A Kill For A Kill

10 A Verdade Está No Hospital


A igreja era um amplo espaço, mas não compreendia apenas aquele salão principal, onde as pessoas se amontoavam e conversavam ou rezavam em grupo. Marshal e Mila estavam acompanhando Walter Sullivan com o olhar, de longe, enquanto ele fazia suas preces em silêncio, ajoelhado no centro do altar – as pessoas pareciam ter um grande respeito com a presença dele, por isso não se aproximavam enquanto ele fazia o que fazia –, quando de repente ele abriu os olhos e se levantou. Com tranquilidade, caminhou até a última parede do salão e passou por uma abertura que antes Marshal não tinha percebido estar ali, muito provavelmente porque o pano que cobria a passagem era da mesma cor que a parede em que ficava.

Marshal não conhecia muito bem Sullivan e nem quais eram suas intenções em querer ser dono de uma igreja como aquela, mas o que sabia sobre ele era suficiente para deixá-lo amedrontado com a ideia de procurá-lo pessoalmente. Sullivan era um homem cheio de ideias e frases bonitas, mas o garoto tinha a impressão de que não passava de um aprendiz de psicopata insano, suficientemente carismático para converter todas aquelas pessoas em fantoches seus. Contudo, mesmo que tivesse medo dessa aproximação, Marshal não tinha outra escolha senão procurá-lo. Só conseguira sobreviver com o ferimento no peito por muita sorte, mas agora ele começava a doer regularmente, o que podia significar um perigo.

Ele precisava se curar, senão temia que morresse naquele lugar a qualquer momento.

Mila o guiou até a passagem, embora ele soubesse bem o caminho até ela. Segurando sua mão, ela dava segurança a Marshal, que ainda agia com certa cautela por estar num mundo que desconhecia inteiramente. Quando passaram pelo pano que servia de porta, os sons exteriores automaticamente sumiram, como se nunca tivessem existido de fato. Marshal achou aquilo muito estranho, mas não tanto a ponto de querer comentar com Mila.

Até porque a aparência do corredor com o qual eles acabaram de se deparar era bem mais digna de atenção do que qualquer ausência de som.

Era comprido o suficiente para caber um caminhão, mas não tão largo para tornar isso possível. Era fino, o que permitia que, no máximo, três pessoas caminhassem uma ao lado da outra para atingir o seu final. Lá, havia uma única porta envelhecida, enferrujada, avermelhada. O aspecto daquele corredor, escuro, era praticamente o mesmo que a casa de Marshal adquirira quando ele entrou nela pela primeira vez. Tais lembranças fizeram o garoto estremecer, temendo que algo pudesse acontecer.

- Estou começando a reconsiderar a ideia de levar isso em frente – Marshal comentou enquanto ele e Mila avançavam.

- Está pensando em desistir?

- Estou. Não sei se vale o sacrifício.

Mila engoliu em seco e encarou o garoto com desconfiança.

- Não desista – ela falou.

- Por quê?

- Apenas não desista.

Chegaram à porta e foi Mila quem bateu de leve. Houve um momento aflito de espera, algo em torno de cinco segundos que, para Marshal, foram como cinco horas, e então foi possível ouvir o trinco se abrir. Não demorou muito e Sullivan surgiu por uma fresta, os olhos claros e encardidos ao mesmo tempo percorrendo os rostos de Mila e Marshal com rapidez.

- O que desejam, irmãos? – ele parecia surpreso.

Marshal abriu a boca para falar, mas nada saiu, tão intimidado que estava. Mila percebeu isso e tomou a dianteira da situação.

- Precisamos de ajuda.

- Ajuda? Há alguma ajuda que a nossa religião não seja forte o bastante para conceder?

- Pode soar estranho, mas há.

Sullivan olhou de um para o outro mais uma vez e terminou de abrir a porta por completo.

- Entrem. Seja o que for, deve ser sério demais para que permitamos que os demais irmãos e irmãs ouçam.

Marshal hesitou, mas entrou, seguido por Mila.

A sala em que Sullivan se encontrava devia ter sido linda em alguma época, mas agora os móveis caros clássicos tinham aparência de que sofreram muito com o tempo. Não havia uma tapeçaria naquele pequeno cômodo que não estivesse rasgada ou carcomida, e isso incluía também os sofás. As paredes, mofadas, pareciam ter infiltrações, pois rastros negros desciam em desenhos tristes pela tinta de cor pastel que, em circunstâncias normais, costumavam dar um clima agradável ao ambiente. Havia uma lareira, mas não estava acesa, muito provavelmente porque não estava frio suficiente e não havia o que servir de combustível para o fogo.

Sullivan concedeu um olhar triste aos garotos, como se se desculpasse pelo ambiente tão terrível, e apontou uma mão de unhas sujas para um sofá de dois lugares, onde Marshal e Mila se sentaram acanhados. Sullivan acomodou-se em uma poltrona que permitia que ficasse de frente para os dois.

- E então? – perguntou.

- Ele está ferido – Mila disse antes que Marshal pudesse sequer pensar no que dizer.

- Está?

- Estou – Marshal respondeu. – Aconteceu há algumas horas, durante um atentado ao aeroporto em que eu me encontrava. Houve disparos e um deles me acertou no peito. – Marshal levantou a camisa e revelou o furo. O sangue ao redor já havia secado, mas o brilho de um ferimento recente ainda podia ser visto.

- Você sabe por que está aqui, Marshal? – Sullivan perguntou.

- Não faço a menor ideia.

- Pois eu tenho certeza de que a pessoa que fez esse ferimento em você sabe.

Sullivan se levantou e contornou a sala até uma mesa de canto, onde jazia uma garrafa com um líquido de cor de vinho. Se serviu de um pouco da bebida, bebericou seu copo e não se deu o trabalho de oferecer aos dois convidados.

- Silent Hill um dia foi um lugar muito amistoso, mas hoje em dia tem uma finalidade muito diferente do seu propósito inicial. Antes, havia moradias ao redor, comércios, pessoas que se consideravam felizes, que se viraram bem com o que tinham. Tradicionalistas. Silent Hill era um lugar que abrigava qualquer um que precisasse de uma moradia. Mas então houve o acidente... – Sullivan bebericou do seu copo. – Agora só viemos a Silent Hill se for necessário. O problema é que nem sempre é possível saber por que somos escolhidos para isso. E mesmo que descubramos, é difícil saber como voltar.

- Você acha que estou aqui por uma razão?

- Ah, está, assim como a linda garota ao seu lado e eu. Silent Hill é como uma cruz que precisa ser carregada por aqueles que merecem algum tipo de punição. Marshal, você só está aqui porque precisa ser punido.

- Mas punido por quê...?

- Você tem algum inimigo?

- Não, nenhum! – Marshal respondeu prontamente.

Sullivan encarou-o com as sobrancelhas levantadas.

- Eu não sei – Marshal tornou a responder, dando de ombros.

- Há alguém lá fora que quer que você esteja aqui, meu garoto, e é bem provável que seja a mesma pessoa que cravou essa bala no seu peito.

Mila suspirou, aflita. Marshal encarou-a por um segundo, mas em seguida voltou sua atenção para Sullivan.

- Que ajuda você quer que eu conceda, irmão? – o homem perguntou. – Quer que eu o ajude a buscar a verdade? Se for, saiba que você sozinho vai encontrá-la, mas não sem a ajuda certa. É por isso que estamos aqui.

- Sinto que vou morrer sem descobrir essa verdade se não procurar um hospital com urgência – Marshal falou e sentiu os lábios tremerem. Estava a ponto de chorar.

- U-Um hospital? Mas...

- Preciso de um médico e de medicamentos, senão esse furo no meu peito vai me levar às ruínas!

- Ninguém daqui vai ao hospital, Marshal.

- O quê?!

- Aquele não é um lugar abençoado e você e sua fé, sozinhos, jamais conseguirão se livrar dos males que permeiam aqueles lados.

- Que seja! Preciso de um tratamento urgente!

- Ele quer saber como chegar ao hospital sozinho – Mila interrompeu.

- O que me pede é uma coisa muito séria, meu jovem – Sullivan disse, os olhos arregalados. – Tem certeza de que é isso o que quer?

- Nunca estive mais certo – Marshal respondeu.

Sullivan o contemplou por alguns segundos.

- Há várias maneiras de chegar ao hospital, mas uma delas pode te levar até lá com um pouco mais de segurança. – Sullivan engoliu em seco e prosseguiu: — Você deve seguir pelo metrô.

- Não! – Mila exclamou.

- Como faço? – Marshal quis saber.

- Eu tenho um mapa do metrô, para o caso de alguma emergência realmente importante, e posso emprestá-lo, mas isso tem um preço.

- Marshal, desista disso! – Mila insistiu.

- Que preço? – Marshal perguntou.

- A minha verdade pode estar lá, no hospital, irmão. Se conseguir encontrá-la, eu poderei te dizer qual é a sua. – Como Marshal não disse nada, Sullivan continuou: — E esse é o primeiro passo para deixar Silent Hill antes que ela te consuma.

- Marshal, é perigoso!

- Eu aceito a condição – Marshal declarou.

Sullivan sorriu satisfeito, expressão que parecia impertinente demais para o momento.

- Ótimo. Então preste bastante atenção enquanto te explico qual caminho você deve seguir. Essa memória pode ser a detentora da sua vida assim que você sair pelas portas do nosso templo.