— Muito bem, estamos quase em Gaoling — disse Kuzou, observando a paisagem montanhosa. — Vamos fazer uma rápida pausa por aqui para nos prepararmos.

Encontravam-se ao pé da montanha, não muito longe da entrada da cidade que se escondia de vista graças a uma curva mais à frente na estrada. O sol acomodava-se em seu ponto mais alto, iluminando todo o horizonte, deixando poucas sombras para protegê-los de seu constante flagelo. Comparado com a tortura ardente do deserto de Si Wong, no entanto, aquilo não era nada.

— Prepararmos? — inquiriu Yan, inseguro.

Dentro de si, sabia o que o amigo queria dizer com aquilo, mas preferia não pensar muito no assunto. Preferia pensar que tudo sairia de forma ideal, sem qualquer problema, parecido com a maravilhosa noite anterior, na casa de águas termais.

— Sim, é bem provável que estejamos a caminho de uma armadilha — respondeu o ex-agente, calmo. — Vamos planejar nossos passos seguintes com cuidado antes de irmos em frente.

O nômade engoliu em seco, mas ficou calado apesar de tudo, aguardando as instruções. Os outros fizeram o mesmo.

— Quanto mais demorarmos, pior, portanto serei breve. Assim que eu terminar, agiremos de imediato, entendido? — exigiu o jovem agente. — Nada de reclamações e birras fúteis, fui claro?

Ember e Yan encolheram-se, e concordaram de leve, constrangidos.

— Ótimo. Faremos o seguinte — começou Kuzou — Vamos nos separar novamente. Mesma lógica de antes: uma dupla chama menos atenção que um grupo. Assim, também podemos ampliar nossas funções. As duplas também serão as mesmas da última vez.

Como esperado, a dupla catastrófica pareceu querer protestar, mas bastou um olhar do ex-agente para fazê-los desistir da ideia.

— Ember e Yan — continuou —, por justamente serem os que chamam menos atenção, vocês vão direto para a cidade, pela entrada principal mesmo. O objetivo de vocês é simples: apenas observar. Ajam naturalmente e avaliem o estado da cidade.

Os dois concordavam com a cabeça após cada pausa, quase em sincronia, como crianças.

— Fiquem atentos para qualquer movimentação suspeita, qualquer sinal de uma armadilha. Caso haja um desenvolvimento sério na situação, vocês causam um tumulto bem barulhento para nos avisar que temos de recuar. Não deve ser difícil, afinal, barulho é a especialidade de vocês dois.

Ambos receberam a cutucada sem abrir a boca.

— Enquanto isso, eu e Rohan seguiremos pelos pés das montanhas, contornando a cidade, até uma entrada bem mais discreta, e então iremos até onde Norkka costuma se entocar quando vem para essa região. Se tudo correr como o esperado, dali iremos até um posto especial dele escondido a alguns quilômetros ao sudoeste, entre aquelas duas montanhas.

Todos olharam para onde ele apontou, como se esperassem ver o lugar exato mencionado.

— Sairemos da cidade pelo mesmo lugar discreto pelo qual entramos, por isso vocês vão ficar a postos justamente no meio do caminho, assim não tem como nos perder quando passarmos por ali. É uma rua comercial, se não me engano. Rohan nos colocará a par desses detalhes sobre a região, a cidade e seus pontos de interesse daqui a pouco. Até agora, algum problema?

Todos aquiesceram em entendimento, apesar da tensão no ar.

— Caso as coisas não saiam exatamente como o planejado e venhamos a nos separar, o ponto de encontro será nos arredores do posto escondido de Norkka. Mesmo que ele não coopere, é uma área bem discreta, repleta de bons esconderijos. Alguma pergunta?

Não houve nenhuma.

Poucos minutos depois, já informados do resto dos detalhes e bem alertados sobre atitudes impulsivas (para Yan e Ember, óbvio), partiram em direção a seus respectivos objetivos.

— Mestre Kuzou — chamou o gigante, conforme se distanciavam dos outros amigos.

— Diga.

— O meu... estabelecimento fica perto do nosso objetivo na cidade. Se possível, eu gostaria de passar lá — disse o amigo, cauteloso. — Sei que pode ser perigoso, mas lá posso arranjar vários suprimentos e utensílios que nos seriam de extrema utilidade.

Kuzou já esperava um pedido daquele, e sabia também que existia outro motivo maior por trás daquilo.

— E quanto ao seu amigo? Ele pode nos causar problemas, mesmo que sem querer... — argumentou o ex-agente em resposta.

— Quanto a isso, pode ficar calmo. É bem provável que se ele se una a nós, na verdade. Nesse caso, ele será muito útil, lhe garanto — assegurou o enorme amigo, de uma forma enérgica que lhe era incomum.

— Veremos. Se esse estabelecimento for realmente tão próximo do nosso objetivo como você diz, talvez seja até benéfico.

Rohan agradeceu, sem conseguir esconder a esperança.

Kuzou suspirou de forma discreta. Aquilo poderia ser problemático.

Yan subestimara Gaoling. Sabia que era um lugar grande, mas não tão grande. As avenidas eram de uma largura absurda nunca antes vista, sendo capazes de sozinhas abrigar um evento de grande porte. Provavelmente caberia um estádio dentro da avenida principal. Até as ruas e vielas adjacentes tinham um tamanho anormal, eclipsando várias das principais ruas de outras cidades. Tudo, desde o chão às casas, era de mármore cristalino. Salvo os telhados amarelos e alguns detalhes em verde aqui e ali, a cidade era tão branca que machucava os olhos.

Como consequência disso, a caminhada deles até o seu objetivo — que, por acaso, era quase do outro lado da cidade — se tornava um pouco mais árdua.

— Esse lugar é inacreditável — disse Yan, conforme adentravam mais a fundo na cidade.

— É bem largo, mesmo — concordou Ember.

— Coisa de rico é outra história, né?

— Esperava mais, na verdade.

O nômade olhou para a garota com a sobrancelha levantada.

— Que foi? — soltou ela, incomodada com a expressão no rosto do outro.

— Padrões altos os seus, hein?

— B-Bobagem — gaguejou a menina, desviando o olhar. — Basta prestar atenção. Apesar da grandiosidade, parece tudo malcuidado.

— Sei... — desacreditou o dobrador de ar.

Ao olhar em volta com mais foco, no entanto, percebeu que ela estava certa. O mármore não parecia brilhar com todo seu potencial, e via-se vários montes de areia trazidos pelo vento espalhados pelas ruas. Não condizia com a fama meticulosa do povo esnobe de Gaoling.

— Na verdade, o movimento também está bem baixo, não? — indagou a dobradora de fogo.

Estavam quase na metade do trajeto pela cidade e só tinham visto uma meia dúzia de transeuntes mal-encarados pelas ruas.

— Deve ser porque estamos longe do centro comercial da cidade. A essa hora do dia o povo costuma ficar por lá — comentou o nômade, esperançoso.

— Hm... — Ember não parecia convencida.

Aquilo não ajudou o estado mental do dobrador. Por que ela tinha de ser tão pessimista? Não era nada demais, só uma sujeirinha aqui e lá. E quem ele era para julgar a rotina daquelas pessoas que eram justamente conhecidas por serem... “excêntricas”?

Andaram por mais alguns minutos em silencio, apenas observando a paisagem. Não que houvesse muito o que olhar; o caminho que Rohan tinha planejado para eles era bem chato, sem quase nada digno de nota. Pelo jeito ele evitara de propósito todos os grandes pontos interessantes.

— Que porre... falta muito ainda? — reclamou Yan depois de mais alguns minutos da caminhada entediante.

— Depois eu sou a pirralha... — cuspiu Ember, e continuou antes que o outro tivesse tempo de se indignar. — Estamos quase lá. Ao virar à esquerda ali em frente, já estaremos na rua comercial que eles mencionaram. Aí basta nos ocuparmos até eles aparecerem.

— Ah, que ótimo! — disse o nômade, esquecendo da ofensa da garota. — Tem ideia do que faremos pra passar o tempo?

— Sei lá, um bar ou restaurante, talvez? — imaginou ela.

— Ótima ideia! Uma refeição agora não faria mal a ninguém — concordou, animado, e apressou o passo até a rua.

Mal chegara à rua comercial e já tinha decidido qual restaurante iria. Uma casa de frutos do mar! Melhor impossível.

— Ember, ali! Olha que lugar perfeito, sentamos ali na parte externa, cobertos do sol pelo toldo, com vista total da rua. Agora basta enchermos a barriga enquanto esperamos... — o dobrador de ar estava com a mira travada no estabelecimento.

— Yan... — interrompeu a garota.

— Que foi...? — ele se virou, impaciente.

— Cadê todo mundo?

— Como ass...?

A rua estava completamente vazia. Os estabelecimentos estavam acesos e arrumados, deixando claro que estavam abertos, mas não havia uma alma viva à vista. Nem mesmo nas barracas, que também estavam montadas, com produtos à mostra.

— Será que Gaoling tem uma pausa municipal ao meio dia ou algo assim...? — tentou o nômade, inseguro.

— Vamos embora, tem algo de errado... — começou Ember, se aproximando para tentar puxá-lo.

Um estranho barulho a interrompeu. Vinha de algum lugar mais adiante na rua.

— Mas o qu...? — soltou o dobrador de ar, virando-se em direção ao som.

Era um barulho ritmado, que parecia o chacoalhar e raspar de itens metálicos. Yan imaginou que logo aparecia um velho rico cheio de joias.

Da esquina adiante mais próxima deles, saiu um ser grande e resplandecente, que, exceto pela forma humanoide, nada lembrava um humano. Seu corpo refletia a forte luz do sol, impedindo-os de observá-lo com atenção.

— Mas o que é aquilo? Um robô? — indagou Ember, colocando a mão na frente dos olhos por causa do reflexo.

— Não, não existem robôs tão... compactos...

O ser começou a se aproximar, o que permitiu uma melhor observação.

— Espera... aquilo é uma... armadura?! — exclamou a garota.

De fato, sem o incômodo do sol, notava-se as várias placas de metal que compunham o ser metálico, além do grande visor no que parecia ser um capacete. Era claramente um tipo de armadura, mas nem um centímetro sequer do que tinha por baixo era visível, nem mesmo nas articulações. Se tinha um homem por dentro, era impossível vê-lo.

— Ah, não... — soltou o nômade.

— Que foi? — exasperou-se a dobradora de fogo.

— A-Aquele...

Uma armadura de metal, que cobria o corpo inteiro. Só tinha uma pessoa no mundo que vestia aquilo. “Não há duvidas, só pode ser...”.

— Merda, merda... — choramingou Yan, pálido. — A-Aquele é Buma, o metálico! Guarda costas pessoal do Avatar!

— O-O q-que...? — estremeceu a menina, sem saber como reagir.

O guarda-costas continuou andando sem pressa em direção deles. Saindo do estado de choque, ambos se viraram para fugir.

Um homem franzino, de cabelo raspado estilo militar estava no outro sentido da rua, no meio da rota de fuga deles, efetivamente os encurralando.

Aquele homem eles conheciam.

“Ah, merda...”

— Há quanto tempo. Yan, se eu não me engano, certo? — sorriu de forma maliciosa Yikki, o ex-curador de museu e assistente pessoal do Avatar.

— Vire aqui à esquerda, senhor Kuzou — disse Rohan.

Desde que chegaram na cidade através da entrada “secreta” — nada mais que uma viela malcuidada, considerada como uma “entrada de serviço” pelos nobres —, o gigante os guiava através da cidade por vários atalhos e caminhos pouco usados, evitando assim atenções indesejadas. Era como se toda uma teia de vielas ligasse os fundos dos estabelecimentos por toda a cidade. Um funcionário poderia atravessar a cidade inteira, de um ponto a outro, sem sequer ser visto nas ruas principais pelos cidadãos. Pensando bem, era um sistema que combinava com o povo esnobe da cidade. Não fosse o grande conhecimento interno do amigo, aquele plano seria impossível.

— Estamos quase lá. Está vendo aquela bifurcação? — indicou o enorme amigo. — Seguindo à esquerda ali, a terceira porta já é nosso objetivo. O caminho da direita nos levará eventualmente às lojas da rua que combinamos de nos encontrar com os outros. E se seguirmos reto... — ele vacilou, inseguro.

— Mais lojas, imagino? — disse o ex-agente. — Inclusive, talvez, um estabelecimento conhecido? — provocou.

Rohan não disse nada, mas sua expressão o denunciava.

— O quão à frente ela fica?

— É logo a segunda porta. Dá para ver daqui, inclusive, se forçar a vista — respondeu o gigante.

— Pois bem — suspirou Kuzou, cedendo. — É realmente próximo. Pode ir, te encontro lá daqui a pouco.

— T-Tem certeza, senhor Kuzou? É sábio nos separarmos assim? — surpreendeu-se ele, sem esconder o ânimo.

— Estaremos bem próximos, caso algo aconteça. Portanto, é até mais sábio na nossa situação não andarmos juntos. Relaxa, pode ir encontrar seu amigo, eu sou mais do que suficiente para lidar com Norkka.

Rohan pareceu indeciso por um minuto, mas logo acertou-se e anuiu a cabeça, com ansiedade aparente.

— Rohan — chamou o ex-agente, conforme o amigo virava-se para partir.

— Sim?

— Juízo, hein?

O enorme amigo sorriu e concordou com a cabeça, antes de então seguir em frente. Kuzou decidiu fazer o mesmo, e foi em direção à terceira porta no caminho da esquerda.

Entrou em uma cozinha não muito limpa, nem muito arrumada. No entanto, o mais estranho não era a falta de cuidado, mas sim a falta de funcionários. A cozinha estava deserta. Atravessou-a com passos largos, mas não sem discrição, até a porta que levava à frente do estabelecimento.

O bar estava apagado, vazio, exceto por uma única pessoa que se servia das bebidas do balcão, sem aparentar qualquer indício de que pretendia pagar. Norkka parecia nervoso enquanto fazia isso.

Decidiu esbarrar de leve no balcão para que sua presença fosse notada. Como temia, o susto dele foi desproporcional.

— Q-Quem... espera... você...? — balbuciou ele, tremendo tanto a mão que a bebida no copo pulava para fora.

Aquilo deixava claro. O ex-agente não era esperado.

— Por que a surpresa? Pensei que esse fosse justamente o combinado, não? — sibilou Kuzou, se aproximando.

Norkka tropeçou para fora da cadeira alta no desespero. Quando se ajeitou, puxou uma arma da cintura, e apontou para o peito do dobrador de terra. Reconheceu aquela arma como sendo a que a polícia de algumas cidades usava para subjugar dobradores violentos. Se ele apertasse o gatilho, uma forte carga elétrica o atingiria.

— Afaste-se! — berrou o covarde.

Uma sirene começou a tocar pela cidade. Era um barulho incômodo e persistente: uma sirene de evacuação.

— O que você fez? — inquiriu o ex-agente, avançando, mortal.

— Eu disse para se afastar! — gritou Norkka de novo, tentando apontar a arma com mais firmeza. — Eu fiz o que tinha de fazer, seu agente lunático! Agora afaste-se ou eu vou atirar! Eu posso apertar esse gatilho antes de você sequer ser capaz de se mover!

— Não, não pode — rebateu.

Norkka sabia que aquela ameaça não era um blefe. Era possível sentir a aura assassina em volta do dobrador, mesmo à distância.

— N-Não importa — gaguejou o desesperado. — Você devia estar se preocupando com outras coisas...

Já era possível ouvir uma correria pela cidade, dos cidadãos evacuando. Porém, um novo barulho se fez perceber: sons de confronto. E vinham da direção da rua que combinara de se encontrar com os outros dois amigos.

“Merda, isso é...”

Aproveitando sua leve distração, Norkka atirou. O ex-agente até percebeu a tempo de se mexer, mas não de escapar completamente. O aparelho elétrico o acertou no braço esquerdo. Era como se todos os seus músculos tivessem espasmos, ao mesmo tempo em que travavam. Uma sensação angustiante.

Passado o choque, o covarde percebeu a oportunidade e se virou para fugir.

— Norkka! — berrou Kuzou.

O medroso se virou assustado, achando que estava sendo perseguido.

— Última chance — urrou o ex-agente, mantendo-se ajoelhado com um esforço inacreditável, ao mesmo tempo que tentava pronunciar as palavras sem se enrolar. — Se você fugir agora... eu não tenho como garantir a sua segurança depois...

Norkka compreendeu o tom daquelas palavras. Pareceu considerar, mas por fim deu uma risada nervosa e fugiu.

— Merda... — xingou o dobrador, agora sozinho no bar escuro.

Socou a madeira do balcão do bar o mais forte que podia. Funcionou; a dor ajudou-o a recobrar parte do controle do corpo. Apoiou-se na cadeira alta e aos poucos conseguiu ficar de pé. Quando conseguiu, correu o melhor que pôde em direção ao beco que viera. O maldito tinha razão em uma coisa: havia coisas mais importante para se preocupar no momento.

Tinha de buscar Rohan e ir encontrar os outros. A sirene ainda soava à distância, mas não era mais possível ouvir o barulho da correria dos cidadãos; até os sons de confronto que ouvira antes haviam atenuado, o que era mais preocupante. Se o povo da cidade evacuara tão rápido quanto parecia, só havia uma explicação: eles estavam preparados. Alguém os deixara preparados de antemão para o que iria acontecer. No entanto, a expressão de Norkka deixara claro outro detalhe: apesar de tudo ter sido planejado, não era esperado que chegassem tão longe. O que queria dizer que alguém fora interceptado no caminho.

“Merda, eles acabaram virando isca”

A porta do estabelecimento de Rohan estava entreaberta, algo que não costumava ser um bom sinal. Abriu com cuidado e adentrou um cômodo escuro, que supôs ser o estoque. Seguiu até a próxima porta, que também estava entreaberta.

Como imaginara, aquele lugar fora uma padaria. Era possível distinguir um comprido balcão, onde ficavam os produtos à mostra, e atrás uma entrada para um outro cômodo que parecia uma modesta cozinha. Tinha certeza de que no passado aqueles azulejos verdes que coloriam as paredes foram chamativos e que embelezaram o lugar, assim como os buracos nas paredes denunciavam a presença de quadros e enfeites escolhidos a dedo pelos donos para dar personalidade ao local.

No entanto, esse tempo aparentava já ter passado. Cacos de vidro dos mais variados tamanhos e formas preenchiam o chão; vindos dos mostruários no balcão e das grandes janelas na entrada, supôs. As paredes estavam manchadas, e nos poucos lugares que se viam os azulejos, eles estavam quebrados. O próprio balcão se encontrava em um estado deplorável, com apenas a parte em que se curvava inteira. Não havia sinais de produtos, itens, utensílios ou algum apetrecho que fosse. Os pedaços de madeira espalhados pelo ambiente talvez fosse os resquícios de cadeiras e mesas, ou até do próprio balcão em si. Não era possível observar muito da cozinha através da porta arrombada, mas o que conseguia ver também não era agradável.

Claros indícios de um arrastão. A violência e crueldade presentes eram tão óbvias, que só podia ser algo pessoal; o motivo só podia ser ódio.

Uma rápida olhada era o suficiente para determinar que o amigo não estava ali. Atravessou com cuidado a antiga padaria evitando possíveis ferimentos, mas não sem pressa.

A diferença de iluminação entre o exterior e o interior era tão grande que quase cegava. A rua da padaria também estava deserta, mas havia claros sinais da evacuação do povo. Avistou Rohan a poucos metros à sua direita.

O que viu, no entanto, fez o ex-agente estacar no lugar, estupefato. De todos os terríveis cenários que imaginara, aquilo nunca lhe cruzara a mente.

Aproximou-se devagar do enorme amigo, sem ideia do que fazer.

Rohan estava de joelhos, imóvel, com os braços largados ao lado do corpo. Era possível ver seus dedos tremendo de leve. Nem um som sequer deixava sua boca entreaberta. Olhava, destruído, para o que estava diante de si.

À sua frente, assombrando-o, viam-se dois grandes pedaços de madeira fincados no solo que, juntos, formavam um V. Sentado, preso pelos pulsos na madeira, encontrava-se um homem seminu, repleto de ferimentos e sujeira. Sua cabeça pendia sobre o ombro esquerdo, e sangue seco cobria suas feições.

Aquele homem tinha sido torturado. Aparentava ter sido apedrejado por dias a fio por uma multidão furiosa, além de outros tipos de agressão e humilhação. O ex-agente deduziu, no entanto, que a morte fora recente. Não podia ser mais do que algumas horas antes, muito provavelmente durante a madrugada passada.

“...eu sei muito bem quem são os monstros, senhor Kuzou, e eles são assustadoramente comuns...”

O gigante se mexeu, devagar. Levantou os braços e, de forma gentil, acariciou o rosto do homem. Um leve soluço escapou despercebido por seus lábios.

Apesar de todo o caos em volta, para ambos ali presentes, era como se tudo estivesse imóvel e em silêncio, com exceção da leve brisa que os contornava.

Apesar de nunca o ter visto antes, o jovem agente sabia exatamente quem era aquele homem e o que ele representava para o amigo, apesar do gigante não saber que ele deduzira essa última parte. Não tinha a mínima ideia de como consolá-lo, no entanto. Tudo que pensava parecia ser errado de alguma forma. O silêncio sempre parecia melhor. Não estavam em condição de ficarem parados, mas não tinha coragem de incomodá-lo em seu luto.

Um estrondo à distância lembrou-o de seus outros companheiros. Respirou fundo antes de falar, mas quando o fez foi resoluto e sucinto:

— O que acha de irmos extravasar um pouco? Conheço um lugar perfeito, e é aqui perto — Sabia que o amigo entenderia.

Rohan pareceu não ouvir. Endireitou de jeito carinhoso a cabeça do homem e encostou sua testa contra a dele. Ficou assim por mais alguns instantes, e então ajeitou a cabeça dele de volta a seu lugar de repouso.

Quando se levantou, o sol pareceu se encolher. Quando seus olhos vermelhos encontraram os do ex-agente, não se encontrava mais tristeza ou fraqueza. Via-se apenas determinação. Tamanha era essa força que ele exalava, que era possível sentir a pressão em volta. Naquele momento, ninguém o derrubaria. Ele parecia um verdadeiro colosso.

Kuzou agradeceu por não ser ele o alvo daquela fúria.

“Merda, merda, merda,merda,merdamerdamerda... Merda!”

Aquilo não podia estar acontecendo. De onde eles tinham vindo? Por que tinha uma sirene tocando? E porque logo com eles? Eles eram apenas o time de reconhecimento. Rohan e Kuzou que estavam com a parte perigosa da missão.

“O que Kuzou faria nessa situação?”

Ember chegou a sua própria conclusão antes dele, e atacou. O antigo curador do museu recuou frente as chamas.

— Cuida dele, vou distrair o homem de lata ali...

“Cuida dele?! O quê? Essa menina está louca?”

Antes que ele terminasse o pensamento, a garota estatelou-se no chão quando tentou se afastar. Algo que seria engraçado, não fosse a situação.

— Mas que p... — exclamou ela, olhando para trás.

Seus pés estavam congelados.

— Quanta prepotência... — cuspiu Yikki, aproximando-se, sem pressa. — E ingenuidade.

— Cretino... — xingou Ember, descongelando os pés.

Assim que se levantou, no entanto, foi atirada para trás pela dobra de água do assistente do Avatar.

— Lenta demais — zombou ele.

Yan não acreditava nas chances de vitória dos dois, mas não podia simplesmente continuar estacado no lugar, com cara de idiota. Virou-se o mais rápido de pôde e atacou.

O ar, no entanto, não obedeceu sua mão direita, que agora estava mole como gelatina.

— O-O q-que...? — gaguejou o nômade, confuso.

Antes que raciocinasse, Yikki desferiu mais alguns golpes leves e localizados, e o derrubou no chão. Agora sentia os dois braços moles, além de uma dor aguda na testa, onde fora atingido para ser derrubado. Mal conseguia se virar para rastejar.

— Yan! Levanta, seu inútil! — exclamou Ember, de algum lugar fora de seu campo de visão.

“Falar é fácil!”

— Esqueceu-se de mim, garotinha? — disse uma voz grossa, que só podia ser do guarda-costas pessoal do Avatar.

Sons de terra e metal se seguiram. Estava desesperado, mas não conseguia se ajeitar para ver o que acontecia; não precisou esperar muito, no entanto. Após alguns poucos barulhos de confronto e gritos, Ember caiu dentro de seu campo de visão, ferida. Quando tentou se levantar, tiras de metal voaram contra seus pulsos e pernas, prendendo-a. A menina xingou, mas só conseguiu rastejar e rolar de forma inofensiva antes de Buma se aproximar e puxá-la esperneando para perto dos outros.

— Isso foi bem fácil — comentou o metálico, ignorando os berros e ofensas da dobradora de fogo.

Largou a garota ao lado de Yan e foi se juntar ao assistente.

— Ainda não acabamos, faltam dois, não se esqueça — alertou Yikki.

— Se forem do mesmo jeito que eles... — zombou o homem de metal. — Esperava mais desses tais “fugitivos perigosos”.

— O mais perigoso e o motivo de termos vindos pessoalmente é a abominação. O resto, como esses dois, são apenas cúmplices. Era improvável que fossem qualquer tipo de ameaça para nós.

— E pensar que ainda estão vivos, inúteis desse jeito...

— Vai à merda! — exclamou Ember, ainda se remexendo.

— Opa! Essa aqui é durona! — riu-se Buma.

— É apenas barulhenta — escarneceu o dobrador de água.

— Mas, então, o que faremos com eles? Usaremos como reféns?

— É uma possibilidade, mas duvido que a abominação se importe com eles de fato. É provável que sejam apenas escudo humano; não seriam nada mais que um incômodo para nós, portanto...

— Portanto, é melhor eliminá-los de uma vez e ir procurar os outros, certo? — completou o metálico, da mesma forma que sugeriria um trajeto diferente para uma longa viagem.

“E-Eliminar... e-espera, eles não podem estar falando sério”, pensou o nômade, temeroso. Ao seu lado, até Ember tinha acalmado frente o choque da situação. Quando seu algoz fez menção de começar o serviço, no entanto, a dobradora de fogo começou a se agitar e espernear com ainda mais força que antes, graças ao desespero.

O guarda-costas não conseguiu dar nem o primeiro passo em direção a eles.

Atrás de si, um vulto saiu de dentro da terra. Com ambas as mãos envoltas de rochas, chocou-as uma de cada lado da cabeça do homem, amassando o capacete de metal. Apenas um leve gemido confuso saiu por debaixo da armadura, antes de ele desabar.

Nem Yikki fora capaz de agir a tempo. Antes que sequer entendesse o que estava acontecendo, o vulto dobrou a terra e o atirou para dentro da loja mais próxima.

— Mas o q...? — tentou Yan, o medo ainda anuviando seu raciocínio.

— Kuzou! — gritou Ember, a alegria e o alívio iluminados em seu rosto.

— Vocês estão bem? — disse ele, agachando-se para ajudá-los.

“Claro que não, porra!”, exasperou o dobrador de ar.

— Estamos bem — respondeu a garota. — Mas e o Rohan...?

A expressão do ex-agente não era reconfortante. Ela pensou o pior, mas ele não deu tempo para o seu desespero.

— As coisas saíram do controle, mas o desfecho do plano continua igual — disse, enquanto dobrava as tiras de metal para libertar a menina. — Vocês vão na frente.

— Você está louco?! Não temos chances! — exclamou o nômade.

— Não temos tempo... espera, o que aconteceu com você? — indagou o ex-agente, percebendo a posição estranha do amigo.

— Também quero saber — comentou a dobradora de fogo, levantando-se.

O deboche era leve, mas perceptível. Yan a xingou mentalmente.

— Ei!

Todos se viraram. Um pouco bambo, mas determinado, Buma, o metálico, endireitava-se.

— Não pense que me derrotou tão facilmente — sibilou o guarda-costas.

“Ah, merda”. Yan achava que ele tinha sido derrotado. Os amassados em cada lado do capacete pareciam ferimentos graves o suficiente para apagar alguém.

Kuzou, no entanto, não parecia surpreso, muito menos abalado. Dirigiu-se para o nômade, para averiguar as condições do amigo.

— Bem confiante você... — continuou sibilando.

Eu — interrompeu o jovem agente, olhando de canto para o homem de metal — sou o menor dos seus problemas, no momento.

— O q...?

Um tremor, seguido de um estrondo, interrompeu o guarda-costas. A parede à sua esquerda de repente desabou, e dela saiu um colosso de pedra, em alta velocidade. Buma foi atingido em cheio, antes que conseguisse reagir, e atirado com força contra um restaurante, demolindo o estabelecimento.

— Rohan! — berrou Ember, aliviada, reconhecendo pela estatura o ser coberto de pedra.

— Enfim, o que aconteceu? — insistiu Kuzou, analisando o braço mole do amigo, como se nada tivesse acontecido.

— O curador do museu, ele fez isso. No momento que decidi atacar, ele me impediu de dobrar.

— O quê? — indagou a garota. — Isso não é possível, a não ser...

— Bloqueio de chi, sim. O assistente do Avatar conhece essa técnica — completou o nômade.

— Imaginei — disse o ex-agente, pegando um dos braços. — Já peço desculpas por isso.

— Desculpas? Pelo o q...?

Usando os dedos como uma pinça, o dobrador de terra apertou fundo a pele entre o polegar e o dedo indicador da mão de Yan. A dor que veio em seguida percorrendo seu braço foi inacreditável. Antes que que o nômade tivesse tempo de reagir, ele pegou sua outra mão e fez o mesmo. O grito resultante não foi agradável.

— Mas que porra foi essa? — xingou o dobrador de ar.

— A dor vai ativar os nervos e o fluxo de sangue no seu braço. Logo vai tudo voltar ao normal.

— Mas... que porra foi essa? — teimou ele, olhando da mão para o amigo.

— Uma técnica que aprendi — Preferiu não dizer onde aprendera, nem que era usada em interrogações pouco amistosas.

— Não tinha um jeito melhor de desbloquear o chi, cacete? — Resquícios da dor ainda tardavam em se extinguir.

— Deve ter, mas desconheço. Por incrível que pareça, eu não sei tudo — retrucou Kuzou. — Agora, vão. Vamos atrasá-los. Nos encontramos daqui a pouco.

— O quê? Não! Não podemos nos separar de novo! — afirmou o nômade.

— Sim, podemos ajudar — concordou, por incrível que pareça, Ember.

— Não. Yan ainda não está totalmente recuperado, e preciso que você o ajude para sair daqui. Sem “mas” — cortou ele, quando viu que reclamariam. — Não temos tempo para isso. Não demoraremos, apenas vão!

A contragosto, e xingando muito, Ember seguiu as ordens no final das contas. Pegou o nômade, passou seu braço pelos ombros e o ajudou a levantar. O dobrador juntou-se ao coro de xingamentos, mas não resistiu quando se viraram para partir.

— Eles vão voltar, não vão? — disse a garota, insegura, conforme se afastavam.

Yan fechou os olhos e respirou fundo antes de responder:

— Vão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.