A Lenda Do Turbilhão
1 Prólogo de uma Lenda : Memórias do Limbo
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Ela estava a flutuar. Como nos sonhos, sem nada por cima nem por baixo, apenas flutuando à toa num vazio. Não conseguia sentir nada, não se conseguia mexer, nem sequer os olhos conseguia abrir. Os seus sentidos ausentes, a sua mente oscilava entre a consciência e o esquecimento. Tomando consciência da sua existência após um tempo indeterminável, voltou a fazer-se as mesmas perguntas de sempre.
‘Onde estou? O que é que aconteceu?’ E como sempre que despertava do coma que preenchia a sua existência no vazio, obteve as mesmas respostas. ‘Houve... Luz. Uma luz no horizonte, vinda do sítio onde a sua Mãe disse que trabalhava. Uma luz amarela, quase dourada... Tão linda. E... Doeu.’ A memória da dor fez com que quisesse encolher-se numa bola muito pequenina mas não podia mexer-se. ‘A minha garganta, os meus olhos, por dentro de mim. Doeu tanto... Também doeu à Linnith de certeza...’ Lembrava-se da gata castanha a contorcer-se no chão. ‘Mãe... Mama...O que é que aconteceu? Onde é que eu estou? Isto é assustador... Mãe... Onde estás Mama? ...’
Os seus pensamentos descaíram em choros e súplicas incoerentes. Pouco depois, a histeria acalmou e desapareceu, levando com ela a sua consciência. A sua mente voltou a adormecer, o coma suavizando as feridas do seu espírito pouco a pouco até desaparecerem por completo, engolidas pelo vazio.
Há quanto tempo estava a rapariga neste limbo, suspensa entre a vida a morte? O tempo e o espaço não têm significado em sítios como este. Segundos, anos ou séculos, todos eles são engolidos pelo vazio e tornam-se em nada mais que conceitos e memórias. E como todos os conceitos e todas as memórias, perdem-se.
Mas esta rapariga vai ter mais uma oportunidade. Vai poder viver mais uma vez. É o azar e os esforços da sua mãe. O seu corpo encontra-se noutra espécie de vazio e, algures num outro planeta, algo falha e uma besta é libertada no mundo outra vez. Um demónio que quebra a sua prisão com força suficiente para romper o espaço um bocadinho. Mas apenas é necessário um bocadinho para que dois corpos voem pelo ar mais uma vez.
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