Matheus estava deitado em uma cama de madeira e folhas e um pano molhado em sua testa. A velha senhora estava sentada em uma cadeira ao lado da cama e os amigos do garoto em pé. Ninguém dizia nada.

— Por que fugimos? – perguntou Emanuele praticamente berrando. – Poderíamos ter vencido.

— Poderíamos ter morrido – respondeu Victor que estava do lado de fora junto com Gabriela em função do tamanho das asas de ambos. – Estávamos cansados e quando Matheus caiu eles conseguiram a vantagem.

— Eu podia ter continuado a lutar – teimou a garota.

César aproximou-se dela, coisa que não foi notada pelos demais. O garoto abriu a mão e com um rápido movimento acertou a base da coluna da garota que caiu no chão com um gemido misto de dor e cansaço.

— Por que fez isso? – indagou a mesma tentando se levantar, porém não conseguindo. Larissa e os outros também queriam saber por qual motivo o garoto fizera aquilo.

— Eu nem cheguei a botar força. Seu corpo está no limite e você nem sequer notou isso, se continuasse lutando daquela maneira não sobreviveria por muito tempo – explicou César.

— E você seria? – perguntou Gabriela para a senhora que os ajudara.

Ela não se levantou, apenas a encarou e depois voltou a olhar para o menino ao seu lado.

— Hanna, uma velha conhecida do garoto – disse despertando a curiosidade dos demais. – Matheus e meu irmão mais velho eram grandes amigos, porém muita coisa aconteceu. Peter morreu em uma batalha e ele se culpou por não poder ajudar e dois séculos depois houve a Guerra Ancestral. O menino passou por muita coisa.

— Guerra Ancestral? – indagou Amanda.

— A guerra que ocorreu há 1.800 anos atrás. Os demônios estavam conseguindo poder e tomando controle de tudo, então Matheus reuniu vários clãs, incluindo o Clã Deus, para lutar contra eles. Houveram muitas perdas, mas conseguimos parar o avanço dos demônios, matamos quase todos eles, porém no final estávamos cansados e fracos e não tivemos escolha a não ser selar os 11 restantes: Satanás e os guardas demoníacos – explicou Victor.

Emanuele levantou-se rapidamente, o que a fez sentir tonta por um momento, logo depois estava saindo do local na qual se encontravam.

— Não deveria sair com seu corpo nessas condições – falou Hanna sem olhar para a garota. – A vingança é tão importante a ponto de jogar sua vida fora?

— E o que você sabe? – gritou a outra se virando pra encará-la. – Ela me usou, me manipulou e por culpa dela... por culpa eu matei minha própria irmã. Entende o que é isso?

— Você não é a única que sente dor, existem pessoas mais machucadas que você – retrucou ainda sem encará-la. Sua mão direita foi de encontro ao rosto do demônio deitado ao seu lado. – Você matou sua irmã porque foi enganada, ele matou seu clã inteiro por vontade própria, por algo que acreditava ser mais importante: as vidas que aqueles demônios tiraram na guerra e a vida que eles teriam tirado se ele não fizesse o que fez. Diga-me: conseguiria fazer algo assim? Acha mesmo que Matheus está feliz? Eles eram a família dele.

Emanuele gritou com raiva e virou-se saindo do lugar.

— Me digam, crianças: vocês já se perguntaram que é a mãe de Matheus?

Os cinco que ainda estavam ali se entreolharam. Eles já haviam conhecido Satanás, o pai do garoto, e seus irmãos, o que sinceramente não foi nenhum prazer, porém nunca lhes ocorreu sobre a mãe dele. Victor achava que ela havia morrido na guerra, porém sempre foi apenas uma suposição, mas algo na voz da velha o fez reconsiderar a ideia. Como nenhum dos cinco disse nada, Hanna continuou a falar.

— Ela morreu pouco depois dele nascer, se não me engano há uns 7.500 ou 8.000 anos atrás, não sei ao certo. Na verdade, seria mais correto dizer que foi assassinada.

— Por quem? – pediu Gabi.

— Ninguém sabe. Alguns dizem que foi o próprio Satanás, outros que foi um anjo em busca de vingança, mas também há quem diga que foi um anjo caído que não concordava com seus métodos – ela voltou a encarar garoto. – Tudo o que ele tem da mãe é o nome: Aaba. Dizem que ela era uma demônio da mais irresistível beleza e também era muito gentil, incapaz de derramar sangue. No final ele ainda é apenas uma criança que quer ser protegida.

—

Emanuele estava com raiva. O pior de tudo era saber que seus amigos e aquela elfa tinham razão. Se continuasse lutando daquela maneira provavelmente morreria. Mas não podia evitar, tudo o que queria era matar Elena, ainda lembrava-se de como e garota a usara para tirar a vida de sua irmã.

Foi há 75 anos. Uma garota ruiva aparecera no vale das ninfas, extremamente ferida e cansada. As ninfas não puderam simplesmente deixa-la morrer e por isso cuidaram dela. Naquela época Manu lembrava-se de ter sido designada para observá-la, mais como uma compania, e em pouco tempo tornaram-se amigas.

Ela não havia notado, mas em pouco tempo tornaram-se extremamente próximo, por algum motivo era muito fácil se abrir com a ruiva, falavam sobre diversas coisas, assuntos que nunca conversaram com ninguém.

Não sabia dizer ao certo quando ou porque, mas em determinado momento não conseguia pensar em não ver mais a amiga. Sua irmã mais velha, Emma, era a guardiã da pedra sagrada das ninfas, um joia verde do tamanho de um coração, apenas a ninfa mais pura era designada para esse trabalho e, por isso e outras coisas, Emanuele era constantemente comparada a irmã, o que a irritava profundamente. Nunca havia conversado sobre isso com ninguém, até que conheceu Elena.

“Por que não a mata?” sugeriu Elena um dia. A ninfa nunca nem mesmo chegara a pensar em tal ato, mas a voz da ruiva mostrava convicção e era extremamente convincente. Emanuele não queria saber de mais nada, naquele momento tudo o que queria era estar com Elena para sempre, servindo-a. “Ela pode ser dita como a mais pura, porém você é a mais forte, era você que devia proteger tal relíquia!”, argumentou Elena. “Você sabe que pode matá-la, você sabe que quer!”, dizia ela, “Mate-a e mostre para todos que você é melhor!”, essa foi a frase final.

Depois de tudo o que foi dito, Emanuele atraiu sua irmã para um parte distante da vila, onde ambas ficaram sozinhas, desafiando-a para um duelo. Emma tentou argumentar dizendo que eram irmãs e que tal duelo não tinha sentido, porém Manu começou a atacar e ela não teve escolha senão revidar. Quando as duas estavam exaustas e Emma neutralizada, a menor estava pronta para dar o golpe final. Emma gritava e chorava, seus olhos vermelhos e desesperados, porém a outra não a ouviu e a destroçou.

No momento em que se deu conta do que fizera, no momento em que matara sua irmã, tudo perdeu o sentido. Por que fizera aquilo? Perguntava-se a si mesma.

Elena surgiu do bosque sorrindo com a pedra das ninfas em sua mão. Nesse momento Emanuele entendeu tudo: ela a controlara, a usara para destruir a guardiã e roubar a joia, fingira ser sua amiga e quando conseguiu o que queria a descartou. Ela ia atacar, mas a luta com sua irmã a desgastou e pior, as outra ninfas chegaram logo em seguida e começaram a tacharam como traidora, expulsando-a do Vale das Ninfas. Após fugir por anos ela finalmente encontrou um lar, Victor a encontrara e assim ela juntou-se ao Clã dos Pokemons Lasanha.

Emanuele nunca pensou que um dia reencontraria Elena, mas agora era a oportunidade perfeita.

Respirando fundo, Emanuele virou-se, decidida a resolver seus “assuntos pendentes” com Elena.