A Lenda dos Dragões
20 Separação
Notas iniciais
O sol mal havia aparecido na cidade do porto, e Nicholas já estava se embebedando em uma taverna.
— Será que eu devo voltar lá? — O pirata conversava sozinho enquanto entornava uma bebida.
Ele estava naquela taverna há quase 24 horas e já estava fedendo, se ele aparecesse na frente da Tereza naquela situação, ela provavelmente o desinfetaria com fogo.
Os pensamentos de Nicholas, foram interrompidos pelo barulho da velha porta se abrindo.
Um homem comum, carregando alguns panfletos, caminhou pelo estabelecimento e parou diante de um mural de missões.
— 100 MOEDAS DE OURO???
Um bêbado gritou, poucos segundos depois que o homem havia colado o panfleto. Não demorou muito para que uma multidão de outros bêbados se aglomerasse diante do mural.
Os homens sumiram tão rápido quanto haviam aparecido, era uma corrida pela missão que valeria as tais 100 moedas de ouro.
O pirata esperou até o momento em que o mural estivesse vazio e se aproximou.
Os olhos de Nicholas se arregalaram ao ver os detalhes da missão. Estava um pouco diferente, muito mais velha, mas ele tinha certeza que conhecia a garota da pintura.
— Recompensa de 100 moedas de ouro para quem trazer essa garota viva… No que diabos Sophia está envolvida? — Nicholas estava confuso.
Talvez fosse uma boa hora para voltar até a casa de Tereza.
Na hospedaria, Karin foi despertada pela conversa de Chow e Jean.
Ela não dormiu muitas horas, e acreditava que os garotos nem sequer haviam dormido.
— Por que ele resolveu ir sozinho?
Karin reconheceu a voz de Chow, enquanto se revirava na cama.
— Eu não sei… não é como se o Nicholas fosse o tipo de pessoa que se pode prever as ações. — Jean respondeu com certa revolta.
— Você está mentindo. — Karin dizia em voz baixa.
— Então você está acordada. — O lobo revirou os olhos.
— O que você está escondendo? — Chow o encarou.
— Por que vocês sempre caem em cima de mim quando estão com dúvidas? — Jean se levantava com revolta na voz.
— Porque você sabe mais do que diz. — A princesa se sentou na cama.
— Desembucha Jean! — Chow pressionou.
— Olha, se vocês querem saber coisas sobre o Nicholas, perguntem ao Nicholas. — Jean estava visivelmente desconfortável.
— Olha Jean, eu sei que o Nicholas é seu amigo e você não quer trair a confiança dele. Mas tá mais que claro que ele não é flor que se cheire, você deve estar muito cego para não perceber isso! — Karin carregava reprovação em sua voz.
— Eu não sou cego! Vocês é que são prepotentes, e o julgam sem ao menos conhecê-lo direito!
Pela primeira vez, Chow e Karin, puderam ver o pacífico Jean se alterando.
— Ele é um pirata, um ladrão, um mentiroso. — Chow dizia com rispidez — Quais coisas boas ele tem a oferecer? Por que deveríamos confiar nele? Por que você confia nele?
— Chow… — Karin tentava conter a revolta do amigo.
— Ele salvou a minha vida e a minha aldeia!
A resposta de Jean fez com que os dois garotos se calassem.
— Há alguns anos atrás, a aldeia dos lobos do norte estava sendo atacada por um grupo de trolls do subterrâneo. — Jean dava início a história — Estávamos completamente perdidos, até ele aparecer…
As memórias surgiam ao garoto como um filme.
Naquele mesmo dia em que se conheceram, sentados na grama que cercava a aldeia, Nicholas e Jean observavam o pôr do sol.
— A última vez que assisti o sol se pôr assim, eu estava ao lado de uma garota bonita. — Nicholas soltou, um pouco nostálgico.
— Não pretende se declarar para mim agora né? Já quero deixar claro que você não faz o meu tipo! — Jean dizia com ironia.
— Droga… — Nicholas fingiu decepção.
Os dois riram por um tempo, até o momento em que Nicholas observou uma movimentação na aldeia.
— O que está havendo? — O forasteiro estava curioso.
— Os habitantes da aldeia estão se preparando para migrar. — Jean estava desanimado.
— Mas por que? Aqui parece um ótimo lugar para viver!
— É, é um ótimo lugar mesmo. Estamos aqui há gerações… mas os trolls estão nos forçando a sair. — O lobo respirou fundo — Já perdemos inúmeras vidas tentando defender o nosso território, mas é hora de aceitar a derrota. Hoje mais um grupo de guerreiros irá enfrentar os monstros, uma tentativa de ganhar tempo, até que os civis estejam longe.
Nicholas ficou em silêncio até o momento em que Jean se pôs de pé.
— Bom, já é quase noite, essa é a hora que os trolls aparecem. Eu vou me juntar ao grupo de defesa, por favor, procure um lugar seguro com os aldeões. — Jean sorriu de forma simpática — Foi um prazer te conhecer Nicholas.
— Está dizendo que o Nicholas salvou a sua aldeia? — Karin interrompia as memórias de Jean — E eu achando que ele não seria capaz de salvar a própria mãe se isso não causasse algum retorno egoísta.
— Esse é o problema! Vocês não o conhecem! — Jean encarava Karin com determinação — Ele é um homem bom! E vocês podem confiar nele.
— Não, não podemos! — Chow retrucou — Pessoas confiáveis, não ficam mantendo segredos!
— O que vocês não entendem é que o Nicholas tem problemas pessoais envolvidos em tudo isso! — O lobo argumentou mais uma vez.
— Mais pessoal que o fim do mundo? — Chow dizia com sarcasmo.
— Está falando da filha do duque Thomas?
Após a fala de Karin todos na sala ficaram em silêncio.
— O que? — Chow estava por fora da história.
— Ele não quis ver o duque por isso né? Ele não queria encará-lo depois da morte da garota… — A princesa pressionou.
— Essa história não é minha Karin, se quer saber da vida do Nicholas… pergunte a ele. — Jean estava sério e determinado.
— Me desculpe eu…
— Você está fazendo essas perguntas por puro capricho. A Isis não tem nada a ver com a nossa jornada. — Jean interrompeu Karin com rispidez.
— Isso não é verdade, eu só queria que de alguma forma… — Karin sentiu os olhos de Jean a encarando com tanta intensidade que foi incapaz de argumentar — Desculpe.
— Tereza Hwang é neta de Hwang Hao. Ela foi mestra do Nicholas e os dois cortaram contato há muito tempo. Isso é tudo o que eu sei. — O lobo se levantou da cadeira em que estava.
— Você sabia dessas coisas e escondeu de nós? Me fez ir até uma droga de um cartório ficar revirando papéis empoeirados e você simplesmente sabia de tudo? — Karin estava incrédula.
— Eu já disse, isso não é um segredo meu…
— Não se trata de guardar segredos para um amigo, Jean. Você mentiu junto com ele! Você é um ótimo amigo mas, com certeza, não com gente. — Karin estava claramente irritada — A sua história com o Nicholas não fez com que ele parecesse mais confiável, apenas revelou que você é tão duas caras quanto ele!
— Karin… — Chow estava assustado com a reação da garota.
— Então eu acho que você não precisa mais da minha ajuda também. — O lobo estava claramente chateado.
— É… — Karin se virou para a janela do quarto, evitando olhar no rosto de Jean — Não dá para se concentrar na nossa missão se tivermos que lidar o tempo inteiro com os joguinhos de vocês.
— Entendi. — O lobo seguiu seu caminho até a porta, abriu e partiu sem dizer mais nada.
— Tem certeza que é isso que você quer? — Chow observou a garota esconder o rosto.
— Não… — Karin estava com a voz abafada.
— Vem cá. — Chow acolheu Karin em seus braços e permitiu que ela chorasse.
— Eu não sirvo para essas coisas… Eu nem sei se deveria ter sido tão dura. — Karin chorava baixinho.
— Se serve de consolo eu nunca quis eles no grupo, então acredito que você foi até muito paciente.
— Sinto falta da Ana, ela sempre sabe o que fazer.
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