Notas iniciais
A fic é baseada no jogo The Legend of Zelda: A Link to the Past. Todos os direitos à Nintendo.
Capítulo 2: A arma negra

Todas as terças à noite eu ia até Rauru. Não queria saber se meu pai proibia. Era algo sagrado para mim. Eu TINHA que ir até Rauru. Eu saia de Alundra de madrugada, quando ninguém estava acordado, pegava a estrada até Rauru e suportava a caminhada de mais de dez quilômetros. Cerca de três horas para ir e voltar (se eu me apressasse). Sempre levava comigo a Arma Negra. Nunca se sabe o que pode acontecer numa grande metrópole.

Chegava a ser irônico… Alundra, a cidade que eu nasci, a qual meu pai é líder, dava o nome para nosso reino. Mas a cidade mais forte, com maiores riquezas e mais gente era Rauru. O rei inclusive mora lá. O reino não deveria se chamar “Reino de Rauru” ao invés de “Reino de Alundra”? Certa vez meu pai tentou me explicar falando que o nome do reino se chama “Alundra” por que nossa cidade fundou o reino, mas, depois de algum tempo, Rauru acabou superando Alundra sócio-economicamente... Claro que eu não entendi nada. Mas uma coisa era fato: Rauru rendia muito mais diversão que a chata cidade de Alundra.

Eu estava quase chegando ao meu destino. Vestia uma capa negra, que cobria todo meu corpo. Eu já parecia um ser raquítico de tão magricela. A capa só piorava tudo. Fazia-me parecer ainda menor e mais fraco. O capuz cobria meus cabelos loiros e fazia uma sombra em volta do meu rosto, escondendo meus olhos castanhos e minha face. Porém minha preocupação não era com a identidade. Ela até era importante – se meu pai apenas pensasse que eu o desobedeci, era certo que eu não sobreviveria para contar história – mas eu estava mais preocupado mesmo era em esconder a Arma Negra.

Já estava quase vendo Rauru. Podia ver suas luzes e cores, que não pareciam se apagar com o sol. Aquela cidade realmente não dormia. Andei um pouco pelo mercado principal, mas na primeira oportunidade entrei num dos becos da cidade. Fui até numa pequena casa no fim do beco.

Eu não era o único a visitar a casa. Lá estavam vários homens, de várias famílias, cidades e raças diferentes. Alguns com mais do triplo do meu tamanho, capazes de me deter com um único golpe. Outros tão pequenos que me faziam parecer um gigante. No meio de tanta gente, eu simplesmente não levantava suspeitas. Todos estavam ali por apenas um motivo: apostar dinheiro.

Havia cartas, dados, lutas de vale tudo... Inúmeras maneiras de se ganhar dinheiro (ilicitamente, é claro...). Tudo aquilo chegava a ser bonito de se ver. Se ganhássemos, teríamos dinheiro para apostar. Se perdêssemos, a vontade de recuperar a grana nos fazia virar a noite jogando (e perdendo mais). O vício não nos deixava sair dali até não ter nada para apostar.

Como eu não era nenhum idiota, me afastei do pequeno círculo de areia que servia como arena. As lutas eram desarmadas. Não queria me machucar e sabia que sem a Arma Negra conseguiria muitos machucados e pouco dinheiro.

Me aproximei de uma mesa onde alguns rapazes jogavam dados. Um deles, sentado ao centro, vestia uma grande armadura e aparentava ser muito forte. Toda vez que ele jogava os dados saia um sete perfeito. Todos que apostavam com ele perdiam todo o seu dinheiro. Já havia uma montanha de ouro e jóias ao seu lado.

Arrisquei a tentar a sorte com ele. Entrei na fila e esperei minha vez. Sentei-me de frente com o tratante e retirei meus dados. Coloquei dois rupees vermelhos na mesa. Ele aceitou a aposta. Peguei meus dados dentro de minha roupa e atirei. A soma dos números foi onze. Ele também usou os próprios dados. A soma dos números foi sete, o número truncado. Peguei um pouco mais de rupees e falei:

-Mais uma vez. Eu dobro a aposta. Quarenta rupees.

-Não. Coloque cinqüenta rupees e negócio fechado.

Colocamos a quantia combinada sobre a mesa e jogamos os dados mais uma vez. Desta vez eu tirei seis e ele sete. Dei um soco na mesa para expressar a raiva. Coloquei um rupee roxo sobre a mesa e peguei meus dados. Ele aceitou a aposta e atirou os dados. Mais uma vez, um sete perfeito. Continuamos no mesmo ritmo até que eu perdesse todos quinhentos rupees que havia trazido comigo.

-Acabou, meu jovem. Saia daí. Esta fila tem que andar.

-Vamos apostar de novo.

-Apostar o que? Você já perdeu todos os seus rupees.

-Um tudo ou nada. Todos os quinhentos rupees que eu perdi por esta arma.

Retirei a capa que cobria meu corpo. Presa nas minhas costas estava a Arma Negra, feita por um longo cano de ferro, uma base que se podia se segurar com as mãos e um gatilho. Sua munição eram pequenas esferas de chumbo, usadas como projéteis e atingiam o alvo com grande força e velocidade. Todos que viram a Arma Negra logo a reconheceram e ficaram pasmos.

-Esta arma... Esta é uma típica arma do exército da cidade de Alundra... Você... De onde você vem? Como conseguiu esta arma?

-Eu faço parte do exército de Alundra. Foi assim que consegui esta arma.

-Mas... Mas que arma é esta? – disse um pobre desinformado.

-Idiota! Todos sabem que esta é uma Arma Negra! Uma arma mais poderosa do que qualquer espada e com alcance maior do que qualquer flecha! Se bem usada, um único homem é capaz de matar cinqüenta usando esta arma. Ele é exclusividade do exército da cidade de Alundra. Nenhum outro exército de qualquer outra cidade do reino tem essa arma.

-Exatamente. Ela vale muito mais do que estes quinhentos rupees que estou apostando. Aceita a aposta?

-Hunf... Eu não sei se você é louco ou qualquer outra coisa, mas aceito.

-Exijo apenas uma condição. Use os meus dados.

Eu estendi a mão para que ele pegasse os dados. A expressão na face dele havia mudado completamente. Não apresentava mais a mesma confiança de antes. Ele pegou os dados um pouco trêmulo, os “preparou” e jogou sobre a mesa. Ele conseguiu tirar o número onze. Fiquei pasmo. Achei que seus dados eram viciados, mas mesmo usando os meus ele tirou uma ótima soma. A única maneira de vencer, era se eu tirasse sete. Peguei os dados suando frio. Precisava pensar em como me safar. Considerando meus últimos lances, as chances de eu tirar um sete eram nulas.

Joguei os dados o mais longe que pude. Todos olharam para a direção em que eu os joguei para ver que número iria sair. Eu não cheguei a descobrir. Antes que os dados parassem, aproveitei que ninguém prestava atenção em mim e fugi com a Arma Negra. Alguns dos que perceberam minha tentativa tentaram me acompanhar, mas o treinamento no exército de Alundra me serviu bem. Eu era muito mais rápido do que eles. Fui correndo até avistar a estrada que levava à Alundra, quando, de repente, alguém montado num cavalo se aproximou de mim e tentou me cortar com uma espada. Me abaixei quase que por instinto, sentindo o fio da lâmina próximo do meu rosto. Olhei para o cavaleiro e atirei. Porém, ele continuou a andar normalmente. Estava usando uma armadura. Era o idiota que enganei. Ele continuou a me perseguir, tentando me cortar com aquela espada fajuta. Eu apenas me desviava, observando seus movimentos. Percebi que havia uma pequena falha em sua armadura, na altura do ombro direito. Corri como se estivesse fugindo. Ele caiu na armadilha e me perseguiu. Me virei rapidamente e fiquei de frente com ele, num ângulo perfeito. Dei um único tiro, acertou seu ombro em cheio, fazendo-o cair do cavalo. Peguei sua montaria e segui correndo até Alundra. O sol já estava nascendo e eu não queria que sentissem minha falta. Ironicamente, todo o dinheiro que o rapaz havia ganhado estava no cavalo também.