A Joia dos Crevan-em Hiatus
4 Terceiro Capítulo
Notas iniciais
— Com vossa licença cavalheiros, preciso me retirar — anunciou Grell erguendo-se sobre suas pernas que ameaçavam cambalear. O olhar preocupado do pai fez com que ela esboçasse um sorriso pequeno antes de se justificar, embora fosse apenas uma desculpa para respirar um ar que não fosse o daquela sala, pois este já queimava suas entranhas. — Lizzie, digo, Lady Elizabeth está para chegar... existem algumas coisas que devo fazer antes que ela chegue, pois após sua visita acredito que não mais poderei realiza-las antes de me recolher. — seu tom foi gentil e, mesmo que suas palavras não houvessem convencido nenhum dos presentes naquela sala, todos assentiram em concordância.
— Elizabeth sempre causa dores de cabeça — murmurou o conde em um tom propositalmente alto, seus olhos se encontraram com as joias rubras do mordomo que sorriu de forma insinuante por um mero segundo, ato este que passara despercebido por todos no recinto com exceção ao seu destinatário. O orbe azul visível do nobre passeou pelo escritório após se desviar do olhar do mordomo e se deparou com as peças esculpidas em madeira, de formatos curiosamente incomuns, de xadrez. Um pequeno sorriso desdenhoso veio aos lábios do conde.
— O que acha de uma partida de xadrez, Conde? — sugeriu Adrian perspicazmente antes, surpreendendo aos filhos e ao mordomo dos Phantomhive.
***
Grell arrastou-se até seu quarto e chegando ao mesmo, fechou ruidosamente a porta atrás de si, deixando seu corpo escorregar pela madeira fria e escura. As lagrimas se acumulavam nos canais dos orbes esmeraldinos e os dentes cerrados, acompanhados de um nó na garganta, indicavam que ela não pretendia derramar sequer uma lagrima por aquilo, afinal este era seu destino e agora que o havia abraçado, deveria aceitá-lo como fosse.
Inspira, um, dois, três, quatro, cinco, seis, expira. Disse para si mesma fechando os olhos e fazendo sua contagem silenciosa, esvaziando a mente de todos os pensamentos. Ela exercitava algo que aprendera com o pai desde muito nova, ele costumava dizer a ela que as vezes é bom simplesmente jogar todos os pensamentos pela janela antes que eles te sufoquem e era isso que ela estava fazendo.
Após alguns segundos de respiração controlada, Grell sentiu o aperto do espartilho que tivera que vestir por conta própria, sendo assim não havia sido devidamente apertado, e o ar fugiu furtivamente de seus pulmões.
Com os lábios entreabertos ela arfou, tentando alcançar os fechos do vestido, precisando se debater um pouco até os alcançar e desprender. Assim que os soltou, Grell escorregou o vestido pelo tronco até poder desfazer o nó que havia mal feito no espartilho. Com muita dificuldade e a vista já embaçada ela conseguiu se libertar daquilo que lhe bloqueava a respiração.
Ainda se recuperado ela subiu o tecido do vestido até a altura dos seios para que eles não ficassem cobertos apenas pelo chemise branco.
***
Não mais que duas horas mais tarde, Grell estava novamente unida a um espartilho, desta vez apropriadamente vestido, graças à ajuda de Georgia¹, que ralhou com a patroa por não tê-la esperado pela manhã e ter fechado o espartilho de forma errada, trajando por cima deste agora, um vestido de tecido no matiz do carmim coberto de rendas e babados, que, entretanto, não chegava a se tornar volumoso em demasia devido a estes atributos.
A jovem Crevan suspirou pesadamente, faltava instantes para a chegada de Lady Elizabeth e, apesar de serem prazerosas a si tais visitas da amiga, seu estado emocional não era o dos mais favoráveis para aquela visita, entretanto, talvez tal visita lhe proporcionasse algo que não aborrecimento e lágrimas assim como eram praticamente todas as outras.
Ela aguardava no salão principal em frente a uma das enormes janelas vítreas, pois já lhe havia sido informado que a carruagem que transportava sua visitante estava dentro de sua propriedade. Os dedos resvalavam letamente no tecido da manga longa enquanto o olhar esverdeado mirava a curva suave no mais distante ponto visível por aquele ângulo.
Os minutos se passaram e logo os cavalos em seus trotes mansos carregando a carruagem se foram se aproximando, cortando a distancia rapidamente até a entrada da mansão Crevan.
— Jovem mestra... — chamou baixo Timber, surpreendendo a jovem por ter se aproximado tão silenciosa e rapidamente. O mordomo fez um sinal com a cabeça, que a jovem compreendeu por indicar que deveria o seguir.
O servo abriu a grande porta e permitiu a passagem a sua mestra, ficando ao lado da mesma enquanto a carruagem ainda um pouco distante estava. Finalmente o cocheiro freou os cavalos e desceu da boleia, seguindo até a parte traseira da carruagem, retirando de lá uma cadeira de rodas prateada de estofamento macio forrado em tons de rosa. A porta da carruagem foi aberta pelo cocheiro e a primeira a sair foi Paula, a dama de companhia e enfermeira de Lady Elizabeth, que desceu com ajuda do mordomo Timber, que havia se deslocado do lado de sua mestra para ajudar a jovem visitante a entrar na mansão.
Com a ajuda de Paula e do cocheiro, o mordomo dos Crevan conseguiu realocar Lady Midford para sua cadeira e levá-la até a entrada da mansão. Os olhos gentis da jovem de cabelos loiros logo alcançaram sua tão estimada amiga e após muito agradecer pela ajuda dos servos, ela dirigiu-se a ruiva.
— Grelly, você esta tão bonita — comentou Elizabeth sorrindo e dando uma piscadela confidente para amiga, que a abraçou em seguida.
— Seja bem vinda Lizzie, fico lisonjeada pelo elogio, mas você está muito mais bela e graciosa — o sorriso no rosto da mais jovem se abriu um pouco mais, enquanto a mais velha permaneceu sorrindo para ela. — Olá senhorita Paula, seja bem vinda — cumprimentou a moça que acompanhava sua amiga. Esta lhe respondeu um sorriso caloroso e um breve “obrigado”, fazendo uma mensura em respeito à posição da Lady Crevan.
As três damas foram conduzidas pelo mordomo até a sala do piano, onde seria servido o chá da tarde em 48 minutos. Chegando lá, Grell sentou-se a uma poltrona em frente a janela principal do cômodo, observando enquanto Paula posicionava Lady Elizabeth a sua diagonal esquerda. Após tê-lo feito, a criada pediu licença e junto ao mordomo retirou-se da sala.
— Eu achava que eles não iriam embora nunca! — disse Elizabeth relaxando os ombros, soltando um suspiro de alivio em seguida. Grell riu baixo, ela concordava com a amiga e embora fosse menos impaciente que a mesma, a conversa a qual gostaria de ter deveria ser a sós. Os olhos esverdeados da Lady Midford procuraram os da ruiva, como se lhe indagassem algo e realmente indagavam. A ruiva pigarreou.
— Lizzie — chamou ela, tirando a outra do transe a que tinha sido levada momentaneamente. — você já sabe sobre Redmond eu suponho — questionou olhando-a de forma indagadora, recebendo um aceno afirmativo como resposta. Um instante de silêncio foi feito
— Você não se preocupa com o como ele ficou sabendo daquilo? — perguntou
— Não sei como aquilo chegou aos ouvidos dele, mas isso meu pai rápido e facilmente pode descobrir e resolver para que não se espalhe... — o tom indiferente da ruiva escondia daqueles que não eram verdadeiramente próximos a si o quão carregadas de sentimentos aquelas palavras estavam.
— Mas...
— terei de me casar da mesma forma... em um mês — contou, respirando profundamente para tentar manter a compostura diante da amiga.
— ... Grelly... eu sinto muito... eu... você não deveria precisar passar por isso... seu pai é o grande lord Crevan! E... — a loira demonstrou seu lado frágil e infantil diante daquela situação, sua preocupação era verdadeira para com aquela que era uma de suas únicas amigas e tal sentimento lhe fazia voltar a seu eu mais jovem, que estava sempre preocupada em dar a felicidade a seu adorado primo, Ciel Phantomhive.
— Lizzie... eu entendo porque terei de fazer isso... foi uma escolha minha... pelo bem de todos... — falou de forma simples, porém firme, segurando a mão da amiga de forma a confortá-la. — não fique tão afobada por isso está bem? — pediu sorrindo pequeno para a loira fazendo um carinho no dorso de sua mão com o polegar. Elizabeth lhe sorriu com os olhos marejados, ela é tão forte, pensava.
Neste instante Timber deu sinal de sua presença do lado de fora da sala e quando lhe foi permitida a entrada, ele surgiu pela porta carregando um carrinho de chá. A prataria delicada selecionada possuia detalhes em um tom rosado bem claro, com desenhos de flores de cerejeiras, o chá escolhido, de rosas, tinha um aroma perfumado e aparência bela.
A torta de cerejas, especialmente preparada para a visita da jovem Midford, servida cuidadosamente nos pratos das duas jovens, completava a refeição suave do meio da tarde.
Após serem servidas e dispensarem a presença do mordomo, o qual possuia outras tarefas para realizar e sendo essas relacionadas aos outros mestres, a conversa particular tomou um rumo um tanto quanto curioso.
— Como seu irmão tem estado em relação a seu novo noivado? — questionou a ruiva bebericando do chá. Lizzie engasgou-se com o chá pela mudança brusca de assunto.
— Edward? — questionou, entretanto se perguntava mais a si mesma, já que não possuia outros irmãos.
O olhar esverdeado se perdeu aos pensamentos. O que ele pensa disso tudo? Nunca lhe perguntei sobre isso... ele não tem falado muito ultimamente... E o Ciel... o que será que ele realmente pensa sobre isso? Será que ele realmente só esta feliz por outro ter me escolhido por causa... do acidente?
Grell permitiu a amiga o instante para sua reflexão, afinal, havia sido ela que iniciou aquilo. A ruiva tocou sua xícara novamente, bebericando um pouco do liquido, expressando uma pequena careta ao sentir que o mesmo já estava frio. Os olhos esverdeados perceberam uma pequena lágrima se formando nas bordas dos orbes da loira e num gesto de consolo, Grell levou suas mãos até as da amiga, suspirando brevemente.
— Bem, e a Baronesa Barnett, como tem passado? Há algum tempo que não recebo noticias dela... — comentou desviando do assunto anterior.
— Sim, sim... bem... ontem eu a visitei. — contou a jovem de cachos loiros baixando um pouco os olhos em direção ao próprio colo onde jaziam suas mãos entrelaçadas as da amiga. Grell estreitou os olhos entreabrindo os lábios permitindo que o ar escapasse por eles enquanto pensava.
— E como ela está? — repetiu a pergunta com tom suave, olhando nos olhos claros e límpidos de sua interlocutora. Elizabeth apertou levemente os lábios antes de sorrir de leve para a ruiva e mover alguns fios que cobriam os olhos esmeraldinos da mesma.
— Ela continua cabisbaixa e distante... quieta. Assim como quando o Barão Barnett faleceu. — ambas suspiraram — não que eu me lembre exatamente como ela estava durante aquele período, eu era muito nova quando o Barão era vivo, porém eu me lembro de vê-la muito triste e solitária. — fez uma pausa parando para remover as luvas finas que lhe cobriam as mãos — com exceção a quando ela estava com a falecida tia Rachel — um nó formou-se na garganta da lady Midford e novamente ela ficou em silêncio. Grell a observava atentamente, buscando alguma ideia de como responder àquilo sem causar mais dor para ambas.
Os orbes verdes por um momento encararam as pernas paradas, imóveis, inutilizadas sobre uma cadeira com rodas. Pensou então sobre o que Elizabeth havia lhe contado, sua maior prioridade que sempre fora proteger quem amava tornara-se inviável.
Entretanto, não sabiam elas, por culpa do mordomo Michaelis, que apenas assumiu qual era a sua real prioridade de proteção e optou por salvar a seu mestre antes de fazer algo em relação a Lady Midford.
— Alan estará na cidade esta semana — murmurou Elizabeth voltando e trazendo Grell de volta de seus devaneios. A ruiva piscou lentamente ajeitando-se em sua cadeira, sorrindo pequeno ao pensar no amigo. — Ele disse-me que virá visitá-la, ele lhe disse algo sobre isso? — perguntou franzindo levemente o cenho. Grell riu baixo e desviou o olhar para a janela.
— Você o conhece... avisou-me que viria dois meses atrás — ambas riram e o clima sombrio começou a se desfazer.
***
O tempo passou e a tarde se seguiu. Por volta das seis horas, o Lord Crevan e Ronald apareceram à sala, encontrando Grell já sentada ao piano deslizando os dedos sobre as teclas de marfim. Era a hora da “apresentação” diária da única mulher daquela casa.
Em poucos instantes, com todos os presentes bem acomodados, a melodia melancólica ecoou no recinto e por minutos apenas ela ocupou as mentes de todos ali.
***
A noite caiu e Elizabeth partiu para sua casa com um sorriso nos lábios e os olhos embriagados pelo sono.
Os moradores da mansão Crevan estavam em seus quartos, mais precisamente, em suas camas.
Observando atentamente para o quadro que era o quarto de Grell, debaixo de seu travesseiro de penas encoberto por uma fronha carmim, um envelope perfumado endereçado a, bem, o nome estava muito riscado para ser lido. Dentro do mesmo, três cartas, três extensas cartas dirigidas a mesma pessoa, com uma letra bem desenhada e escrita, iniciando-se da mesma forma:
“Caro Wiru”
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