- Tome um lugar, rápido – disse Mila ao largar a mão de Marshal assim que eles entraram na igreja.

Marshal afastou-se da garota achando tudo aquilo muito estranho e tomou um dos bancos, que eram todos daqueles compridos, de madeira, separados em duas fileiras. Mila sentou-se ao seu lado e não demorou muito para outras pessoas se sentarem ao lado dela. Em questão de minutos, não só o sol foi apagado no céu como também a igreja ficou em sua capacidade máxima, tendo não só pessoas sentadas, mas também algumas em pé. Marshal não soube dizer se um fato tinha algo a ver com o outro, mas também não tinha vontade de descobrir.

De fora, a igreja já parecia grande, mas vê-la de dentro era ainda mais surpreendente. Era como uma cúpula cujo teto ia às alturas, talvez três ou quatro vezes maior do que aquele andar térreo, e havia pinturas em toda a sua extensão, desenhos que o garoto não conseguiu compreender. Quer dizer, ele até conseguiu detalhar uma pessoa crucificada aqui, um incêndio ali, nada que se desviasse muito desse padrão, mas não entendeu o contexto de toda aquela decoração. As paredes eram escuras, como se velhas, e havia colunas sustentando a abóbada, tudo parecendo muito antigo. Marshal e Mila estavam sentados no banco mais traseiro, portanto o mais distante do altar, mais ainda assim era possível divisá-lo, muito embora aquele fosse bem diferente de qualquer outro com o qual ele estivesse acostumado. Ao invés de ser como um palco, o altar era mais baixo do que o nível do chão e podia ser acessado por pequenas escadas. Se havia alguma gravura por ali, Marshal não conseguiu enxergar, mas suspeitava que houvesse. Quase não havia nenhum espaço em branco ali onde pudesse ser colocada uma nova pintura.

- O que a gente vai fazer? – Marshal perguntou à Mila, mas não a encarou. Estava mais interessado em assistir todas as pessoas ao redor se movimentarem em pavorosa em busca de um lugar para se acomodar.

- Nunca se sabe. É sempre uma surpresa.

- E ainda assim você quis vir pra cá?

- Acredite em mim quando digo que é mais seguro ficarmos por aqui por ora do que assistir o pior lá fora.

- Eu juro que não entendo esse tipo de coisa.

Num súbito, todas as vozes no recinto se calaram, inclusive a de Mila, que parecia ter ensaiado uma réplica. Instantaneamente, todos os rostos se voltaram para frente, o que fez com que Marshal se sentisse obrigado a fazer o mesmo. Foi então que ele viu o que todos viam.

Havia um homem no centro do altar, e sua imagem, a princípio, foi motivo de espanto para o garoto, pois ele não se lembrava de tê-lo visto surgir. Parecia ter idade adulta, aparência de quem não pode mais afirmar ser um jovem, e tinha um rosto solene apesar de sério. Encarava a todos em silêncio enquanto ajeitava um casaco azul, um que parecia ótimo para dias chuvosos. O homem tinha a pele bronzeada, mas os cabelos eram louros e de certa forma compridos, descendo até a altura dos ombros.

Marshal não sabia o que esperar de um mestre de cerimônias de uma igreja como aquela, mas aquele homem não figurava em nenhuma de suas suposições. Primeiro porque parecia jovem demais para ter um serviço como aquele e segundo porque aquela igreja era macabra demais para não ter uma mulher idosa, de cabelos bagunçados e de voz irritante como sua mentora.

- Quem é ele? – Marshal sussurrou na direção de Mila.

A garota balançou a cabeça em negativa e não disse mais nada.

- Bem vindos, irmãos e irmãs, ao Templo da União! – o homem começou a dizer e ergueu os braços num gesto abrangente, como se para saudar a todos. – Espero que estejam todos bem e que nada de mal tenha acontecido a vocês. A julgar por como nossa fé é e sempre foi poderosa, posso afirmar de boca cheia que estamos todos bem no dia de hoje. – Ele olhou ao redor, como se analisando a reação alheia, e então terminou: — Estou certo?

- SIM! – concordaram todos em uníssono, inclusive Mila que, apesar de tensa, parecia estar apenas esperando por aquele momento para soltar a voz como devia.

- Hoje é um dia especial – o homem prosseguiu. – Quer dizer, não que todos os nossos outros dias também não sejam, mas hoje, assim como outrora, recebemos um novo visitante, e acho justo que comemoremos essa ocasião como sempre comemoramos.

Marshal congelou no lugar.

- Quem é o jovem que veio aqui pela primeira vez?

Como Marshal não esboçou reação nenhuma, Mila acertou-o com uma cotovelada nas costas. Aquilo foi suficiente para fazê-lo querer se manifestar.

- S-Sou eu – foi o que saiu de sua boca enquanto erguia a mão.

- Ah, você de fato é um jovem! Venha até aqui, rapaz – o homem disse e o chamou também com um gesto de mão.

Marshal procurou o olhar de Mila. Com a cabeça, ela indicou que ele devia seguir em frente. Intimidado demais para negar em voz alta, ele se levantou e, embora a contragosto, seguiu até o altar, que não ficava muito longe mas que, na perspectiva do garoto, pareceu estar a quilômetros de distância.

- Venha, aproxime-se – o homem pediu e tornou a fazer aquele movimento de mãos. – Não se acanhe.

Marshal deu mais alguns passos à frente e, quando menos pôde perceber, estava sendo abraçado pelo mentor.

- Diga o seu nome para os irmãos.

- Como é que é...? – Marshal sussurrou incrédulo.

- Ora, não tenha medo! Somos todos iguais, em aparência e situação! Diga qual é o seu nome.

- Marshal.

- Eu ouvi, mas acho que seus irmãos não ouviram.

Marshal deu de ombros e proclamou novamente:

- Marshal.

- Marshal, irmãos e irmãs! – o homem repetiu e então houve uma salva de palmas, algo que o garoto julgou tremendamente desnecessário. – É claro que Marshal está aqui por um motivo, agora nós iremos ajudá-lo a descobrir qual é ele?

- SIM! – a igreja respondeu.

- É claro que vamos, irmãos! É para isso que estamos aqui! – a julgar por como o mentor dizia as palavras, Marshal entendeu que ele estava a ponto de chorar.

As saudações continuaram por mais alguns segundos, altas e claras, como se pertencessem a um show de rock, e não a uma igreja.

- Marshal, sei que não fui cortês ao não me apresentar primeiro, mas permita-me que faça isso agora – disse o homem e finalmente se afastou, permitindo que o garoto se livrasse do abraço. – Meu nome é Walter Sullivan, meu rapaz, e eu, assim como todas essas pessoas, estamos aqui para te ajudar. Só é aceito em Silent Hill aquele que necessita da verdade, e todos nós estamos aqui para buscá-la! Sei como jovens da sua idade estão sempre atrás do conhecimento, então digo que, se é ele o que você quer, não tem mais com o que se preocupar, pois tenho certeza de que, enquanto você frequentar esse lugar, cada vez mais próximo da verdade vai ficar!

Houve mais saudações, como se Sullivan tivesse dito as mais lindas palavras.

- Mas antes eu tenho que te fazer uma pergunta – prosseguiu. – Você tem fé?

- Desculpa, como? – Marshal perguntou. Estava tão surpreso com tudo aquilo que mal conseguia manter a concentração.

- Perguntei se tem fé. Esse é um lugar destinado a compartilhamentos de graças alcançadas e de maneiras de se alcançar essas graças, mas preciso saber se você é um rapaz de fé, senão tudo o que faremos é dar murro em ponta de faca. – Sullivan respirou uma grande quantidade de ar e então entoou: — Você tem fé, Marshal?!

Depois de um momento de hesitação que só aconteceu porque Marshal se sentiu apavorado demais com a atmosfera que Sullivan tinha criado, ele respondeu:

- Sim, eu tenho fé! — Era uma mentira, mas, esperto como era, sabia que, se dissesse a verdade, muito provavelmente seria jogado para fora da igreja e teria que enfrentar os perigos que o aguardavam na noite.

- SIM! – Sullivan bradou e a igreja inteira fez o mesmo. – É dessa certeza de que estamos falando, irmãos e irmãs! É por isso que estamos aqui!

Ao dizer isso, o mentor empurrou Marshal com leveza pelas costas, indicando que ele podia voltar ao seu lugar. O garoto não pensou duas vezes ao deixar aquele lugar.

- Agora devemos rezar, irmãos, para que os males continuem afastados e para que os milagres sejam possíveis! Oremos!

Uma reza diferente de qualquer outra que Marshal já tinha ouvido começou a percorrer por todos dentro da igreja, inclusive por Mila, que parecia estar bastante familiarizada com ela. Como não sabia como acompanhar, o garoto fez o que todos faziam: cruzou as mãos à frente e abaixou a cabeça, os olhos fechados.

Esse era o primeiro círculo de orações do qual Marshal fazia parte e, se dependesse dele, muito provavelmente seria o último também.