A Lenda de Zelda: o Mestre dos Elementos

2 Capítulo 1 - Salvando o Herói


Notas iniciais
*O Keaton a que me refiro é o ladrãozinho do Minish Cap, não a raposa dos Zeldas para 64. ||Agradecimentos:|| Sumomo (do fórum HL) pelas dicas de escrita; Link, Zelda, Wizard e todos os outros do fórum DZ que me ajudaram com nomes; e Mamãe (^^).

Link e Epona estavam seguindo em linha reta um longo vale, onde mal se podia ver a água correndo tranquilamente pelo rio, lá no fundo. O rapaz estava usando uma capa parda, com um capuz que cobria seu rosto e não deixava à mostra suas armas nem sua tradicional roupa verde. Dos dois lados deste vale, havia deserto. Um grande, perigoso e violento deserto. O sol estava se pondo. Link se sentia sozinho, e morria de saudades de seus amigos... Há muito tempo havia adquirido o costume de conversar com sua égua, Epona. Ela entendia e respondia perfeitamente, muito melhor do que alguns humanos que ele conhecia. Podia-se dizer até que eles eram grandes amigos, apesar do pequeno problema de comunicação...

Epona parou de repente.

— Ei Epona, acha que já está ficando tarde?

Ela relinchou, como se dissesse “sim”.

Link saiu de sua amiga e montaria com um pulo ágil em uma boa distância da fenda do vale, e começou a tirar de sua cela alguns cobertores e comida, para preparar-se para a fria noite que estava por vir.

— Acho que amanhã nós já vamos chegar à terra de Mudora! De lá para Hyrule é um pulo...! – disse o jovem feliz. — Estou louco para tomar um banho e fazer a barba. Nunca tinha deixado ela crescer tanto, incomoda e... Que barulho foi esse?

Epona olhou intrigada para seu dono, mostrando claramente que não tinha ouvido nada. O rapaz desembainhou sua espada e foi cautelosamente até uma pedra próxima, fonte do barulho. Não havia nada lá. Ele deu de ombros e se sentou.

— Vou ficar vigiando esta noite, só por via das dúvidas...

A égua bufou como forma de desaprovação.

— É, eu sei que eu sou muito encanado, mas é a vida...

Epona dormiu rapidamente, e Link ficou segurando seu sono. Mas estava viajando a dias, economizando água e comida para não faltar... Ele não agüentou e dormiu, sentado, exatamente do jeito que estava. Algum tempo depois acordou assustado, com um tremor e um estrondo ameaçador.

— Mas que m...?

Tudo estava muito confuso. O lugar à beira do vale onde pararam estava desmoronando. Epona estava relinchando e se debatendo desesperadamente, tentando (inutilmente) segurar algo com seus cascos lisos para não cair... O próprio Link se viu escorregando em direção àquela grande queda, e não havia onde se segurar... Epona caiu. Link lutou para não cair também, mas não consegui se segurar... A queda parecia infinita, e o rapaz sequer percebia que estava gritando a plenos pulmões... Ouviu-se o som da égua caindo na água. Tudo foi ficando escuro e sem sentido... E Link desmaiou antes de atingir a água.

Juntamente com o som do jovem viajante caindo, uma risada maníaca, maléfica e feminina cortou os ventos... Os ventos que logo começaram a soprar uma tempestade de areia.

___________

Link acordou, mas não abriu os olhos. Sentia muita dor. Tateou à sua volta e percebeu que estava em uma cama simples, porém confortável. O cheiro do lugar lembrava o do Rancho Lon Lon, uma mistura de feno e animais. Também cheirava umidade, como se houvesse chovido recentemente. Decidiu abrir os olhos. Tudo o que podia ver era uma janela, que mostrava um céu escuro, provavelmente de madrugada. Também via algumas sombras difusas no quarto, de coisas como mesas e armários. Havia uma silhueta de mulher. Com dificuldade, ele se sentou na cama sentindo todos os seus músculos gritando. Percebeu que estava nu. Perguntou timidamente, um pouco assustado:

— Ahn... é... Ei senhora... O que eu estou fazendo aqui?

Ela se virou, ficou olhando por um tempo para aquela silhueta e respondeu:

— Senhora é a dona sua mãe. Não sou velha assim não. E eu salvei sua vida e algumas coisas suas que foram roubadas, seja mais grato...

— Que... Que... É... Desculpa então... – disse Link confuso.

Ela acendeu a luz.

Era uma bela mulher. Alta, cabelos pretos e compridos, com uma franja caindo ao lado direito do rosto... Parecia uma Hylian, com um pequeno porém: vestia roupas tipicamente Gerudo, pretas com detalhes em vermelho. Apenas seus sapatos eram diferentes, apenas sapatinhas pretas de ponta arredondada. Mas com certeza não era Gerudo, pois sua pele era branca e seus cabelos não eram ruivos... Ela usava uma pequena corrente dourada, mas ele não podia ver o pingente àquela distância. E não pôde deixar de reparar em seu corpo, escultural e forte, típico de uma bela guerreira.

— Tudo bem. – disse a mulher, abrindo um sorriso – Desculpe a grosseria... Melhor eu me apresentar. Meu nome é Najath, sou chefe das Gerudos de Mudora.

— Prazer, Link. Chefe das Gerudos? Você... Não se parece com uma Gerudo...

— Droga, todo mundo percebe... Vou pintar meu cabelo de vermelho e tomar mais sol pra ver se melhora. — disse ela sarcasticamente — Bem, eu sou uma humana mesmo, nasci em Hyrule e fui criada por Gerudos... Mas isso não importa.

— Estamos em Hyrule? — Isso tá doendo, droga...

— Não, já disse que sou chefe das Gerudos de Mudora. Eu moro aqui há algum tempo...

— E você sabe como eu chego a Hyrule?

— Nossa, mas que obsessão por Hyrule...! Sim, eu sei o caminho, vivo viajando para Hyrule, Termina, Holodrum...

Link fez uma cara de espanto e felicidade. Misturado com a dor, causou um efeito estranho em sua face.

— Posso levá-lo rapidamente para Hyrule, mas sua égua irá demorar para melhorar... Ela está com uma pata quebrada, e não queria me deixar chegar perto. Quando você se sentir melhor vá lá falar com ela. Só consegui a tratar usando sua ocarina. Descobri que ela gosta de música e...

— A Ocarina of Time!? Graças a Din... Ela não quebrou nem nada, né?

— Não, ela está inteira. Mas eu acho que roubaram todo o resto do seu equipamento, incluindo espada e tudo o mais. Falando em roubo, deixa eu ver se as suas roupas secaram...

— Ainda bem que não era a Master Sword e... Espera aí... Roupas? – Link voltou a perceber que estava nu e se escondeu melhor nos cobertores, corando. – O que aconteceu com as minhas roupas?

— Tentaram roubar também. E estava no varal porque caiu no rio, oras... Andou chovendo por aqui, só abriu sol hoje...

— Ãn?

— Deixe-me explicar direito... Aqui, as Gerudos não são mais ladras, eu mesma as fiz quebrar essa tradição. Estava com mais quatro subordinadas da Guarda Gerudo fazendo a ronda no deserto, apenas para controlar os Keatons, pequenos ladrõezinhos... Vimos vários deles reunidos em um lugar à margem do rio, mas, quando chegamos perto, eles fugiram. Consegui pegar um deles, que estava com um embrulho verde e pardo nas mãos... Olhando para onde estava a bagunça, vimos um homem e uma égua, jogados e machucados... Os Keatons fizeram uma festa, pois haviam roubado tudo, da cela da égua até suas roupas — aliás, suas roupas estão meio velhas hein? Então, eu te coloquei em meu cavalo e minhas subordinadas trouxeram sua ‘amiguinha’ até o meu rancho...

Link pensou: “Meu Deus, mais quantas pessoas além dela me viram desse jeito?”.

— Só eu e as quatro Gerudos que estavam comigo na cena...

— Hein? Como você sabe o que eu estava pensando?

— Pela sua cara óbvia. Não se preocupe, eu não leio mentes, apenas interpreto a expressão facial das pessoas.

— Ah... E viu, você não ia ver se minhas roupas estavam secas?

— Ah é, desculpe, falei demais... – dizendo isso, saiu.

Agora, ele parou para analisar o quarto. Era um quarto normal de fazenda, com aquela única cama de solteiro onde ele estava, uma grande estante cheia de livros, uma pequena mesa e todos os itens normais de um quarto... As únicas coisas incomuns estavam em um canto perto da estante: duas espadas Gerudo, um arco, uma aljava cheia de flechas e um baú. Apesar da curiosidade, ele ficou em silêncio por alguns minutos, sentindo suas dores, até Najath voltar.

— Aqui está. Vista-se logo... Vou estar no estábulo, se precisar de alguma coisa. Tem café da manhã na cozinha, fique à vontade para se servir se já estiver bom para se levantar. Qualquer coisa, grite. — e foi saindo.

— Espera! — Disse Link. Ela parou na porta e olhou. — Eu estou assim há quanto tempo?

— Uns dois dias... Fiz uma pequena magiazinha para consertar seus ossos quebrados, mas ela tem um pequeno efeito colateral... dor. Não se preocupe, isso passa logo.

E saiu do quarto de novo, não antes de mandar um sorriso travesso.

Link ficou parado durante algum tempo, esperando a dor passar.

_________

Após se vestir e comer, Link saiu da casa e se deparou com um belo rancho. Haviam vários cavalos soltos pela propriedade, vários cuccos estavam ciscando, algumas vacas pastando... Ele decidiu subir em uma árvore próxima para ver o horizonte e pensar na vida. Lembrou-se de que, quando chegasse a Hyrule, ele não iria ter onde morar nem trabalho a fazer... Chegou até a se imaginar casado e cuidando de uma criação de cuccos, mas isso não combinava com ele. Era um motivo para rir.

E assim ficou, até perceber que já estava lá há algumas horas. Link saiu da árvore com um pulo ágil. Lembrou-se de que Najath iria estar no estábulo, então se dirigiu até lá. Encontrou algumas vacas e dois pequenos potros muito novinhos, quase que recém-nascidos. Najath estava tirando leite de uma das vacas e Epona presa a um canto, olhando tristemente para o chão. Link viu sua ocarina perto de onde sua égua estava. Ele a pegou e começou a tocar Epona’s Song, o que fez sua égua ficar bem mais feliz. Najath sorriu e disse:

— Então esta é a canção preferida da sua égua? Muito bela, foi você quem compôs?

— Hum... Sim, é a preferida da Epona... E não, não fui eu quem a compôs, foi a mãe da Malon, sua antiga dona.

— Malon, Malon... Este nome não me é estranho... Ah sim, a garota do rancho Lon Lon! Foi ela quem me ensinou a cuidar de cavalos, logo depois que eu fugi de casa... Eu diria que ela é uma das minhas poucas amigas, faz tempo que não a vejo.

Link estava obviamente tentando não falar de Hyrule, para não sentir sua falta. Desviou o assunto:

— A Epona vai demorar para melhorar?

— Ela já está bem, mas acho que você cavalga muito com ela, e é bom ela não se esforçar muito por alguns dias... Ah, fiz um favor para você e troquei as ferraduras dela, as outras estavam muito gastas. Você é o quê exatamente, viajante?

— Mais ou menos isso. Já perdi meu título de Herói, então eu sou um inútil perdido...

— Título de Herói? Como assim? — disse a jovem, incrédula.

— É uma looooonga história... — disse Link, quase que entediado.

— Ah... Tudo bem, nem queria ouvir mesmo... Olha, vou sair para trabalhar nas ruínas daqui a pouco, e de lá vou ter que ficar de plantão essa noite na patrulha, portanto, você não pode ficar aqui hoje... Amanhã eu libero a Epona, mas você vai ter que se virar até lá.

— Tudo bem, eu arranjo um lugar... Mas que ruínas são essas?

— Um antigo centro de treinamento Sheikah. Reuni uma equipe de Gerudos para escavar aquele lugar dois anos atrás, agora que conseguimos chegar às partes mais interessantes. Parece que há uma lenda, mas eu não a li totalmente... Só vi uma parte sobre um herói viajante que tem a triforce da coragem...

— Epa... Herói viajante que tem a triforce da coragem... Eu tenho que ler essa lenda.

— Por que, tá achando que é você é?

-Bom, EU tenho a triforce da coragem. E isso não é algo que se encontra na loja mais próxima...

— Tá bom, claro... — disse sarcasticamente — Se está tão curioso é só dizer... Acho que você pode ir, mas vai ter que ficar meio que escondido. Veste aquela sua capa parda, ela está no varal. Você sabe imitar voz de sábio velho?

— Acho que sei... — disse Link, imitando a voz que ela pedira.

— Ótimo. Fique coberto por essa capa o tempo todo. Você será um sábio chamado Alvo, e está lá para ver as inscrições. E continue fazendo essa voz. — dizendo isto, ela chamou seu cavalo, um espécime preto e forte, e montou — Sobe aí. — Link subiu com sua agilidade habitual — Ah... Quando descer, finja que não é tão ágil assim, tenha dificuldades, ande devagar e meio curvado... Lembre-se: você é velho!

— Tá, vou tentar. Nossa, é tão estranho fazer isso...

Ela riu. E seguiram para leste.