A Jornada da Bruxa - O Tomo da Terra
3 Capítulo 2 - Semente de girassol
O silêncio à mesa era total. Jade conseguia ouvir o barulho do pai e da irmã mastigando, mas não via os seus olhares. Depois do que tinha acontecido naquela manhã lá no Mercado de Pim, eles adotaram aquela postura. Jade sabia que era uma forma de não brigarem com ela, mas deixavam claro que não concordavam.
— Me passa o sal? — pediu Jade, mas o pai não respondeu. A irmã o alcançou, apesar de estar mais longe, e entregou para ela. — Você vai me ignorar até quando?
— Até que você tenha aprendido o seu lugar. — A voz do pai de Jade era grave, severa. — Por pouco não foi presa hoje.
— Eu não podia fazer nada, vocês viram como estavam tratando a nossa bruxa.
— Nossa bruxa? — O pai olhou para ela pela primeira vez naquele jantar. — Desde quando temos uma bruxa?
— A bruxa de Pim, eu quis dizer... ela cuidou de muitas pessoas aqui, lembro dela desde que sou criança. Não foi justo levarem ela só porque não tinha uma licença para vender, sendo que nós também não temos.
— Humanos não precisam de licença — ofereceu Bia.
— Se o mundo fosse justo nós precisaríamos. Ou então, ela também não precisaria. De toda forma, é uma sacanagem o que fizeram com ela. Eu não podia ficar lá parada só vendo acontecer.
— Não cabe a você julgar. — O pai pousou o garfo, visivelmente desconfortável com aquele assunto. — Nem a mim, nem a Bia. Vamos esquecer esse assunto, a bruxa pode se virar sozinha.
— E se ela não conseguir? Vamos ignorar tudo de bom que ela fez por Pim? Só porque os elfos querem ditar as regras, não quer dizer...
— Eu já disse que nós não temos que dar palpite nisso! — gritou o pai.
— Pois é por isso que nada muda! — Jade também levantou a voz. — Porque não fazemos nada.
— E o que você poderia fazer, Jade? — perguntou Bia. — Você hoje quase foi presa tentando proteger a tal da bruxa.
— Eu não posso fazer nada... — admitiu ela. Mas uma ideia antiga, que há muito já havia sido esquecida, brotou na mente da garota e ela se viu falando sobre isso pela primeira vez em anos. — Não agora, pelo menos. Mas se eu estudar magia, entrar para a competição das bruxas daqui uns anos e me tornar a nova Rainha, talvez eu consiga mudar as coisas.
Só então ela percebeu que Bia e o pai estavam boquiabertos olhando para ela. Com certeza tinha ido longe demais.
— Você está ficando maluca?
O rosto de Jade corou com a pergunta, mas ela era teimosa, não ia voltar atrás.
— Não. Eu falo bem sério. Se eu me tornasse a Rainha das Bruxas, eu poderia pôr um fim nessa repressão.
— Mas Jade, magia não é uma coisa que dá para aprender facilmente... — Bia tentou articular. — Requer treinamento, coisas que a gente não sabe nem por onde começar...
— Se eu continuar sentada aqui nessa fazenda eu não vou começar nunca. Mas se eu saísse pelo mundo, quem sabe se eu for até as florestas...
— Chega. — O pai se levantou da cadeira e o barulho dos talheres caindo no prato interrompeu Jade. — Eu não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre isso. Você jamais se tornará uma bruxa, nós somos fazendeiros e isso é tudo o que o destino reservou para nós.
— Eu mando no meu próprio destino!
— Mas eu mando nessa casa. Eu não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre bruxas, rainhas, competições ou você deixando essa fazenda. Entendeu?
Jade sentiu as lágrimas enxerem os olhos, por isso ela levantou e saiu da mesa antes que pudessem vê-la chorando. Mas antes de sair da sala de jantar, entretanto, disse:
— É muito insensível da sua parte, pois foi uma bruxa que te curou!
Subiu as escadas apressada para o seu quarto e bateu a porta. Sentia um misto de raiva e frustração quando se jogou na cama com todo a força que tinha, a cara enterrada no travesseiro. Houve um estalo forte e a cama se partiu, o colchão afundou e Jade teve que se agarrar nas laterais para sair do meio da bagunça.
Ficou algum tempo estupefata com o que tinha acabado de acontecer, então tentou consertar o estrago. Suspendeu o estrado partido e levantou o colchão e só então reparou nas coisas que ela tinha guardado lá embaixo: botas de caminhada com canos que chegavam até o meio da canela, um chapéu de palha para os dias ensolarados no campo, e uma caixa com os brinquedos que ela não conseguiu se desfazer depois de ter crescido.
Ela arrastou a caixa para fora, curiosa. Limpou o rosto, agora querendo ver o que tinha colocado ali tantos anos atrás. A maioria dos brinquedos eram de pau e estavam com as pinturas descascando, mas havia uma coisa entre eles que não parecia em nada com algo de criança. Era um livro grande, pesado, coberto de poeira, mas ainda assim bem verde. Ela o tirou da caixa.
Era o livro que a bruxa que se acidentara no campo de girassóis tinha lhe dado. Jade tinha amado o presente na época, mas se desapontou ao perceber que ele estava inteiramente em branco. Não havia nada nele... Ela se perguntou por que nunca tinha escrito nada nas páginas, ou por que não o tinha jogado fora, como uma pessoa sensata faria. Talvez agora fosse a hora.
Abriu-o para ver as páginas em branco, mas encarou a primeira com surpresa: tinha uma coisa escrita ali! “O Tomo da Terra”, em letras cheias de floreios, estava escrito no topo e um símbolo curioso logo embaixo: um triângulo de cabeça para baixo, cortado por uma linha. Jade jurava que não havia nada ali da última vez que tinha foleado aquele livro. Como podia isso? Será que quando era criança ela não deu importância para aquele título?
Virou a página, estava em branco, mas ela não parou por ali. Talvez tinha deixado mais alguma coisa passar, e foi virando, virando e virando, até descobrir mais uma página escrita. Dessa vez não tinha como restar dúvidas, ela teria visto aquilo da última vez. Se tratava de uma receita bem elaborada e ilustrada de um feitiço.
— Para invocar o elemental da terra...
Leu a lista do que precisaria para aquele feitiço e não hesitou. Saiu do quarto apressadamente, saiu pela porta dos fundos e entrou na cozinha, onde achou coisas que precisava, depois foi até o estoque das sementes, pegou mais coisas, e se encaminhou para o campo, secretamente. Entrou no meio da plantação, ajoelhou e ficou invisível para sua família lá dentro da casa. Então fez exatamente como instruía o tomo da terra.
Primeiro enfincou a base de uma vela verde na terra e a acendeu, então cavou um buraquinho e enterrou uma semente de girassol. Olhou descrente para o sol que já se punha e respirou fundo, colocando sua mão direita espalmada na terra. Falou o verso escrito no livro e terminou com:
— Me ajude, elemental da terra!
Primeiro ela achou que nada tinha acontecido e que fizera papel de idiota, mas então o chão vibrou, uma luz verde revirou a terra e a vela se apagou. De onde tinha enterrado a semente de girassol uma planta cresceu com o caule grosso, abriu um botão e de dentro da flor muito rosa um homenzinho de no máximo trinta centímetros pulou para fora, caindo de cara no chão.
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