Notas iniciais
||Agradecimento||: Todos que estão acompanhando essa fic (Jesus, esse capítulo ficou imenso!), aos que me deram idéias, palpites sujestões... e todo mundo que eu esqueci de citar.

Link ficou olhando para o horizonte por um bom tempo. De fato, só acordou de seus devaneios ao ser levemente empurrado por algo bem maior que ele. O rapaz berrou e pulou para trás, assustado, e instintivamente puxou a espada. Ainda com o coração pulsando rapidamente e ofegando com o grande susto que levou, viu que o que o empurrou fora apenas sua égua.

— Droga, não faz mais isso Epona! Quer me matar de susto, é?

A égua bufou, e Link entendeu o recado que ela queria passar. Ele tinha que acordar para a vida e ir logo para a cidade antes que escurecesse.

Link montou em Epona e partiu para a oeste. No caminho, finalmente pôde olhar com calma para a paisagem que o cercava: os campos não tão verdes estendiam-se por boa parte da paisagem, onde também surgiam grandes árvores, tapetes de folhas secas e algumas plantas rasteiras. O outono estava começando, o que explicava o porquê de as árvores não estarem tão belas. Aliás, a terra úmida e o cheiro de chuva não combinavam com a paisagem, esta deveria ser uma época de seca... Havia uma grande e densa floresta a leste, ao lado de uma grande cadeia de montanhas. Indo adiante, as montanhas acabavam no vale por onde ele veio, mas a parte visível deste era mais viva, sem toda aquela areia. Provavelmente o deserto cessava mais adiante. O rio que saía deste vale cortava os campos por completo e, ao que parecia, desaguava no mar.

Cavalgando por alguns minutos, Link pôde ver um grande muro branco, uma ponte levadiça e, ao fundo, um pequeno castelo. A cidade com certeza era protegida por aquela muralha. A ponte estava ameaçando ser fechada. Link fez sua montaria correr mais rápido, entrando rapidamente nos portões. Dois guardas, incumbidos de fechar a ponte, olhavam para ele. Ele desceu de Epona e pediu:

— Podem esperar um pouco para fechar? Só vou resolver uma coisa...

— Que tipo de coisa? — perguntou um dos guardas.

Link se virou para Epona.

— Bom Epona, volte aqui quando eu chamar com a ocarina. E juízo!

Seu dono deu um pequeno “tapinha” no traseiro da égua, que empinou e relinchou alegremente antes de sair cavalgando em direção ao horizonte, onde o sol ainda se escondia. Sorrindo, Link voltou-se para os guardas:

— Pronto, podem fechar, se quiserem... Era só isso.

Os dois sentinelas se entreolharam intrigados e voltaram a fechar a ponte. Um deles disse, sem desviar os olhos de sua função:

— É um viajante?

— Sou.

— Então leia a placa ao lado.

Ele apontou com a cabeça para o lugar onde a placa estava. Link aproximou-se e leu: “Viajantes e povos de outras raças, favor apresentarem-se à rainha assim que chegarem à cidade.”. O jovem agradeceu aos guardas e entrou definitivamente na cidade.

Lembrava o Mercado de Hyrule, só que bem maior. Ele já ouvia dizer que aquelas terras tinham como principal atividade o comércio, já que era uma rota muito conhecida de viagem. Havia uma loja de armamentos (flechas, bombas...), uma de poções, algumas com jogos, várias barracas vendendo todo o tipo de coisa, de frutas a espadas, e havia um caminho para uma parte mais sombria, provavelmente onde ficavam as tavernas e coisas do gênero. Como já era fim de tarde, as barracas estavam sendo desmontadas e seus donos indo para casa. Link olhou à volta e viu a entrada do castelo. Dirigiu-se até lá, mas foi barrado pelos guardas.

— O que quer no castelo há essa hora, senhor?

— Acabei de chegar à cidade e li no aviso que tenho que me apresentar à rainha.

— Certo... A rainha deixou claro que a hora não importava... Mas antes, tire esta capa.

Link tirou a capa. O soldado confiscou a espada do jovem, com a bainha, e a prendeu na cintura.

— Devolvo sua espada na volta, senhor. Medidas de segurança. Pode colocar a capa novamente, se quiser.

Link vestiu novamente a capa, mas não cobriu sua cabeça com o gorro. O guarda abriu o portão e foi guiando o jovem herói pelos jardins do castelo, bem mais modestos do que os de Hyrule. Os jardins bem cuidados não estavam tão deslumbrantes pelo mesmo motivo das árvores da parte externa, a época do ano. Ao longo do caminho ele viu, tanto em paredes e decorações como nas armaduras dos soldados, o símbolo de dois dragões entrelaçados, provavelmente o símbolo da família real.

Não demorou muito para chegar ao castelo. Apesar de pequeno, era muito belo por dentro. Os quadros e tapeçarias davam ao lugar um aspecto muito suntuoso, porém, aconchegante. Link foi conduzido à sala do trono. A pesada porta estava aberta, mas o guarda fez questão de bater com a grande argola que ali estava presa, para indicar que chegara. A rainha estava sentada em seu trono, lendo alguns papéis. Link estranhou a ausência de um rei. O guarda andou até o meio do salão, com o viajante em seu encalço, olhou para a rainha, juntou os pés e segurou firmemente a lança em uma posição respeitosa e anunciou:

— Vossa majestade, este viajante acabou de chegar às nossas terras.

— Obrigada Isaac. — disse a rainha maternalmente — Descansar.

Ele se recolheu a um canto, analisando a bela espada de Link. A rainha era bela e jovem. Aparentava ter 20 anos. Tinha cabelos ondulados em um tom que não se definia entre louro-escuro e castanho-claro emoldurando seu rosto esguio, e seus olhos verdes e bondosos demonstravam cansaço e desgaste, mas também otimismo. Ela pediu para o viajante se aproximar. Ele foi até a frente e curvou-se. Sorrindo, um sorriso cansado, porém, sincero, a soberana disse:

— Seja bem-vindo à Mudora. Qual é o seu nome?

— Link.

— Link... Este nome não me é estranho... Link do quê? Você não tem um sobrenome?

— Não. — vendo a expressão incrédula da rainha, ele logo tratou de se explicar — É uma longa história... mas acho que posso resumir. Meu pai morreu na guerra de unificação das terras de Hyrule e minha mãe, muito ferida, foi buscar abrigo na floresta... Lá ela morreu, e a Grande Árvore Deku decidiu me criar junto com as crianças da floresta, os Kokiris... Fiquei até os meus 10 anos de idade sem saber disso.

— Puxa... E por acaso... Você não saberia quem eram seus pais? — disse a governante, disfarçando a comoção que sentiu pela história do rapaz.

— Não tenho a menor idéia, vossa majestade.

— Tudo bem então... Aliás, você não deve nem saber meu nome, estou certa? Sou Camille Mudora, rainha solitária destas terras. E... — ela parou de falar subitamente e fixou seu olhar na porta logo atrás de Link, apreensiva.

Passos apressados se aproximavam da sala. Link reconheceu, pela pele morena, cabelos cor-de-fogo e roupas típicas, uma Gerudo. Ela entrou correndo, cambaleante e segurando com força seu abdome, pela sala. Estava sangrando, suas vestes roxas tingiam-se de vermelho. Ela passou por Link como se ele não estivesse lá, jogou sua naginata suja de sangue no chão e ajoelhou-se diante da rainha, derrapando alguns centímetros. Com a respiração ofegante, disse:

— Perdão vossa majestade, a interrupção é necessária. Houve outro ataque.

A rainha parecia arrasada.

— Mais um... Quantas baixas, Fadilah?

— Foram poucas desta vez, graças às deusas... Creio que apenas três ou quatro soldadas de baixo escalão... E uma criança.

— Que tipo de monstro desta vez?

— Centenas de Lizalfos. Eles não são tão fortes nem resistentes, mas eram muitos e soltam fogo... Algumas de nossas tendas foram reduzidas às cinzas por eles. Foi um ataque mais efetivo do que os Stalfos da semana passada.

— Já sabem quem está causando tudo isso?

— Apenas suspeitas, majestade. E não queremos nos precipitar em apontar alguém sem provas...

— Certo... Vá até a ala médica do castelo e mande todos os médicos até a base Gerudo. Depois, mande o comandaste das tropas de Mudora vir até aqui. Vamos ajudá-las. Cansei de ser imparcial. — disse a rainha decidida.

— Obrigada, rainha Camille. E perdão mais uma vez, pela interrupção e pela sujeira.

— Não faz mal. Nunca poderia culpá-la. Cuide bem destes ferimentos e diga para Najath vir falar comigo assim que as coisas se acalmarem por lá.

— Sim senhora.

A Gerudo levantou-se com dificuldade, pegou sua arma do chão e pôs-se a correr novamente, segurando o grande e profundo corte em seu ventre, que sangrava loucamente. Lágrimas silenciosas começaram a sair do belo rosto da jovem governante. Link ajoelhou-se no mesmo lugar onde a soldada estava anteriormente, sujando sua capa com sangue, e disse:

— Não sei o que está acontecendo aqui em Mudora, mas sinto que meu dever é ajudar, majestade.

A rainha assustou-se, havia esquecido do jovem viajante.

— Você não deve se sentir obrigado, Link. Volte para Hyrule, que está vivendo um período de paz...

Ela olhou para baixo, ignorando completamente o rapaz, e sussurrou para si mesma: “Agora que a princesa Zelda está ajudando o pai a governar, Hyrule está prosperando mais do que nunca... Acho que apenas aquele herói da lenda, que os ajudou, pode me ajudar agora...”.

Link levantou-se decidido e se dirigiu até o guarda que estava com sua espada. Com movimentos rápidos, tomou-a para si, assegurou o sentinela de que ele não iria atacar ninguém e voltou para a frente da rainha, que estava o observando com atenção.

— Majestade, — começou Link -sei que é difícil acreditar apenas contando com a minha humilde palavra, mas eu sou o herói que salvou Hyrule. Preciso apenas de uma chance de mostrar que posso ajudar.

Ela ficou espantada com a afirmação por alguns segundos, mas depois voltou a usar seu sorriso terno. Pegou um papel, escreveu algo, levantou-se e foi até ele. Abriu um sorriso maior e disse:

— Agora eu sei por que seu nome não me é estranho, Zelda me contou sobre você... Sinto que o que diz é verdade. Já era hora das Deusas nos ajudarem... Procure a velha anciã que mora na loja de poções, ela lhe explicará o que precisa saber. — ela entregou o papel — Descanse por hoje, você irá precisar. Isto que te entreguei lhe garante uma estadia grátis no hotel da cidade, pelo menos por hoje.

Ela se virou e foi até o trono, mas parou no meio do caminho e disse:

— Eu sei que posso confiar em você. Boa sorte em sua jornada.

Ela sentou-se novamente em seu trono. Link curvou-se para a rainha, como uma última despedida, vestiu o capuz e foi embora, acompanhado pelo guarda. Gotas de sangue ainda pingavam de sua capa.

_________

Havia escurecido. As poucas pessoas que o viam passar olhavam intrigadas para o sangue em sua capa. Ele se ocultou totalmente entre os panos pardos, as ignorou e entrou no hotel. Este passava a imagem mais aconchegante e acolhedora possível. Era um sobrado da madeira mais resistente, com uma decoração simples. Uma senhora gorda e de rosto bondoso estava atrás do balcão.

— Boa noite meu senhor, posso ajudá-lo?

— Boa noite, preciso de um quarto... — disse Link abaixando a touca da capa e revelando seu rosto. Ele entregou o papel que a rainha havia escrito. A mulher sorriu ao ler e disse:

— Um guerreiro viajante que irá ajudar na crise? Você merece a suíte, querido. Última porta à esquerda do corredor. — e entregou as chaves — E um bom descanso para você!

— Muito obrigado.

Link foi até seu quarto. Era simples, mas muito confortável. Havia uma bela lareira, uma mesinha no centro e uma confortável cama de casal. Ao fundo, uma porta que levava ao banheiro.

Antes de ir para o seu merecido banho, ficou encarando seu reflexo no espelho por alguns instantes. Realmente, era estranho o ver com aquela barba rala, pois era uma pessoa um pouco desprovida de pêlos. Mas decidiu mantê-la.

Após finalmente lavar-se, ele sentiu fome, e se lembrou que não tinha dinheiro. Saiu do hotel para ver se conseguia algum trabalho temporário. Lá fora, tudo estava muito calmo e escuro. Ao que parecia, os problemas que ele tinha que enfrentar ainda não haviam chegado até aquele lugar...

Link caminhou por entre as ruas pensando “O que eu sei fazer?”. Bom, ele sabia lutar, usar vários tipos de armas diferentes, cavalgar, cuidar de animais (experiência que adquiriu com Epona), tocar... Se Najath estivesse no rancho, ele poderia pedir para cuidar dos cavalos em troca de dinheiro, mas ela disse que iria estar na patrulha... Aliás, a essa hora ela devia estar na base Gerudo, cuidando do ataque... Ele parou em frente a uma taverna. Poderia tentar algo lá. Cobrindo-se totalmente com sua capa, que estava lhe sendo muito útil, entrou.

O lugar era bem quente e tinha um ambiente “denso”, que passava uma leve sensação de desconforto ao rapaz. A garçonete, uma garota ruiva e sardenta que não devia ter nem 15 anos, usava um vestido branco meio encardido, com um avental amarrado à cintura. Seus belos olhos verde-azulados se concentravam em limpar um copo com um pano velho. Link a chamou e ela foi, meio que a contragosto. Não parecia gostar muito de trabalhar ali.

— Escuta, preciso de um favor... Fui roubado e estou apenas de passagem por aqui, pode me trazer algo para comer e eu te pago amanhã? Já até consegui um lugar para trabalhar por um dia, mas não posso morrer de fome até...

— Me desculpe senhor, não fazemos fiado. — disse a garota friamente, sem nem ao menos levantar os olhos do copo.

— Então... Não há algo em que eu possa trabalhar aqui? Eu trabalho por essa noite em troca de comida.

— Todas as vagas estão preenchidas... De fato, sem dinheiro tudo o que pode fazer aqui é ficar sentado onde está.

Ela se afastou para atender um senhor bêbado ao lado. Link, deprimido, ficou batendo levemente com os dedos no tampo de madeira do balcão. Saiu uma melodia. Com todos esses anos viajando sozinho, ele havia se tornado um ótimo músico, pois era a sua única distração. Não resistindo, sacou sua fiel ocarina azul e começou a “brincar” com as notas. Todo o bar parou para ouvi-lo, mas ele nem percebeu. A música o fazia esquecer de tudo, até de sua estrondosa fome. O dono do local saiu dos fundos para ver quem era o misterioso homem que encantava à todos com sua música. A garçonete disse ao patrão o que havia acontecido. Ele sorriu e cutucou o jovem rapaz. Ele parou de súbito e percebeu que todos o olhavam.

— Ei senhor, — disse o dono da taverna, um homem raquítico, careca e com um denso bigode — ainda procura um emprego temporário? Se quiser, pode tocar para nós hoje à noite.

Apesar de oculto pela capa, o sorriso de Link foi bem perceptível.

— Quanto você oferece?

— 50 rupees, uma sopa de feijão e a bebida que quiser, mas apenas uma.

— Por 100 rupees, a sopa e duas bebidas eu aceito.

O homem parou para pensar. Link, ainda sorrindo, tocou um pouco da música que Saria havia lhe ensinado há muito tempo, pois esta costumava ser a preferida de seus “ouvintes”, enquanto esperava a decisão do dono do bar. Não teve erro, todos adoraram; dois velhos com o nariz vermelho de tanto beber começaram a dançar no meio do bar.

— Tá certo, eu aceito sua proposta. Mas só entrego o dinheiro quando estivermos fechando.

Link abaixou o capuz, revelando um grande sorriso em seu belo rosto, a franja dourada brilhando com a fraca iluminação avermelhada do local. Enquanto arrumava seu gorro verde, que estava quase caindo com o “tirar-e-pôr” da capa, disse:

— Claro. Mas a sopa eu quero agora, estou morrendo de fome...

A garota que o atendeu antes ficou hipnotizada por alguns segundos. Não imaginava que, atrás daquela capa cheirando sangue, havia um homem tão belo... Ao perceber que ele havia feito um pedido, correu até a cozinha e tratou de trazer a sopa em segundos.

— Aqui está sua sooo... AI!

Ela escorregou e derrubou toda a comida na capa do rapaz.

— Por Nayru, de novo...? Me desculpe! Me desculpe!

— Ai... Não tem problema, acidentes acontecem. — disse Link tranqüilo, apesar de a sopa estar bem quente — Eu precisava me livrar dessa capa velha e suja mesmo, agora tenho uma boa desculpa... Já volto.

Link saiu, jogou a velha capa parda em um dos grandes latões de lixo que havia na rua e voltou. Uma sopa nova o esperava no balcão, bem como dois pequenos copos de saquê. A garçonete estava servindo um homem, tristemente. Parecia não se conformar por ter errado. Link tomou a sopa rápida e vorazmente, se dirigiu a uma mesa no centro da taverna com os copos na mão, sentou-se e pousou um deles na mesa, enquanto virava o outro em um só gole. Ficou atordoado por alguns instantes. Ao se recuperar, sacou sua ocarina e voltou a tocar.

Seu pequeno “show” começou lento, foi ficando cada vez mais intenso e finalmente voltou à calmaria. Às vezes, ele parava entre uma música e outra para tomar um pequeno gole de sua outra dose de saquê. As primeiras músicas foram apenas uma introdução; depois, tocou músicas bem dançantes, o que foi o ponto alto da noite: no começo apenas alguns bêbados foram dançar mas logo até o próprio Link se viu tocando e ao mesmo tempo dançando com a garçonete ruivinha; então, ele começou a diminuir a intensidade até chegar em seu ponto forte, as músicas lentas e tristes. Os bêbados choraram piamente e alguns acabaram dormindo. Ao terminar uma de suas músicas, o dono do local o cutucou levemente e disse:

— Estamos fechando, pode parar agora. — e entregou uma rupee prateada na mão do rapaz.

— Muito obrigado... — disse Link com certa lentidão.

O senhor sorriu, falou algo ao ouvido da garçonete, entregou as chaves a ela e foi embora. Ela foi acordar os bêbados dorminhocos e Link, sentindo muito sono, foi ajudá-la. O álcool reforçava sua vontade de ajudar as pessoas a qualquer custo.

— Por que ainda está aqui? — disse a garota desconfiada, enquanto puxava um senhor gordo de barbas brancas que dormia profundamente.

— Só quero a ajudar, não posso? — ele cutucou o senhor bem no meio da barriga, que acordou com as cócegas e foi embora cambaleando — Já fiz alguns bicos em tavernas quando precisei de dinheiro, conheço algumas “manhas” para acordar estes velhos babões...

Ela não disse nada. Parecia não ter uma boa impressão dos homens em geral, o que é compreensível para alguém que trabalha em um lugar como aquele. Após alguns minutos silenciosos, Link disse algo que ele estava querendo comentar desde o incidente da sopa:

— Sabe, você não deve ficar se martirizando quando erra algo, errar é humano... Eu percebi um certo medo de errar em você...

Ela continuou calada, fazendo seu trabalho. Como aquele cara poderia saber tanto sobre ela apenas observando? Link percebeu que não agradou e simplesmente continuou, calado, ajudando a acordar os homens até não restar nenhum.

— Bom, — disse ela segurando a porta aberta — muito obrigada e boa noite.

Link saiu e esperou-a trancar a porta. Ela levou um susto ao ver que o rapaz continuava lá.

— Que foi? — disse ela irritada — Perdeu algo na minha testa?

— Só ia me oferecer a te acompanhar até a sua casa... Uma moça como você não deveria andar sozinha a essa hora... Quantos anos você tem?

Ela parou desconfiada, achando que ele era apenas mais um cafajeste, mas se lembrou da dose de saquê que ele virou e entendeu melhor os atos impensados do jovem. Resolveu responder tranquilamente, já que bêbados não se lembram de nada no dia seguinte.

— Faço 15 daqui a um mês e meio... Mas não sou tão indefesa quanto pensa. — dizendo isso, sacou uma espada curta, cuja bainha estava presa nas amarras do avental, e apontou para a garganta do rapaz em um gesto ágil.

— Puxa... Onde aprendeu a usar isso garota?

— Trabalho neste bar para ajudar minha mãe doente desde os 12 anos. — disse ela, guardando a espada de volta. O avental ocultava sua arma muito bem — Com tanto tempo, tive que aprender a me defender de ladrões e de alguns bêbados abusados... Ossos do ofício.

Link sorriu. A moça riu, a cara de sono do músico era engraçada. Era incrível como alguém podia ficar bobo assim apenas com duas doses de saquê... Mas ela pensou melhor e lembrou-se que errou a garrafa, ia servir o mais fraco, mas colocou o saquê conhecido como “mata-dragão” em seu copo sem querer... Não sabia nem como ele ainda estava de pé.

— Bom, acho que não sou necessário então... — disse ele lentamente — Se quiser, considere que você ganhou um amigo. Volto no seu aniversário. Tchau...

Ela sorriu e beijou a bochecha áspera do rapaz, maternalmente.

— Até mais amigo!

Link foi cambaleando levemente até o hotel.

_________

O jovem herói acordou tarde, e com a sensação de que fora pisoteado por Epona. Era incrível o que duas doses do saquê mais forte da taverna poderiam fazer... Não se lembrava de muita coisa da noite anterior, mas sabia que tinha que voltar àquela taverna em um mês e meio. Tentando se lembrar quem lhe dissera que saquê não dá ressaca, ele foi direto para o banho. Isto melhorou bem a sua dor de cabeça. Link se trocou, espreguiçou-se, estralando seus braços, e olhou pela janela, onde o sol ainda estava nascendo. Decidiu sair para tomar um ar e ver se melhorava, não podia salvar ninguém naquele estado. Verificou o quarto para ver se não esquecera nada, foi até a recepção do hotel entregar as chaves para a senhora sorridente e saiu.

As barracas já estavam arrumadas e as lojas sendo abertas. Ele decidiu procurar um bom escudo, já que o dele havia sido levado junto com tudo... Após um pouco de procura, achou um. Não era muito bom, mas servia. Porém...

— O quê? 150 rupees?

— É senhor, este é o preço.

— Mas eu só tenho 100, e preciso de um pouco de dinheiro para comer!

— Azar o seu, amigo.

— Mas este escudo não vale nem 50 rupees!

— E o que você entende de escudos?

— Sou guerreiro desde os 10 anos, acho que entendo bem deles. Isso é metal de segunda mão.

— Se entende tanto assim, faça o seu!

Link abriu a boca para falar, mas parou no meio do ato. Não queria arranjar confusão. Muito nervoso, saiu da loja batendo a porta. Logo ao sair, ouviu alguém o chamar:

— Ei rapaz! Você aí, de gorro verde!

— Eu?

Era um homem em seus vinte e cinco anos, de cabelos castanhos, dentro de uma das barracas-lojas ao ar livre. Esta continha alguns escudos, espadas e flechas expostas.

— E tem mais alguém de gorro verde por aqui?

Link se aproximou, perguntando-se mentalmente sobre o porquê das pessoas de Mudora serem tão irônicas...

— Parece que não ficou contente com o preço do escudo, afinal...

— Você estava me vigiando?

— Não, é que dava para ouvir daqui de fora mesmo. De qualquer forma, deixe-me explicar. Os Gorons, nossos fornecedores de metal, descobriram que este material é muito melhor do que as pedras que eles comem. Agora, pararam de nos fornecer metal para comê-lo... Isto encareceu todas as armas. Agora, uma simples flecha tem um custo médio de cinco rupees apenas para fabricar... Na venda, uma flecha está custando sete rupees...

Link olhou assustado, pensando seriamente em economizar bem as flechas que ele ganhou de Najath.

— Mas... Vocês já tentaram fazer um acordo com os Gorons? Um tipo de cota, dividir o metal entre todos?

— Você acha que não tentamos? Eles só sabem dizer “Metal é muito gostoso, goro!”... Bom, mudando de assunto, eu tenho vários escudos na promoção...

O homem mostrou vários escudos expostos em um dos níveis de um balcão improvisado na pequena barraca. Ele se interessou por um deles. Tinha um design parecido com o do escudo espelho, mas não era reflexivo. Era azul e prateado. Ao centro, tinha o brasão da família real de Mudora e quatro símbolos, representando fogo, água, terra e ar. E era feito com o melhor metal que Link já havia visto.

— Por quanto você me faz este aqui? — disse Link, apontando para o escudo.

— Este é o lendário Escudo dos Elementos, dizem que ele tem poderes ocultos. Está na minha família há algumas gerações, mas o herói que devia ganhá-lo nunca chega... Sinto muito, não posso vendê-lo ou o meu velho fica muito bravo.

Link se aproximou mais do homem e disse num sussurro:

— E se eu disser que eu sou o herói?

O homem riu sarcasticamente.

— Há há, tá, sei... Olha, se algum dia você conseguir provar isso pra mim eu te dou o escudo... Aprenda a controlar algum elemento primeiro, vai...

— Eu voltarei. É sério, espere por mim... Mas enquanto isso, me vende algum escudo mais ou menos por um preço bom, por favor...

— Tá bom, herói, eu te faço um desconto nesse daqui. — ele apontou para o mais simples, vermelho, com uma moldura de metal puro, sendo que parte desta moldura cortava verticalmente o escudo. — Como você não vai largar do meu pé hoje, eu te faço por 70... E olha que eu estava cobrando 170!

Link pegou o escudo para analisar. Era um escudo básico, nada de extraordinário, mas com certeza era melhor que o da loja anterior...

— Vou levar. — disse Link, entregando o dinheiro — Mas ainda volto pra pegar aquele ali...

— Tá, sei... Pega logo seu troco e trate de usar bem esse daí, porque eu duvido que você consiga minha belezinha. — disse o dono da “loja”, dando alguns tapinhas carinhosos no Escudo dos Elementos, após separar o troco de Link.

Link sorriu e lançou um último olhar de cobiça para o escudo, então, virou-se para seguir seu caminho. Sua próxima parada seria uma visita à anciã da loja de poções, como a rainha havia dito.

Após alguns minutos de procura, Link achou a loja de poções, que ficava em um pequeno sobrado. Ao entrar, a primeira coisa que o chamou a atenção foi o cheiro que impregnava a sala, uma mistura de plantas, ervas, frutas, compostos e outros tipos de ingredientes, que formavam um cheiro extremamente doce e enjoativo. Um homem, que tinha uma densa barba preta, o chamou do balcão.

— Olá rapaz! Posso ajudá-lo?

— Bom, eu preciso falar com a anciã que mora nessa loja...

A expressão animada do homem murchou.

— Já faz algum tempo desde que alguém precisou falar com a velha senhora Kameko... Siga-me.

O balconista abriu uma cortina ao seu lado, revelando uma escadaria, e começou a subir. Link o seguiu. A estreita escada em espiral os levou até a parte superior do sobrado. Lá, havia um pequeno corredor com cinco portas, três à direita e duas à esquerda. O homem foi até a última porta da esquerda, bateu na madeira com o punho, para avisar que estava lá, e entrou.

Era um quarto que poderia ser grande, se não houvesse uma coleção de livros ocupando tanto espaço. As quatro paredes eram estantes, abarrotadas com muitos livros de diferentes cores, tamanhos e idades. Uma pequena e macia cama ficava ao canto, havia uma mesa ao centro e duas cadeiras de palha. Uma senhora estava sentada em uma das cadeiras, lendo um grosso livro. Quando a rainha havia dito sobre a anciã da loja de poções, Link achou que ela teria uma média de noventa anos, mas na verdade a mulher aparentava menos de sessenta... Era magra, com os cabelos brancos presos em um coque e olhos vermelhos muito atentos por trás das lentes de leitura. O homem que guiou Link até lá falou, logo que entrou no quarto:

— Kameko-senpai, este jovem quer falar com a senhora...

Ela ergueu os olhos de sua leitura e fintou Link por algum tempo. O olhar daquela senhora era muito vivo e um tanto intimador, mas Link sustentou o seu próprio decidido, tentando não piscar muito. Depois de alguns segundos tensos, a anciã voltou-se novamente para o outro homem e anunciou:

— Obrigada Cirus, estava esperando por ele. — sua voz, apesar de afetada pela idade, era doce.

Cirus curvou-se respeitosamente e saiu do quarto. A senhora tirou seus óculos, se levantou sem nenhuma dificuldade, foi até Link e o cumprimentou, curvando-se.

— Olá rapaz, meu nome é Kameko. E o seu?

— Link. — respondeu, curvando-se respeitosamente para a mulher, mas logo voltando a encarar aqueles atentos olhos vermelhos — Vim aqui para pedir sua ajuda.

— Eu sei exatamente por que está aqui. Sente-se. — e indicou uma das cadeiras de palha.

Link sentou-se, meio que desajeitado. Kameko voltou à cadeira que estava anteriormente, sentou e virou-se para Link, desta vez sorrindo. Ela realmente não aparentava ser tão velha, afinal...

— Algo que você deve aprender é a não julgar nada pelas aparências... Pode não parecer, mas eu tenho mais de duzentos anos, só estou viva até agora graças a uma magia. Na verdade uma maldição, mas isso não vem ao caso... Eu devo te explicar o que acontece por aqui, qual a sua função e o porquê de precisarmos de ajuda... — ela pigarreou e continuou, em um tom mais épico:

“Antes de Ganondorf ser lacrado, Mudora era apenas um pequeno território desorganizado. Já tínhamos rei e rainha, mas eles não eram realmente influentes, e não havia uma cidade fixa, apenas várias pessoas morando em pontos diversos do lugar. Era como muitas terras que você chegou a conhecer nessa sua jornada, apenas um “caminho” para lugares maiores. Mudora era o “caminho” entre Hyrule e Labrynna, muito usado por viajantes e comerciantes. Depois que Hyrule ficou em paz, graças a você, o rei de sua terra natal fez uma aliança com o rei deste lugar, ajudando-o a unificar este povo...”. Ela parou de falar, pois Link levantou timidamente a mão.

— Diga.

— É que, pelo que eu vi, este lugar não tem rei, apenas uma rainha...

— Tudo em sua hora, meu jovem. Continuando... Cerca de dois anos após a “reforma” de Mudora, onde foi construída esta cidade e feita uma campanha para trazer mais pessoas para cá, começaram-se os problemas. E começou da pior maneira, com o assassinato do rei. Sem herdeiros, a rainha teve de assumir o trono. Respondida sua pergunta?

— Sim... Obrigado, não irei mais interromper.

“Certo. A nossa sorte foi a de que a rainha era uma ótima líder, mas o azar foi a falta de tropas para ajudar em um momento de crise, pois era uma terra nova. Houveram ataques de monstros à todas as partes do reino, em intervalos de tempo randômicos. Nunca se sabia quando iria ser o próximo ataque, nem onde ele iria ocorrer. As coisas só melhoraram três anos após os primeiros ataques, quando uma forasteira chegou à estas terras. Era uma garota de quinze anos de idade que insistia em agir como uma Gerudo, mas surpreendentemente convenceu toda a tribo das Mulheres do Deserto a nos ajudar. Este ano os ataques aumentaram, tanto em freqüência quanto em força e planejamento. Ninguém tem certeza de quem está causando isto nem dos motivos que levaram esta pessoa a nos atacar, mas sempre há rumores... O que eu posso te dizer é que quem está por trás disso é um grande mago, pois estes monstros foram todos conjurados”.

“Agora, é aqui que você entra, jovem herói. Segundo a lenda que era passada verbalmente pelos antigos, Mudora iria passar por uma grande crise para alcançar a liberdade. E apenas aquele que já fora herói por duas vezes seria apto à nos salvar, usando o poder mágico de todos os elementos. Mas tudo dependeria de sua escolha. E já que você escolheu nos ajudar... Posso lhe dizer que apenas os quatro elementos principais — água, fogo, terra e ar — não são o suficiente para conseguir vencer esta jornada. Você deverá procurar também pelo trovão, um elemento secundário, porém muito poderoso; as plantas, que representam a força da vida e que são muito poderosas usadas em conjunto com a terra; e os nobres regentes, irmãos e contrários, a Luz e as Trevas. Você terá que encontrar as pessoas que regem os elementos e se tornar um aprendiz. Se quiser ajuda, peça à única pessoa que você deve mesmo confiar, que realmente está disposta a te ajudar.”

Link ficou em silêncio por algum tempo, revendo tudo o que acabara de ouvir. Dúvidas surgiam aos milhares em sua mente, todas afobadas para serem esclarecidas logo, agindo como o milho transformando-se em pipoca, pulando e gritando... Ele abriu a boca para falar, mas foi interrompido:

— Não, esta pessoa não sou eu, embora você possa confiar em mim... Tudo o que posso dizer é que o comandante das tropas de Mudora controla o trovão, acho que você deveria começar por aí. — disse a senhora, pensativa.

Em um ritmo assustadoramente rápido, as “pipocas” da mente de Link aquietaram-se de repente e sumiram.

— Bom, é... — ele havia esquecido o que ia falar — Muito obrigado pelas explicações então... É melhor eu começar minha jornada logo...

— Sim, é o certo. Boa sorte rapaz, estarei torcendo para que tudo dê certo.

— Vai dar certo. E obrigado mais uma vez.

O herói curvou-se respeitosamente mais uma vez e foi embora. Kameko continuou onde estava até ouvir o barulho distante das cortinas do balcão, que ocultavam as escadas, serem fechadas. Ela se levantou, fez um breve alongamento e pegou, no fundo de um baú cheio de panos, uma espada curta.

— Melhor começar o treinamento... — disse ela, desembainhando a espada — Com esses anos de folga, acho que enferrujei um pouco, preciso voltar à minha velha forma.

Nota:

-Senpai: pronome de tratamento japonês, usado para se dirigir à alguém mais velho e experiente.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.