– Para que horas o voo está marcado? – perguntou Marshal diante do enorme painel no centro no centro do aeroporto, onde os nomes dos destinos e os números indicando horários mudavam de poucos em poucos minutos.

– Para as dez horas – respondeu a mãe ao seu lado.

– Para as dez? Não tinha nenhum horário de voo mais tarde, não?

– Desculpa, filho, foi o que conseguimos encontrar tão em cima da hora – respondeu o pai.

– Claro que foi.

Se pelo menos essa viagem tivesse sido combinada por mim...

Marshal tinha dezessete anos, quase dezoito, e acabara de terminar os estudos. A viagem para o Havaí, proposta pelo pai e pela mãe, serviria tanto para comemorar o final dessa etapa quanto para celebrar o seu aniversário, que vinha logo no mesmo mês e que estava marcado para acontecer durante a semana da viagem. Esse era um sonho que ele tinha desde muito tempo e mal podia acreditar que estava prestes a realizá-lo. Talvez por causa disso estivesse tão ansioso, e a perspectiva de ter que esperar muitas horas seguidas para pegar o voo em direção ao seu destino parecia algo com o qual ele não saberia lidar.

Sim, eles haviam chegado ao aeroporto muito tempo antes de o voo acontecer – medida de sua mãe, que achava importante eles chegarem cedo para não correrem risco nenhum de perderem o avião. Marshal achara um exagero tanta antecipação, mas guardou a observação para si. Estivera tão feliz que não queria estragar aquelas semanas com irritações tão bobas.

– Que horas são? – perguntou assim que tomou um dos inúmeros bancos.

– São vinte horas agora – respondeu sua mãe.

Pelo visto, não vou conseguir evitar as irritações bobas, tornou a pensar.

Marshal estava tão ansioso que considerou a espera de duas horas que estava para sofrer um verdadeiro abuso. Sentia que, se fosse ele o responsável por tornar aquela viagem possível, não estaria sofrendo nenhum dos empecilhos que andavam aparecendo no meio do caminho. Mas não fora ele quem combinara a viagem, e jamais seria.

Não enquanto seus pais ainda estivessem envolvidos.

Para seus pais, Marshal ainda era o mesmo garoto que começara os estudos cedo demais, aos seis anos, enquanto os outros entravam aos sete, quase oito anos. Apesar dos dezessete anos, eles ainda o viam como aquele garoto que não sabia colorir muito bem, porque não conseguia segurar o lápis de cor com a força necessária. Enquanto vivesse com eles, ele sabia que jamais seria considerado um adulto, porque não costumavam confiar nele. Um dia ele completaria trinta anos e, aos olhos de seus pais, ainda não seria alguém digno de ser confiado para responsabilidades tão tolas quanto aquela, de reservar um voo e programar uma viagem. E era por esse e por outros motivos que Marshal simplesmente não via a hora de deixar a casa dos pais para viver sozinho.

Algo que ele sabia não estar muito longe de acontecer.

Marshal esparramou-se na cadeira e apoiou a cabeça nas mãos entrelaçadas. Fitava toda a multidão que percorria os espaços do aeroporto entediado. Apesar de já ser fim de ano, não havia muitos viajantes naquele dia. Aquela era uma semana de trabalho ainda, por isso que o aeroporto não estava tão cheio. Aliás, seus pais só estavam ali porque tinham tirado férias – algo que Marshal admirava muito, já que esse, para eles, era um sacrifício muito grande e difícil de ser feito e que se propuseram a fazer mesmo assim.

Mas bem que eles podiam ter organizado melhor essa viagem...

Se Marshal estivesse no comando, teria feito tudo muito diferente. A princípio, aquela não seria uma simples viagem de família, onde ele, filho único, viajaria apenas com os pais. Se soubesse que teria a oportunidade de ir para o Havaí no final do ano, teria combinado com diversos outros amigos para que eles o acompanhassem nessa empreitada. Não que a companhia dos pais fosse um problema, mas ele tinha a impressão de que não se sentiria livre o bastante para fazer o que realmente importava nessa viagem, coisas que compreendiam não só o surf até altas horas, mas a paquera com as havaianas, algo que ele poderia muito bem fazer se seus amigos estivessem ao seu lado, e não seus pais.

Mas esse momento ainda vai chegar, Marshal pensou e sorriu, contente. Aquela seria apenas a primeira de muitas outras viagens que ele faria no decorrer de sua vida, portanto, não tinha que se preocupar. Se aquela fosse um fiasco porque seus pais estavam juntos, logo mais ele poderia fazer outra tão perfeita quanto a que idealizava.

– Espero que seja legal para você, filho – disse o pai, abraçando-o com carinho. – Viemos planejando isso há muito tempo. Espero que você goste tanto quanto temos certeza de que gostaremos.

– Claro que sim, pai. Fico feliz por terem feito isso por mim.

Seu pai sorriu, alegre. Por um momento, isso foi o bastante para contagiar Marshal com o mesmo sentimento.

Mas então algo fez com que seu sorriso desaparecesse.

Pelas portas principais do aeroporto, entrou um grupo de pelo menos sete pessoas, todas vestidas em preto, caminhando calmamente e se dispersando por entre as poucas pessoas que havia ali. Eles usavam máscaras, toucas e óculos escuros, como se pretendessem não serem reconhecidos naquela noite tão fria. No começo, não pareceram muito ofensivos, apesar de terem chamado tanta atenção. Foi só quando sacaram suas pistolas e começaram a atirar para cima que todos ao redor perceberam que não estava tudo certo.

Marshal praguejou algo que somente ele ouviu e tratou de agarrar suas coisas para fugir dali. Gritou para o pai e para a mãe para que o seguissem, certo de que estavam correndo perigo de morrer naquela noite. Tropeçou para o lado e caiu no chão, desesperado. Disse um palavrão e pôs-se de novo em pé, já avançando alguns passos.

Teve a impressão de ouvir os homens gritar seu nome e até de vê-los apontando na sua direção, mas julgou isso como um terrível acesso de paranoia. Continuou correndo com pressa até que, por algum motivo, decidiu que se esconder no banheiro era o melhor a se fazer. Abriu a porta do banheiro num empurrão e pôs-se para dentro.

Nesse mesmo instante, todos os sons do mundo sumiram.

– Preciso fazer algo a respeito... Preciso fazer algo a respeito... – Marshal começou a sussurrar para si. De alguma forma, sua voz soava meio abafada, como se seus ouvidos estivessem entupidos. – Preciso fugir! Mas para onde?

Foi só então que percebeu o erro que cometera ao entrar no banheiro. Uma vez lá dentro, seria bem difícil sair sem ser acertado por aqueles homens.

Marshal foi até o espelho e mirou-se. Tinha um rosto jovem e belo, e sabia disso. Cabelos e olhos castanhos que lhe caíam muito bem. Ainda diante do espelho, ouviu quando um novo tiro foi disparado fora do banheiro. Fechou os olhos, assustado, e começou a torcer para que aquilo acabasse logo. Quando tornou a abri-los, contemplou com horror um buraco que fora aberto no centro de seu peito, por onde um filete de sangue escorria e sujava a pia.

Marshal mordeu o lábio inferior e encarou o reflexo do ferimento no espelho. Sentiu vontade de chorar, mas reprimiu tal ímpeto. Estava para completar dezoito anos e não achava justo que se deixasse abater por qualquer coisa de agora em diante. Apoiou as mãos na pia e com isso procurou força. Tornou a fechar os olhos e, quando os reabriu, estava convencido de que sair do banheiro era o certo a fazer.

Rompeu pela porta e, quando achou que encontraria todo um aeroporto em pavorosa, correndo e fugindo de disparos como porcos que fugissem do abate, se surpreendeu ao deparar com todo um espaço vazio e bagunçado como se jamais tivesse sido utilizado. Isso já era bastante estranho, mas o fato era que havia também uma densa neblina que o impedia de enxergar muito longe.

Diante de imagem tão desesperadora, Marshal não conseguiu mais manter a compostura.

– Mãe?! Pai?! – gritou enquanto corria pelo aeroporto, os passos ecoando com tristeza, as malas largadas à porta do banheiro. – Alguém?! Pra onde foi todo mundo?!

Não houve qualquer resposta.

– Se isso é algum tipo de brincadeira, saibam que não vai ter graça nenhuma quando for revelada! – Marshal esbravejou. – Podem sair de trás dos seus esconderijos, seus bandos de merdas!

Ninguém saiu de lugar nenhum.

Marshal estava realmente bem longe da companhia de alguém. Ele só não sabia disso ainda.


Notas finais
Um review é sempre motivador, não? :)