A Kill For A Kill

15 Mila Encontra A Sua Verdade


Apareci em um lugar que não era estranho. Quer dizer, aquela grama em que eu estava sentada era conhecida, assim como aquele horizonte e o céu com nuvens em listras. Fazia tempo que não chovia, então o clima estava carregado e o calor... Nossa, como estava quente! Mas não havia temperatura que não pudesse ser amenizada embaixo daquela árvore, onde eu estava – onde eu sempre costumava estar, quando podia. Era uma dessas árvores comuns, de tronco grosso e enorme copa. Vista de longe, era apenas uma árvore na colina, isolada, como se tivesse sido plantada a esmo. Como se tivesse sido plantada para mim.

Porque não era difícil se sentir como a árvore.

Eu morava numa casa de campo naquela época, num lugar muito agradável. Cresci num ambiente como aquele, rural, cheio de verde e animais por todos os cantos. Meus pais viviam de atividades agrícolas, o que os impedia de querer sair daquele rancho, algo que só seria possível se eles trocassem de atividade. Duvido que isso um dia fosse acontecer. Estavam tão acostumados a acordar cedo para cuidar das galinhas, do gado e das demais plantações que acho que já não conheciam mais qualquer outra coisa do mundo além dessas. Eu não seria diferente, caso não houvesse uma televisão, única, em casa e alguns livros que iam surgindo com o tempo, presentes de clientes. Esses eram meus únicos acessos ao “mundo exterior”.

Isso quer dizer que, com a idade que eu tinha, eu já sabia dizer o que era certo e errado, por mais que, na fazenda, nós vivêssemos as regras do meu pai. Há coisas que acontecem que nos fazem pensar se deviam acontecer mesmo, mas parece que esses pensamentos só surgem quando se é mais velho. Um deles surgiu para mim naquele dia, no fim da tarde.

Eu adorava observar o pôr-do-sol daquele ponto de vista. Embaixo da árvore, a temperatura era ideal, então eu me sentia mais confortável do que nunca. Estava sozinha porque não tinha muitos amigos – era difícil fazer amizade em lugares como aquele -, mas poderia permanecer assim por muito tempo mais. A colina era alta, o que me concedia uma vista panorâmica não só das dependências da fazenda, das casas, dos campos, dos cercados, como também do horizonte, e era nele que o sol se punha, sempre no mesmo horário. Sempre que podia, quando não estava ocupada com outra coisa, eu subia até a colina com algum romance debaixo dos braços e lia enquanto esperava aquele momento. Eu podia ver aquele sol vermelho se pôr por muitos anos que eu jamais me enjoaria.

Mas algo aconteceu naquele dia que me impediu de saber se essa afirmação era mesmo verdadeira.

Eu não devo ter contado ainda, mas, longe dos olhares da cidade, que é onde a supervisão é maior e crimes acontecem com menos frequência – acredite em mim quando digo que, na área rural, há muita coisa que acontece e que jamais é descoberta -, as pessoas se sentem livres para fazer o que quiserem e acharem justo. Brigas são resolvidas com disparos de uma espingarda e corpos são enterrados todos os dias, e ninguém fica sabendo. O que prevalece é a lei de quem mora no campo, e não dos burocratas da cidade.

Isso quer dizer que, quando uma menina é molestada pelo próprio pai, ninguém fica sabendo e nada é feito a respeito.

Eu sei que sempre tive a escolha de acabar com aquilo, sei que podia ter colocado um basta na situação assim que ela começou, mas, como esses assédios começaram quando eu ainda era criança, eu achava que aquilo era normal e que fazia parte de uma “boa educação”. Nunca resisti porque não sabia se aquilo era errado, mas é como eu disse: depois de um tempo, eu cresci. Com dezoito anos, ser molestada pelo próprio pai me pareceu uma coisa absurda e que não devia mais acontecer, então, naquele dia, eu resolvi botar um basta definitivo nisso.

Resolvi isso porque não queria mais ter que assistir aquele pôr-do-sol com a preocupação de ter que voltar pra casa e ser corrompida todo fim de dia.

É claro que quando vi meu pai chegar, subindo a colina despreocupado, como se aquilo também fizesse parte do seu trabalho, eu percebi quais eram as suas intenções. De forma automática, comecei a me fechar no lugar, fechando o casaco que escondia o meu busto e escondendo o máximo que podia as minhas pernas com o meu vestido, procurando, com aquilo, parecer menos sensual. Não que isso funcionasse, até porque não era a primeira vez que eu tentava me esconder do olhar voraz do meu pai. Mas eu ainda tinha esperança.

Ele se sentou ao meu lado quando o sol já estava quase se escondendo. Exalava cheiro de cigarro e eu tinha nojo disso. Geralmente, ele não costumava demorar em demonstrar suas intenções comigo, então já arrastava uma mão para a minha perna, procurando alcançar o que havia entre elas. Mas nesse dia, assim que ele tentou fazer isso, eu me afastei.

O olhar de surpresa que meu pai dirigiu a mim me assustou e fez com que eu estremecesse por um tempo. Eu já sabia o que ia acontecer quando ele começou a erguer aquela mão espalmada na minha direção, então me afastei ainda mais. Ele ficou insano, indignado com o que estava acontecendo, e logo começou a agir como um animal, agarrando o meu casaco e me puxando na direção dele.

Deixei o casaco pra trás e corri.

Desci a colina aos galopes, certa de que meu pai vinha na minha direção. A distância da árvore para a minha casa era de dez minutos numa caminhada lenta, mas eu consegui diminuí-la naquele dia. Entrei pela porta da frente e corri direto para a cozinha, onde eu sabia que a minha mãe estava, cozinhando. Ela me olhou com espanto, parando uma colher de madeira no ar. Essa foi a deixa de que precisei para contar tudo o que estava acontecendo, e o fiz aos berros, para ter certeza de que ela ouvisse bem cada palavra. E ela ouviu.

Ouviu, mas ignorou tudo.

Quando terminei de falar, ela se voltou para a panela, como se eu nunca tivesse estado ali. Entendi, então, que ela era como os outros, ignorante quando o assunto eram os problemas que gente próxima a ela sofria. Eu poderia passar horas naquela cozinha, implorando por ajuda, mas seria um esforço feito em vão.

E meu pai já estava à porta, à minha procura. Mais uma vez, eu corri.

Por algum motivo, pensei que o porão fosse o melhor lugar para me esconder, então corri para o corredor, puxei o alçapão e desci para a escuridão que havia lá embaixo. Eu não podia ter feito pior escolha. Jogada atrás de uma caixa, olhando de esguelha para verificar se meu pai ainda vinha, consegui percebê-lo se aproximar com a ajuda da fraca iluminação de alguns lampiões.

Percebi que estava perdida nesse momento. Ergui-me num segundo, certa de que não havia mais nada a ser feito, apoiando na caixa ao meu lado, e esperei o fim daquilo. Quando minha mão tocou o punhal de uma das muitas espingardas que meu pai guardava naquela casa, eu vi a chance que eu procurava de mudar o curso da situação.

Apanhei a arma e torci com todas as forças para que ela estivesse carregada. Percebi que estava quando vários furinhos apareceram no corpo do meu pai, logo depois de um estampido e um clarão.

Eu larguei a espingarda ao mesmo tempo em que meu pai caiu morto no chão. O sangue não demorou a circundá-lo, compondo aquela cena que eu jamais esqueceria.

O barulho deve ter atraído minha mãe, que logo surgiu no fim da escada do porão. Ela olhou para o corpo abatido no chão e levou as mãos à boca, horrorizada. Só então eu me dei conta do erro que acabara de cometer – mas, de alguma forma, eu não estava arrependida.

Esperei que ela me encarasse. Quando isso aconteceu, sua expressão ficou ainda mais assustada, como se ela estivesse de frente para a própria Morte. Assistindo a essa memória, depois de tanto tempo, descobri que ela ficou assim porque viu Walter Sullivan ao meu lado, e a sua presença, somada à expressão de crueldade que ele carregava no rosto, a assustou grandemente.

O problema era que eu própria não o tinha visto, por mais que ele estivesse com a sua mão em meu ombro.

Foi minha mãe quem me ajudou a vir para Silent Hill, agora eu me lembro. Ela caminhou até mim naquele porão, tomando todo o cuidado de se desviar do corpo e da poça de sangue no chão, e me encarou com aqueles olhos que tremulavam com as luzes dos lampiões. Agarrou minha cabeça e eu achei que ela fosse alisar meus cabelos e me consolar, dizendo que agora estava tudo bem. Mas ela me surpreendeu ao fazer exatamente o contrário.

Como se eu fosse um dos muitos cordeiros que ela costumava abater com uma única pancada na cabeça, ela levou a minha cabeça com força até a caixa em que a espingarda estava sobre e o baque trouxe uma dor excruciante, algo que ninguém vivo conseguiria suportar.

E então tudo sumiu. Lembro-me de caminhar de gatinhas por um túnel negro e de repente aparecer aqui, em Silent Hill. Se aconteceu mais alguma coisa, eu não consigo me lembrar.

Assim que a memória terminou, eu acordei com um grito numa sala de chão de pedra e horizontes que se resumiam às mais profundas trevas já vistas. Eu estava deitada no chão daquilo que devia ser o “hospital”. As dores de cabeça que andava sentindo não existiam mais.

Eu havia encontrado a minha verdade e, por isso, havia me curado das dores.

Tive o tempo de pensar isso antes de Marshal surgir ao meu lado, gritando como eu devia ter gritado assim que tive a cabeça esmagada pela minha própria mãe.