A Jornada
4 O Conto da Família Quebrada
Notas iniciais
Capítulo 4 – O Conto da Família Quebrada
A mansão dos Hayes era uma estrutura imponente, nem em um milhão de anos, ela passaria despercebida por qualquer um que andasse por aquela rua de Los Angeles. Por muito tempo, Kimberly se sentiu desconfortável quando fugia para brincar no parquinho próximo a sua casa e tinha que dizer para as outras crianças onde ela morava. Isso porque as crianças começavam a olhá-la de forma diferente, como se sentissem desconfortáveis perto da filha de um dos casais mais influentes de Los Angeles. Os únicos que não fizeram isso com ela foram Wendy e Adam Cooper. Seu coração se apertou ao lembrar-se dos irmãos.
Respirou fundo antes de girar a maçaneta e entrar no lugar. Havia deixado Ramona na casa de sua melhor amiga, dizendo que assim que terminasse de conversar com a mãe ela lhe buscaria. Logo após fechar a porta, ouviu passos apressados e, então, um rosto familiar apareceu no vão entre a cozinha e a sala de estar. A figura alta adentrou a escuridão da sala e Kimberly pode definir cabelos curtos e dourados e a expressão séria no rosto duro e cansado de seu pai.
— Ela chegou, Justice. – ouviu a voz grossa do homem a quem sempre chamou de pai. Logo, uma figura esguia e pequena em relação a outra também adentrou a sala de estar, juntamente com a luz do cômodo.
Ouviu-se um suspiro alto, e então a mulher se apressou até onde Kim estava e a puxou para um abraço.
— Por favor, minha filha. Não faça mais isso, fiquei completamente desesperada. – Justice pediu com a voz chorosa. E com espanto, Kimberly percebeu que a mulher havia até mesmo comunicado a Richard sobre o que havia acontecido.
— Não irei pedir desculpas. – Kimberly deixou bem claro assim que se recompôs da surpresa, afastando gentilmente a mãe de si. – Mas, depois de uma longa conversa com a Ramona, percebi que deveria conversar civilizadamente com vocês. Não quero que pensem que sou uma pessoa ingrata, que não reconhece o esforço de vocês em cuidar de mim, mas também gostaria que entendessem que eu preciso saber quem são meus pais biológicos para eu saber de verdade quem eu sou. Sempre me senti deslocada, e agora eu entendo por que.
— Por favor, Kimberly, sente-se. Nós iremos conversar e contaremos tudo o que sabemos, está bem? – Richard pediu, apontando para uma das poltronas dispostas pelo cômodo.
Justice tentou sentar-se perto da filha, mas foi impedida pelo próprio marido.
— Por favor, querida. Vamos dar certo espaço para ela, sim? É muita informação repentina para a Kimberly. – apesar do tom sério de Richard, a voz foi suave quando se dirigiu a sua esposa. Ela sempre soube que, apesar dos dois viverem ocupados e atarefados com suas atitudes sociais e empresariais, eles se amavam profundamente. – Certo, minha filha, o que gostaria de saber?
— Primeiramente, acho que quero saber por que vocês não me contaram que eu era adotada. – Kim disse, e então olhou atentamente para os rostos dos pais. Justice parecia prestes a desabar em lágrimas, mas Richard permaneceu inabalável, com a típica expressão de um homem de negócios à beira de fechar um contrato muito importante.
— Justice e eu havíamos conversado muito quando a achamos deixada em frente a nossa casa. Decidimos então que iríamos adotá-la, porque tanto Justice quanto eu havíamos nos apaixonado por você e soubemos no mesmo instante em que a vimos que você era nossa filha e que Deus havia nos mandado você. Decidimos também que se você havia sido deixada sem qualquer tipo de bilhete era porque seus pais não queriam ser encontrados e, portanto, nós não iríamos mais tocar naquele assunto. Daquele dia em diante você era nossa filha e era só isso que nos importava.
Ao ouvir aquilo, o coração de Kimberly contraiu. Por que ele estava falando aquilo para ela? Cada palavra que saía da boca de Richard transbordava amor, mas era difícil de acreditar. Logo ele que nunca havia sequer dito um “eu te amo” para ela ou para Ramona. Nunca transparecendo carinho ou amor com qualquer uma das filhas, nem mesmo Justice fazia isso.
— Essa resposta lhe satisfaz? – Richard indagou e Kim deu de ombros.
— É um pouco difícil de acreditar, já que nenhum de vocês dois demonstrou algum tipo de preocupação comigo ou com Ramona. Mas, por enquanto, essa resposta vai ter que servir.
— Você está certa, minha filha. Nós sempre fomos distantes, mas se der mais uma chance para nós, eu garanto que seremos uma família mais unida. – Justice se pronunciou, chorosa. Kimberly sorriu de leve.
— Não seria essa família se ela fosse mais unida, mãe. Vocês já foram a algum concerto da Ramona? Ou em algum festival de teatro dela? – ela balançou a cabeça, respondendo a própria pergunta. – Não, não foram. Papai sempre estava ocupado com os negócios da empresa e você, mamãe, sempre estava atarefada demais com os eventos beneficentes e decidindo o que era bom ou não para a minha vida. A Ramona sempre foi deixada de lado e, mesmo assim, foi ela que me fez vir aqui conversar com vocês. Talvez, se vocês concedessem um pouco mais de atenção para ela, eu não teria ficado tão estarrecida com essa informação e talvez não tivesse ficado perdida na minha própria vida.
— Perdão, minha filha. Eu sei que erramos como pais, mas nós... – Justice foi impedida de continuar quando Richard colocou a mão sobre seu ombro. Ela olhou para o marido e passou a mão no rosto.
— Nós dois sabemos que não fomos excelentes pais, Kimberly. Mas, posso garantir que tudo o que fizemos até hoje foi dando o nosso melhor.
Kimberly estalou a língua e voltou a se concentrar no que queria perguntar a eles.
— Vocês tentaram encontrar meus pais biológicos?
— Sim. – Richard foi curto e grosso, o que atraiu o olhar de ambas as mulheres. – Enquanto ainda aguardávamos a sentença do juiz Collins, eu contratei um detetive e pedi que ele descobrisse o maior número de informações sobre seus pais biológicos, sem Justice saber. – a mulher abriu a boca para contestar o marido, mas ele logo esclareceu. – Eu só fiz isso porque pensei que, talvez, os pais dela pudessem aparecer e querer reivindicar nossa filha. Eu apenas queria assegurar que Kimberly não fosse retirada de nós, meu amor.
— O que descobriu? – Kimberly indagou, chegando para a beirada da poltrona que estava sentada. Estava entusiasmada com a descoberta. Se soubesse alguma coisa, qualquer coisa, talvez fosse mais fácil achar seus pais biológicos.
— Eles são de Los Angeles. E, há uma grande possibilidade de sua mãe vir de uma família muito pobre e ter se envolvido com um rapaz de uma família influente. Na verdade, eu não sei muito sobre o seu pai, apenas sobre a sua mãe biológica.
— A família dele fez ela se livrar de mim?
— Possivelmente. – Richard respondeu, recebendo olhares atentos de ambas as mulheres. – Em algum lugar do meu escritório, possivelmente ainda tenho anotado o nome da mulher. Porém, não há uma certeza absoluta de que seja esta a história. Tem certeza que deseja continuar?
— Sim. – Kimberly decretou, séria. – Não quero que pensem que estou sendo ingrata com vocês, mas eu quero saber a minha verdadeira identidade. E acredito que se eu descobrir toda a verdade sobre o meu passado, posso descobrir quem eu sou de verdade.
— Certo. Irei procurar nos meus arquivos o nome da sua mãe biológica. – Richard disse e então saiu do cômodo, deixando mãe e filha sozinhas.
— Minha filha... – começou Justice, insegura. – Desculpe-me pela minha reação.
— Está tudo bem, mamãe. – Kimberly abriu um singelo sorriso. – Eu também tenho que pedir desculpas pela minha atitude, mas foi como se eu tivesse acabado de receber um tapa na cara.
— Nós não contamos porque, bem, sempre a vimos como nossa filha e tínhamos... temos muito orgulho de você. E, por um tempo, nem nos lembrávamos mais que você não tinha saído do meu ventre. – Justice disse, com um leve sorriso no rosto. – Eu amo você, minha filha.
Kimberly ficou estática por alguns minutos. Nunca havia ouvido aquilo sair da boca de sua mãe e aquela frase a deixou completamente surpresa. Um leve sorriso começou a se formar nos lábios da garota, afinal sempre é bom ouvir aquilo de seus pais, sendo eles biológicos ou não.
— Eu também amo a senhora, mamãe. – ela declarou e a abraçou. – E seria ótimo se a senhora parasse de tentar comandar a vida de todos nessa casa. Eu sei que a senhora acha que está fazendo o que acha melhor para nós, mas Ramona e eu precisamos decidir sobre a nossa vida. Entende? – ela perguntou e Justice assentiu, relutantemente. – O importante mesmo é você deixar claro que sempre estará ao nosso lado, não importa a situação. Mas precisa aceitar as nossas decisões, mamãe. Você consegue entender isso?
— Consigo, minha filha. E peço desculpas por ter controlado a sua vida e te feito infeliz.
— Você não me fez infeliz. Fui eu que me fiz infeliz, por não ter tido a coragem de dizer isso para você antes. – elas se abraçaram de novo e, então, Kimberly lembrou que precisava dizer mais uma coisa para a mãe. – A senhora não pode mais largar a Ramona pelo mundo, mamãe. O que ela mais sente falta é da sua atenção. Vocês praticamente viviam para controlar a minha vida e acabavam deixando ela de lado. Então, eu pergunto, por que você também não diz que ama a Ramona? E que se sente orgulhosa dela? Ela pode ser uma garota difícil, às vezes, mas ela é tão cheia de vida e é tão inteligente. Vocês se surpreenderiam se pudessem dar uma chance de se manter presente na vida dela.
— Eu sei que nós temos sido bastante lapsos com relação à vida de Ramona, mas de agora em diante não seremos mais. Apesar de você estar indo atrás da sua família biológica, nós sempre a consideraremos como nossa filha. E sempre te amaremos, assim como amamos a Ramona. Vocês são parte de nós, e amamos ambas igualmente. – a voz imponente de Richard ecoou pelo cômodo silencioso. Kimberly o olhou, surpresa. Nunca havia imaginado que ele pudesse dizer aquilo. – O nome da sua mãe biológica é Blake Foster.
[...]
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