A Kill For A Kill
12 Por Um Triz
Marshal abriu a boca para sussurrar algo mais, mas Mila apenas levou um indicador aos seus lábios, exigindo que se mantivesse calado. Aquilo foi suficiente para que não só ele, mas também ela, ficassem em silêncio e inclusive segurassem a respiração, certos de que ela fazia tanto barulho quanto o faria se estivessem dando estrelinhas na rua, e não escondidos atrás da cerca de um jardim.
Na posição em que se encontravam, era impossível ver o Pyramid Head chegar, mas não era preciso enxergá-lo para saber que ele estava por perto. Seus pés, que caminhavam com dificuldade porque muito provavelmente era bem difícil sustentar aquele corpanzil em apenas duas pernas, pisavam fortemente no chão, denunciando melhor do que nunca onde ele se encontrava. Se isso já não bastasse, a espada da criatura ainda se arrastava pelo chão, arrancando faíscas e causando um ruído horrivelmente desagradável para os garotos.
Com as mãos nos ouvidos, Mila e Marshal se encaravam. Os olhares dos dois estavam assustados, tensos, as pupilas dilatadas. Estavam tão próximos um do outro, quase encostando testas, que Marshal podia sentir a respiração da garota em seu próprio peito, rápida, desregulada. Ela está com medo, percebeu e apertou os olhos com fúria. Eu não devia tê-la trazido para cá... Esse problema não é dela, é meu!, ele teria dito se isso não fosse tornar a situação ainda pior do que já era.
E de repente não houve mais qualquer som.
Marshal arregalou os olhos ainda mais. Resolveu tirar as mãos dos ouvidos e olhou em volta, verificando se tudo havia se acalmado, como ele suspeitava. Como não viu nenhum movimento, olhou para Mila, animado, sorrindo. Não havia mais qualquer som além do da chuva caindo. Finalmente, estava tudo tranquilo.
- Mila, ele se foi! – ele sussurrou.
- Marshal! – ela gritou e se jogou deitada no chão.
Se não tivesse feito o mesmo, Marshal teria tido a cabeça desprendida do pescoço num corte que não teria durado nem um segundo.
A espada cortou o ar sobre os corpos dos jovens deitados e levou a cerca, que era de madeira, para o alto como se ela fosse feita de um material medíocre. A lâmina, tão grande que era e tão feroz que corria, fez um barulho que zuniu nos ouvidos dos jovens por quase um minuto. As tábuas da cerca voaram para longe, aterrissando na grama muitos metros à frente. Descobertos, Marshal e Mila se encontravam tão vulneráveis quanto se tivessem se jogado na frente do Pyramid Head.
Marshal até viu quando o monstro à sua frente ergueu a espada uma vez mais e descreveu um arco com ela no ar, que descia exatamente na direção do seu corpo, mas ainda assim se sentiu ou fraco ou sem iniciativa alguma de se mover dali e salvar sua vida. Se não fosse por Mila, que agiu com rapidez e empurrou-o para o lado, fazendo-o o rolar, o garoto teria sido fatiado em duas partes. Mais uma vez, ele deixava de morrer por um triz.
Mila se ergueu do chão e correu. Marshal obrigou-se a fazer o mesmo e seguiu-a em frente na rua. O Pyramid Head não demorou a segui-los.
Havia chuva naquele momento, mas também havia medo entre os dois. Marshal não se lembrava de um único momento em que tivesse se sentido tão apavorado assim. Mila estava amedrontada, mas parecia pronta para o desse e viesse, tanto que não hesitara uma vez sequer diante de uma situação em que uma atitude rápida era necessária. Marshal esperava que logo começasse a agir assim também, pois receava que uma hora não teria a garota ao seu lado e não conseguiria se salvar sozinho.
Correndo, os dois notaram o barulho de algo sendo lançado no ar e logo perceberam que algo errado estava para acontecer. Marshal e Mila só tiveram tempo de olhar para trás antes de, mais uma vez, se jogarem ao chão, evitando que a espada que fora lançada e que girava na direção deles não os partisse como peças de carne quaisquer. Levantaram-se em seguida e perceberam que o Pyramid Head, um monstro de três metros de altura, corria na direção deles, dando a entender que o único empecilho que o impedira de fazer isso antes fora a espada que carregava.
Uma olhada para a abertura de pernas que ele fazia ao se movimentar com rapidez era suficiente para concluir que ele não levava muito tempo para se aproximar de sua presa. Por mais que sentissem que estavam prestes a morrer, sabendo que não conseguiriam tão facilmente fugir, Marshal e Mila procuraram correr com ainda mais empenho.
- Por aqui! – ela disse a agarrou Marshal pela mão.
Mila embrenhou-se pelo vão que era formado entre as paredes de duas casas e puxou Marshal para o mesmo caminho. Sem pensar duas vezes, o garoto se jogou para dentro e, deixando o sentimento de claustrofobia de lado, seguiu a garota pelo espaço. Assim que deu cerca de cinco passos para dentro daquela passagem, ele percebeu os passos pesados de Pyramid Head se aproximarem.
- Tem certeza de que ele não pode entrar aqui? – Marshal perguntou, exasperado.
- É claro que tenho! Não viu aquela coisa na cabeça dele? – Mila respondeu.
Assim que ela terminou a frase, uma mão agarrou o braço de Marshal pela entrada por onde eles passaram.
- MILA!! – ele gritou assim que percebeu-se sendo puxado com força.
- MERDA! – ela gritou de volta e agarrou a outra mão de Marshal.
Era óbvio que Mila sozinha não tinha força suficiente para vencer do Pyramid Head naquele cabo-de-guerra, mas a sua vontade de salvar o garoto era tão grande que ela conseguiu aprimorá-la o suficiente para anular os esforços do inimigo e trazer Marshal para si. Mesmo que estivessem prensados entre as paredes da casa, os dois cambalearam para o lado oposto ao que estava a criatura que queria assassiná-los e não demoraram a desembocar em um novo jardim, esse protegido por grades de ferro que não durariam nada ao entrarem em contato com a espada de Pyramid Head, se fosse esse o caso.
- Precisamos sair daqui – Marshal observou e olhou ao redor com rapidez. Apontou um dedo à frente, mais precisamente para o outro lado da rua, e disse: — Ali! A entrada do metrô!
- Perfeito! – Mila exclamou e, novamente agarrando a mão de Marshal, guiou-o pela saída do jardim.
Foi quando uma sirene fez-se ouvir pela rua.
- Polícia? – Marshal perguntou.
- Sim! Se esconda! – Mila disse e jogou-o para trás de uma lixeira grande que havia no quintal, escondendo-se logo em seguida.
- Não devíamos nos esconder da polícia. Eles podem no ajudar!
- Não em Silent Hill, acredite.
De esguelha, Marshal conseguiu ver quando o carro de polícia passou. Ele não tinha a aparência comum com a qual ele estava acostumado. Pelo contrário, parecia velho, encoberto por ferrugem, com vidros escuros e um motor que roncava muito, como se pedisse descanso. Pertencendo a quem pertencia, aquele automóvel devia ser trocado urgentemente, na opinião de Marshal. Mas se aquela não era uma polícia comum, talvez aquela aparência fosse justificada.
- Não são policiais – Marshal disse entredentes. – São monstros quem nem todos aqueles outros que encontrei, não?
- Sinto muito – Mila disse em resposta.
Aguardaram alguns minutos e só então saíram do esconderijo.
Ainda chovia quando atravessaram a rua e, mesmo que fosse já noite, a neblina ainda estava em todo o redor. Mesmo que não tivesse ouvido mais qualquer barulho ou percebido alguma movimentação, Marshal se sentia profundamente paranóico, com medo de que algo mais pudesse surgir em meio àquela ambiente tão desconhecido. Esse não é o lugar em que cresci, agora ele se convencia. Se parece muito com ele, mas não é.
Diante da entrada do metrô, que nada mais era do que uma leva de escadas que desciam em direção ao chão, Marshal hesitou. Mila já tinha descido três degraus quando percebeu que o garoto não a acompanhava. Acontecia que nada podia ser enxergado com muita precisão ali embaixo, por conta da total ausência de luz, e se estar do lado de fora, na chuva, já era suficientemente perturbador, Marshal não conseguia imaginar o que havia lá embaixo.
- Não há o que temer – Mila disse, como se tivesse lido seus pensamentos. – Acredite: o metrô é a rota mais segura para se movimentar pela cidade. Lá dentro, nada pode nos fazer mal.
Ainda receoso, Marshal desceu o primeiro degrau. Somente quando Mila agarrou sua mão, a pele quente entrando em contato com a sua, que ele se sentiu mais calmo para continuar.
Desceram uma grande leva de escadas até que encontraram o primeiro piso do metrô, onde havia até que alguma iluminação provinda de lâmpadas comuns. Alguns espaços eram protegidos por portões e grades de ferro, assemelhando-se a uma penitenciária. Tudo estava bagunçado e jogado no chão, que estava cheio de lixo e móveis derrubados, e ali perto, de frente para uma fogueira que fora acesa num latão de ferro, havia também uma pessoa que esfregava as mãos para se esquentar.
- Que bom que vocês vieram – disse o homem sem se virar. – Faz tempo que não recebo visitas por esses lados.
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