A Lenda Sem o Avatar. (Livro 1 Agua)
7 VII- Vida
Notas iniciais
O vento acelera e castiga a costa.
Não era o vento.
Eram as próprias ondas que espancavam areia, terra e rochas. A balsa que vinha os pegar não poderia se aproximar. Ele nunca havia visto tanto poder em uma pessoa antes. A não ser …
Sem medo, ela vem em sua direção. Ele esquece a dor, sentindo sua própria mortalidade nas mãos daquela algoz Silene.
A perda de sangue faz sua visão, que já não era boa, turvar. Katara salta sobre ele e retira a lamina com ferocidade o fazendo cair. De joelhos ao chão, ela não demora a continuar o ataque feroz; aproveitando-se de sua atual situação fragilizada.
Ele não podia usar sua dobra, ou então seria descoberto. Restava apenas suas laminas e seu treino de combate. Mas seu corpo não o obedecia.
Seus ataques pegavam de leve, ou de raspão. Não é que ele não queria matar a menina. Mas seu corpo não conseguia. E ela por sua vez, apesar da fúria e vontade; não podia contra ele; mesmo este estando gravemente ferido se defendia facilmente de seus golpes descontrolados e mal dados.
Claro que com isso eles perdem a balsa. Mas se eles ligam? Não. Lógico que não. Estava entretidos de mais para ver ela partir. Muito menos ver quando um outro navio se aproxima.
Este não era largo e baixo como a balsa. Mas longo e alto. Esguio para navegar com velocidade. Forrado de velas e de tripulantes mal encarados; que acostumados a uma vida no mar logo põe seus olhos sobre a bela jovem, ignorando completamente o rapaz que ela parecia subjugar.
Broncos e rudes os homens desembarcam já se pondo em direção a moça que toma posição defensiva. Eles sorriem debochando de sua tentativa de defesa. Lutar contra um moribundo que não queria feri-la era uma coisa; já vários homens que estavam loucos para “machuca-la” era outra.
Novamente Katara se vê presa.
Os homens a algemam e tacam em um galpão forrado de coisas tomadas em base de violência e medo. Lá fora ela podia ouvi-los terminar de saquear as pobres vidas que vinham arrastadas de pouca esperança, esperar pela próxima balsa.
Mas logo pequeno pergaminho lhe chama a atenção e ela rapidamente o pega para si. Era um raro pergaminho de dobra de água e ela se sente agraciada e com sorte. Seria um agradecimento divino por ela ter atacado um demônio?
Pelas frestas ela vê seu oponente.
Sentado ao chão e acorrentado a um mastro com ambos os braços para cima, este não se cobria mais com seu manto esfarrapado; seu corpo moldado em músculos estava gravemente ferido.
Muito ferido.
E suas bandagens que eram muito mal feitas estava se desfazendo; porem ela se concentra mais em seu rosto. Não conseguia entender o porque daquela cicatriz tão grande em sua face. Muito menos o por que de te-lo posto preso ali. O que um bando de piratas iria quer com ele?
O navio parte e começa a sacudir.
Ela se distrai entre vigiar os feitos dos homens e gritarias e admirar o sangue de seu ate então rival escorrer por suas costas. Não demoraria e ele estaria morto.
Em meio a convenças ela ouve algo sobre um príncipe, mas não presta muito a atenção. Estava mais preocupada em sair de lá antes que algo pior ocorresse com ela.
Porem eles não se demoram em ir busca-la.
A jovem se debate e bate. Eles riem com sua luta a levando ate o convés a onde o jovem estava acorrentado e desacordado. De cabeça baixa seus longos e lisos cabelos, lhe cobriam a face, mesmo este tendo boa parte da cabeça raspada. Eles a chutam para o centro e se põe a esmurra-la sem motivo aparente. Queriam se divertir com sua dor antes de se divertirem. Debatiam qual seria o primeiro, deixando as honras para o capitão.
Os gritos da jovem ao tentar se defender despertam o rapaz desacordado. A falta de sangue continuo e seus ferimentos ainda o mantinha desorientado. Muito desorientado.
Através de seus olhos embasados a cena se moldava a um ocorrido de seu passado, confundindo a realidade presente. Katara se convertia em um moça ligeiramente maior que ela e de pele bem alva, contracenando com seus cabelos negros e pesados.
Esta lutava contra os mesmos piratas usando pequeninas laminas e parecia vencer com facilidade; ate que... pirata é pirata.
O jovem se liberta das correntes em instantes; puxando-se contra a própria corrente ele chega a seu topo a onde a mesma estava presa. Não libertando seus braços da corrente e sim a corrente do poste de madeira. A usando como um chicote incendiário acertando com fúria e raiva todos os homens em torno da pequena Katara e destruindo o que podia do navio, no processo.
Os piratas espantados com a fuga se põe contra o jovem, que um após o outro são derrubados ao chão. As correntes pesadas batiam em seus crânios, braços e pernas; os livrando de suas armas e os atirando ao mar.
Estes eram os sortudos.
O restante era queimado pela temperatura que a corrente chegava. Seus gritos paralisaram o coração da jovem, que não sabia mais para que lado torcer. Eles eram um bando de piratas nojentos que desejavam claramente fazer maldades com ela. Mas por outro lado... seu salvador era um demônio.
O navio se despedaça em chamas, mas ela permanece parada o encarnado. Os homens tentam fugir a pular do navio. Mas ele os captura com as correntes em brasa como se fossem uma corda de lascar gado.
E ela assiste a tudo.
A morte de cada um.
Um por um.
Pelas mãos do demônio enfurecido.
–--- Você esta bem... Mai? ---- assim que tudo termina ele se vira para moça. Seus olhos claramente fixados nela não a enxergaram.
Porem ela não tem tempo de responder. O barco naufraga e ela tem de nadar ate a costa.
Era fácil sempre havia sido uma excelente nadadora. E quem aprende a nadar em um oceano congelado pode nadar em um simples riu. Mas ao olhar novamente para o rio não vê o jovem que a havia salvado. Teria se afogado? Ele estava ferido era o lógico.
Era só ela se levantar e seguir o seu caminho. Mas não pode. O que sua mãe a diria se soubesse que ela abandonou alguém que havia acabado de salva-la?
Mergulha fundo porem não o vê. Ate encontrar uma corrente presa a um mastro que estava boiando. Ao segui-la vê que a mesma ainda estava presa ao rapaz. Porem ele era pesado de mais para ela; e com as correntes então se tornava impossível tira-lo da água.
Ela respira fundo e tenta novamente usar seus talentos com a água. Chegando a margem completamente exausta. Ela dorme. Que dia...
Pouco tempo depois ela acorda com o cantar dos pássaros.
Ainda estava molhada e olha para o rapaz a seu lado. Rasga um pouco de sua manga e lhe faz uma atadura na ferida em suas costas. Mas a ferida era muito profunda... ela aperta com a intenção de estancar o ferimento que ela própria havia causado com tanto vigor.
O pano estava molhado e ela determinada a saldar sua divida. E então o pequeno tecido começa a brilhar de maneira estranha e sobrenatural a água que invadia a ferida aberta se torna pastosa e aos poucos a ferida se fecha. Katara se senta. Ainda sem entender o que havia ocorrido ali.
–--- Por que me salvou? Não queria me matar... ---- questiona o jovem ao se levantar, ainda tonto.
Ele havia sido curado da ferida, mas não recuperado o sangue perdido ou as forças.
–--- Paguei minha divida. ---- afirma ela convicta ao se levantar e se por a partir. Vendo que o jovem a olhava como se não entendesse nada do que ela estava dizendo. ----Você quem não deveria ter me salvado.
–--- Então eu salvei você... ---- ele afirma ainda entendendo. Parecia mesmo distante. Perdito em pensamentos.
Ele fita o barco que agora estava em pedaços. Poucos focos de chamas podiam ser vistas. Seus olhos cintilavam ao seguir as chamas em um passado doloroso.
Olhava o céu ao tentar se localizar no tempo e espaço. Tinha ocorrido o ataque a seu navio, ele saio por pouco, depois veio ate um local a onde poderia se tratar sem ser descoberto. Mas foi atacado. Por esta garota estranha... que agora o ajudou.
Desperta de seu longo devaneio ao notar que a jovem a seu lado o encarava com vigor. ---- Você ainda esta ai? ---- a jovem se zanga com este modo rude e ao mesmo tempo indiferente dele a tratar; se levantando e se pondo a partir.
Mas não consegue.
A duvida e a curiosidade a prendiam naquele local como se depusessem de correntes e grilhões. Ela volta a encara-lo, seu corpo encharcado parecia secar-se sozinho, e era ate mesmo possível ver o vapor subir enquanto este soltava seus longos cabelos e voltava a prende-los novamente. ---- Por que me encara tanto garota?
–--- Unf...--- ela se senta novamente se rendendo. Sabia que ele não iria feri-la.
De alguma forma este demônio era diferente. Não lhe dava medo ou raiva. Lê passava ate um pouco de apatia. ---- Você... ---- ela não sabia o que dizer. As palavras se engasgavam com seus sentimentos de ódio e a sensação que ele a transmitia. Que confusão... ---- Quando lutamos. Você disse que se eu te matasse só iria alegrar os demônios. Por que? ---- dizia isto ao encarar a imensa cicatriz do jovem a sua frente. Sem disfarçar ou ser polida; sem nenhuma cerimônia.
–--- Por que nos chama de demônios?
–--- Não rebata a minha pergunta com outra pergunta! ---- ergue-se do solo com vigor, já se pondo perante ele.
–--- Por que nos chama de demônios?
–--- Gkya! ---- indaga ela furiosa, batendo os pés. Por um instante ela acha que ele sorri debochando dela. Mas era apenas suas próprias emoções de inconformidade refletidas em seus olhos de vidro sem emoção.
Ela se cala e o encara verdadeiramente pela primeira vez. E desta vez é ele que se ergue.
Ela entende. O que sentia vindo dele era a mesma energia que ela mesma possuía. Tristeza. Tristeza e ódio misturados em uma única e tortuosa dança, dentro de suas almas. ---- Você nega este apelido...?
–--- Não. ---- ele se vira e se vai entre a relva. Eles já haviam perdido a balsa e estavam longe de mais para conseguirem voltar. ---- Você esta em busca do navio que foi abatido... já devem estar todos mortos. Ou coisa pior...
–--- Você pode me ajudar?
Ele se silencia por um ou dois segundos. Uma eternidade para ela. ---- Você não vai gostar do que encontrara, garota.
–--- Eu já encontrei. ---- Afirma ela tentando segurar as lagrimas ao se lembrar de seu pai, que havia deixado seu lar com a promessa de trazer a paz ao mundo.
Se lembra claramente daquele ultimo adeus.
A onde seu irmão o abraçou com força enquanto ela praguejava reivindicando que ele não partisse. ---- Eu só quero achar o meu irmão. E ir para casa.
–--- Quantos anos ele tem? ---- questiona sem se virar. Sabia exatamente o que ela devia ter passado.
O que ainda iria passar. O porquê de chama-lo de demônio. Ela tinha razão...
–--- Tem 16. Que diferença isso faz? ---- ela corre ate ele o segurando pelos braços o obrigando a olhá-la nos olhos. Ele a encara frio como o gelo que viveu por toda vida. Não parecia ser capaz de sentir nada.
–--- Se já tivesse barba estaria morto. Mas já que não... Um destino pior o aguarda. ---- ele a responde sem rodeios, sem pena. ---- Muitos homens de poder compram jovens de boa aparência como a sua para se divertir.
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