A Jornada do Rei

7 Capítulo 6: Eu Deveria Confiar em Você?


Eu e Ben voltamos para a cena do crime. O Rei estava desolado. Aos prantos, chorava como uma criança que machucou o joelho enquanto brincava. Peter não estava lá, e, quando me deu conta, estava trazendo lady Katilyn para o local do acontecimento. Era a primeira vez que a vi depois do nosso encontro nas ruas da cidade, e aquele não era o local ideal em que esperava reencontra-la. Me deu um sorriso meigo, como se não estivesse bem naquele ambiente. Reparando bem, vi suas mãos tremendo, e estava suada como se tivesse feito um grande exercício. Era tudo nervosismo? Talvez não gostasse dessas situações desconfortáveis, afinal, quem gosta? Retruquei Peter sobre trazer uma donzela a um local de tanto sofrimento e o mesmo me respondeu que ela tinha que vir ou ele não suportaria essa dor sozinho.

Passava do meio dia quando tudo foi começando a se acalmar. O Rei se dirigiu a seus aposentos, mas não sem antes, providenciar todo funeral da Rainha. Seria no próximo dia. Ou seja, adeus a minha festa de admissão, perdoe-me a falta de empatia. Ben, rumou a seu quarto que mais parecia uma biblioteca. Me disse para encontrar com ele a noite e ele me mostraria um quarto. Peter e Katilyn foram se recolheram também, e por algumas horas, Peter não foi tão rude como é comigo, estava claramente abalado.

Já que ainda era cedo para ir até Ben, e tinha algo a fazer, fui em direção ao local onde os feridos são abrigados. Ao entrar, me deparei com Jack ainda dormindo. Sua perna parecia melhor e senti que estava começando a despertar. Coloquei a mão em sua testa para sentir se estava quente, me pareceu normal. Então esperei que terminasse de acordar. Lhe fitando um belo e amável sorriso. O quarto não era dos maiores, mas era suficientemente grande. Tinha a cama do paciente e uma para que a visita dormisse. Uma prateleira com alguns itens de curadoria e um caixote de madeira para servir de mesa. Jack acordou, e estava... estranhamente alerta para quem acabara de acordar.

— Jack...andou saindo daqui? Está meio ofegante...— Falei, criando teorias horrorizadas em minha mente.

Afinal, o assassino tinha que ser alguém do palácio, e alguém que não estava na sala do trono conosco.

— O quê? Não, claro que não, só, acordei bem energético, aconteceu algo ?

Apesar do pouco tempo de conhecimento, já o considerava muito. O bastante para reconhecer quando estava mentindo, e mesmo sem aparentar isso, continuei o testando.

— Nada de ter passado perto do quarto da Rainha antes do meio dia né ? — Tornei a indagá-lo.

— Droga, já falei que não Tiw! Por que tantas perguntas, e se tivesse saído? É proibido andar pelos corredores do palácio agora! Ora, se veio para me encabular, prefiro que saia! — Disse, totalmente enfurecido com a segunda pergunta.

— Você não é nervosos assim, tem alguma coisa acontecendo. Diga-me, diga-me agora mesmo se foi você o assassino da rainha ? — Disse, também levantando a voz para Jack, me levantando do caixote que usei para sentar.

—... então, e-ela está...morta?

— Não se faça de inocente Jack, se foi obra sua me conte, agora mesmo! Ou será pior para você!

— Não Tiwry, não foi eu! Eu nem posso sair daqui, você está ficando maluco ? Nem sei o que aconteceu depois que invadimos aquele quarto. — Ele Rebateu

— Então como explica estar ofegante, e ter "acordado" — disse, entoando a palavra com sarcasmo e continuando — tão agitado?

Ele abaixou a cabeça e me olhou com ar de tristeza. Me arrependi de ter dito aquilo tudo, mas o estresse daquele dia me fez soltar os lobos sobre meu amigo.

— Saia daqui! Saia agora mesmo. Não preciso de alguém que não confie em mim! Maldita hora em que nos conhecemos!! — Disse esbravejando. Mas, consegui sentir o pesar em suas palavras e a última palavra quase embolando em um choro.

Meu orgulho nessa época era maior que a maior coisa que puder imaginar, e não aceitei que ele recusasse minha presença assim. Mesmo sabendo ter feito a coisa errada...aquela atitude e o jeito em que o encontrei no quarto ainda eram muito estranhos.

— Pois vou, não quero ter a consciência de que acobertei o crime de um assassino. — Disse, me virando e saindo da sala.

Comecei a caminha pelos corredores sem um rumo, estava enrubescido com toda situação criada no quarto dos feridos. Caminhei enquanto falava comigo mesmo "faz todo sentido...eu nem conheço ele a muito tempo...ele tinha raiva pela pena que pegou... só preciso de provas...mas... será que foi ele... não tem cara de que teria toda essa coragem..." Enquanto viajava em meus pensamentos, vi de relance um braço sair de uma pilastra do corredor. Estava quase perto do jardim. Com o soco que levei, acabei caindo nos arbustos.

Pus a mão em meu rosto e aparentemente o soco não tinha sido forte o suficiente para me fazer sangrar. Levantei meio desnorteado e ao olhar cambaleando vi Peter vindo ao meu encalço.

— Você perdeu o juízo? Farsante de crimes! — Perguntei, já completamente recuperado e pronto para lhe meter umas bofetadas.

— Me diz você, se perdeu o juízo, me diz Tiwry! — Disse chorando e segurando as golas de minha camisa — Você vai mesmo acobertar o assassino de minha mãe ?

— O quê ? Do que você está falando, tem tido delírios agora ? — Respondi, tentando fugir da discussão que eu e Jack tivemos no quarto.

— Não tente me enganar, eu escutei..."não quero ter a consciência de que acobertei o crime de um assassino." — Ele disse, imitando uma voz de narrador. — Não foi isso que você disse pouco antes de sair daquele quarto. Me diz que não foi isso.

Claramente ele havia escutado apenas o final, e agora eu precisava desmentir toda essa conversa para não acarretar na morte de meu amigo. Mesmo que ainda me restassem algumas desconfianças sobre ele, nunca o deixaria nessa situação.

— Escute Peter, você ouviu apenas o fim da conversa. É no mínimo tolice de sua parte julgar apenas o fim de uma conversa. Deixe-me que explique tudo, e só então poderá tirar suas conclusões! — Disse, afastando suas mãos de minha única camisa. — Isso, vamos sentar aqui no jardim para conversar sobre isso.

Peter ficou parado por alguns segundos, e então partiu em disparada para o quarto do Peter, puxou de sua roupa uma adaga que misturava vermelho e dourado em sua composição. Era uma bela arma de combate. Me esforcei pra chegar nele antes que pudesse entrar no quarto. Cheguei quase junto a ele na porta e por pouco não conseguiria segurar seu braço com a adaga a poucos sentimentos do rosto de Jack. Fazendo força, joguei a arma para o chão e empurrei Peter com tanta força, que fora cair no corredor. Me abaixei rapidamente e fiquei com sua linda adaga. Olhei ele e disse:

— Da pra usar sua mente mimada por um minuto? Vem, entra aqui e vamos conversar, não somos mais inimigos Peter! — Proferir essa última parte da frase foi quase impossível para mim. Não queria matar o Peter, mas claro, ainda guardava um rancor por tudo que me fez passar.

Peter estava claramente emocionado e triste, e acho que só por isso, resolveu me escutar e se sentou. Andei e fechei a porta. Aprendi que fazer um ato de confiança é a primeira atitude para criar um elo com quem tem desavenças. Então, estendi a mão oferecendo de volta sua adaga de combate. Mas ele se recusou, disse que era pra mim, um lembrete raro de um dia em que ele abriu as muralhas do seu coração para mim.

Jack ainda estava confuso com aquilo, mas juntou os pontos e creio que entendeu meio assunto sobre tudo que estava acontecendo. Sentamos os 3 em um círculo e o debate começou:

— Então é isso, agora são dois contra mim! — Disse Jack, balançando a cabeça e olhando para mim e para o Peter duas ou três vezes.

— Não amig...— Fui interrompido

— Sim, exatamente isso. Agradeça não estar morto!

— Amigo!!— Terminei minha frase, olhando para Peter. — Tenho motivos para desconfiar de você, mas quero que dê sua versão amigo, se é que ainda posso lhe chamar assim Jack!

— Claro Tiw, ainda somos amigos! A única coisa que mudou entre nós é que vou esfregar minha mão com barro na sua cara quando descobrirmos que foi o assassino da Rainha. Aliás, não preciso me estender muito em minha defesa, já que a curandeira pode falar que estava aqui neste quartinho a manhã inteira.

A curandeira por coincidência passava no corredor exatamente naquele momento, e foi instruída a entrar na sala e comparecer na reunião dos jovens palacianos. Perguntada, ela confirmou que o Jack não saiu da sala em momento algum. Até Peter teve que confiar na palavra da curandeira.

— Ok, muito bem! Se não foi o antigo assassino Jack quem foi ? — Exclamou Peter.

— Não sei Milorde, não é comum assassinos caminharem com um anúncio na testa expressando isso! Se é que me entende! — Disse Jack com acidez.

— Isso não vai nos levar a lugar nenhum, parem com isso seus dois bestas! Sou mais novo que vocês, mas não é o que se parece!

Os dois se viraram pra mim em uma só voz:

—Cale-se! — E eu os olhei com a maior cara de desprezo que consegui fazer no momento.

— Vamos já juntar o que temos! O assassino é um infiltrado no palácio, um! O assassino não é quem estava na sala do trono, nem é o Jack, dois!...— a voz de Peter atravessou a minha

— Surpreendente, o pobre sabe contar!

— Não tá ajudando, Peter! — Respondi.

— Também não foi a Katilyn, ela estava no quarto ainda nervosa com o acontecimento na rua!

— Ela parecia mais abatida por conviver com você — Retruquei. Ele apenas me olhou muito bravo, mas não disse nada!

— Muito bem, nem foram as pessoas da sala do trono, nem foi eu e nem a futura princesa. Quem sobra ? Disse Jack

— Imagino que seja alguém que guarde algum rancor do Rei e da Rainha. Peter pode nos ajudar com isso! — Falei, dando a palavra ao príncipe.

— Acalmem-se, estou tentando lembrar de pobres que possam ter feito isso...— interrompi:

— Desculpe, mas acho que tem olhos corrompidos sobre nós, e afirmo que essa ocasião é muito mais fácil de ter sido cometida por um barão que não foi atendido bem pelo rei algum dia. Então guarde sua língua quando for falar de classes mais baixas perto de mim!

Peter claramente sentiu a ameaça, pois se calou durante o resto do debate. Nada muito interessante nem importante foi dito. Algumas teorias, alguns escribas e servos infelizes no palácio. A realidade é que estávamos ser norte algum. E a melhor coisa a fazer era tentar descansar a cabeça, e no dia seguinte, nós 3 marcamos para ir analisar a cena do crime. Peter saiu, me xingando novamente de pobre e me humilhando. Mas sua adaga em minha mão já mostrava que vinha ganhando a confiança dele.

Fiquei a sós com Jack novamente, e me sentei na beira de sua cama. Ele me olhou rindo, sabendo o que estava por vir naquele momento, sorri para ele também, imaginando que ele previu o momento;

—...onde começo, desculpe-me — Segurei o riso olhando a cara de Jack — Realmente me desculpe pela nossa discussão de ainda agora, eu estava com turbilhões de pensamentos e sem querer acabei descontando em você...me perdoa ?

— Eu te perdoei antes que me pedisse desculpas meu amigo! E você teve até que bons pontos contra mim...quando descobrir por que acordei ofegante e elétrico você será o primeiro a saber! — Ele respondeu

— E se não eu não for, te desconstituirei de meu amigo. Dessa vez vai ser sério, lhe garanto!

Sorri, e me deitei, dando a ele um grande abraço! Foi quente reconfortante, um abraço sincero de um amigo que estava de volta para mim. Disse que precisava sair, e que voltaria a noite para ver se ele poderia sair do quarto. Era fim de tarde, quando percebi que não daria tempo de visitar minha mãe, mas acho que ela entenderia. Segui os corredores, estranhando a falta de pessoas. Tirando os guardas e alguns servos perambulantes, não vi mais ninguém. Decidi ir para o jardim onde quase entrei em combate com Peter. Havia uma abertura, e se conseguisse escalar a parede, conseguiria ver o por do sol, sentado em uma parte do palácio que não tinha telhados, apenas uma base para o mesmo feita de pedras e barro duro. Fiz isso com uma certa facilidade. Eu era uma pessoa bem ágil na verdade.

Sentei-me, e me pus a observar aquele lindo Sol descendo entre as montanhas no horizonte. Conforme seu brilho e calor se extinguiam, o vento cortante depositava cada vez mais seu frio sobre minha pele. Tirei minha bota, e de dentro dela tirei um grampo para cabelos. O olhei entre os raios alaranjados e sorri. Era uma recordação que roubei da caixinha de necessidades de minha mãe. Escutei um arrastar de pés na parede atrás de mim. Mas não foi o suficiente para que desviasse meu olhar da peça. Então uma doce e saborosa voz, entrou no meu ouvido como uma poesia tocada ao som de harpas angelicais.

— Pensando em alguma donzela jovem protetor ? — Disse.

Olhei para o meu lado, e lá estava Katilyn. Sorrindo para mim, iluminada pelo sol. Seu perfume de amoras penetrava em meu nariz. Pude finalmente admirar seu lindo rosto calmamente. Ela logo abriu os olhos que estavam fechados. Devo ter corado, pois sua cara foi muito engraçada ao me ver. Abaixei a cabeça e tentei fazer meu coração bater mais devagar. Controlei a respiração e disse.

— Não tenho tanta fama com as garotas como você pensa — Dei uma risada sincera mas sem graça.

— Hmmm, então definitivamente garotas não tem bom gosto. Um ser cavalheiro desses não aparece todo dia.

— Agradeço muito sua palavra Lady, não queria me gabar falando que está certa, mas também temo em contradize-la.

— Pode descordar de mim a vontade — Ela deu uma gargalhada sinuosa.

Fiquei tão assustado com aquela oportunidade que esqueci completamente as cordialidades. Lembrei a tempo de segurar sua mão, fria e delicada, e levar ao encontro dos meus lábios. Sua pele era macia, e tinha um gosto tão bom que sinto muito não poder descrever. Foi como ver a luz depois de muito tempo na escuridão. Nunca tinha feito aquilo, só li em livros de fantasia e nas peças que assistia do lado da rua quando passava na frente de tabernas.

— Se não é de uma lady que ama, de quem seria esse pequeno adereço ? — Ela perguntou, olhando para o Horizonte.

— É...uma lembrança de minha mãe — Disse guardando e colocando de volta minha bota.

— Adorável. Os homens de hoje não consumam ser tão sentimentais.

— Não sou um homem comum. Sou...um tanto quanto o contraposto do que um homem é hoje em dia.

— Me chama a atenção — disse me olhando.

— E a lady, feliz com o casório que se aproxima?

— Devo ser formal ou sincera — disse, mexendo em seu cabelo.

— Seja sincera, não lhe julgarei por nada! Promessa de um homem diferente!

— Se pudesse, não casaria com ele, realmente não o amo o suficiente para isso. Mas... não tenho muito pra onde fugir...mas acho que tenho um amor...ele mora bem longe...quase na porta dos meus sonhos. — Esperei alguns segundos para responder, pensando se ela estava realmente me dando espaço para investir palavras mais românticas para ela. Nunca tinha conseguido conversar tão próximo e por tanto tempo com uma garota. Quando ia responder suas palavras jogadas aí vento, os sons dos sinos romperam nosso caminho, fechei a boca. Eras 6 da tarde. E tinha compromissos com o Ben e Jack. Ajudei a lady a levantar e desci do muro, logo depois a ajudando também. Quase desmaio enquanto a segurava na cintura. Foram os 5 segundos mais iluminados que senti. Com acenos e reverências nos despedimos.

— Como consegui subir com tanta facilidade milady? — Indaguei

— Não duvide de minhas capacidades de escalada...Milorde. — e tomou seus rumos

Não sou grande conhecedor das mulheres, mas imaginei que aquela estava mais interessada em mim do que no próprio Peter, cabia a mim prestar atenção nos seus sinais. Sai do jardim e tomei o caminho do quarto de Ben, mas antes, decidi passar no quarto dos doentes, tinha um amigo a visitar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.