A Kill For A Kill
18 A Verdade de Sullivan
Sigam pela porta de entrada, havia dito quem quer que fosse o dono da figura que Marshal e Mila haviam visto durante todo aquele tempo que, para eles, tivera duração indeterminada. A verdade era que passaram horas suficientes do outro lado daquelas portas para serem considerados mortos por quem sabia que eles haviam se aventurado em uma viagem até O Hospital. Sigam pela porta de entrada e chegarão aonde mais desejarem. Os obstáculos que existem no meio do caminho quando seu destino é O Hospital servem apenas para testá-lo como forte. Uma vez aqui dentro, eles não têm mais razão de existir, se seu objetivo é fazer o caminho de volta.
Marshal e Mila de fato saíram pelas portas do Hospital e tiveram que fechar os olhos, cobrindo-os inclusive com as mãos, quando se depararam com uma forte claridade. Ela não era esperada, quando os dois sabiam que, do outro lado da porta, devia haver túneis e mais túneis de pedra, com canos correndo pelo teto e vazamentos aqui e ali. Basicamente, um lugar que devia ser escuro. Quando conseguiram finalmente se acostumar à nova claridade, abriram os olhos, curiosos por saberem onde se encontravam.
Estavam de volta ao Templo da União, na beira da escadaria que os levaria até a entrada principal da igreja, em um dia ensolarado que seria muito mais lindo, não fosse a neblina.
Marshal estremeceu no lugar, influenciado pelos sentimentos ruins que ele sabia que sustentavam um lugar como aquele. Agora que sabia da verdade, tinha nojo de voltar a pisar naquela igreja. Era tudo tão horrível que precisava ser demolido e com urgência, para que Silent Hill finalmente fosse purificada de todo o mal com o qual fora contaminada. A fé deles serve apenas para defendê-los de todo o mal que eles próprios criaram, a figura no Hospital tinha dito. Para Marshal, isso nunca fez tanto sentido.
Enquanto refletia, percebeu Mila deitar-se em seu ombro. Ela soluçava, chorava aos montes, profundamente triste. Marshal, apesar de estar com vontade de fazer o mesmo, puxou a garota para si e deixou que ela molhasse seu peito, agora curado, com todas aquelas lágrimas. Abraçou-a e afagou-lhe os cabelos, beijando-a no topo da cabeça vez e outra. Sentia que devia consolá-la, por mais que seu choro fosse de esmagar o coração, quase fazendo-o perder a cabeça também. Era jovem, mas, pela primeira vez na vida, precisava agir como um homem. E assim o fez.
Não que saber que agora estava morto e que seus sonhos jamais se realizariam não o tivesse abalado também. Na verdade, descobrir essas coisas foi como correr de encontro a um muro de concreto e esmagar o corpo nele. Doeu tanto quanto. Sentiu-se tão revoltado que seria capaz de matar Walter Sullivan mais uma vez se fosse possível, nem que tivesse que usar os próprios dedos e dentes para isso. Se houvesse alguma forma de expurgar a existência dele para todo o sempre, em Silent Hillou não, assim ele faria.
E a entidade no Hospital confirmara que havia como. Marshal, agora, sabia o que tinha que fazer para acabar com a raça do monstro em que Sullivan havia se transformado. Só precisava da oportunidade para colocar seu plano em prática.
- Mila – ele disse num sussurro, ainda afagando-lhe os cabelos. – Vai ficar tudo bem, acredite em mim. Nós vamos sair dessa melhor do que você pode imaginar.
Mila não conseguia falar. Ou soluçava, ou falava, e soluçar andara tomando conta de todo o seu esforço naquele momento.
- E então vocês voltaram – disse uma voz conhecida, poderosa, que vinha do alto da escada. – Esse dia vai se tornar memorável.
Marshal e Mila, algum tempo depois, voltaram seus olhares para cima, encontrando Walter Sullivan à entrada do Templo, os braços cruzados numa postura imponente, observando-os de cima. Estava sozinho, o que era um milagre. E é bem melhor assim, Marshal pensou. Não quero que haja gente ao redor para me atrapalhar.
- Queiram subir, por favor – Sullivan chamou.
Mila recusou se mover quando Marshal ameaçou subir, embora soubesse que, mais hora, menos hora, eles teriam que voltar a entrar no Templo da União. Queria atrasar esse instante por pelo menos mais uma eternidade, mas Marshal estava decidido a acabar com aquilo naquele momento, então insistiu para que Mila o acompanhasse. Conseguiu convencê-la, embora ela caminhasse com dificuldade, sem olhar para cima, talvez para não se mostrar fraca diante de Sullivan, evitando que ele percebesse que ela chorava.
- Vocês conseguiram o inimaginável – Sullivan continuou e abriu as imensas portas duplas da igreja com um empurrão. As correntes e argolas de ferro que estavam presas a ela ressonaram por aquele ambiente tão amplo. – Não conheço muitas histórias de gente que tenha ido até lá e voltado.
Porque nunca deve ter lido sobre elas, Marshal pensou.
- Vocês são dignos da minha admiração – prosseguiu enquanto caminhava. Marshal e Mila o acompanhavam lentamente. A igreja estava vazia. – Se puderem fazer um relato a respeito...
- Precisamos conversar – Marshal arriscou.
Sullivan parou no lugar, mas não girou o corpo. Virou a cabeça um pouco para o lado, o suficiente para encarar Marshal por um instante, e então voltou a caminhar.
- Quer que façamos isso num lugar mais seguro?
- Por seguro você quer dizer longe dos ouvidos alheios?
- Também.
- Por favor.
Seguiram, então, direto para a sala de Sullivan, para aquele refúgio em que ele costumava ficar. O caminho até lá continuava tão sinistro quanto antes, mesmo durante o dia. A sala, pequena e com aspecto e cheiros estranhos, velhos, não mudara nem um pouco desde a última visita de Marshal e Mila.
Sullivan ofereceu, com uma mão espalmada, algumas poltronas, mas Marshal negou categoricamente com a cabeça. Aquela conversa ele queria fazer em pé.
Mas Sullivan se sentou mesmo assim.
- Quer falar sobre o que viu lá? – perguntou primeiro. Seus olhos amarelados não deixaram de fitar Marshal em nenhum instante, nem mesmo para piscar.
- Eu vi muita coisa. Vi a minha verdade – o garoto respondeu.
- É o que se espera. E como ela foi pra você?
- Reveladora, esclarecedora, qualquer palavra que queira usar.
- Perceba que, a partir de agora, a sua vida vai mudar, Marshal. As correntes que o prendem a Silent Hill começarão a se corroer e...
- Os 21 Sacramentos, Sullivan.
Walter Sullivan parou seu discurso imediatamente e arregalou tanto os olhos que sua expressão pareceu cômica. Levantou-se vagarosamente, caminhou alguns passos em direção a Marshal e ficou tão próximo que seria possível beijá-lo sem nenhum esforço, se essa fosse sua vontade. Para o garoto, o homem cheirava mal, como se ele tivesse caminhado por um lugar que tivesse pegado fogo e o cheiro de cinzas agora fizesse parte do seu corpo.
- O que você sabe sobre os 21 Sacramentos? – Marshal tornou a perguntar.
- Isso é uma mentira.
- Como viemos parar aqui, Sullivan?
- São muitas perguntas para uma mente tão jovem e despreparada.
- Esse é um julgamento seu. Por que não experimenta me dizer o que sabe? Se eu tiver alguma dúvida, eu te falo. Mas não vamos sair dessa conversa sem colocar os pingos nos Is. Há algo que precisa ser feito, Walter Sullivan.
- É mesmo?
Marshal assentiu lentamente com um aceno de cabeça.
- Eu não posso te falar sobre essas coisas – Sullivan falou, quase num sussurro. O hálito que saía da sua boca era seco e pesado como se ele tivesse fumado.
Marshal sustentou seu olhar medonho por tempo suficiente para parecer inquisitivo.
- Mas eu posso te mostrar – Sullivan terminou e só então se afastou.
- Ótimo.
- Acompanhem-me, por favor.
Mila levantou-se e, na companhia de Marshal, foi atrás de Sullivan.
Sullivan encaminhou-se até uma estante de livros velha, recheada de obras com páginas bem envelhecidas e empoeiradas por conta do desuso. Marshal imaginou que o homem fosse tirar um livro de lá, a fim de mostrar o que queria, mas surpreendeu a todos quando dirigiu-se até o lado direito da estante e empurrou-a. Afastou-a alguns centímetros, mas não o suficiente para revelar o que queria, então continuou a empurrar. Em nenhum momento pediu ajuda. De qualquer forma, Marshal não estava a fim de ajudar.
Quando o serviço for terminado, uma rachadura na parede foi revelada. Devia ter um metro e meio de altura, mas era larga o suficiente para que um corpo passasse por ela, mesmo que agachado. Estava escuro demais do outro lado do buraco, então nem uma olhada com mais atenção revelou o que havia lá.
- Entre – disse Sullivan.
- Como é que é? – Marshal perguntou.
- Esse é um interesse seu, não meu. Você deve entrar lá e encontrar o que procura, e eu estou te mostrando o caminho.
Marshal olhou novamente para o buraco e sentiu receio. Olhou para Mila, procurando alguma segurança.
- Eu vou logo depois de você – ela disse com certa dificuldade.
Marshal assentiu. Quando menos pôde perceber, estava se embrenhando pela abertura na parede. Chegou ao outro lado e não viu nada, porque estava tudo muito escuro. De qualquer forma, avistou um brilho diferente um pouco mais à frente, diante dos seus olhos, e caminhou até ele. Não hesitou em levar a mão até o objeto que brilhava e descobriu que era um isqueiro de metal, que estava frio, talvez por não ter sido usado há muito tempo. Uma fonte de luz, pensou, otimista. Abriu a tampa do isqueiro e experimentou-o uma vez. Ele não acendeu.
Experimentou novamente. Ainda assim, nada.
Na terceira tentativa, conseguiu uma chama, que clareou todo o ambiente de uma vez só.
Só então percebeu que, diante dos seus olhos, tão próximo que fez com que suas pernas bambeassem, levando-o ao chão, havia um corpo morto, levitando no ar. Não, levitando, não, preso a arames farpados, notou enquanto seus olhos percorriam toda a extensão da criatura. Fosse quem fosse, estava com os braços abertos, como se tivesse sido crucificado, embora não houvesse cruz nenhuma por ali. A cabeça pendia abaixada, envolta em arames farpados — o que deve ter causado todos aqueles ferimentos suficientemente sérios para serem os principais culpados por aquela morte – e os pés estavam unidos. As vestes eram comuns. Marshal, apesar de terrivelmente chocado, teve a impressão de que já conhecia aquele corpo de algum lugar.
Esses cabelos louros...
- PUTA QUE O PARIU! – ele exclamou exaltado, afastando-se para trás. – SULLIVAN ESSE CORPO É S...
Antes que pudesse terminar de falar, ele ouviu Sullivan arrastar a estante de uma vez só, prendendo-o naquele ambiente. Ouviu seus passos afastando-se e ouviu Mila gritar por ajuda, muito provavelmente sendo levada por ele como uma refém.
Marshal levantou-se e correu até a abertura na parede. Esmurrou-a, gritou, ordenou para que Sullivan o deixasse sair, mas de nada adiantou. Sullivan estava determinado a deixá-lo ali enquanto fugia com Mila.
Mas voltaria para encontrá-lo em alguns instantes.
Fale com o autor