A Lenda De Thommy
5 Duas espadas e um Orfanato.
Notas iniciais
— Pronto — Joe se levantou, dando um último nó nas ataduras de Thommy. O garoto olhou o ombro enfaixado e hesitou um pouco até finalmente movê-lo.
— E então...? — perguntei.
— Consigo mover! Muito obrigado, moço — ele agradeceu enquanto se levantava. — Como você fez isso?
— Joe, por ser um Mestre, precisou passar pela fase de Noviço. Isso deu a ele um básico conhecimento medicinal — expliquei. — E pelo que notei, seu ombro só saiu um pouco do lugar... Não foi nada grave.
— Incrível...
Thommy olhou Joe com notável admiração. Não precisava ler seus pensamentos para saber que ele se perguntava como Joe enxergava com, debaixo do cabelo castanho cintilante, uma venda marrom cobrindo seus olhos. Além de agir como se não estivesse vendado, Joe também era dono de uma musculatura perfeita que a constante prática de luta corporal lhe concedia. Ele com certeza seria muito famoso entre as mulheres, se não fosse por sua personalidade um tanto reservada.
— Agora que cuidamos dos seus ferimentos e que as coisas se acalmaram, acho que podemos ir para a cidade, né? — nosso líder aconselhou.
— N-Não! Eu vou ficar... É! Preciso ficar pra treinar bastante e me tornar um grande Lorde! — Thommy tentou disfarçar. Muito mal, por sinal.
— Menino, você tá doido?! Se encontramos um bafomé, imagine quantos monstros fortes ainda devem estar por aqui!
— Calma, Jenny... Você precisa ser delicada. Deixe isso comigo — disse Abra, tomando a frente. — Thommy, querido... Tem muitos monstrinhos fortinhos por aqui e é perigoso. Papai só quer o seu bem, docinho. Não teime quando eu disser que é perigoso, ouviu?
Depois dessa inútil tentativa de ajuda, precisamos cortar a cena em que Abra levou um belo de um soco no meio da fuça que eu, irritada com tamanha idiotice de um sujeito que se julga "pai" da criança que mal encontramos, não consegui segurar.
Assim, aos pés de uma das árvores, Abra descansava seu rosto levemente ferido e Shey insistia em tentar impedir o menino.
— Lorde Kiwr deve chegar a qualquer momento. Ele só voltou à cidade pra recrutar um grupo que vasculhe os Arredores. Eu sugiro que você procure outro local para treinar...
Por algum motivo ainda fora de nossos conhecimentos, o garoto olhava constantemente para o chão, como se estivesse aflito. Sem percebermos, o Lorde mencionado surgia atrás de nós, obviamente com sua tropa.
— Com licença, menino. Qual é o seu nome? — perguntou o Lorde.
— Droga... — O garoto recuou alguns passos para trás, claramente incomodado com a pergunta.
— Algum problema, Lorde Kiwr? — olhei-o.
— Fui informado de que este garoto fugiu do Orfanato de Prontera e recebi ordens para levá-lo de volta.
— ORFANATO?! — Abra, num surto, correu para perto de nós.
Sim, um orfanato. Antes era um colégio que estava indo à falência, mas que, com a ajuda da Catedral de Prontera, tornou-se um abrigo para crianças órfãs, cujo número crescia gradativamente.
— Thommy... — olhei-o por um instante. Era notável sua raiva por ter que voltar à um lugar que, julgo eu, deveria ser tão deprimente. Pensei que ele correria, mas sua reação foi totalmente diferente.
— Jenny... ACEITE-ME COMO SEU DISCÍPULO! — E, num gesto de respeito e desespero, o menino encurvou-se.
Todos olharam surpresos para ele. Eu não sabia o que fazer, mas era óbvio que eu não aceitaria um discípulo assim, de repente. Lorde Kiwr permaneceu imóvel, naquela típica postura de superior que aliás, combinava muito com seu rosto ossudo de quem não deve ter menos que 40 anos.
Notei que Joe, sempre cabisbaixo, virou levemente sua cabeça para minha direção, como se me olhasse ou quisesse dizer algo. Não dei muita importância porque eu tinha que procurar uma resposta que não machucasse o pobre órfão. Sheth, nosso líder, finalmente entendeu o por que da reação misteriosa de Thommy ao mencionar seus pais mais cedo.
— Thommy, eu... — Não consegui terminar. Só por ter abaixado a cabeça e fechado os olhos, ele já percebeu que eu não o aceitaria.
Sem alterar sua postura, ele trincou os dentes. Minha resposta havia o afetado mais do que imaginei. Lorde Kiwr, antes que Thommy corresse, o segurou pelo braço evitando utilizar o uso da força e puxou-o.
Nós vimos os dois se afastarem com alguns Cavaleiros — outros ficaram nos Arredores para, como Shey havia dito, vasculhar a área.
Todos estavam mais desanimados, até mesmo Joe me parecia diferente.
— Ei, gente... O que aconteceu? — perguntei, um pouco aflita por achar que ter recusado o garoto tivesse sido um grave erro.
— O garoto... Ele esqueceu a espada — disse Joe.
— Não, a dele estava presa na cintura — afirmou Sheth, sem dar a mínima importância ao assunto.
— Sem a bainha?
– Acho que sim, Joe... Por quê?
— Ele estava com duas espadas — disse Shey. — Quando a Jenny jogou a poção pra ele, o menino tinha uma espada na bainha e outra maior em mãos. Mas o que isso importa?
— ... Nada — Joe se calou. Eu sabia que ele tinha algo em mente e que era importante. Ele nunca falhava.
Olhei para o lado e vi, mais à frente, uma espada longa e fina largada aos pés de uma árvore dentro de sua bainha. Essa era a mais tradicional das espadas, mas não era a que Thommy estava usando quando eu o encontrei. Não consegui pensar no que aquilo poderia ser importante, mas resolvi não tocar no assunto por enquanto.
* * *
— Não sei até quanto conseguirei aturá-lo, Monsenhor Gregório! Este menino me obriga a pedir forças a Odin, já não tenho idade para pensar em diferentes castigos, um mais severo que o outro, sendo que nenhum se mostra eficiente a tamanha audácia! — A mulher que protestava tinha uma aparência rígida e um sotaque aguçado semelhante ao que hoje chamaríamos de nordestino.
Segurava um menino pelo braço, balançando-o de acordo com o ritmo de suas palavras soltadas com rapidez. Suas vestes longas e escuras com um tecido branco apenas na altura do rosto denunciava sua profissão de freira. A senhora devia estar por volta dos 50 anos.
O garoto mencionado não era ninguém menos que Thommy, o Espadachim que tanto conhecemos. Seu braço, firme entre os dedos da freira, assumia uma cor avermelhada que se destacaria na pele morena. Por baixo do cabelo prateado e levemente bagunçado, os olhos azuis do menino se escondiam, consequentemente ocultando a expressão de desapontamento e receio do mesmo.
— Eu entendo, Irmã... Por favor, acalme-se... — Atrás de uma mesa de madeira resistente e escura, sentado numa cadeira estofada, o tal Monsenhor Gregório alisava sua curta barba grisalha mostrando-se muito calmo. Ouvia as reclamações da mulher como se esperasse por isso.
— ... mas eu havia alertado sobre a monitoração constante nos campos...
— Irmã Antonieta, posso ter uma conversa em particular com o menino, por favor? — pediu o bispo, interrompendo o discurso da freira com sutileza.
— Sim, senhor — Ela imediatamente largou o garoto e fez uma rápida reverência, saindo do recinto logo em seguida.
Pelo curto período de tempo em que a sala do diretor ficou silenciosa, Thommy não se moveu. Olhava para o chão, aguardando pela consequência que cairia sob seus ombros. O mais velho decidiu fazer o mesmo — ou melhor, não fazer. Acariciava a barba esperando que o Espadachim quebrasse o silêncio. De vez em quando virava seus olhos para analisar algum detalhe insignificante da sala. Esta era visivelmente grande, com altas estantes nos cantos e quadros pendurados, tornando-a um pouco menor que o normal. Os quadros abordavam temas religiosos, representando Deuses e santos. Não podíamos esperar menos de um orfanato fiel à Catedral, sendo considerado um dos melhores — se não o melhor — de Rune-Midgard.
Os móveis eram, em geral, antiquados. O que os impedia de desmoronar por tamanha velhice é a madeira resistente usada para fazê-los. O piso era de um xadrez discreto, não chamando tanta atenção talvez pela rica decoração mais atraente.
— Eu sei que foi errado! — gritou Thommy, assustando qualquer passarinho que pousasse na janela atrás da cadeira do diretor.
— A julgar pelo que aconteceu recentemente, desconheço o verdadeiro significado da palavra "errado"... Afinal, você estava apenas lutando pelos seus sonhos — disse o Monsenhor, olhando desapontado para o passarinho que realmente havia voado para longe por causa do grito.
— Tentei fugir, DE NOVO! — continuava ele, cerrando os punhos e sem levantar a cabeça, provavelmente por falta de coragem. Seria torturante encarar aqueles olhos, tendo consciência do que fez.
— Não vou esconder nada de você, Thommy. Estou confuso quanto ao real significado da palavra "errado" porque discutimos sobre sua situação. Já pensamos em expulsá-lo — O bispo procurou as palavras certas, mas nenhuma mudaria a reação de Thommy. O menino abaixou mais a cabeça, se é que isso é possível, como numa tentativa de esconder ainda mais o rosto. E ainda foi surpreendido com a pergunta. — Isso seria errado? As freiras não sabem o que fazer. Nenhum castigo neste mundo parece ser severo o suficiente para usar contra você. Pensamos em levá-lo à Guilda dos Espadachins, tendo em vista que seu maior objetivo é sair deste local... Mas você não tem tanta disciplina para que isso possa ocorrer. Largar uma criança no mundo me parece errado, mas esta mesma merece como punição... Porém, a expulsão é seu objetivo. Foi essa a impressão que me passou, pelo menos.
— ... — durante o discurso do bispo, o menino não se mexeu. Apenas ouviu cada palavra tentando entender até onde aquilo iria.
— Apesar de tudo, a expulsão seria justa. Isso traria alívio às freiras, à você, e até à mim. E, como punição pelos seus pecados aqui cometidos, você andaria com a "ficha suja". Então, me responda, menino... Por que eu não o expulsei?
Após a pergunta, a sala ficou silenciosa de novo. Thommy percebeu que aquilo era mesmo uma pergunta e então pensou numa possível resposta.
— ... Esse é um orfanato religioso... Não é ruim expulsar alguém? — ele arriscou.
— Péssima justificativa. Somos humanos, e pecamos. Mas, alguns pecam demais. E esses merecem a punição, como no seu caso.
— Então por que eu ainda estou aqui...?
— Não foi isso que perguntei?
— ...
— Thommy, meu filho... Não o expulsamos porque você não saberia lidar com o mundo lá fora.
— O quê?! É mentira, eu sei lidar sim! Só por ter passado no teste de Espadachim, já prova isso! — O garoto finalmente levantou a cabeça, encarando o bispo com notável ira.
— Mas lembre-se de que você passou no teste por MUITO pouco, filho. E aliás, você sempre volta ferido dos Arredores quando consegue fugir daqui, mesmo quando o proibimos de sair... Não consegue destruir um poring?
— N-Não é isso, é que... Eu tenho dó de porings... Não acho justo matar uma coisinha tão fofa... — disse o menino, enquanto desviava o olhar.
— E é por isso que você não se fortalece. O único local que você tem para realmente treinar, é no campo de treinamento aqui instalado. Porém, isso não basta. É necessário também a experiência física com outros monstros — disse o bispo, sem levantar a voz em momento algum.
— Mas eu não quero matá-los...
— Vamos fazer um trato, Thommy — O bispo organizou alguns papéis que estavam distribuídos na mesa e olhou o garoto de fininho.
— Um... trato...?
— Sim, isso mesmo. Você acha que eu estou o subestimando... Pois bem, mostre-me do que você é capaz. Caso você se mostre como um bom Espadachim, pensarei na possibilidade de levá-lo até Izlude ou até mesmo de deixá-lo sair daqui antes dos 13 anos. Porém, isso requer muito treinamen...
— VAI MESMO FAZER ISSO POR MIM?! — Thommy gritou, deixando a felicidade se revelar.
— Sim, sim... Mas você precisa me prometer de que não irá quebrar as regras do nosso acordo. Vou permitir sua passagem para o Esgoto de Prontera, onde você treinará. Mas prometa que não irá fugir.
— EU PROMETO, SÉRIO! JURO QUE NÃO VOU FAZER ISSO!
— Vou confiar em você. Lembre-se que eu não estou sendo legal. Só acho que seria desnecessário manter um Espadachim tão forte como você aqui dentro por tantos anos... — disse o velho, abrindo um sorriso de lado e dando uma piscadela.
— E-Então... Isso é um segredo?!
— Sim. Ninguém saberá que eu estou abrindo as portas para você. Faço isso porque confio na sua capacidade e, principalmente, na sua lealdade. Tenha em mente de que até mesmo para ter um PecoPeco como montaria é necessário ser um Cavaleiro leal ao seu bicho.
— C-certo!
O bispo Gregório riu baixinho do menino. Thommy estava realmente animado, seus olhos brilhavam como duas pedras preciosas. O velho levantou, contornou a mesa e aproximou-se do garoto, colocando suas mãos no ombro do mesmo.
— Não demonstre tanta felicidade, filho... Finja que eu lhe dei uma bela de uma bronca que você definitivamente precisaria! — ele riu um pouco e tornou a ficar sério. — Agora só lhe resta esperar. Dispensado.
E com isso, o Espadachim respirou fundo, fechou os punhos, cravando suas unhas na palma das mãos para sentir dor e sair da sala com qualquer outra expressão, sem que seja a de felicidade. E ele se retirou desta forma: prendendo a respiração, com os punhos fechados e os olhos cheios de lágrima por causa da dor. O bispo riu e voltou para perto da mesa, parando em frente à janela e apreciando a bela vista que ele tinha da enorme Prontera.
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