Notas iniciais
A fic é baseada no jogo The Legend of Zelda: A Link to the Past. Todos os direitos à Nintendo.
Capítulo 3: Traição

O cavalo que eu roubei era realmente muito rápido. A travessia que eu fazia em cerca de três horas, devo ter em menos de uma. O sol ainda sequer tinha raiado e avistei os portões de Alundra; os fortes e inexoráveis portões de ferro de Alundra.

Aquela era uma cidade essencialmente militar. Ninguém se atrevia a entrar em guerra contra nosso reino, ainda mais contra a cidade que dava nome a ele. Eu tinha orgulho de fazer parte do Exército Especial de Alundra. Podia me dar o luxo de dizer que era a pessoa mais jovem a integrar o Exército até então. Tinha catorze anos quando entrei no Exército da Guarda. Aos dezesseis, entrei no Exército Especial. Hoje, aos dezessete, eu posso dizer que se não sou o, sou um dos melhores guerreiros de Alundra. Eu simplesmente amava e idolatrava o Exército Especial. Só não concordava com algumas leis absurdas – por que diabos o resto da população pode entrar e sair da cidade quando bem entender e a gente têm que ficar confinado atrás daqueles portões?!

Me aproximei um pouco mais de Alundra e desci do cavalo. Retirei todo o ouro, dinheiro, grana, bufunfa, tutu... Enfim, tudo de valor que o cavalo carregava. Dei um tapa no cavalo e ele foi embora, correndo. Se fosse treinado, iria para casa sozinho. Entrei na floresta, onde havia um pequeno esconderijo que servia de depósito de rupees. Somente o dinheiro que eu ganhei naquela noite era mais do que tudo que eu havia ganho em toda a minha vida. Tratei de esconder aquele tesouro o mais rápido que pude. O sol finalmente estava nascendo. Se sentissem falta de mim, meus dias estariam contados.

Um guarda protegia a entrada para que nenhum estranho se infiltrasse na cidade. Eu não podia deixar que ele me visse. Não que eu fosse um estranho. Era exatamente o contrário: eu era conhecido demais. Qualquer um da cidade – inclusive o guarda que protegia a entrada – me reconheceria como integrante do Exército Especial. Pior: me reconheceria como filho do líder da cidade.

Mesmo sendo uma cidade fortemente protegida, não era impossível entrar em Alundra sem que me percebessem. Meu treinamento permitia que eu entrasse, e, se necessário, espionasse, qualquer lugar que eu quisesse. Alundra não era exceção. Subi em uma árvore próxima e olhei atentamente para o vigia da torre. Eram doze torres, cada uma com dois vigias. Um sistema perfeito, mas ainda assim controlado por humanos, e, portanto, passível a erros. Fiquei esperando por cerca de quinze minutos. Comecei a ficar nervoso. Dentro de pouco tempo, as cornetas do exército iriam soar, e a chamada começaria. Felizmente, minha espera não foi em vão. Um dos vigias da segunda torre ao leste foi trocar de turno. Um breve momento de desatenção, um rápido movimento, muita habilidade, e pronto: entrei em Alundra. Infelizmente, como já havia dito, entrei pelo lado leste da cidade. O Campo de Treinamento ficava a oeste. Mas eu já havia passado pelo pior.

Um guarda que vigiava o interior da cidade me ouviu entrar e foi investigar. Entrei num pequeno beco escuro, esperando que ele fosse embora logo. Porém, cometi um erro. Meu andar foi muito pesado e apressado, deixando várias pegadas no solo – aliás, maldita seja a terra fofa!!! O guarda estava vindo até o beco onde eu me escondia. Eu não podia “apagá-lo”, era arriscado demais. Pulei no telhado da casa próxima, quicando entre as paredes do beco. Escorreguei ao cair no telhado, fazendo um pouco de barulho. O guarda percebeu. Deitei no telhado, esperando que ele não me visse e fosse embora. Meu corpo magricela fez com que ele não me percebesse ali.

Quando ele se afastou um pouco, me levantei e corri até o Campo de Treinamento, pulando de telhado em telhado. Desta vez tomei mais cuidado para não fazer barulho. Cheguei rapidamente ao Campo e tratei de entrar logo em meu dormitório. O idiota que guardava o Campo estava dormindo. Era por isso que eu só ia para Rauru as terças à noite: era esse dorminhoco que cuidava da guarda do Campo nestes dias.

Pulei em cima da minha cama morto de cansaço. Fechei os olhos e aproveitei o pouco tempo que me restava para descansar um pouco. Ir à Rauru era desgastante, mas divertido e valia a pena. E como sempre, ninguém soube de nada do que eu fiz. Sai ileso mais uma vez.

-Vejamos Miguel... Você desobedeceu a uma das regras do Exército Especial, apostou dinheiro ilicitamente, atirou no general de Saria e tem um depósito de dinheiro ilegal... O que tem a dizer em sua defesa?

-Eu não sabia que aquele cara era o general de Saria!

-Isso não é justificativa, Miguel... Nada daquilo teria começado se VOCÊ não tivesse saído de Alundra.

-Mas pai, perdão, senhor, ele tentou pegar a minha Arma Negra!

-Você apostou a Arma Negra! E depois voltou atrás e fugiu!

-Ele estava usando dados viciados! Eu tenho certeza!

-Isso não explica como você foi parar lá. Regra número dezessete do Exército Especial de Alundra: os seus integrantes NUNCA devem sair dos arredores de Alundra, a não ser que haja uma guerra que necessite de intervenção do mesmo.

-Sim senhor. Desculpe-me, senhor. Não o farei mais, senhor.

-Você tem acusações suficientes para ser retirado do Exército Especial. E não ache que só porque é meu filho eu vou ser piedoso.

Meu pai me lançou um olhar frio, que gelava a alma. Eu não pude fazer outra coisa senão abaixar a cabeça. Eu tremia só em pensar que poderia sair do Exército Especial. Por mais que eu rejeitasse algumas regras absurdas, sentir o poder de ser um dos melhores guerreiros, com as melhores armas era algo insubstituível.

-A sua sorte é que Sam, o general que você feriu, pediu para que não o expuséssemos à sociedade. Sua imagem em Saria, que enfrenta tempos difíceis, poderia ser manchada, e o controle político seria afetado. Por isso, para preservar a sua imagem, não podemos dizer a ninguém sobre nada do que acontece ontem. Ou seja: não posso acusá-lo de ter ferido o general de Saria. Isso oficializaria o caso. Também não podemos acusá-lo de ter apostado dinheiro ilegalmente ou ter saído de Alundra, já que estes fatos estão ligados ao caso.

Senti meu coração bater de novo. Aquelas palavras me deixaram muito feliz. Eu realmente tinha muita sorte do general Sam ser um covarde. Conhecia o meu, sabia que ele nunca iria aliviar para o meu lado. Tive sorte de ter enfrentado um covarde com poder. Dei um largo sorriso para expressar meu conforto, mas ainda fiquei de cabisbaixo, já que estava perante um oficial. Ou melhor, O oficial.

-Mas... Lembre-se que sempre há um “mas”. O guarda que encontrou o seu depósito de rupees não tinha ligação com o caso. E nem pense em dizer que aquele depósito não é seu! O guarda encontrou alguns de seus pertences lá. Acredite-me, você será devidamente punido por isso.

-Se me permite perguntar, senhor, qual será a minha punição?

-Você ira guardar o palácio do rei na próxima semana em tempo integral. Agora, um conselho para você, Miguel. Não estou mais falando como General Especial de Alundra. Estou falando como seu pai, Julian Genesian. Cuidado aonde atira. Da próxima vez, pode perder sua arma.

Guardar o palácio do rei... Podia parecer uma tarefa fácil, mas era muito, muito, muito chato! Meu pai sabia que eu não suportava ficar muito tempo parado sem fazer nada. E minha missão era exatamente essa. Eu deveria ficar a semana toda parado como uma estátua na frente do palácio do rei. Meu pai soube escolher bem a punição.

O rei tinha dois palácios: um em Alundra, capital militar e política do reino; outro em Rauru, capital social e econômica. Já se faziam três ou quatro gerações que a linhagem real não morava mais em Alundra. Ela passou um breve tempo aqui, a vinte anos atrás, por causa de uma pequena guerra, mas logo que os conflitos se cessaram o rei retornou à Rauru. Mesmo assim, a guarda do palácio continuava forte. Era como se esperássemos um fantasma. As probabilidades de o rei vir a Rauru eram mínimas.

Como ficar parado me angustiava profundamente, fiquei dando voltas ao redor do castelo. Mas depois de algum tempo (cerca de duas ou três horas) nem isso conseguiu segurar meu desespero. A minha vontade de fazer alguma coisa era enorme. De longe, eu podia ver os Soldados Especiais treinando. Eu os invejava.

Sem idéia do que fazer, peguei minha Arma Negra e comecei a “brincar” de tiro ao alvo. Aquilo não era desestressante como um bom treinamento, mas dava para o gasto. Um dos guardas que vigiava o local comigo se aproximou, tapando os ouvidos. Devia ser por causa do barulho que a Arma Negra produzia, que era consideravelmente alto se comparado ao barulho de outras armas.

-Você pode fazer o favor de parar com isso!?

-Não tem nada melhor para se fazer. Eu não sei como vocês agüentam ficar nesse tédio.

-Você já pensou no que o rei pode pensar se ouvir esse barulho?!

-O rei... Hunf... Você realmente acredita que o rei ou algum de seus oficiais pode vir até aqui? Não nesses momentos de paz, meu amigo...

Acho que falei cedo demais… Um mensageiro oficial aproximou-se do local. Ele veio nos avisar que uma carruagem real estava vindo até Rauru e era o rei ou um de seus generais. Engoli as minhas palavras na hora. E de sobra tive que agüentar os “eu não disse?” do guarda que havia acabado de discutir.

Eu e mais três soldados entramos no castelo e ficamos na ante-sala da sala do trono, em guarda, para o caso de acontecer alguma coisa. Meu pai e a pessoa que veio visitar o reino estavam na sala do trono, conversando. Aquele não era o rei. Deveria ser algum de seus generais. Em breve eu tiraria a dúvida. Estava mais próximo da porta e conseguia ouvir atentamente tudo o que se passava ali dentro. Treinaram-me bem demais.

-General Lum! O grande General de Confiança do Rei! A que devemos sua ilustre visita?

-Em breve você saberá, meu caro… Diga-me, você controla toda a cidade?

-O que o senhor veio fazer aqui? Qual o objetivo dessa pergunta?

-Eu já lhe disse, em breve você saberá! Mas, no momento, limite-se a responder as minhas perguntas.

-... Certo. Que perguntas o senhor tem a fazer?

-Toda a cidade está sob o seu controle? Inclusive o exército?

-Sim, em termos. O líder da cidade é o ancião ou seu descendente. O cargo é hereditário. O líder da cidade de Alundra também é chamado de General Especial do Reino, já que é o ancião, no caso eu, quem controla o exército mais ilustre do Reino de Alundra.

-Então você é o poder supremo dessa cidade? Sua palavra é lei?

-Não. O rei está acima de mim, como é de se esperar. Eu não passo de um representante do rei durante sua ausência. Assim como outros generais administram outras cidades, eu administro Alundra.

-Entendo... Então, mesmo morando em Rauru, o rei ainda controla a cidade de Alundra? Até mesmo o Exército Especial?

-A cidade de Alundra nunca parou de fazer parte do Reino de Alundra, mesmo com a ausência do rei. É verdade que nosso regime é fechado, mas não somos um movimento separatista.

-E o Exército Especial?

-É apenas uma seleção de nossos melhores guerreiros. São os únicos hábeis e, espero, sábios o suficiente para usar as Armas Negras.

-Então o rei controla o Exército Especial também?

-Claro que sim! O título de rei não é meramente honorífico! Qual o propósito dessas perguntas?

-Você sabe como se da a sucessão do trono real, não sabe?

-A ordem de herdeiros do rei? Sim, eu sei... Os primeiros a herdarem o trono são os filhos ou filhas, dos mais velhos aos mais novos. Em segundo lugar vem o parente mais próximo, sendo ele primo, tio ou sobrinho do rei...

-Em terceiro lugar, para o caso do rei não ter deixado herdeiros, vem o General de Confiança do Rei, ou seja, eu. Em quarto, vem o General Especial de Alundra, também chamado de Ancião da cidade de Alundra, você. Caso tenha ocorrido alguma fatalidade e todos tenham morrido, o sucessor do trono real será qualquer general de outra cidade, escolhido pelo conselho de anciões.

-Aonde você quer chegar com essa conversa? Seja claro, por favor.

-O rei e sua filha morreram vítimas de um atentado, ontem, durante o aniversário da cidade. Não se sabe quem foi o assassino, mas foram encontradas dentro do corpo do rei estas pequenas esferas de chumbo.

-… Mas... Mas isso é... Isso é a munição da Arma Negra! Então, quem matou o rei faz parte do Exército Especial?!

-Acalme-se. Logo investigaremos isso. O ponto ao qual eu quero chegar é o seguinte: o rei morreu e não deixou descendentes. Além disso, não há ninguém em sua família capaz de substituí-lo. A família do rei morreu durante a Guerra Social há dez anos atrás.

-Então, o único capaz de herdar o Reino de Alundra…

-…Sou eu!

-Mas… O Conselho de Anciões já ratificou a ordem?

-O documento está em minhas mãos. Com exceção de você, todos os outros anciões já assinaram a ordem. E sua assinatura nem é mais necessárias. Das quinze necessárias, eu já tenho dezessete.

A sala ficou em silêncio por um tempo. Acho que meu pai ficou sem reação. Eu também não sabia o que pensar. O rei morreu, o assassino fazia parte do Exército Especial e o general Lum, conhecido pela sua crueldade, herdou o reino. Aquilo tudo era, no mínimo, chocante.

-Eu vou morar em Alundra. A linhagem real finalmente retornará à capital do reino. Quero que você arrume tudo para uma grande festa e o anúncio de minha posse. Quero também que você investigue todos que fazem parte do Exército Especial. Veja se há alguma arma faltando, ou se algum membro agiu de modo estranho nos últimos dias.

-Sim… Majestade…

-Ah! Eu também quero o mapa!

-O... O mapa…?!

-Sim. O Mapa dos Antigos Tesouros de Hyrule.

-Me desculpe majestade, mas o “mapa” é somente um mito.

-Não tente me enganar, Julian... Nós somos companheiros de muitas e muitas guerras. Eu sei que o mapa com a localização do antigo Reino de Hyrule e seus tesouros é real.

-Senhor… Mas para que o senhor quer o mapa?

-Antigas lendas sobre o extinto Reino de Hyrule falam de um poder onisciente capaz de atender a qualquer desejo mortal. Tais informações eram muito perigosas, por isso, para não caírem em mãos erradas, somente os anciões da cidade de Alundra poderiam ter acesso a elas. Eu só não entendo o porquê. Por que Julian? Por que informações de um objeto que poderia levar nosso reino à glória são escondidas assim? Por quê?!!

-Por que assim essas informações não caem nas mãos de pessoas como você!!!

O meu pai estava realmente muito bravo. Seus gritos puderam ser ouvidos claramente pelos outros soldados. Eu só não sabia sobre o quê exatamente eles estavam conversando. O que era o “mapa”?

-Desculpe-me majestade! Eu me excedi!

-Me dê sua Arma Negra.

-Como?

-Me dê sua Arma Negra. Agora!

-… Sim, majestade.

-Você se nega a me dar essa informação, não é, Julian?

-É poder demais para qualquer um, senhor.

-Sabe como eu chamo isso? Traição. Sabe como eu puno a traição?

Meu pai estava desarmado, sozinho e com um homem perigoso empunhando a Arma Negra. As intenções de Lum eram óbvias. Saí de meu posto e abri a sala do trono. Meu pai estava parado, com Lum apontando a Arma Negra para ele. Tentei ajudá-lo, mas não consegui. Lum atirou em meu pai antes que eu pudesse fazer alguma coisa. O tiro foi no estômago. Meu pai caiu de bruços no chão.

A raiva começou a penetrar em minha alma, fazendo meu sangue ferver. Peguei a minha Arma Negra atirei várias vezes contra Lum. Mas o cara era muito bom. Desviou-se facilmente de meus tiros e ainda por cima acertou meu braço esquerdo. Meu pai estava no chão gemendo de dor. Eu não podia deixá-lo ali. Abandonei a luta, peguei meu pai e o carreguei. Atirei numa janela para que o vidro quebrasse e pulei do castelo para uma árvore próxima. Lum ia me seguir, mas os outros soldados chegaram até a sala e perguntaram o que havia ocorrido ali.

-Traição. Foi isso. Julian foi quem matou o rei Aramis. Eu descobri tudo e estava para mandá-lo para o tribunal adequado, mas seu filho entrou aqui e fugiu com ele. Eu tentei impedi-los, mas, machuquei Julian no processo. Os dois são traidores. Eles traíram nosso reino. Eles mataram o rei.

Realmente houve traição naquele dia. Mas não foi de nossa parte.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.