Notas iniciais
Oi chicos, desculpe a demora, mas avisos nas notas finais. Espero que curtem esse cap., de agora em diante vou dar mais respostas pra vcs ;)

Eles estavam lá.

Os cinco, exatamente como morreram há alguns minutos.

Deixei-me cair de joelhos no chão me mármore gelado, exausta e abatida, eu tinha pensado que era tudo uma visão, algo que a minha cabeça tinha feito comigo. Mas era tudo verdade. Tudo. Nada havia sido da minha cabeça, nada havia sido uma ilusão. As lágrimas que haviam sido guardadas com tanto esforço, jorraram de uma só vez e logo inundaram o meu rosto, era demais ver que era verdade. Não pensei que sentiria tanto por eles, afinal, eram conhecidos de apenas algumas semanas ou dias, eu já não sabia.

Meu coração se apertou ainda mais quando ele parou ao meu lado e colocou a mão suja do próprio sangue no meu rosto. O cheiro metálico invadiu o ar que eu respirava, era ainda mais difícil ver onde a adaga havia sido encravada e perfurara aquele coração, que se mostrara ser meu. Esforcei-me a olhar para ele por entre a camada grossa de lágrimas.

– Nunca mais – pediu ele – nunca mais pense que eu posso me suicidar, dói, sabia?

– Pensei que tinha perdido você, não brinca com isso. – ele me puxou para um abraço sem se importar com o sangue ou suor. Eu agradeci, mesmo que no momento estivesse entorpecida com a dor latejante na cabeça, eu só precisava senti-lo e ver que estava lá, que não se fora para sempre.

– Está tudo bem, mia bella, não vai se livrar de mim tão cedo. Afinal, se eu fosse, como você poderia viver? – ele se afastou e levantou a minha cabeça com a ponta dos dedos, Brian me obrigou a olhá-lo nos olhos e havia algo lá, algo que eu realmente amei ver – Eu vi você, senti você naquela hora, e nunca mais quero isso novamente.

– Eu também morri – pigarreou uma voz conhecida – e morto por esse idiota tingido.

– Tingida é a sua cara, Raio de Zeus, se ela aparecesse como é, ninguém confiaria em você. – eu senti que havia mais naquela frase do que eu sabia.

Levantei com a ajuda do Brian e encarei os quatro que estavam a apenas alguns metros de mim. Nós estávamos em um grande salão, com várias janelas gigantes revestidas de dourado – nada era como no labirinto – as paredes eram em um tom de rosa quase branco, e havia uma fonte no canto esquerdo perto de uma grande porta marrom. Mindy estava do lado dessa fonte tirando o pó preto e não tinha muito sucesso. Lily e Liam estavam perto de uma das janelas, olhando para horizonte, os dois andavam com atitudes bem estranhas ultimamente. Frank estava a poucos metros a minha frente também com uma mancha preta na altura do peito, estava com os braços cruzados e tentava não rir enquanto eu sorria para ele. Corri cambaleante e gastando a energia que me restava. A descarga de adrenalina já tinha se dispersado e agora só sobrava um coração em mosaico. Fran me abraçou, passou as mãos fortes pela minha cintura e me levantou do chão, eu enterrei a cabeça no seu ombro e tentei respirar por um segundo.

– Estou orgulhoso.

– Vejo que a senhorita sobreviveu ao teste. – me desgrudei de Frank o mais rápido possível e encarei a portadora daquela voz doce que entrava no salão.

Era uma mulher de meia idade com longos cabelos castanhos escuros que davam destaque para a sua pele incrivelmente branca, por um momento eu achei que ela era uma vampira, não tive como não comparar. A mulher usava um vestido inteiramente branco que parecia se fundir com a sua pele.

– Não tenha medo de mim, Filha do Vento – ela andou até ficar na minha frente, os outros que havia estado longe, vieram até formar um círculo deformado – Sou a portadora do Oráculo de Cefilim, meu trabalho é somente ajudá-la e não matá-la, esse trabalho já do Ele.

– Você não vai me pedir nada? – desconfiei.

– Por isso eu tenho o Labirinto Mortal, quando alguém consegue vencê-lo, já me deu algo em troca. – era difícil pensar que alguém podia ser boa a ponto de me entregar algo tão facilmente, mas algo nela não me dava motivos para desconfiar, ou era algo em mim, não aguentava mais suspeitar das pessoas. – Sou Elise, é um prazer conhecer todos vocês, heróis.

– Prazer? – indagou Mindy – Eu fui incinerada, sabe o que isso vai fazer com a minha pele? Estou cheia desse lugar e quero a minha casa, se a Kassie quer ficar eu não me importo nem um pouco, na verdade, pode morrer que eu não me importo, encha o saco dela, não o meu. Quero a passagem para o Liron agora!

– Tudo bem, querida, como quiser. – Elise apontou a mão direita para o chão logo ele começou a declinar até formar uma escada que terminava na escuridão. – Desçam e estarão na casa do Liron, tenho que falar com a sua amiguinha. – Mindy não hesitou, ela queria manter a sua pose confiante e não ia ficar com medo.

Lily me deu uma ultima olhada antes de seguir também para a escuridão, algo naquele olhar me fez recuar, algo me dizia que surpresa viriam quando eu passasse por aquela escada. E Liam não era a minha pessoa favorita no mundo. Frank e Brian hesitaram por alguns segundos, mas depois de um olhar significativo de Elise, eles desceram sem problemas.

– Não gosto de usar meus poderes com pessoas que não fizeram nada, mas quando eu te falar a profecia não quero que tenha alguém aqui, ela é somente sua. – quando ia perguntar sobre essa história de profecia, ela começou a emanar uma luz verde e os olhos dela viraram inteiramente cor de esmeralda.

Ela falou com uma voz que não era dela:

“O oeste é o caminho até a Fortaleza encontrar

E a pedra verde será o ponto a te guiar

Um par de olhos azuis pertencentes ao fogo ardente,

Será a vingança para o mal onisciente.

Morte e Vingança espreitam o caminho escolhido

Para reencontrar o tesouro que fora perdido”

Primeiro eu senti um alívio, “olhos azuis”, podia ser Brian, ele ia ficar e poderia me ajudar, mas logo a verdade a verdade do resto da profecia caiu sobre mim. Morte. Vingança. As coisas só podiam melhorar, porém naquele momento eu só queria que Elise deixasse de parecer tão estranha com aqueles olhos. Eu queria passar por aquela escada e ia embora o quanto antes. Já tinha lidado com muitas mortes para um dia.

– O bom das profecias – disse Elise voltando ao normal – é que elas ficam gravas na nossa mente. Impossível de esquecer! – isso era realmente animador.

– Você não pode me dizer o que significa? – cheguei mais perto da escada para o caso da portadora do Oráculo dar mais demonstrações de possessão.

– Eu não sei o que significa, somente você pode saber. Algo que eu posso lhe dizer é que o sétimo pode ser um sexto escondido e o sexto um falso número na contagem.

– Isso não faz muito sentido. – ele ignorou meu comentário e me entregou uma flor branca, uma flor de Lótus, ela brilhava até chegar as minhas mãos, onde ficou mais vívida por alguns segundos até se transformar em uma pequena moeda de cobre com uma flor estampada, apertei o objeto e encarei a dona.

– Você fez a escolha certa e a dedução errada.

– Nunca fui boa com deduções.

– Para ser Traidor tem que ser leal. – então ela sumiu deixando um sorriso misterioso.

– O sétimo é o sexto, Traidor leal e escolha certa dedução errada – falei para o nada – Tudo esta fazendo sentido agora! – com essa dedução, passei desci as escadas em direção a escuridão.

***

Quando abri os olhos, estava em uma grande clareira no meio do nada com uma pequena casa de madeira no centro quase caindo aos pedaços. Os cinco estavam em frente à porta e eu segui até eles. Era a hora. A hora eu havia tentado adiar no máximo, tentei esquecer e não pensar naquele momento. Mas estava acontecendo, não queria declarar, mas estava acontecendo. A minha escolha já estava feita e não ia voltar atrás, meu pais teriam que entender que eu não podia ir, não podia deixar meu passado e esse povo para trás. Queria que tivesse outro jeito, algo que pudesse ajudar nas minhas duas situações, mas não havia, alguma coisa teria que ser abandonada, algo teria que ser deixado. Eu estava deixando a minha vida.

Cheguei perto de Mindy e a entreguei a moeda de cobre, ela me olhou surpresa.

– Confio que fará a escolha certa.

– Não deveria confiar em mim, eu não faria nada por você.

– Você já fez. – saí de perto dela e fui ao encontro de Lily. – Está feliz? Vai para casa.

– Não estou feliz pelo o que estou fazendo Kassie, mas se eu não fizer, ele vai... Desculpa, mas fui chantageada a fazer isso, me perdoe! – Lily estava chorando, eu tinha que ter entendido aquilo errado.

– Você é o Traidor?

“O Traidor de sua vida será aquele mais fiel”, como não pude perceber a parte “de sua vida”, eu conhecia Lily quase a minha vida inteira, ela era fiel, a verdade toda caiu sobre mim, no dia da ponte que o Liam falou que quando pisou ela começou a cair, Lily estava segurando a sua mão, eles pisaram ao mesmo tempo. “Para ser Traidor tem que ser fiel”, Lily e eu tínhamos uma promessa de fidelidade, como eu pude ser tão burra? Estava na minha cara o tempo todo. Minha melhor amiga, era o Traidor.

– Entenda Kassie, não tive escolha, ele ia fazer algo com Liam.

– Ele quem? – perguntei brava.

– Não posso falar Kassie, me perdoe, me perdoe pó ter chamado Thomas, me perdoe por ter matado Roy, ele sabia de mais.

– Então, quando você sumiu aquele dia, você tinha ido atrás do Liam, como... Como Roy descobriu? Ele era só um cachorro, Lily! – gritei e as atenções se voltaram para nós. – Nós o compramos juntas! Como você pode ter feito isso? E Thomas? Queria me matar? Sou sua melhor amiga, droga!

– Já disse Kassie, não posso dizer, espero que me perdoe. – ela puxou Liam e seguiu para dentro da cada do Liron.

– Como pode fazer isso comigo? – perguntei desolada.

– Abra os olhos Kassie, você é a que menos sabe aqui. – com essa declaração seca, eles entraram, Mindy foi logo atrás.

– Acho que eu não fui o grande Traidor da sua vida, afinal. – Frank parou e me abraçou. – Você é muito maluca por querer ficar, mas sei que não posso fazer nada, conheço muito bem você para saber que quando faz uma escolha, ninguém a tira de você.

– Não poderia ir agora. – falei pensando em Lily – Adeus, Fran.

– Não acho que seja um adeus. – ele se afastou sem dar explicações. – Cuidado com os abraços que você dá. – assim ele também entrou na casa.

– Sinto muito pela sua amiga, mia bella. – Brian chegou perto de mim e segurou as minhas mãos, restavam apenas segundos agora.

– Não vai me dizer o que significa? Você está indo embora. – aquelas palavras doeram.

– Tudo bem... – ele respirou fundo – É em italiano, significa: Minha bela ou minha linda, mas não a chamo assim pela segunda palavra, por mais que ela seja verdadeira. Eu acho pela primeira: minha, minha de um jeito que eu não sei explicar, eu não quero que ache que sou possessivo. Por um tempo que quis esconder de mim mesmo isso, mas eu sei, e sei que você também sabe, você é minha. E respondendo a pergunta que você queria me fazer naquela noite, sim, eu gosto de você, e respondendo a pergunta que você está fazendo agora, sim, está doendo te deixar, mas só faço isso porque não tenho escolha.

– Todos têm escolhas, Brian, você também pode ter. – abaixei a cabeça, mas ele levantou-a e ficou bem perto dela.

– Mas a outra escolha implica em fazer coisas que podem arriscar outras vidas que não sejam a minha, isso eu não poderia fazer. – eu queria contar a ele que eu sabia de tudo, mas não faria diferença, Brian não mudaria de ideia, eu conhecia esse pensamento, é o mesmo da pessoa que eu vejo sempre que olho no espelho. – Isso não é um adeus, eu vou voltar.

– Como? É impossível voltar.

– Ah, mia bella, o impossível tem inveja de mim. – ele passou os braços envolta da minha cintura e me levantou até ficar da sua altura. – Estou acabando com você ao fazer isso né?

– Sim, mas eu aguento. – então o beijei.

Eu tinha certeza que ele não voltaria.

Em livros as pessoas escrevem: “Ele me beijou como se fosse o último”, no meu caso era o último, Roterford dissera que era impossível sair ou entrar, Brian ia sair. Não me importei o quanto aquilo doía e o quanto queria chorar naquele momento, sempre que os lábios deles estavam nos meus eu não ligava para mais nada. E foi o melhor beijo da minha vida.

A intensidade com o que tudo aconteceu me deixou zonza, Brian parecia querer fundir nosso corpos com aquele abraço forte que me dava enquanto o beijo de tornava mais feroz e vívido. Ele não me abaixou nem por um segundo, continuou a me segurar com aqueles braços e me imprensando contra o seu corpo definido. Eu pude sentir cada músculo do corpo do Brian e não me importei se ele estava me apertando de mais, eu só queria mais. Passei a mão por todo o seu pescoço e pelo seu cabelo, cada centímetro doía mais que o outro.

Começou a chover e depois de segundos era um enorme tempestade (essa era por minha causa). Brian sorriu nos meus lábios e me repousou no chão devagar, ele segurou a minha cabeça e apoiou a sua na minha, deixando nossos narizes se encostarem. Eu não larguei o pescoço dele, não queria largar, não podia largar.

– Não acha que a chuva é demais? –perguntou encostando os lábios nos meus, senti a textura macia e não consegui falar por alguns instantes.

– Não, é romântico. – o cheiro dele parecia o meu, já estava com saudades do aroma de limão com rosas.

– Desculpa por estar fazendo isso com você. – ele me beijou de leve – Tenho que ir. – ele se afastou e me deu uma última olhada nos olhos, depois seguiu para a casa, como todos, ele fez uma pequena declaração antes de sair. – Sinta-se honrada Kassie Way, não gosto de garotas de olhos escuros.

***

Fiquei parada durante incontáveis minutos antes de sair do transe e fazer parar de chover, não olhei para a casa nem uma vez. Teria que usar meus mínimos conhecimentos de geografia para saber onde era o norte, era minha única pista, não sabia qual Fortaleza ia encontrar, mas de uma coisa eu sabia: as profecias realmente ficam grudadas na cabeça.

Não sei por quanto tempo corri, só sei que serviu para eu poder esquecer tudo o que havia acontecido. Obriguei-me a encarar o norte e não parar para olhar qualquer direção ou pensar em qualquer coisa, eu não sabia o que ia fazer, não sabia o que ia encontrar, estava mais sozinha do que eu poderia estar. Sem Dracon eu não tinha uma voz no canto da minha mente e sem os cinco, eu estava inteiramente abandonada, a mercê do destino que me cercava e traria coisas horrendas com ele. Horas se passaram e eu me joguei no chão, exausta, não tinha achado nada desde que tinha decidido correr para o norte, e algo me dizia que se continuasse desse jeito não conseguiria.

Olhei para o céu azul de Pórfiron, ainda não sabia o que fazer, eu chegaria em Arcamant e pediria a coroa? Ninguém acreditaria em mim, nem eu mesma sabia o que estava fazendo, eu era mesmo a princesa? E se eu fosse, onde estaria meus pais? Todos diziam que estavam mortos, mas mortos onde e por quem? Tinha certeza que era algo relacionado com esse tal de Ele, todos falavam Dele, mas eu não sabia quem era ou o que havia feito, ou por que havia feito. Mas tinha a ligeira e estranha impressão que Ele não era o ele.

– É meu amigo, somos eu e você perdido nessa floresta. – disse para um pequeno esquilo marrom com um colar verde.

– Eu não estou perdido, só quero as nozes que você está em cima. – ele respondeu em alto e bom som. Eu dei um pulo e fiquei de pé encarando a pequena criatura que comia as nozes sem preocupar com a minha surpresa.

– Você... Você fala? Primeiro é um cachorro e agora um esquilo, achei que aqui não fosse Narina, por favor, me levem até Aslam. – tinha certeza que ele não entendia nada, mas nada me importava mais.

– Não, os animais não falam! Que idiotice! Eu só falo porque meu mago adora fazer experiências com seus animais e ele desvendou essa pedra que tem esse poder em particular. Animais falantes! – ele bufou enquanto pegava uma noz – Em que mundo você vive?

– Onde está o seu mago? – perguntei com esperança – Ele não poderia me ajudar?

– Ele está na Convenção da Ordem do Mago em uma fortaleza aqui perto, mais um pouco ao norte. Desmond poderia até te ajudar, mas os outros te mandariam para o calabouço e a matariam. É uma garota, vão chamá-la de coisas feias e acabaria tudo muito ruim.

– É a minha única escolha, e, afinal, não tenho medo.

– Deveria ter. – ele disse como se fosse algo importante – Assim como deveria temer a morte, minha pequena Mensageira.

– Mensageira? – perguntei a ele andando em direção ao norte, aquele pequeno andava rápido demais.

– Seu povo é conhecido por serem os Mensageiros da Morte, o Vento sempre leva mistério. Os antigos achavam que esse Encantrio era o mais poderoso por ser invisível e poder controlar todos os outros, somente um eles não podiam. O Raio. Por isso esses povos sempre brigaram entre si, foi a poucos anos que conseguiram a paz, mas tudo se foi por orgulho.

– O Pai do Frank. – as palavras saíram sem que eu pudesse controlar.

– Ele deve te odiar.

– Não, na verdade gosto muito dele e ele de mim.

– Ou isso vai mudar com o tempo e ele te odiará com toda a sua essência ou ele é muito bom em fingir. – ele correu mais rápido – Eu creio na segunda, pequena Mensageira. Como a Ordem vai te odiar.

– O que a Ordem é que pode ter o direito de fazer algo comigo? – disse já com raiva das pessoas que constituíam essa Ordem, mesmo sem nem conhecer.

– A Ordem manda em tudo que existe em Pórfiron, eles são como um Parlamento, tentaram esse nome, mas eles não podiam deter as leis, então não era um Parlamento. Com a morte dos reis e dos governantes, ninguém pôde ficar no poder, então montaram o Magistrado. O Magistrado são seis magos que mandam nas seis cidades, eles são os mais poderosos e tem mais influência aqui. Enfureça-os e será morta na mesma hora.

– Mas a família Blanchard? Só tinha o Rei, a Rainha e a filha? Não havia mais ninguém? – eu não queria dizer ao esquilo que era a Clara Blanchard, era melhor não confiar em animais falantes.

– Bem, tem a irmã do Rei, Lady Withmore, ela teve dois filhos, Tempest e Hugo, mas pensaram que a garota era a Filha do Vento da profecia, já que ela nasceu um ano antes da filha do Rei, assim, Ele prendeu a garota num espelho. – aquele nome outra vez.

– Mas por que ela não tomou o trono? Ou Hugo? – eu tinha uma família, e ainda estava viva.

– Somente o nome Blanchard pode tomar o trono, Mensageira, quando a Lady Withmore se casou com o Barão Withmore, ela teve que abdicar o nome e a possível indicação a coroa. Por isso, ela não pode assumir o poder, nem seus filhos, nem ninguém que tenha sua descendência.

– Mas por que os magos têm tanto medo de ter alguém no poder? – nós tínhamos chegado perto de uma grande casa, não chegava a ser uma Fortaleza, mas sim uma mansão, muito bonita – era pintada de azul e tinha janelas e portas prateadas, não era o que eu esperava, mas teria que servir.

– Além dos mesmos perderem poder? Bem, ter alguém no trono seria o ápice para ascensão do Ele, o portal para Demétria está fechado porque somente o Rei pode abrir, sem o Rei, o portal está selado para Ele. Mas também, sem um Rei, Pórfiron fica fraca, todo lugar precisa de um líder, mesmo que isso traga morte.

– Quem é Ele? – essa pergunta era a que eu mais queria responder entre todas, mas eu sentia que não ia descobrir agora.

– É melhor entrar antes que eles sintam a sua presença, boa sorte, Mensageira, se precisar de ajuda meu nome é Tito. Ache o Desmond! – gritou ele enquanto se afastava.

Ele se afugentou correndo para as densas árvores da floresta me deixando sozinha em frente a uma grande porta de madeira sem saber o que fazer. Mas a porta se abriu, por um momento eu pensei que aqueles magos tinham-me “sentido” ali ou algo do tipo, mas ninguém apareceu, segundos depois eu não tive escolha se não entrar. Passei pela grande porta de madeira esperando alguém me prender lá dentro, mas nada aconteceu, o que me deu tempo para analisar o lugar em que eu estava.

Era um grande hall branco, no lado de fora era possível ver janelas pratas, mas por dentro não havia janelas, somente grandes paredes brancas que eram estampadas por quadros de pessoas desconhecidas, mas só havia homens, aquela época já estava me dando nos nervos. Havia uma escada dourada no centro como em filmes antigos, e duas portas pequenas, uma à direita e outra à esquerda. Eu estava prestes a entrar na direita – fazendo pouco barulho – quando ouvi um grito da parte de cima e depois vários murmúrios seguidos do grito. Hesitei, mas acabei subindo as escadas com cautela.

A parte de cima não era tão diferente da parte de baixo, cheia de quadros de homens estranhos e alguns vasos de cerâmica. Os murmúrios vinham do corredor à direita, não tive escolha se não seguir esse caminho. Andei até parar em uma grande porta de vidro, fiquei sem reação quando percebi que todos os magos, que estavam depostos em uma grande mesa redonda de madeira, me encaravam. Parei no mesmo lugar sem saber o que falar ou pensar, eles somente me encaram com desprezo até a porta se abrir magicamente e um dos magos – que vestia uma capa preta e tinha o cabelo grisalho, seus olhos eram negros, um negro estranho que pedia algo de você, o Mago também tinha uma espada escondida na bainha, aquilo me deu medo, o que ele poderia fazer com aquilo? – disse:

– Alguém conhece essa dama? – o Mago grunhiu e depois encarou os outros quando percebeu que ninguém tinha respondido a sua pergunta. Aparentemente ele era o líder ou algo assim. – Quem é você? – disse ele voltando o olhar para mim.

– Sou hã... – eu não sabia se contava ou não a verdade, mas o que mais eu poderia dizer. – Sou Clara, Clara Blanchard. – tirei o Encantrio de dentro da blusa e deixei a mostra.

– Impossível! – gritou um mago ruivo.

– Ela só pode estar mentindo! – os murmúrios tinham começado novamente.

– Quietos! – a voz do Líder ecoou por toda a sala, havia uns cinquenta magos, todos eles ficaram quietos quando aquele gritou, eu senti que devia temê-lo, mas também sentia que não deveria ter medo. – Só eu falo aqui, senhores, essa dama está mentindo. – disse ele com desprezo. – Eu mesmo vi Clara Blanchard morrer a dezesseis anos, ela foi despedaçada, posso confirmar que essa declaração não procede.

Fiquei irritada e entrei na sala, era bem grande, mas não havia nada, somente algumas armaduras vazias no canto e a gigante mesa de madeira. Os magos eram mais estranhos de perto, me olhavam como se eu fosse alguma aberração e o medo em seus olhos era evidente.

– Olha aqui... – mas minha frase foi interrompida.

– Respeito senhorita. – disse o Líder. – Nós mandamos em Pórfiron, se quer que não a matemos ou façamos algo pior, vire-se e vai embora e nós vamos esquecer que a dama esteve aqui.

– Garet – disse ruivo calmamente– ela tem o Encantrio, um dos Encantrios perdidos na Guerra, talvez devamos considerar a hipótese.

– Desmond! Como você pode pensar em algo assim? Não vê que essa garota é espiã do Ele, ela quer nos atrasar e ver qual é o nosso plano para derrotá-lo, não podemos acreditar em tal atrocidade.

– Por que eu seria espiã de alguém que eu não conheço? – pela primeira vez consegui terminar uma pergunta.

– Há! – Garet riu alto, como se confirmasse algo – Não veem senhores, é isso que certamente falaria um espião, e, afinal, se fosse mesmo Clara Blanchard saberia quem foi o assassino de seus pais. Agora garotinha impertinente, sou obrigado a prendê-la até decidirmos o seu veredicto.

– Como podem saber se estou mentindo? – gritei mais alto do que eu pretendia, mas aqueles caras já tinham decidido meu futuro, com ou sem educação eu já estava morta. – Não pode apenas decidir sem provas, vocês têm que ser justos, comandam um reino. – suas expressões se tornaram confusas, mas o líder não deixou se abalar.

– Então está bem, onde você estava antes de vir para cá? – perguntou como se já soubesse que eu mentiria. – Não adianta mentir, saberemos se estiver.

– Eu... Eu estava na casa do Liron, mestre dos portais.

– Ah garota... – Desmond suspirou.

– Preciso dizer mais alguma coisa, senhores? – ele deu um sorriso maquiavélico e depois saiu de trás da mesa, acenou para as armaduras no canto da sala, e elas se moveram, e andara na minha direção. – Antes que pergunte garotinha, a pouco, descobrimos que o próximo passo do Ele seria a casa de Liron, obrigada por se entregar.

– Por que eu falaria se fosse o plano do Ele? – as armadura estavam perto, mas eu mandei uma rajada e eles se afastaram batendo na parede e se afastando. – Não estou mentindo!

– Chega de demonstrações, vamos ser mais deliberantes se você cooperar. – Garet estalou os dedos e as armaduras se formaram novamente. – Afinal, senhoras não têm poder aqui.

Mas algo estranho aconteceu, uma nuvem preta entrou pelas frestas da parede e se juntou em uma grande bola negra no centro da mesa dos magos. Todos pareciam atônitos, olharam para mim como se eu fosse culpada, mas eu não sabia o que estava acontecendo. De alguma forma, aquela nuvem negra estava roubando toda a vida daquele lugar, me deixando fraca e sem força para pensar, tudo estava se tornando escuro e sombrio. Caí no chão de joelhos sem ter mais forças, olhei para cima com dificuldade e vi um rosto se formar na escuridão. Era de uma mulher, não muito mais velha que eu, mas seu rosto era muito belo, atemporal, a cor de seus olhos eram negros, sem poder ver a pupila, seu rosto era pálido, sua boca era vermelha como uma maça – sim, ela me lembrou a Branca de Neve, mas de simpática não tinha nada – aquela imagem transmitia maldade. Seus cabelos se juntavam com a névoa preta e densa, não tive forças para dizer nada, mas escutei um suspiro de um dos magos que também estavam caídos no chão sem forças:

“Delyha”

Aquele nome atingiu o ar como uma maldição. Delyha sorriu e seus dentes perfeitamente brancos foram a única coisa menos assustadoras naquela cena. A mulher olhou diretamente para mim e a pouca força que eu tinha se foi, me deixei cair no chão com os olhos semicerrados.

Tudo tem um preço, Clara, quer seu dragão, venha pegar. A voz dela me atingiu como uma melodia linda e sem vida, a voz dela parecia tentar me fazer desistir da vida e morrer, como se a morte fosse a melhor escolha, era um canção feita pelo mal para a morte. Para a minha infelicidade, ela continuou falando na minha cabeça. Sabe, achei que aguentaria mais, filha do Rei. Cadê a sua força pequena garota? Quero uma adversária a altura. Ela riu, não, gargalhou, como os vilões de filme, mas sua risada era pior que seu silencio.

Vamos, lute, seu dragão vai morrer por culpa sua. É tudo culpa sua, fraca, fraca como a sua mãe, não tem forças para lutar com uma sombra. Então ela sumiu, deixando sua risada pairando no ar. Eu não consegui pensar e nem me mover, Delyha levara a minha força, a única coisa que eu pude fazer foi desmaiar.

***

Acordei aos gritos.

Imagens inundavam a minha mente com um turbilhão de emoções. Morte, desespero e dor, foram tudo o que eu vi enquanto estava inconsciente, Delyha tinha deixado coisas em mim que eu suspeitava que não seriam apagadas facilmente.

Minha cabeça doía quando eu tentei levantar, o chão era duro e úmido, apoiei a minha mão na superfície e vi que era terra. Estava tudo escuro, mas a luz do luar entrava por uma pequena janela quadrada com barras impedindo a saída. Uma cela, ótimo. Pelo menos estava viva, com certeza aqueles magos idiotas acharam que eu era espiã. O pior era que meus amigos estavam na casa do Liron, se fosse o próximo passo do Ele... Não! Eu tinha que acreditar que eles tinham conseguido e estavam a salvo em casa, bem longe desse lugar... E vivos. Se Delyha trabalhava para o Ele eu tinha muito o que temer, ela, somente em forma de sombra, tinha derrotado todos os magos naquela sala, tinha me feito cair somente com o olhar. Eu tinha que parar de subestimar as pessoas, ela era reencarnação do mal.

Levantei com dificuldade, ainda com a cabeça latejando, segui para frente e encostei-me a uma barra de metal, fui deslizando a mão pelas barras, com pouca luz era difícil ver onde, com certeza, estava. Mas definitivamente era uma cela, com três paredes feitas de barra de metal e uma de pedra solida, onde ficava uma janela que daria para a liberdade, se não tivesse barras grossas. Eu me senti fraca de mais para tentar fazer algum feitiço para quebrá-las, mas também sabia que os magos não me colocariam numa cela que fosse fácil de ser quebrada. Do mesmo jeito, levei a mão até o Diatiz para ver se tinha algum feitiço que poderia usar para sair dali, mas quando toquei o local, não havia nada, procurei em todo o lugar, meu Livro havia sumido.

Senti-me uma idiota por não perceber antes, aquele livro era extremamente poderoso, os magos não poderiam tê-lo pegado, era impossível de ser visto. Eu tinha perdido o livro mais superestimado do mundo, como eu era burra! Agora um indigente poderia ir, pegá-lo e ser poderoso, os capangas do Ele poderiam pegar, que vontade de me matar, mas olha a novidade, estava desarmada. Minha espada não estava mais na bainha, e nem a bainha estava mais na minha cintura. Meu Encantrio ainda estava lá,e por sorte minhas roupas também, mas do que isso me importava se não existia um jeito de sair dali?

Joguei-me no chão, derrotada e cansada, mesmo que tivesse ficado apagada o tempo todo, eu não havia descansado nem um pouco, era como se a minha força estive tentando voltar ao me corpo, mas ela tinha se perdido e não sabia me encontrar. Dracon, eu tinha que salvá-lo antes que fosse morto.

Se qualquer outra pessoa tivesse falado que iria matar o Dracon eu riria e lhe desejaria boa sorte, mas Delyha se mostrou bastante poderosa, mataria Dracon rapidamente e eu não teria chance nenhuma. Mas eu tinha que tentar, mesmo que morresse tentando, eu tinha que tentar, Dracon ter sido capturado era culpa minha, se ele fosse morto... Eu sentia que ia morrer também, e não do jeito romântico.

E tinha a fome.

Ah, a fome!

Era cortante, meu estomago parecia um animal a ponto de pular em cima daquela barras e fingir que eram doces, nunca sentira tanta fome, até meu braço parecia gostoso. Tirei aquele pensamento canibalesco da minha cabeça e me joguei no chão, encostando-me à parede de pedra, ela era fria, o que me ajudou. Deixei meus pensamentos ziguezaguearem, pensando em tudo o que eu havia passado e em todas as pessoas que eu consegui pensar naquele momento desesperado.

Meus pais. Eu tentava manter aqueles dois longe da minha cabeça, eu tinha certeza que quanto mais eu pensava nele, mas culpa eu sentia por querer ter ficado nesse lugar. Por que eu não pensei neles? Minha mãe e meu pai haviam me criado a vida toda, gastando força e tempo comigo, e na primeira brecha, eu havia os deixado, sendo egoísta a ponto de não pensar em como eles se sentiam.

Depois, meus pensamentos voaram até Brian, eu não havia pensado muito quando ele tinha dito aquelas palavras para mim, eu achava que estava sonhando ou algo assim. Aquilo me sorrir inconscientemente e depois fez meus olhos se encherem de lagrimas, mas eu não ia chorar. Tentei pensar nas coisas boas e felizes, já que o lugar em que eu estava não deixava esses pensamentos florescerem. Pensei em mim quando ele me beijou mais cedo, como fora tão intenso e como eu queria que não acabasse, por um minuto eu pensei que nunca acabaria. Mas acabou, ele se fora, prometera voltar, mas eu sabia que era impossível, eu estava sozinha.

Rapidamente me senti depressiva, estava completamente sozinha, em um buraco e sem saber o que fazer, desesperada, mas eu não queria demonstrar isso. Tentei chamar Leonor, talvez assim o tempo passasse e tudo seria menos pior, mas eu percebi que também tinha perdido a minha mochila, nunca mais veria Leonor, não falaria mais com ela, e também não veria a minha mãe. Era tudo culpa minha.

As horas se passaram, mas eu sentia que era da minha cabeça, tudo estava tenebroso e nublado dentro de mim, sentimentos eram como o nada, não causavam efeito em uma pessoa anestesiada.

Um farfalhar perto me acordou.

Eu não tinha percebido que tinha caído no sono, mas quando acordei, uma silueta de um homem estava a minha frente. Ainda era noite e a lua estava mais forte que nunca, assim mostrava fios de cabelo vermelho do homem a minha frente.

– Desmond... O que... – ele não me deixou terminar.

– Não fale alto, eles vão acordar e você morrerá mais cedo. – ele me lançou um olhar reprovador e pegou um molho de chaves no bolso da calça, procurou a certa e encaixou na fechadura, um estalido ocorreu e eu fiquei com medo que chamasse atenção dos outros, mas Desmond não se importou. – Venha! Rápido, garota, eles vão senti-la rapidamente.

Demorei um pouco para entender o que estava acontecendo, ainda estava meio grogue com o sono, mas levantei e suspirei de alivio quando estava fora daquela prisão. Minha espada estava encostada em uma parede próxima, peguei-a e coloquei na minha cintura, onde era o seu lugar. Depois voltei a encarar o homem que me libertou.

– Por que está me ajudando? – desconfiei.

– Escute garota, eu sei que você não está mentindo, o colar, seus olhos, bem... Fuja, assim que perceberem que fugiu, eles irão atrás de você e a mataram. – tinha preocupação em seu olhar.

– E você? Quando descobrirem, você morrerá!

– Não se preocupe comigo, você é a nossa salvação, irá acabar com essa tirania, vá! – ele colocou a mão nas minhas costas e me guiou pelo corredor de pedra escuro. Corremos até chegar a uma pequena porta de madeira, Desmond abriu e me empurrou delicadamente para fora. – Corra o mais longe que puder. – um grito veio do fim do corredor – Eles descobriram.

– Eu não sei aonde ir. – falei desesperada, o mago assoviou e Tito apareceu correndo desesperado das árvores.

– Tito vai levá-la para um lugar seguro. – ele olhou para trás e fechou a porta, com uma fresta ainda aberta ele suspirou – Achei que não viveria para conhecer a Luz. Ande menina, vá!

Ele fechou a porta e eu a ouvi se fechando, meu pé ficou preso ao chão, mas eu não poderia desperdiçar a chance que Desmond dera a vida para me entregar. Assenti para Tito e ele começou a correr em uma direção alternativa pela floresta. Mais gritos vieram da Casa, um eu reconheci sem demora.

– Ela está fugindo! – Garet gritou. – Matem-na agora! Quero-a morta!

Um assovio de flecha cortou o ar e logo uma mancha de sangue se formava na altura do abdômen. Vacilei, mas não podia parar, usei as árvores ao meu favor e continuei correndo, sempre em frente, não me podia ao luxo de olhar para trás. Quando Tito e eu estávamos longe dos barulhos da casa, eu me joguei no chão de joelhos e puxei a flecha da barriga, sufoquei um grito de dor ao tirar a arma, não podia dizer onde estava por ser fraca. Tentei estancar o sangue com a mão, mas não parava de jorrar liquido vermelho. Rasguei a minha calça e prendi no meu ferimento, outra onde de dor passou por mim, e mais uma vez o grito ficou entalado.

– Mensageira, você está ferida! – Tito subiu no meu ombro e encarou o ferimento.

– Não, Tito, eu transpiro sangue! – falei mais alto do que devia.

Encostei-me em uma árvore próxima e tentei respirar, deixar minha respiração uniforme, mas sempre um farfalhar ou o vento me assustavam e meu ferimento doía como se estivesse sido feito naquele momento. O sangue estancara, minhas plaquetas estavam fazendo um bom trabalho, mas a dor ainda era evidente. Tentei me distrair com qualquer coisa naquela escuridão, mas para a minha sorte só havia um esquilo falante ao meu lado roncando nas minhas pernas.

– Tito, acorde. – ele levantou tão rápido que me deu um susto, se preparou como se houvesse um ataque. – Está tudo bem, eu só queria saber para onde está com intenção de me levar.

– Para a Cidade do Fogo, é o mais próximo daqui, e ninguém que não seja da cidade pode entrar. Ao menos que conheça alguém que lhe dê abrigo lá. – ele fez uma pausa e me olhou. – Você conhece alguém, não é mesmo Mensageira?

Eu queria ter a chance de responder, mas o som de cavalos em marcha me assustou. Coloquei Tito no meu ombro e levantei correndo, uma dor alucinante quase me fez cair, era tanta dor e fome que quase me fez rir... Quase. Corri o mais rápido possível até ver uma luz próxima, acelerei com vontade – quer dizer, até aceleração possível para uma pessoa que estava machucada.

– Ela está ali, atirem! – eu não decifrei o dono da voz, somente e me abaixei e quando me dei conta, estava rolando montanha abaixo.

Os gravetos passavam deixando longos e inúmeros pequenos ferimentos que ardiam toda vez que encontravam o chão, eu batia em coisas duras, mas não conseguia parar. A cada segundo eu ganhava mais velocidade e a queda se tornava mais difícil, eu só queria que acabasse logo.

– Arqueiros! Preparar... Atirem! – uma nova avalanche de flechas zuniu a cima de mim, dei uma guinada para o lado e me escondi atrás de uma grande árvore.

Procurei um tempo para respirar e vi que as luzes da cidade estavam muito próximas. Meus próximos passos foram totalmente impensáveis e instintivos, eu não sabia como tinha encontrado forças para caminhar – porque com certeza alguma coisa teria que estar quebrada depois da queda – até um guarda que guardava a cidade. Manquei até chegar ao jovem vigia – que a pouca luz da manhã era branco, quase pardo, seu cabelo era loiro como o de Brian, mas a cor de seus olhos era indecifrável. Ele me encarou e depois ergueu a espada.

– Eles... Eles... – balbuciei – Vão me matar.

– Quem é você? Quem quer matar você? – ele abaixou a espada ao ver a minha lesão – Conhece alguém que possa ajudá-la?

Só um nome veio a minha cabeça.

– Henry. – disse como um suspiro – Henry.

– Chame o guarda Wernecked – ele gritou para os outros caras que vestiam o mesmo uniforme que ele – uma calça vermelha e uma armadura marrom, agora era possível ver seus olhos. Azuis. Um par de olhos azuis. – Ele está a caminho senhorita, aguente só mais... – a frase dele foi cortada por vários gritos de guerra não muito longe vindo do norte, a direção que eu havia vindo.

– Kassie! – olhei para o dono do grito, era Henry correndo desesperado com o mesmo uniforme, ele chegou até mim e me encarou com um meio sorriso. – Andou se metendo em confusões.

Eu não tive forças para responder, se Henry não fosse rápido o bastante, certamente eu teria caído no chão. O guarda me segurou a tempo e me ergueu no chão, seus braços eram fortes e seu corpo era quente, assim como um certo feiticeiro do Fogo. Ele olhou para o norte e depois lançou um olhar alerto para o amigo.

– Jeff, não deixem entrar se não tiverem o Comando. – ele olhou para mim e depois para o sul. – Você vai ficar a salvo. – ele declarou andando para a direção que eu não consegui discernir onde era, eu só queria que a hemorragia me fizesse ficar inconsciente. – Prometo que nada vai machucá-la.

Depois dessa declaração, tudo mais foi escuridão.

Notas finais
Bem chicos, eu não fiquei feliz com meu outro cap. e acabei tendo um ataque de drama, mas acho que passou, vou tentar melhorar de agora em diante. Esse eu acho que está melhor, espero realmente que gostem e comentem para me ajudar na recuperação.
Bjss
~Ana