presidente da república, Armando Skhemma, do partido…

Bem, na verdade não me lembro de que partido ele era, mas tinha muitas letras, como naquelas sopas.

Nós trouxemos alguns presentes, mas havia tantos deputados e senadores na “”lista dos levados”, que preferimos seguir para as casas residenciais e depois sair dali, prosseguindo com a viagem e depois voando para outros países.

Nunca vi tantos lugares incríveis na vida! Estivemos nos Pampas, visitamos o México e suas grandes pirâmides (Caipora aproveitou para perseguir um grupo de caçadores, mas se contentou em ver Saci jogando neles uma colméia de mel cheia de abelhas).

Quando chegamos nos EUA, Caipora ficou chocada quando voamos até Dakota do Sul e vimos o Monte Rushmore: ela ficou cheia de desgosto, dizendo que “os homens feriram a rocha! Destruíram a beleza natural!” e segurando sua lança como se fosse o tridente de Poseidon ou o cajado do juízo final.

Tantos países, tantos continentes, tantas cidades diferentes! Londres (onde presenteamos Charles III), Paris (lá presenteamos um orfanato com muitos doces, brinquedos e tapiocas), Nova Délhi (eu disse que não havia ordem nos lugares que visitávamos! Aquele trenó era muito estranho) e até Istambul!

A viagem foi bastante tranquila, mas quando chegamos na região da Ucrânia, as coisas mudaram um pouco, considerando que o país vivia uma guerra com a Rússia.

Curupira pousou o trenó perto de algumas ruínas e Saci ajudou Caipora a pegar mais presentes, porém, algo chamou nossa atenção: soldados ucranianos cantavam uma velha canção de Natal, enquanto um grupo de sete militares russos, sentindo-se estimulados pelo gesto de seus “inimigos”, também começou a entoar uma bela cantiga natalina – acho que aquela música deveria ser popular nas igrejas de Moscou, mas não sei dizer.

Russos de um lado, ucranianos de outro; dois inimigos que tentavam se destruir a meses, mas que, naquele momento, se recordavam de que todos eles eram filhos de Deus e amigos de jornada, cujo destino final seria a sepultura e o paraíso – não por força da guerra, mas porque a vida é finita e o destino dos homens é se reunirem no céu.

Noel havia reservado para aquele grupo de homens presentes interessantes: remédios, alimentos, roupas novas e pequenas caixinhas de madeira contendo cartas dos familiares daqueles soldados.

Comecei a pensar no sentido que meu pai dava ao Natal, dizendo que era apenas uma festa tola onde o comércio e o dinheiro eram mais importantes do que tudo, mas tive de considerar a visão que eu estava testemunhando ali, com aquelas pessoas que, apesar dos dias difíceis, ainda encontravam alívio no velho espírito natalino.

Não podíamos nos demorar, então a viagem seguiu para o restante do mundo, como Japão (onde dei ao imperador um jogo de chá), China (onde Saci abafou um discurso do presidente com seu redemoinho), Austrália (onde Caipora montou em Avestruzes e atacou caçadores) e até mesmo Israel!

Era muito bom ver que a capacidade das pessoas de se amarem, perdoarem umas às outras, partilharem o pouco que tinham com os menos afortunados e entenderem que, neste mundo, somos apenas turistas, parecia crescer o máximo possível no Natal, independente do país.

Em alguns lugares o Natal não era comemorada, como Arábia Saudita e Coréia do Norte, porém, o mesmo espírito que eu vi no Brasil, EUA e em vários outros países, também pude ver em nações onde os festejos natalinos sequer eram permitidos: vizinhos se tratando bem, maridos abraçando suas esposas e elogiando-as sem qualquer motivo, filhos estudando diligentemente para suas provas e dizendo alegremente aos pais “vou passar! Não é legal?”

Saci, Caipora e Curupira também não entendiam a razão de tantos povos partilharem desses sentimentos bons, mas comecei a pensar que o Natal era mais do que uma data e que o chamado “espírito natalino”, talvez, tivesse outras denominações.

De fato, mesmo quando eu via os enfeites que eram tirados do grande saco, percebia que nem sempre eram do tipo comum, quer dizer, muitas vezes não haviam serpentinas, bolinhas de Natal, luzes coloridas e coisas desse tipo.

Caipora tirou um cesto de frutas e entregou para uma família humilde, enquanto Saci deixava em cima da mesa da sala um candeeiro feito de cobre muito bonito.

Na minha cabeça ainda era 24 de dezembro, porém, eu não conseguia dizer se era noite ou dia, pois em alguns países havia luz do sol, em outros só havia a Lua (ou nem isso) e as estrelas.

Não sei quanto tempo se passou, mas acabei adormecendo no trenó e, quando acordei, estava em casa e na minha cama, ainda em São Paulo.

Levantei e vi a árvore ricamente iluminada, mas não pude deixar de refletir se tudo aquilo havia acontecido de fato ou era apenas um estranho sonho noturno.

Caminhando em direção a sala, vi meu pai conversando efusivamente com um vizinho chamado Alberto, que estava com seu irmão, Christopher, um amigo meu.

Era raro encontrar papai tão animado, mas minha mãe apareceu e explicou a razão de toda aquela alegria: papai havia se tornado o representante do governo da Lapônia (uma região da Finlândia) no Brasil, sendo que teria um novo escritório e também seu nome escrito em todos os documentos oficiais.

De acordo com mamãe, meu pai cuidaria de tudo que fosse relacionado ao Natal, o que incluía, segundo ela, “manter vistos e passaportes com validade em dia”.

“Mas por que isso? Como ele conseguiu esse emprego do nada?”, perguntei, quando minha mãe acariciou meus cabelos castanhos, olhou nos meus olhos verdes e disse:

—Foi um ator no aeroporto que deu ao seu pai essa oportunidade. Parece que ele era uma figura importante e tinha muitos contatos na Finlândia. Seu pai disse que não entendia nada dos finlandeses ou da língua deles, mas o ator disse que não havia problemas, pois tudo seria ensinado… Além disso, como o trabalho é, em grande parte, home office, seu pai terá mais tempo para passar com a família!

Bastou minha mãe dizer isso para eu perceber que, talvez, meu sonho talvez fosse mais real do que eu havia cogitado antes.

Quando retornei ao meu quarto, vi uma caixinha de presente em cima da minha cama, com um cartão desejando feliz Natal.

Era muito bonita, com papel verde e laço vermelho, mas me surpreendi quando abri o presente e vi o que tinha dentro: Uma cópia de “Uma Canção de Natal”, de Charles Dickens.

Nesse momento, peguei meu caderno em cima da escrivania e registrei o que aprendi na longa viagem noturna, descrevendo tudo que eu me lembrava.

Mais para a noite, quando Christopher me perguntou o que eu estava fazendo, eu lhe contei tudo o que aconteceu e falei sobre o espírito de Natal, ao que ele me questionou:

—E nessa viagem, o que você aprendeu sobre o Natal?

Era legal saber que meu amigo não duvidou da minha história, em momento algum, de forma que me senti confiante para falar sobre a lição que aprendi:

—Bem… Eu viajei o mundo todo e vi muitas pessoas que nem sempre comemoravam o Natal, mas o que se pode chamar de “espírito natalino” estava lá, de alguma forma… Estava por toda parte. Aprendi que partilhar o que se tem com os humildes, perdoar as ofensas, tentar fazer o bem… Sabe, essas coisas que se pode fazer todos os dias, sem raiva ou inveja… Tudo isso também faz parte do Natal. Mesmo que você não tenha lá muitos enfeites, ou coisas desse tipo, ainda pode se divertir no Natal… Quer dizer, eu vi soldados cantando e aproveitando a pausa, mesmo no meio de uma guerra!

—Então… – disse meu amigo – O significado do Natal é você ser “bom”?

De certa forma sim, nós podemos ser natalinos o ano inteiro, sem precisar de festas, ceias ou qualquer coisa desse tipo. Acho que manter o espírito de Natal ao longo do ano é até mais importante do que celebrar ele apenas uma vez… Pensando bem, acho que também podemos pensar assim com aniversários, Páscoas e outros momentos divertidos.

Enquanto eu conversava com meu amigo, ouvi Albert lendo na sala o texto de Lucas, capítulo 2, sobre os pastores que recebiam de um anjo a notícia do nascimento de Jesus, então Christopher e eu fomos para a sala.

“E isto vos será por sinal: achareis o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura", lia Albert, que prosseguiu até o final do texto.

Após ouvir as palavras do irmão, Christopher comentou comigo:

—Você tem razão… Jesus também não teve enfeites, brinquedos, árvores com luzes ou uma ceia super legal… mas acho que aquele Natal também foi legal, ou a gente não falaria dele até hoje, certo?

—Certo – respondi – Você está com a razão.

Aquela noite foi divertida, mas fiquei surpreso quando papai me disse que ainda era 24 de dezembro e que, portanto, era véspera de Natal.

Fiquei muito feliz com isso, pois era como se Noel houvesse passado na minha casa uma segunda vez, assim como foi bom ter a visita de mais alguns amigos naquela noite, inclusive Karen e sua amiga, Margo.

Para encurtar, no dia seguinte, fui até a escola e perguntei se a professora anda precisava de ajuda com a distribuição de presentes para o orfanato, ao que ela respondeu que sim.

Passei boa parte da manhã ajudando a distribuir os presentes (Christopher também estava lá, então foi divertido), mas não foi difícil, já que eu havia feito algo parecido no dia anterior – além de ter sido também turista e fiscal de criaturas folclóricas.



Fim.

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