A Lenda dos Dragões
6 O Navio pirata
Notas iniciais
— Eu não confio nele…
Um homem alto, careca, vestindo uma túnica amarela, andava de um lado para o outro.
De quem ele está falando?
Ana encarava o homem desconhecido, tentou dizer algo, mas da sua boca não saía som algum. Depois de tantos dias de pesadelos seguidos, ela foi capaz de identificar que estava em um.
— Bom dia.
O garoto que estava presente nos outros sonhos havia surgido na porta daquele lugar estranhamente familiar.
— Você não foi convocado!
O homem careca repreendeu o rapaz com voz firme.
— O que foi Chang?
O rapaz sorria enquanto estendia as mãos a frente do corpo em sinal de defesa — antes mesmo que vocês resolvessem dar um passeio aqui no oriente, eu herdei a liderança desse templo.
— Seu tempo passou garoto.
O homem chamado Chang informou. Ana não entendia bem o que estava acontecendo, mas sentia uma grande aura negativa entre aqueles dois homens.
— TRAIDORA MALDITA!
Uma voz estrondosa fez o coração de Ana acelerar, instintivamente seus olhos procuraram a origem do som e deu de cara com machado gigantesco que rasgou o ar em sua direção. Os olhos do homem que a atacava queimavam como fogo, e liberavam um ódio que ela jamais havia sentido antes.
Ana se levantou da cama com brutalidade, mais uma vez os lençóis estavam molhados de suor, o relógio na parede marcavam 4 da manhã, mais uma noite ruim.
— Chang.
Ana sussurrou. Era a primeira vez que seus sonhos nomeavam alguém, ela não poderia deixar aquilo passar, e aquele nome era tão familiar.
Ana refletia enquanto se trocava.
— Chang…
A sacerdotisa caminhava pelos corredores do castelo, pensativa. Aquele nome era familiar.
— Chang.
Ana repetia freneticamente enquanto andava cada vez mais rápido, até que seus passos pararam subitamente.
A garota se virou lentamente para a parede ao seu lado e observou com cautela o enorme desenho que estampava aquela luxuosa parede de gesso. Seus dedos passeavam pela pintura até pararem em um determinado ponto, onde algumas letras formavam um nome: “Chang”.
O nome pertencia ao grande dragão amarelo, a imagem desenhada era de uma enorme fera cercada de rochas e flores, muito diferente do homem sereno com quem ela havia sonhado. Ana sabia que os Dragões Sagrados, tinham a aparência humana na época das guerras, mas ela nunca tinha visto uma pintura do rosto deles ou algo parecido. Foi naquele momento que uma idéia veio em sua mente, havia um lugar onde ela poderia saciar as suas dúvidas, e foi para esse lugar que Ana correu o mais rápido que suas pernas conseguiam aguentar. Foi então que ela parou de frente a uma enorme porta de madeira onde letras douradas escreviam “BIBLIOTECA”.
— A biblioteca real.
A garota falava de forma silábica enquanto permitia que sua memória a levasse ao passado. Aos 11 anos, Ana implorava para poder entrar naquele lugar, lembrava que a sua fascinação pelos dragões era imensa, mas sempre foi negado: “Crianças não são permitidas!” Era o que todos diziam. Ana sabia que ali guardava livros de mais de meio século e muitos segredos, crianças poderiam sujar, rasgar, danificar… era compreensível a repreensão, porém depois de completar 18 anos, para ela, o interesse por dragões havia ficado no passado. Além das atividades do templo tomar tanto o seu tempo, que a biblioteca não era uma opção.
Três anos depois, ela estava ali, diante daquela porta com, não somente a autoridade de um adulto, mas também de uma sacerdotisa. Uma expressão de triunfo estampava seu rosto, enquanto a velha guardiã a olhava com certa desaprovação. A velha Ling já havia colocado Ana para fora algumas vezes na infância e apesar do passar dos anos, ainda lembrava o rosto da garota teimosa. Ana sorriu como quem dizia “Agora eu sou adulta velha Ling”. O sorriso de Ana se desfez ao se lembrar, o quanto queria contar aquela situação para Chow e Karin, afinal eram eles que a acompanhavam nas tentativas falhas de invadir a biblioteca.
Talvez não tenha sido uma boa idéia ter apenas dois amigos na vida
A garota refletia.
Depois de se afastar da entrada Ana passeava pelas estantes, tinham livros de todos os tamanhos e cores, mas como o esperado uma estante em especial, afastada de todas as demais tinha um emblema de dragão estampado em sua extremidade.
— Clássico.
Ana dizia com sarcasmo enquanto se dirigia até o local.
— Aaah isso é incrível!
Muito longe dali, Karin se debruçava na beirada no navio.
— Tome cuidado!
Chow se aproximava da garota.
— Olha o tamanho disso Chow!
Karin sorria de forma abobada.
— Karin, é só água.
O rosto de Karin adquiriu um tom avermelhado, que misturava irritação e timidez. Foi então que Chow se lembrou que aquela garota havia saído pouquíssimas vezes dos arredores do castelo e o mar era uma novidade.
— Aqui está seu chá, senhora.
Um homem bem vestido se aproximava da princesa com uma bandeja visivelmente luxuosa.
— Não entendo por qual motivo você escolheu um navio tão caro, tem uma infinita variação de barcos de pesca que podiam nos levar tranquilamente ao continente.
Chow expressava descontentamento.
— Simples querido Chow…
Karin entregava uma xícara ao garoto — Você está acompanhando uma princesa.
Antes que Chow pudesse dizer qualquer coisa, um enorme impacto arremessou os dois no chão.
— O que foi isso?
Karin se agarrava ao braço de Chow, enquanto olhava para o grande navio que havia batido neles.
— Meus queridos amigos, venho informá-los com pesar que vocês estão sendo saqueados.
Um homem alto, de cabelos ruivos, vestido de forma grosseira dizia em alto e bom som com um sorriso no rosto. A tripulação inteira entrava em pânico, no momento em que vários piratas subiam a bordo do navio.
— Mas não se preocupem, o traseiro rico de vocês não será lesado.
O bandido completou.
— Entende agora o porquê de eu não gostar de barcos caros.
Chow sussurrava a garota.
— O que temos aqui…
Um pirata se aproximava de Karin — Você é tão bonitinha! Não quer ser minha esposa?
— Tire as suas mãos imundas dela!
Chow empurrou o pirata com tanta força que o fez cair para fora do barco.
— Não devia ter feito isso com Dick, grandão!
Um outro homem avançava na direção do guerreiro com uma faca em punho. Habilmente Chow agarrou o braço do pirata que carregava a arma e o torceu. O grito do bandido chamou a atenção do bando e num instante, Chow estava cercado.
Um, dois, quatro piratas desmaiados e um guerreiro no meio esperando os próximos adversários.
Os outros saqueadores recuaram um pouco assustados.
— Que vergonhoso rapazes, fugindo como ratos?
Um novo homem havia saído do navio pirata. Diferente dos outros, esse tinha boa aparência e se vestia de forma refinada.
— Capitão Nicholas, esse cara me jogou para fora do navio e espancou os rapazes!
O tal Dick, subia no navio pirata, completamente encharcado.
O capitão observou Chow por um tempo, e lentamente se dirigiu até o adversário.
Chow permanecia alerta, tinha um sabre em sua mão direita que havia tomado de um de seus inimigos inconscientes.
Antes que o homem tivesse chance de se aproximar mais, Chow desferiu o primeiro ataque, mas sua lâmina apenas cortava o vento, pois o pirata que estava a sua frente havia desaparecido.
— Calma, calma grandalhão. Tente tirar uma soneca.
Chow sentiu uma mão tocar em suas costas, a voz do homem ficava cada vez mais distante e o guerreiro sentiu suas pernas bambearem.
— O que está fazendo comigo, maldito?
Não se rendendo facilmente ao desconhecido poder do inimigo, Chow se virou para trás com sua espada em punho e acertou um golpe no ombro do homem.
— Capitão Nicholas!
Uma mulher gritou de dentro do navio pirata.
Incrédulo, o homem se apoiou em uma das beiradas do barco.
— O que diabos é você?
— Eu é que devia perguntar isso! O que você fez comigo?
Chow estava tonto, mas mantinha sua lâmina apontada para Nicholas.
O pirata substituiu sua expressão de espanto por um sorriso.
— Vamos recuar rapazes.
— Não pode deixar esse moleque nos rebaixar dessa maneira capitão.
O subordinado Dick protestava.
— Dick, Dick, velho Dick…
Nicholas caminhava pelo barco rumo ao seu navio, seguido cautelosamente pelo sabre de Chow — Não reconhece quando perde uma batalha? Não somos selvagens.
O outro homem manteve-se calado após ouvir as palavras de seu capitão. Alguns piratas desceram do navio para buscar seus companheiros inconscientes e em seguida voltaram para bordo
— Boa viagem!
Nicholas acenava e sorria cinicamente, enquanto o barco se afastava.
Ainda um pouco confusa, Karin observava o estranho homem desaparecer em meio a névoa matinal.
— Fique perto de mim, Karin…
Chow disse de forma sonolenta antes de cair no chão.
— CHOW!
Karin se ajoelhava ao lado de seu amigo e conferia seus batimentos.
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